Críticas, Games

Outlast 2 (2017)

Ainda que com começo arrastado e poucas inovações, o jogo cresce e faz por merecer o título de um dos mais aterrorizantes do ano

Outlast 2
Original:Outlast 2
Ano:2017•País:Canadá
Desenvolvedora:Red Barrels•Distribuidora: Warner Bros. Interactive Entertainment

Uma verdade que poucos gostam de admitir é que o gênero de terror nos games estava em declínio no começo desta década. Se apenas agora o estilo ganha um grande fôlego (e 2017 tem sido um ano difícil de acompanhar em meio a tantos títulos de terror), um dos culpados é Outlast, jogo indie lançado em 2013 pelo estúdio canadense Red Barrels, que entra facilmente para lista de um dos melhores do gênero nos últimos anos e ganha uma continuação que, mesmo em meio a defeitos consideráveis, novamente ganha o título de um dos games mais aterrorizantes do ano.

Outlast 2 é um jogo no estilo survival horror, linear, em primeira pessoa, onde estaremos no controle do cinegrafista Blake Langermann, que acompanhado de sua esposa Lynn, embarca em um helicóptero para uma investigação jornalística sobre o suicídio em bizarras circunstâncias de uma jovem grávida de oito meses que parece ter fugido de abusos em uma região rural do Arizona (EUA).

Após um estranho acidente e a queda do helicóptero, Blake se vê perdido, ao mesmo tempo em que tenta encontrar Lynn. Para piorar tudo, ele se cai no meio de um conflito entre uma seita de cristãos radicais e pagãos monstruosos, ambos acreditando que Lynn é ninguém menos que a mãe do anticristo, numa onda de violência e carnificina pela posse do bebê.

Uma demora em engatar

O maior problema de Outlast 2 está nas primeiras horas do jogo. Para quem jogou seu antecessor, esse problema se torna ainda maior. E o principal motivo é sua jogabilidade. Novamente não temos aqui um guerreiro. Blake é um cinegrafista. A única coisa que ele carregará será sua câmera. Correr e se esconder serão suas maiores estratégias. Mas a repetição extenuada dos elementos do primeiro jogo farão você cansar dessa tática logo de cara.

Entre as novidades, está o fato de que finalmente o protagonista se cansa de correr, nos obrigando a ter um pouco de controle na hora de usar esse elemento. E a câmera continua sendo sua melhor amiga. É com ela que você analisará os detalhes do enredo e terá a visão noturna a disposição, sempre precisando ter um cuidado extremo com o uso da bateria.

Outra novidade muito interessante é o uso de ataduras para curar ferimentos que beiram o gore e um microfone direcional na câmera que, bem utilizado, faz com que você capture conversas e cânticos dos cristãos loucos, dando enriquecimento a trama e a tensão que o jogo proporciona.

A presença de vilões perseguidores também se repete aqui. Se no primeiro tínhamos o gigante sem lábios sempre nos aterrorizando, dessa vez temos a freira Marta, que carrega uma picareta em formato de cruz, e uma surreal dupla que lembra o personagem Ferra & Torr de Mortal Kombat X, junto de uma excelente mira no uso do arco e flecha.

Some isso a um gráfico muito melhor que o primeiro jogo e a imersão pode se tornar poderosa. Principalmente porque depois de um começo pouco empolgante, Outlast 2 começa a tomar outra forma…

Quando o terror fascina

À medida que o conflito entre os cristãos – liderados pela insana figura do “Papa” assassino de bebês Sullivan Knoth, e os descrentes, sobre a liderança da monstruosa Val – fica mais intenso, as coisas se tornam muito melhores no jogo graças ao crescimento do enredo. Mesmo que ambos os líderes sejam explorados de forma mínima.

Outro elemento que dá um crescimento gigante ao jogo é quando a insanidade de Blake o leva às suas lembranças de infância e as terríveis memórias junto a Jessica, sua melhor amiga que se suicidou devido aos abusos sofridos numa escola cristã. Por um momento pensamos que as fugas para a memória funcionam como uma sala segura, mas à medida que o jogo avança, viver as memórias da escola se torna uma experiência muito mais perturbadora que a realidade da vila e o medo passa realmente a nos dominar quando nos vemos de volta ao passado.

Embora a premissa de Outlast 2 seja simples, é nos detalhes que está o diabo. É necessário pegar documentos e gravar todos os vídeos em momentos pontuais para entender que esta não é uma mera história sobrenatural e que há mais ligações do que imaginávamos com o enredo do primeiro game. Neste aspecto, o jogo se aproxima de Resident Evil 7, com a trama de Blake e sua esposa parecendo correr em paralelo com os eventos principais que a franquia propõe.

Outlast 2 pode ser comparado àqueles bons filmes de terror que nos dão um enredo que parece banal, mas que depois nos surpreende com uma execução difícil de acompanhar, colocando seus elementos de forma interpretativa e sem explicar tudo de forma didática, deixando muito em aberto.

Como jogo de terror, ele tem o dom de explorar nossas fragilidades emocionais. Jogue de fones, à noite, sozinho e o medo funcionará com louvor aqui. Até mesmo os poucos momentos em que não estaremos sendo perseguidos nos darão cenas de violência extrema, mutilação, abuso sexual ou uma perturbadora chuva de sangue, gerando inquietação e tensão pelo que está por vir.

Outlast 2 é um jogo que não tem medo de ir aos extremos do terror clássico, sendo doentio e explícito, ao mesmo tempo em que não nos entrega um produto banal e de fácil entendimento. E é isso que o mercado de games de terror precisa para continuar sobrevivendo pelas próximas décadas.

Outlast 2 está disponível para PlayStation 4, Xbox One e PC. A análise foi feita em um PlayStation 4.

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