Entrevistas

Entrevista: Ted Geoghegan, diretor de Ainda Estamos Aqui

Fala sobre as referências À Casa do Cemitério, de Lucio Fulci, entre outras, e as principais dificuldades da produção!

(Nota do Autor: Esta entrevista foi feita durante o Fantaspoa – Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre, em maio de 2015, originalmente para publicação no blog Filmes para Doidos. Como o blog está hibernando por tempo indeterminado, e eu não queria perder o timing – já que o filme Ainda Estamos Aqui está dando o que falar AGORA -, ei-la aqui na Boca do Inferno, o maior portal sobre cinema fantástico da América Latina, onde poderá ter uma visibilidade muito melhor e, quem sabe, angariar ainda mais fãs para Ted Geoghegan e seu fantástico filme!)

Antes de assistir Ainda Estamos Aqui (We Are Still Here), o primeiro filme de horror dirigido pelo norte-americano Ted Geoghegan, eu não sabia exatamente o que esperar, visto o background do sujeito.

Ainda Estamos Aqui (2015)

Ainda Estamos Aqui (2015)

Nos últimos 20 anos, Ted esteve incansavelmente envolvido com o chamado “indie horror“, tanto nos EUA quanto na Europa, onde começou sua carreira escrevendo roteiros para o diretor underground alemão Andreas Schnaas. Um desses roteiros deu origem ao divertidíssimo slasher Nikos, The Impaler (2003), que eu mesmo resenhei aqui para o Boca do Inferno em tempos antigos (quando falei para ele que gostava do filme, o próprio Ted espantou-se e disse que iria avisar Schnaas que finalmente tinha encontrado um fã de Nikos, The Impaler!).

Além disso, Ted esteve envolvido, como produtor, ator, consultor, assessor de publicidade ou qualquer cargo que estivesse disponível, em diversos projetos independentes dessas últimas duas décadas, alguns deles bem populares, de O Exército das Trevas (2013, dirigido por Richard Raaphorst) a O ABC da Morte 2 (2014, onde foi produtor associado).

O Exército das Trevas (2013)

O Exército das Trevas (2013)

Sem saber o que esperar, suspeitei que Ainda Estamos Aqui fosse apenas aquele típico filme de casa assombrada repleto de clichês com o qual já estamos bem acostumados – embora, numa conversa informal antes da exibição, tenhamos falado muito sobre filmes slasher, quando ele me confessou que este era o seu subgênero preferido do horror.

Nada poderia me preparar para o filmaço que eu iria ver…

Confessadamente inspirado na obra do cineasta italiano Lucio Fulci, que é citada a todo momento (especialmente A Casa do Cemitério, que foi a inspiração principal para a obra), Ainda Estamos Aqui é um filme de horror curto e grosso, sangrento, arrepiante e maduro – o filme que obras tipo Invocação do Mal (2013, dirigido por James Wan) e A Casa do Diabo (2009, dirigido por Ty West) tentaram ser, mas ficaram no meio do caminho.

Ainda Estamos Aqui (2015) (7)

Ao final da sessão, eu estava abobalhado com aquela pequena gema que se passa nos anos 70 (e recria fielmente o espírito do cinema de horror da época, e não apenas a ambientação), e percebi que era o filme que os fãs de terror das antigas estavam esperando desde… sei lá quando!

Segue uma entrevista que fiz com Ted Geoghegan no dia seguinte à estreia de Ainda Estamos Aqui no Brasil, sobre aquele que considero o melhor filme de horror de 2015. Sim, ainda faltam cinco meses para o ano terminar, mas duvido que apareça algo tão surpreendente quanto até lá!

Boca do Inferno: Ontem, na sessão comentada, você falou sobre o quanto ama A Casa do Cemitério. É um dos meus preferidos do Fulci também.

