Dan Golden, diretor de Roedores da Noite e Jogos Satânicos

Dan Golden

por Osvaldo Neto

Tive contato com Dan Golden quando acabei fazendo parte do fórum Retromedia, chefiado por ninguém menos que um dos papas do cinema B, Fred Olen Ray. Daí quando o achei, disse que tinha Roedores da Noite (Burial of the Rats, 1995) e Jogos Satânicos (Satanic, 2006) onde ele dirigiu três atores que gosto muito: Jeffrey Combs, Angus Scrimm e James Russo. Dan se mostrou uma pessoa disponível, aberta para conversar sobre o filme e interessada em ouvir a minha opinião. Foi o bastante para perguntar se ele aceitaria fazer uma entrevista para o Boca do Inferno. A resposta foi sim. Dan me enviou não só as respostas da minha entrevista (em algumas perguntas, foram maiores que o esperado, o que é sempre muito bom), mas também várias imagens que certamente nunca foram postadas antes na Internet. Quase todas presentes nesta versão final da entrevista são do arquivo dele. A versão original foi finalizada no final de agosto/2008.

O que me motivou a fazer a entrevista foi a sinceridade e o humor de Dan, que me fizeram notar que ele era alguém merecedor de mais atenção pelo seu trabalho. Quando falamos de Jogos Satânicos, ele disse de imediato que não o considerava um de seus melhores trabalhos e ainda expôs os problemas da produção (a conversa virou parte da entrevista). Dan ainda foi gentil o bastante e me enviou os dois filmes que ele considera seus melhores trabalhos como diretor, Obsessão Nua e Stripteaser, para a Concorde de Roger Corman. Ambos estrelados por Rick Dean e Maria Ford. Foi um prazer conhecer um pouco melhor o Dan fazendo essa entrevista. Um cavalheiro, no sentido exato da palavra. A entrevista enfrentou caminhos perigosos e diversas armadilhas para chegar até você. Finalmente o dia chegou. Espero que, apesar do atraso, o carinho que envolveu esse trabalho seja sentido.

Boca do Inferno: A questão mais básica de todas. Quais são as suas principais influências, seus filmes favoritos?

Dan Golden: Meu filme favorito é Dr. Fantástico (Dr. Strangelove). Eu simpatizo muito com o tom das composições em preto e branco e o senso de humor negro que o diretor Stanley Kubrick (um ex-fotógrafo de stills) trouxe ao filme. Ele era um grande. Hitchcock e Woody Allen também estão entre meus favoritos. Eu cresci assistindo os clássicos filmes de monstro da Universal (Drácula, Frankenstein, etc.) e gosto particularmente do trabalho de James Whale em A Noiva de Frankenstein (meu provável segundo filme favorito de todos os tempos). Ele também tinha uma queda por impactantes composições em preto e branco e o seu próprio estilo de humor sombrio. Gosto pelo menos de pensar que esses gigantes do cinema (assim como outros) tem influência em alguns de meus trabalhos, porém eu nunca me consideraria na liga deles de qualquer maneira.

Boca do Inferno: Como foi o seu início de carreira? Foi trabalhando para Roger Corman ou já tinha alguma experiência antes de trabalhar com esse lendário produtor?

John Heard, Jeff Bridges e Dan, nos sets de Cutter's Way, primeiro trabalho profissional do diretor
John Heard, Jeff Bridges e Dan, nos sets de Cutter’s Way, primeiro trabalho profissional do diretor

Dan Golden: Eu já tinha feito muitos trabalhos como fotógrafo de stills e alguns de direção/cinematografia de 2ª unidade antes de trabalhar para Roger.

Boca do Inferno: Corman deu suporte a realizadores como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese e Jonathan Demme. Obsessão Nua (Naked Obsession), seu primeiro crédito como roteirista e diretor, foi produzido por ele. O filme é estrelado por William Katt, Maria Ford e Rick Dean. Eu adorei. É um de seus filmes mais conhecidos e é chamado por alguns como um “clássico das madrugadas”. Como foi fazer esse filme?