A Casa do Cemitério (1981)

A Casa do Cemitério (1981)

Ted Geoghegan: Quando eu era jovem, não conseguia dizer a diferença entre filmes americanos e europeus, achava que eram a mesma coisa. E eu amava tudo que era de horror. Então, para mim, não importava se A Casa do Cemitério e Terror nas Trevas eram italianos, eram apenas filmes de horror, e era isso que eu gostava tanto neles.

Quando eu era mais novo, tinha obsessão por Terror nas Trevas e Zombie. Somente muito tempo depois é que eu vi A Casa do Cemitério, acho que não vi antes dos meus 30 anos. E eu me apaixonei pelo filme. Achei tão divertido e estranho, mesmo para os padrões do Fulci, porque a trama é bastante linear… Na verdade, ao contrário de muitos outros filmes dele, que têm aquele aspecto de sonho, ele conta uma história linear sobre essas pessoas que se mudam para uma casa com um segredo terrível no porão.

Terror nas Trevas (1981)

Terror nas Trevas (1981)

Mas o filme também tem aqueles floreios do diretor que eu cresci aprendendo a amar, aqueles momentos surreais que não fazem nenhum sentido. E ainda tem um final muito maluco, em que eles simplesmente caminham em direção à luz, sabe? E eu amei tudo isso, era tão maravilhoso, e arrepiante, e bonito! Eu realmente me apaixonei por aquela estética, e, quando estava pensando no que fazer [para seu primeiro filme], minha ideia era fazer algo parecido com A Casa do Cemitério.

A Casa do Cemitério (1981)

A Casa do Cemitério (1981)

E um amigo [Richard Griffin] sugeriu que eu escrevesse uma homenagem ao filme. Nós mantivemos a ideia básica de uma família se mudando para uma velha casa em New England com alguma coisa muito antiga e sombria no porão. Mas, além disso, resolvemos seguir numa nova direção. Nós mantivemos vários daqueles, digamos, “momentos Fulci“… Inclusive eu acho que tem mais “momentos Fulci” no meu filme do que havia em A Casa do Cemitério, porque eu queria superá-lo. E também tem um monte de Lovecraft no meu filme.

Tudo que eu escrevi e produzi ao longo dos anos eram filmes num estilo mais “exploitation”, slashers com muito gore e nudez. Mas eu queria que esse fosse diferente dos demais, eu queria que o meu primeiro filme parecesse um pouco mais maduro. Veja bem, eu adoro filme imaturos, mas eu queria que, se só conseguisse fazer um filme como diretor, que este fosse um filme inteligente e maduro. O segundo pode ter todo o gore, nudez e doideiras, porque eu amo todas essas coisas. Só que eu queria, talvez, provar a mim mesmo que poderia fazer algo assim, antes de continuar dirigindo.

Boca do Inferno: Concordo com você sobre A Casa do Cemitério. Quando eu vi achei que não era o típico filme que você espera de Lucio Fulci, como Pavor na Cidade dos Zumbis, por exemplo, que é muito maluco. E eu adorei o personagem do Dr. Freudstein.

Pavor na Cidade dos Zumbis (1981)

Pavor na Cidade dos Zumbis (1981)

Ted Geoghegan: Isso, o Dr. Freudstein!

Boca do Inferno: Inclusive eu estava esperando por um Dr. Freudstein no seu filme também. Mas você colocou [um personagem] chamado Jacob, certo? [Nota do Autor: O vilão de A Casa do Cemitério se chama Dr. Jacob Freudstein.]

Larry Fessenden como Jacob em Ainda Estamos Aqui (2015)

Larry Fessenden como Jacob em Ainda Estamos Aqui (2015)

Ted Geoghegan: Sim, e a esposa dele se chama Mae. [N.A.: Também há uma personagem chamada Mae em A Casa do Cemitério.] Bem, isso foi o mais perto que eu cheguei do Freudstein! Na verdade eu sempre achei esse sobrenome, “Freudstein“, tão ridículo, mesmo em A Casa do Cemitério! Por isso sabia que não conseguiria colocar isso no meu filme a sério, não teria como. Mas o casal principal, Anne e Paul, foi batizado assim por causa de Ania Pieroni e Paolo Malco [N.A.: Dois dos atores principais de A Casa do Cemitério.], e o sobrenome deles, Sacchetti, é por causa de Dardano Sacchetti. [N.A.: Roteirista de A Casa do Cemitério e de vários clássicos do horror italiano.] Então todos os nomes do meu filme vêm de alguma parte de A Casa do Cemitério.

Boca do Inferno: E quando a Dave e Cat, são por causa de David Warbeck e Catriona MacColl, ou é apenas coincidência? [N.A.: O casal de atores principais de Terror nas Trevas, sendo que Catriona também estrela A Casa do Cemitério.]

Ted Geoghegan: Não… Bem, Cat sim foi por causa de Catriona MacColl, mas Dave é o único nome de personagem que eu tirei de um outro filme. Tem um exploitation dos anos 80, que é um dos meus filmes preferidos de todos os tempos, e se chama Sorority Babes in the Slimeball Bowl-O-Rama [N.A.: Filme de 1989 lançado em VHS no Brasil com o escalafobético título Imp – O Invasor do Espaço!!!].

Imp - O Invasor do Espaço (1989)

Imp – O Invasor do Espaço (1989)

Boca do Inferno: Sim, sim, dirigido por David DeCoteau!

Ted Geoghegan: Isso, é um filme do David DeCoteau. E neste filme eles sempre falam do lendário jogador de boliche Dave McCabe, então o meu personagem foi batizado com o nome do lendário jogador de boliche deste filme!

Boca do Inferno: Sim, e o personagem do seu filme também se chama Dave McCabe!

Ted Geoghegan: Exato. Mas Cat, sua esposa… Claro, é por causa de Catrioca MacColl. E os Dagmars foram batizados por causa de Dagmar Lassander. [N.A.: Outra atriz de A Casa do Cemitério. Em Ainda Estamos Aqui, o patriarca da família-fantasma se chama Lassander Dagmar!!!]

Boca do Inferno: E Bobby por causa daquele moleque xarope…

Bob, de A Casa do Cemitério (1981)

Bob, de A Casa do Cemitério (1981)

Ted Geoghegan: Sim, o pequeno e irritante Bobby… Eu odeio aquele garoto!

Boca do Inferno: Isso é muito legal, porque o público “normal” não vai ligar para essas coisas, mas as pessoas que conhecem o filme [A Casa do Cemitério] vão curtir, é como se fosse um “easter egg“… Ficou bem divertido!

Ted Geoghegan: Tem um monte de referências a Fulci, mas também bastante referências ocultas a Lovecraft no filme. Por exemplo, no começo, Dave está contando a história sobre o que aconteceu aos Dagmars e ele menciona que Dagmar estava vendendo cadáveres para uma universidade no Condado de Essex. Trata-se da Miskatonic University. Então, basicamente, nós inventamos essa história de que Dagmar estava vendendo cadáveres para Herbert West! Eu queria muito colocar uma referência a Miskatonic University, mas não queria dizer o nome, porque ficaria muito na cara. Mas hoje já é sabido que esta é a universidade do Condado de Essex, então coloquei isso.

Ainda Estamos Aqui (2015)

Ainda Estamos Aqui (2015)

Boca do Inferno: Outra coisa muito legal no seu filme para mim, e você falou sobre isso na sessão comentada também, é que os personagens são todos adultos. É muito difícil ver isso hoje no cenário do cinema de horror, porque estão fazendo filmes pensando nos adolescentes.

Ted Geoghegan: Sim, mas eu acho que você não precisa colocar atores adolescentes mesmo se estiver fazendo um filme para adolescentes.

Boca do Inferno: Claro que não!