Dan Golden: Eu ainda considero Obsessão Nua o meu melhor trabalho de direção e alegremente aceito-o como um “clássico das madrugadas”. Foi o primeiro filme que dirigi e a primeira vez que eu trabalhei para Roger. Joe Bob Briggs deu um Hubby para “melhor filme” e Maria Ford foi honrada como “breast actress“. Quentin Tarantino até mencionou ele em alguma entrevista. E sim… eu gostei de fazê-lo. O que mais alguém poderia pedir de um primeiro filme? A partir daí, foi tudo ladeira abaixo.

NE: Não estranhe muito a negatividade dessa última frase. É apenas o senso de humor negro de Dan em ação.

Rick Dean e William Katt em Obsessão Nua
Rick Dean e William Katt em Obsessão Nua

Boca do Inferno: A capinha da VHS brasileira de Obsessão Nua diz que você foi um ex-fotógrafo da Playboy. Isso é verdade?

Dan Golden: Nunca fui fotógrafo contratado da Playboy, mas tenho algumas poucas fotos que foram publicadas pela revista ao longo dos anos (nuas ou semi-nuas de atrizes promissoras que aparecem na seção “Grapevine”, stills de cenas de filmes e fotos promocionais aparecendo nos artigos sobre “Sexo no Cinema” e algumas “Edições Especiais” como fotos de Vanna White (uma apresentadora de game show que você provavelmente nunca deve ter ouvido falar no Brasil).

Boca do Inferno: A primeira vez que notei a presença em cena de Rick Dean foi numa versão feita pra TV por Corman de Terror no Castelo (The Terror) com um novo início e fim. Vi no IMDB que ele está em todos os seus filmes, exceto Roedores da Noite (Burial of the Rats). Baseado nisso, é lógico que você realmente gostou de trabalhar com ele. Infelizmente, Dean nos deixou muito cedo. Você poderia falar sobre sua amizade e profissionalismo?

Dan Golden: Rick foi um ator muito talentoso que estava pronto para rir das minhas piadas e podia ser extremamente divertido de estar junto. Ele também estava selado com uma série de tribulações pessoais que provavelmente o mantiveram fora dos filmes classe “A”. Meu ganho, acredito.

Rick Dean em Poder de Fogo
Rick Dean em Poder de Fogo

Verdade seja dita, primeiro ele foi sugerido a mim pelo (então) executivo de Corman, Rodman Flender, que me mostrou um trecho de Rick em Nam Angels. Acredite ou não, minha reação imediata foi a de que ele era totalmente errado para interpretar Sam Silver. Isso foi baseado apenas na grande imposição física de Rick. Minha pré-concepção de Sam era um cara menos encorpado cujo carisma vindo da sabedoria das ruas era o veículo pelo qual ele seria capaz de influenciar o personagem de Bill Katt, Franklyn Carlysle (mais ou menos como Charlie Manson foi capaz de recrutar sua “família”). Eu pensei que se Sam fosse maior que Carlysle (e Bill Katt já tinha sido escalado para o papel) poderia parecer que Carlysle só estava ao lado de Sam porque se sentia intimidado por ele.

Bem… fiquei tão impressionado por Rick que quando ele veio para o teste de elenco eu comecei a repensar a minha visão do personagem. Não tinha jeito de fazer com que Rick parecesse menor que Bill na tela (não com eles andando lado ao lado pelas ruas em “full shot”) então eu tentei fazer a diferença de tamanho funcionar para a gente. Por que não fazer Sam iniciar com alguma intimidação física para logo depois faze-lo mudar completamente? Isso só fez o personagem ainda mais bizarro e imprevisível. Eu estou muito triste pela ausência de Rick. Penso nele com frequência.

NE: Nam Angels é um dos clássicos do diretor filipino Círio Santiago.

Boca do Inferno: Saturday Night Special é o seu segundo filme, novamente estrelado por Maria Ford e Rick Dean. Mas também é um veículo para Billy Burnette, então membro da banda “Fletwood Mac”. Poderia falar um pouco sobre o filme?

Dan Golden: Saturday Night Special foi uma reciclagem de um filme anterior da produtora de Roger chamado Kiss me a Killer. Basicamente a locação foi transposta do Leste de Los Angeles para o Texas rural e algumas outras pequenas mudanças foram feitas, a maior resultando numa nova reviravolta final. Ambos são derivativos de O Destino Bate à Sua Porta (The Postman Always Rings Twice).