Ted Geoghegan: Quando eu me apaixonei por filmes de horror, nunca fiquei prestando atenção na idade das pessoas nos filmes, gostava porque eram filmes de horror! Eu adorava A Troca, mesmo sendo estrelado pelo George C. Scott com 54 anos de idade! Eu vi esse filme quando tinha 10 anos e nunca achei estranho, gostava porque era um filme de horror! Mas sim… Minha esperança é que o meu filme continue atraente para jovens fãs de horror porque é um filme divertido, e não por causa da idade dos personagens, sabe?

Um bom exemplo disso é Rejeitados pelo Diabo, do Rob Zombie. Praticamente todo mundo neste filme está nos seus 40, 50 ou 60 anos de idade, mas o público jovem fã de horror mesmo assim curtiu o filme, gostou muito dele. Não tem nenhum astro teen no elenco, é apenas um belo filme, e as pessoas gostam por causa disso.

Rejeitados pelo Diabo (2005)

Rejeitados pelo Diabo (2005)

Foi o que tentei fazer no meu filme, que as pessoas gostem porque é divertido, sangrento, tem uns fantasmas legais, e não se importem que o protagonista mais jovem tenha 52 anos de idade! Inclusive porque o antagonista, Dave, ele tem 82 anos! É tão raro que você veja algo assim em qualquer filme… Mas, novamente, nós queríamos ter essa grande diferença de idade. Tem até um momento no filme em que Paul diz para Dave: “Foda-se, velhote!“. Porque ele é 35 anos mais velho que Paul!

Boca do Inferno: Qual foi o maior desafio em dirigir o seu primeiro filme?

Ted Geoghegan: Dirigir esse filme foi uma oportunidade incrível e eu não tive realmente grandes desafios…

Boca do Inferno: Mas você não estava assustado?

Barbara Crampton em Ainda Estamos Aqui (2015)

Barbara Crampton em Ainda Estamos Aqui (2015)

Ted Geoghegan: Claro, eu estava apavorado! De verdade, com muito medo! Estava apavorado porque era o meu primeiro filme e porque o meu elenco tinha trabalhado com diretores incríveis antes. Barbara [Crampton] trabalhou com Stuart Gordon; Paul [Andrew Sensenig] é o astro de Upstream Color, dirigido por Shane Carruth; Lisa [Marie] trabalhou com Tim Burton; Larry [Fessenden] trabalhou com Martin Scorsese, Monte [Markham] estrelou um filme do William Castle. [N.A.: A ficção científica Project X, de 1968.) Quer dizer, ele foi dirigido pelo William Castle!

E então eu apareci, e era meio assustador saber que todas estas pessoas tinham sido dirigidas por alguns dos maiores cineastas. Como eu poderia ficar à altura disso? Mas logo no começo, tipo no primeiro dia, todo esse medo desapareceu, porque eu percebi que todos eles estavam muito felizes de fazer parte daquilo e queriam fazer o filme. Eles me respeitaram e acreditaram em mim, então… funcionou! Ou pelo menos eu espero!

Boca do Inferno: Antes eu conversei com Adrián [García Bogliano, diretor de Late Phases] sobre toda esta geração que foi educada pelas videolocadoras. Você acha que a Era do Vídeo foi importante para diretores como você?

Ted Geoghegan

Ted Geoghegan

Ted Geoghegan: Sim, foi algo imensamente importante para mim, e acredito que tenha sido para você também. Para mim, hoje é tão fácil assistir qualquer filme já feito… Você pode encontrá-los na internet, por meios legais ou ilegais, e todo filme ja feito está lá!

Mas eu lembro de ler livros sobre filmes de horror raros e ficar obcecado por eles, e ir até todas as videolocadoras… Bem, eu cresci em Montana, no meio do nada. Na cidade em que eu morava [Great Falls] havia três videolocadoras, e uma era uma Blockbuster. Logo, não tinha nada de especial nela. Mas nas outras duas, eu ia com uma lista escrita à mão e pedia [para os balconistas]: “Você pode encontrar estes filmes para mim?“. Algumas vezes eles até faziam o pedido para as lojas.

E toda vez que minha família saía de férias, eu ficava obcecado e pedia aos meus pais para passarem em toda videolocadora que encontrassem. Meus pais ficavam tipo “Oh não, outra porra de videolocadora!”. Eu estava tão obcecado que, quando encontrávamos uma videolocadora, eu simplesmente dizia para os meus pais me deixarem lá o dia todo, e eu passava de três a cinco horas simplesmente sentado lá lendo o verso de cada estojo de fita VHS, pesquisando os nomes dos atores, se era de um diretor que eu conhecia… Porque era assim antes da internet!

E era emocionante, eu lembro de encontrar A Maldição de Samantha numa videolocadora…

A Maldição de Samantha (1986)

A Maldição de Samantha (1986)

Boca do Inferno: Wes Craven…

Ted Geoghegan: Sim, mas eu não sabia disso! E eu lembro de ter pegado a fita, li todo o verso e pensei “Isso é interessante!“, e então vi que era escrito e dirigido por Wes Craven! Para mim, era como se eu tivesse encontrado o Cálice Sagrado! Eu não tinha ideia se aquele filme era raro ou algo assim, mas eu nunca tinha lido ou ouvido falar dele antes, eu só conhecia uns quatro filmes do Wes Craven naquela época. E eu lembro de ter implorado para os meus pais comprarem aquela fita para mim. Eu a levei para casa e sentei todo orgulhoso para mostrar a todos os meus amigos aquela fita tão rara, mesmo que não fosse rara, ela era rara apenas em Great Falls, Montana!

Mas eu sinto que, por causa de coisas como essa, eu adquiri muito mais respeito pelos filmes de gênero. Porque eles eram mais especiais, eram essas coisas importantes que nem todo mundo podia obter, e se você realmente quisesse saber sobre eles, você tinha que sair da sua zona de conforto e estudar sobre isso!

Lucio Fulci

Lucio Fulci

Agora, com a internet e todos esses livros… Você pode ir no site da Amazon, procurar por “Lucio Fulci” e vão aparecer 20 livros sobre Lucio Fulci! Mas em 1988 não havia nenhum livro sobre Lucio Fulci e não havia internet, então tudo que eu sabia era que havia esse homem que eu chamava de “Luquio“, porque nem sabia como era a pronúncia do seu nome! E eu fiquei chocado quando percebi que esses diretores italianos usavam nomes diferentes, porque aí descobri que dois filmes que eu tinha foram dirigidos por Dario Argento, mas um deles estava assinado como “David Silver“! E eu não fazia ideia disso!

Boca do Inferno: E no caso do Jess Franco eram uns 200 pseudônimos!

Ted Geoghegan: Sim, uns 200 nomes diferentes! Metade da minha coleção tinha sido dirigida por Jess Franco e eu nem sabia disso! Mas… Essa espécie de “caça ao tesouro” que a gente fazia nos tempos do VHS criou fãs do gênero que realmente conheciam o assunto e eram respeitados por isso, e eu não sei se ainda teremos algo assim. Eu espero que sim, espero que as pessoas continuem pesquisando estes filmes.

É como eu sempre digo… Eu amo filmes slasher e exploitation, mas não gosto deles ironicamente, sabe? Este filme que mencionei antes, Sorority Babes in the Slimeball Bowl-O-Rama… Eu amo este filme! Mas não amo por achar que é um filme ruim, eu amo porque… eu amo! É o tipo de filme que mostro às pessoas e elas pensam: “Ah, tudo bem, vai ser ruim“. Mas ao final elas dizem: “É mesmo muito divertido!“. Sim, exatamente!