Estávamos procurando um cantor country para o papel principal e o nome de Billy Burnette veio. O pedigree musical dele é bastante expressivo. Ele é filho de Dorsey Burnette, sobrinho de Johnny Burnette e ainda membro do Fleetwood Mac na época. Ele canta seis de suas canções no filme (incluindo uma versão demo de “Dream You,” que ele compôs para o disco de Roy OrbisonMystery Girl”).

Os parceiros de Billy no filme incluem o primo Rocky e o artista que ficou em vigésimo no topo, Dwight Twilley. E tem aquela que eu afetuosamente me refiro como a “ponta gratuita de Mick Fleetwood”. Mick visitou o set um dia, então trabalhamos com ele na cena do bar que estávamos filmando… ainda demos uma fala. Sua participação é não-creditada.

Boca do Inferno: Vamos falar sobre Stripteaser.. Eu amei a atuação de Rick Dean em Obsessão Nua e nesta, para o nosso prazer, seu personagem é bem insano. Outra coisa especial é o bom roteiro de um ator chamado Duane Whitaker. Stripteaser é mais falado do que eu esperava, mas seus bons diálogos e situações fazem o filme ser mais curioso, mais diferente. Eu gostei, claro. Como foi sua experiência com o filme? .

Dan Golden: Stripteaser foi um roteiro que Duane Whitaker reescreveu que eu levei para Roger. Minha abordagem inicial era “Rick Dean e Maria Ford juntos novamente… num bar de strip, onde eles pertencem.” Óbvio que Roger comprou a ideia.

Duane sempre tem lembrado com carinho de um incidente em particular que aconteceu durante a pré-produção. Eu vou tentar e fazer justiça à piada assim como eu conto ela agora.

Duane eu nos encontramos com o produtor Mike Elliott em seu escritório na Concorde/New Horizons. Roger entra, que já tinha lido o roteiro (cuja trama acontece quase que inteiramente no bar de strips). A conversa acaba e todos os olhares se voltam esperançosos para o Homem. “Eu fiquei pensando…” ele diz. Oh oh … isso parece importante. Nós estamos atentos a cada palavra. “Quando Neil força Kitten a tirar a roupa sob a mira de uma arma…,” nossas expectativas crescem enquanto aguardamos ansiosamente aqueles que, sem dúvidas, são verdadeiras palavras de sabedoria do nosso reverenciado mentor, “… ela poderia ficar totalmente nua ao invés de topless?

Ficamos sem fala.

Eu quero dizer, ele está apontando uma arma pra ela” Roger diz, querendo reforçar seu argumento.

Logo depois, respondo, “Podemos fazer isso.

Ele estava certo, também.

Boca do Inferno: Você também é creditado como compositor de músicas para Obsessão Nua e Stripteaser. Você fazia parte de alguma banda? Como começou o seu interesse em fazer música? Influências?

Dan Golden: Enquanto editava Obsessão Nua, eu tinha várias músicas temporárias para as cenas de strip (material de gente como Roy Orbison (foto) e Elvis Costello que nunca poderíamos adquirir uma licença para uso por conta do orçamento). Quando chegou a hora de começar a pensar sobre a música que iria aparecer no filme, eu conheci um talento músico e compositor local chamado Billy Woo e trabalhamos juntos para criar as canções da trilha sonora.

A colaboração foi tão bem sucedida que estávamos juntos outra vez em Stripteaser. Roger tem usado nossas faixas em vários de seus outros filmes e Billy e eu também compomos e produzimos canções juntos para filmes de outras pessoas.

Eu costumava tocar em bandas de rock quando garoto (atualmente consegui que um ex-parceiro de bandas, John Egan para compor algo também), mas enquanto cantor, eu apenas contribui como “backing vocal” para algumas das canções que trabalhei.

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A “Invasão Britânica” do início dos anos 60 foi uma grande influência (The Beatles é a favorita) mesmo que eu seja fã de todos os tipos de música. Enquanto estamos nesse assunto em particular, eu seria omisso em não mencionar o video de instruções que Fred Ray e eu fizemos juntos, estrelando o lendário baterista dos grupos Cream/Blind Faith, Ginger Baker. Ginger Baker: Master Drum Technique foi lançado pela Hot Licks Video no início dos anos 90. Poderia ser a conquista de minha carreira na qual tenho mais orgulho… um documento valioso para gerações futuras.

Dan prestando atenção nos detalhes de Maria Ford em Roedores da Noite
Dan prestando atenção nos detalhes de Maria Ford em Roedores da Noite

Boca do Inferno: Nunca pensei que Roedores da Noite se tornaria um de meus filmes B favoritos. Ver Bram Stoker sendo sequestrado por um grupo de gatinhas seminuas foi demais. Como foram as filmagens? Eu aposto que você tem algumas boas lembranças dela.

Dan Golden: Eu tenho, mas elas tem pouca ligação com o filme em si.

Para uma criança que viveu durante a crise de mísseis cubanos eu nunca pensei que botaria os pés na Rússia, muito menos viver e trabalhar lá durante quatro meses, dando para realmente conhecer as pessoas. Que sentimento surreal no dia que visitei o túmulo de Nikita Khrushchev.

Essas referências são provavelmente sem valor algum para você e seus leitores, a menos que vocês sejam interessados em História do Mundo.

E tem ainda mais. História estava sendo feita enquanto eu estava lá. Isso foi quando Boris Yeltson e o parlamento russo entraram num embate que resultou no bombardeio do prédio do parlamento. Eu podia ouvir o canhão atirar da janela do meu apartamento e tive de sair para investigar. Acabei ficando abaixo do cano de um tanque russo e assisti as coisas se resolverem um pouco… antes que eu tivesse de sair para uma explorar as locações.

Na minha última noite lá, que envolveu encher a cara até pegar uma carona pro aeroporto na manhã seguinte, eu fiquei na Praça Vermelha com Inna, minha bela e divertida supervisora de script, e Masha, provavelmente a mais linda de todas as dançarinas que ficam de topless no filme (ela não falava inglês) e assistindo a neve cair batendo nos telhados imperiais da capela de St. Basil. Inacreditável. E os bikinis de pele animal não eram muito discretos.

Olga Kabo e Dan Golden em Roedores da Noite
Olga Kabo e Dan Golden em Roedores da Noite

Boca do Inferno: Roedores da Noite é parte de uma série de mais de 15 filmes que Roger Corman produziu para TV, assim como o seu O Último Sobrevivente (Terminal Vírus). Como é trabalhar para esta lenda?

Dan Golden: É como um sonho virar realidade. Quando garotos no subúrbio de Chicago, meu irmão e eu estávamos tão fascinados pelo O Poço e o Pêndulo de Roger que recriamos aquele famoso instrumento de tortura na garagem da minha mãe e o usamos para assustar as outras crianças da vizinhança.

Anos depois, enquanto aluno da USC Film School, ajudei a organizar um tributo a Roger, que foi a primeira ocasião na qual me encontrei com ele. Quando comecei a dirigir para Roger (ainda mais anos depois) eu estava totalmente animado. Hoje, não importa qual projeto, não importa o que ele quer que eu faça… eu estou lá por ele. Não teria acontecido de outra maneira.

Boca do Inferno: Você é amigo e trabalhou em diversas funções em vários filmes dirigidos por Jim Wynorski e Fred Olen Ray. Como é trabalhar para esses grandes caras?

participação de Dan Golden em Komodo Vs Cobra
participação de Dan Golden em Komodo Vs Cobra

Dan Golden: Enquanto filmava Komodo Vs Cobra a visão de Jim Wynorski entrando no nosso condomínio compartilhado no Hawaii e imediatamente baixando as calças sempre será lembrada. Eu não sei se minha assistente de produção que tinha 21 anos (a filha de um amigo meu) se recuperou. Caso sim, tenho certeza que ele ainda está pagando as contas do psiquiatra.

Brincadeiras à parte (apesar de ser uma história real) você não pode reclamar de ser pago para sair com caras com quem você tem uma longa história e cuja companhia você desfruta intensamente. Tiro o meu chapéu para Fred e Jim por tudo que eles conseguiram e me deixarem ser alguma parte de suas conquistas.

Boca do Inferno: Seu único filme lançado no Brasil é Jogos Satânicos. É severamente criticado no IMDB, mas para mim ele não deixa de ter algo interessante.

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Dan Golden: O filme sofreu de falta de tempo (11 dias), dinheiro (menos de $100,000) e um produtor com agente diametricalmente oposta a minha. É uma pena porque eu pensei que o roteiro tinha potencial. Tendo esses problemas, ou seja, é aparente que muitos dos comentários condescendentes da web são feitos por pessoas que apenas não entenderam o que está acontecendo no filme. Minha culpa, eu presumo, ainda que eu seja o menos responsável.

Boca do Inferno: Penso que a edição poderia ser melhorada e que Annie Sorel, a atriz principal, era um pouco velha para o papel. Era uma dublê de corpo na cena de chuveiro?

Dan Golden: Seu comentário sobre a edição é bem recebido. Eu amaria deixar tudo mais amarrado, mas o distribuidor queria uma arbitrária duração de 88 minutos então nós não tivemos o luxo de fazer. Na verdade… eu ainda tive de escrever e dirigir algumas cenas adicionais durante a pós-produção com o intuito do filme ter mais duração.

Também reconheço que Annie era um pouco velha para interpretar uma menor, mas como estava procurando escalar atrizes gêmeas eu realmente não tinha muitas escolhas disponíveis para mim. E para piorar, depois de escalar ela e sua irmã Alicia, eu nunca tirei total proveito do fato de que elas eram gêmeas. Finalmente… sim, aquela era uma dublê de corpo na cena de chuveiro. Pelo menos, aquela parte do filme saiu boa.

Boca do Inferno: Como foi trabalhar com Angus Scrimm, Jeffrey Combs e James Russo?

Dan Golden: Eu conheço Angus por décadas e liguei para ele pessoalmente para consegui-lo porque ele já tinha dito não ao diretor de elenco (ele não sabia quem estava dirigindo). Também fui eu quem ligou para Jeff Combs depois de pegar seu número de um amigo em comum.

Tive cada um deles por dois dias. Jeff (cujo papel é pouco mais que uma ponta estendida) eu podia ter filmado em um dia, mas seu personagem precisava aparecer em duas locações diferentes, o que precisou de dois dias de filmagem. Os dois foram ótimos para trabalhar e ainda fizeram uma pequena cena, que foi a primeira deles juntos.

James Russo eu tinha me encontrado numa outra ocasião, mas não tive envolvimento direto na sua contratação. Eu o tive por um dia e também foi um prazer trabalhar com ele. Eu ficaria feliz em trabalhar com esses cavalheiros novamente.

Boca do Inferno: Além daqueles que falamos até agora, você trabalhou com alguns grandes ou interessantes nomes como Duane Whitaker, William Katt, Richard Lynch, James Brolin, Don Stroud e Bryan Genesse. No campo das atrizes, hum… você foi sortudo: Krista Allen, Nikki Fritz, Joanna Pacula, Elena Sahagun. Você aprecia trabalhar com atores?

Dan Golden: UAU! Essa é uma lista meio longa de nomes para comentar. De um ponto de vista genérico, eu apenas digo… quando você tem aquele lance com um ator é uma coisa maravilhosa e verdadeiramente recompensadora. Quando não… não é tão bom. Felizmente, tive mais experiências positivas do que negativas. Já que você a citou, algo que vale a pena mencionar é o meu recente encontro com a amável Krista Allen, que dirigi anos atrás numa coisa chamada Haunted Sea (usei um pseudônimo por razões que não tem nada a ver com Krista, que está muito bem no filme). Algumas semanas atrás, ela acabou sendo a protagonista feminina no filme de submarino de Fred Ray, Recoil em que fui assistente de direção. Depois de vê-la após tanto tempo, minhas primeiras palavras foram, “Aqui estamos nós de novo nos altos mares”.

Aquele filme foi divertidíssimo de fazer, nós riamos e trabalhávamos ao mesmo tempo como um bando de garotos de escola.

NE: Recoil mudou de título para Silent Venom e foi lançado no início de junho em DVD nos Estados Unidos. O filme também é estrelado por Luke Perry, Louis Mandylor e Tom Berenger. Muitos já o chamam de “Snakes on a Sub”.

Boca do Inferno: Locações. Roedores da Noite, você trabalhou na Rússia. Em O Último Sobrevivente, nas Filipinas e recentemente, você viajou para Bulgária para trabalhar em Cyclops, produzido por Roger Corman. Como é filmar nesses países? Trabalhou mais de uma vez neles? Você também já filmou na Romênia?

Dan Golden: Filmar num país estrangeiro tem seus desafios, mas pode adicionar um valor de produção tremendo para o filme.

O que acho verdadeiro dos países do bloco leste europeu, com a sua longa e impressiva história cinematográfica, é a incrível capacidade artística que vários departamentos trazem para o seu trabalho. O lado negativo é que essas pessoas talentosas não são tão rápidas quanto um cineasta do ocidente pode preferir. Isso se aplica à realidade do estúdio Mosfilm na Rússia. Estive lá em 1993, não muito depois da queda do comunismo. Trago isso à tona porque Mosfilm foi um estúdio de propriedade do governo e várias das pessoas que trabalharam comigo também trabalharam exaustivamente sob o sistema comunista. Se você conhece qualquer coisa sobre a filosofia Marxista deve notar por onde me baseio.

Sem o benefício de uma busca, creio que a base daquela filosofia é “De cada um, de acordo com suas habilidades, a cada um, de acordo com suas necessidades.” Então basicamente não há incentivo para ninguém trabalhar mais duro ou rápido porque, diferente do capitalismo (em teoria, de qualquer maneira) você não será recompensado por isso.

Em Nu Boyana, na Bulgária, catorze anos depois, as coisas não eram tão ruins mas também não se moviam com a velocidade ou eficiência de uma equipe típica dos ocidentais. Já nas Filipinas é outra história. Eles não tem uma longa e gloriosa história cinematográfica, então é mais difícil achar talentos ‘top de linha’ para a equipe. Não me leve a mal. Elas existem… só que em menor número. Eles fazem muita filmagem em Mos então o conceito de ‘todo mundo quieto durante um take’ é algo do outro mundo para algumas pessoas. Quanto aos dublês, eles são capazes de tentar quase tudo, o que é meio como uma benção. Estive na Rússia e Filipinas duas vezes, uma na Bulgária e nunca fui à Romênia, apesar de ter alguns associados que trabalharam lá numerosas vezes.

NE: Mos significa filmagem sem a gravação do som ambiente.

Dan Golden como ator ao lado de Frida Farrell em Cyclops
Dan Golden como ator ao lado de Frida Farrell em Cyclops

Boca do Inferno: Poderia falar um pouco mais de Cyclops? Espero por esse filme em particular, assim como Cry of the Winged Serpent.

Dan Golden: Pra dizer a verdade, acabei de fazer looping em Cyclops na semana retrasada. Em adição às funções de controle de produção e diretor de segunda unidade, fui pressionado por Roger Corman para atuar no que se tornou um papel meio substancial como o ‘Gerente dos Jogos’. É um filme de monstro de CGI para o SciFi Channel situado na Roma antiga. Foi filmado na Búlgaria em sets existentes que foram originalmente construídos para a versão 2003 de Spartacus. É estrelado por Eric Roberts e foi dirigido por Declan O’Brien, um cara que recentemente fez outros dois filmes para a SciFi na Bulgária. Ainda está em pós-produção, mas deve ter sua estréia em alguma noite de sábado em setembro.

Só tenho visto Cry of the Winged Serpent de Jim Wynorski (que eu produzi) disponível em DVD estrangeiro (infelizmente, não no Brasil).

Por trás das câmeras de Cyclops na Bulgária
Por trás das câmeras de Cyclops na Bulgária

Boca do Inferno: Falemos sobre Broke Sky. Esse filme independente que você produziu e trabalhou no script tem recebido excelentes críticas. Uma delas foi escrita por Neil Young em seu site de cinema. Você deve estar orgulhoso do filme.

Dan Golden: Sim, estou. É provavelmente o melhor filme que já trabalhei. Ontem mesmo ele recebeu top honors no festival competitivo Cine Gear Expo de 2008 aqui em Los Angeles.
Broke Sky é um verdadeiro fruto de amor. Sou um dos seis escritores e cinco produtores que ajudaram a modelar o projeto, um verdadeiro trabalho cooperativo sem nenhum executivo ou chefes de estúdio para responder. Tudo aconteceu quando meu bom amigo e respeitado diretor de fotografia, Tom Callaway se sentiu preparado para dirigir seu próprio filme. Com a ajuda de outro amigo nosso, o realizador Jeff Burr, Tom assegurou os direitos para o roteiro original de Scott Phillips e John Howard. Nos meses (e anos) que seguiram o script passou por grandes revisões sob a supervisão de Tom.

As filmagens ocorreram pelo curso de vários verões na cidade natal de Tom, Waco, Texas. É uma comédia sombria que descamba para um drama ainda mais sombrio. Prefiro que pessoas assistam ao filme ao invés de eu descrevê-lo, então um acordo de distribuição deve ser feito em breve.

Por enquanto, saiba que ele tem grandes atuações de Will Wallace, Joe Unger, Barbara Chisolm, Bruce Glover e Duane Whitaker. Outros além dos mencionados, meus habéis companheiros produtores foram Eric Miller e Karchi Perlmann.

Boca do Inferno: Vimos mais cedo que você trabalha em diversas funções no cinema. Qual você prefere e por quê? Dirigir, produzir, fotografar, escrever?

Dan Golden: Cada uma dessas funções tem a sua própria recompensa, mas dirigir é provavelmente minha maior paixão. Se eu tivesse que sobreviver só disso como meio de vida, eu certamente já teria morrido de fome. O principal é que não importa qual função tenho num filme e não importa como é a minha visão do seu mérito relativo, eu sempre dou o meu melhor… e se eu conseguir fazer ainda um pouquinho melhor no processo, então eu sinto que conquistei algo.

Boca do Inferno: Quais são seus novos projetos?

Dan Golden: Acabei de finalizar um novo tratamento de um roteiro para Fred Ray chamado Dire Wolf. Quando ir para produção mês que vem, servirei como primeiro assistente de direção. Antes que aquele trabalho se inicie, pretendo terminar um roteiro que pretendo dirigir.

NE: Dire Wolf foi concluído. Fred, dono do filme, conseguiu um acordo de distribuição com a UFO (de Python e outros filmes de monstro recentes).

Boca do Inferno: Você conhece o cinema brasileiro? Cidade de Deus? Os filmes de Zé do Caixão? Você deveria nos visitar algum tempo e/ou fazer um filme de monstro por aqui. 🙂

Dan Golden: Devo confessar minha relativa ignorância sobre o cinema brasileiro, ainda que esteja ciente dos filmes que você mencionou. Nunca estive no seu país, mas se minha amiga, a atriz brasileira Jackeline Olivier tiver alguma indicação do que posso achar aí, espero retificar isso no futuro. Quanto a trabalho… estou em jogo. Alguma oferta?

Dan (12)

Boca do Inferno: Aqui está a sua chance de mandar uma mensagem para os fãs de cinema B e Horror do Brasil. Você também poderia dizer algo especial para aqueles que estão agora fazendo um filme do próprio bolso e não tem apoio, porque eles insistem nos gêneros populares e subestimados que apreciamos.

Dan Golden: Sou grato pela oportunidade de falar para os fãs de terror e cinema B do Brasil. Se você é cineasta, meu conselho é… continue fazendo filmes. A tecnologia digital elevou a experimentação ao extremo ao ponto que tanto ele quanto ela pode ser capaz de fazer o seu filme mesmo não tendo milhões de dólares.

Apenas faça. Você se sentirá grato por isso.

Boca do Inferno: Em nome do Boca do Inferno e os fãs de cinema B e terror do Brasil, muito obrigado, Dan! Foi um prazer falar contigo. Qualquer notícia, informações, lançamentos…você pode contar conosco. Desejamos o melhor para você!

Obrigado novamente

A entrevista com Dan Golden foi realizada por Osvaldo Neto (do blog Vá e Veja), em especial para o Boca do Inferno. Ela é dedicada à memória de Rick Dean, o eterno Sam Silver.

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Autor Convidado

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