E acho que hoje nós vivemos numa época com uma cultura de que é permitido fazer graça das coisas, mas eu não gosto disso. Teve um ótimo artigo em Los Angeles sobre uma exibição de Hércules no Centro da Terra [N.A.: Filme de 1961 dirigido por Mario Bava.] em que todos no cinema estavam rindo histericamente. E havia essas pessoas que estavam tipo: “Porra, eu realmente queria ver este filme, essa cópia restaurada do filme, e ninguém aqui está levando a sério!!!“.

Hércules no Centro da Terra (1961) em exibição em Los Angeles

Hércules no Centro da Terra (1961) em exibição em Los Angeles

Boca do Inferno: Não há mais respeito!

Ted Geoghegan: Eu nem sei dizer se é uma coisa boa ou ruim… Há diferentes maneiras de olhar para a questão. Ninguém pode dizer que Hércules no Centro da Terra é um filme muito profundo ou tocante, porque não é! Na verdade é até bastante bobo. Mas eu sinto que… Bem, eu ri quando vi esse filme antes, mas ao mesmo tempo eu não gostaria de vê-lo numa sala de cinema com um monte de gente fazendo piada com ele!

Logo, eu acredito que existam diferentes níveis de respeito a filmes. Por exemplo, eu muitas vezes dou risada quando vejo um filme de Lucio Fulci. Às vezes dou risada mesmo quando vejo algum grande filme italiano ou americano de horror. Por exemplo, aquela cena de Tenebre [N.A.: Filme dirigido por Dario Argento em 1982.], em que a garota tem o braço decepado com uma machadada e sai pela sala espirrando sangue por toda parte… Isso sempre me faz rir, mas não porque é estúpido ou porque parece falso. Eu rio porque… Eu rio de nervoso, porque é um momento tão incrível e insano que me dá vontade de rir! Mas eu não gostaria de mostrar isso para alguém que ficasse apontando e dizendo: “Ah, isso é tão idiota!“. Porra, não! Então isso não é para você!

Tenebre (1982)

Tenebre (1982)

Boca do Inferno: Qual foi o aspecto mais difícil na realização do seu filme: a recriação de época, dos anos 1970, ou encontrar um equilíbrio entre os sustos e as cenas mais sangrentas?

Ted Geoghegan: Eu acho que o aspecto mais desafiador da produção foi a temperatura. Estava tão frio…

Boca do Inferno: Ah, então é por isso que você não sente mais frio aqui! [N.A.: Estava uma manhã congelante em Porto Alegre e todos vestiam casacos pesados, mas Ted estava tranquilão com uma camiseta de manga curta!]

Ted Geoghegan: Não, eu nunca mais sentirei frio na vida depois de fazer este filme! Durante todo o tempo que passamos lá, a temperatura nunca foi maior que “congelante“. Nunca! Na verdade nunca esteve nem perto de “gelado“, era muito, muito pior do que gelado, então a gente nunca precisou se preocupar com a possibilidade de a neve derreter. [N.A.: Várias cenas externas de Ainda Estamos Aqui mostram a paisagem tomada pela neve.]

Ainda Estamos Aqui (2015)

Ainda Estamos Aqui (2015)

E a casa em que filmamos era tão velha que a única fonte de calor no lugar todo eram aqueles pequenos fogões que aparecem no filme. Eles eram a única fonte de calor, então, quando eu gritava “Corta!“, todo mundo corria para aquelas salas para se aquecer neles! A casa nunca esteve realmente gelada, mas era um frio desconfortável o tempo inteiro. E isso foi muito difícil.

A única vantagem do frio foi em relação aos efeitos especiais, porque é muito mais fácil manter bons efeitos especiais no frio, eles não derretem nem deformam, o frio os mantêm firmes. A mesma coisa para o sangue. Nós podíamos preparar uma bela cena sangrenta sem precisar se preocupar com ter que filmá-la em 10 segundos, porque o frio mantinha tudo no lugar. Então essa era a compensação de estar congelando!

Boca do Inferno: Eu preciso perguntar: você procurou pela verdadeira Casa do Cemitério?

A Casa do Cemitério (1981)

A Casa do Cemitério (1981)

Ted Geoghegan: Oh sim, eu sei onde ela fica! É claro! Fica fora de Boston, e eu originalmente pensei em fazer o filme ali. Mas quando visitei o lugar, a casa estava tão diferente… Ela estava com laterais metálicas muito feias. Agora a casa pertence a uma comunidade de artistas, um grupo de artistas vive lá e usa a casa para pintar e fazer música. Ainda é legal, mas seria muito difícil fazer o filme ali. E é claro que muitas cenas de A Casa do Cemitério foram filmadas em locações diferentes, as externas e internas. Na verdade eles construíram muitos dos cenários maiores…

Boca do Inferno: Como aquele porão…

A Casa do Cemitério (1981)

A Casa do Cemitério (1981)

Ted Geoghegan: Exato, o porão. E eu tive muita sorte porque a casa onde filmei veio com aquele porão incrível! Isso foi ótimo. O porão também era incrivelmente frio e a gente tinha que fingir que era muito quente para o filme. Isso era muito difícil, porque dava para ver o vapor da respiração de todos. Então a gente precisou apelar para aquele velho truque em que o ator segura gelo na boca até o momento em que você grita “Ação!“, aí ele cospe o gelo e a boca fica tão fria que a respiração não sai visível.

Boca do Inferno: Certo, para terminar, você poderia falar um pouco sobre os diretores que você gosta, além de Stuart Gordon e Fulci [principais referências de Ainda Estamos Aqui], e sobre os filmes que você gosta? Você prefere o horror italiano, prefere o velho terror americano?

Ainda Estamos Aqui (2015)

Ainda Estamos Aqui (2015)

Ted Geoghegan: Bem, eu sou um grande fã do cinema italiano dos anos 70 e 80, realmente amo o cinema americano dos anos 80, gosto bastante do cinema japonês dos anos 70 e 90… Cinema de gênero… Com algumas exceções, tem alguns filmes muito bons feitos no Japão nos anos 80 também.

Mas o meu coração está nos slashers old-school feitos nos Estados Unidos nos anos 80. Eu realmente amo vários desses filmes, dos ótimos aos terríveis, tenho muito amor por todos eles. Eu amo [John] Carpenter até 1986. Amo muita coisa do Wes Craven e ainda acho que de vez em quando ele faz algo muito bom. Eu gostei bastante de Voo Noturno, deve ser o último bom filme que ele fez.

Voo Noturno (2005)

Voo Noturno (2005)

Neste momento eu gosto muito de Ciarán Foy, eu amo Citadel… Ele é irlandês, mas acho que o filme foi feito na Escócia. E ele agora está dirigindo A Entidade 2, um filme que estou muito ansioso para ver apenas porque gostei tanto do Citadel que estou curioso para ver o que ele vai fazer.

Quem mais? Tenho certeza que tem vários outros. Eu sou amigo de muitos diretores de gênero modernos de quem gosto muito. Mesmo se o Adrián [García Bogliano] não estivesse aqui do lado eu diria que gosto muito do que ele está fazendo. Gostei muito de trabalhar no Cheap Thrills, do Evan Katz. Trabalhei na publicidade deste filme e acho que ele é uma nova voz muito talentosa nos filmes de gênero, estou muito ansioso para ver o que ele fará em seguida. E eu gostei muito de Hotel da Morte, do Ty West, um filme em que eu também trabalhei.

Então, novamente, eu tenho muita sorte de conhecer pessoalmente diversos realizadores que, na minha opinião, estão entre os melhores trabalhando no gênero hoje.

Confira a versão original da entrevista (em inglês) no vídeo abaixo:

Leia também:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *