Hellblade: Senua’s Sacrifice (2017)

Hellblade: Senua’s Sacrifice
Original:Hellblade: Senua’s Sacrifice
Ano:2017•País:UK
Desenvolvedora:Ninja Theory•Distribuidora: Ninja Theory

Vídeo game é acima de tudo entretenimento. Mas assim como diversas formas de entretenimento como o cinema, a música e a literatura, os criadores de um jogo podem se esforçar em passar uma mensagem, em transcender a mera ideia de diversão e deixar uma marca específica em sua geração. E é neste quesito que Hellblade: Senua’s Sacrifice se torna tão digno de admiração.

Produzido pelo estúdio britânico Ninja Theory para venda exclusivamente digital, é necessário um contexto antes de definir Hellblade. De certa forma, devemos ressaltar que hoje o mercado de games tem dividido seus maiores sucessos entre as superproduções AAA e os indies, aqueles produzidos por estúdios independentes. Jogos que ficam neste meio termo tem perdido espaço e destaque midiático. Por isso, com um novo conceito de trabalho, Hellblade se destaca entre o que chamamos de “jogos de médio conteúdo”, ao unir a produção indie junto com a qualidade de um AAA.

Assim, a priori, Hellblade pode ser definido como um jogo de ação em terceira pessoa, linear, com enredo cinematográfico e belíssimos gráficos. Mas isso nem de longe arranha sua profundidade.

No jogo, somos apresentados logo de cara a Senua, uma guerreira celta que se vê obrigada a invadir Hel, um dos nove mundos da mitologia nórdica, o domicílio dos mortos, para resgatar a alma de Dillion, seu grande amor. E é assim, que somos apresentados a uma jornada épica que parece banal, mas que apresenta um curioso diferencial: Senua tem episódios de psicose.

Com a doença mental em níveis avançados, recheando sua cabeça de vozes em conflito o tempo todo, Senua vê o mundo ao seu redor de forma diferente. Todo o ambiente desenhado em Hellblade foi baseado em prospectos psiquiátricos respeitosos a partir do momento que a equipe do jogo realmente envolveu profissionais da área de saúde mental em sua produção e discutiu com pessoas que de fato ouviam vozes.

Assim, a jornada de Senua vai além da salvação. Ao conhecermos sua trágica história e tudo que a levou até este ponto, Hellblade passa a ser sobre redenção e a luta por afastar os demônios que nos povoam.

Em compensação, é na jogabilidade de Hellblade que vem algumas de suas maiores críticas por ela ser “real demais”. A visão do jogo está sempre sobre o ombro de Senua, o que cria um sistema de combate duro e, na maior parte do tempo, injusto, principalmente quando levamos em consideração que os inimigos vikings e os demônios são muito mais fortes que a guerreira celta. Logo, é necessário ter paciência e estratégia em batalha. A câmera também não ajuda em alguns momentos e ficar preso em cantos no combate pode levar a uma irritante morte que poderia ter sido evitada.

Além disso, cada derrota colabora com o crescimento de uma mácula no braço da guerreira. E se essa mácula chegar a cabeça de Senua, será game over total, o que aumenta o desafio.

Por isso, momentos como a travessia do mundo dos mortos e a ponte para o encontro derradeiro com a deusa Hela podem frustrar jogadores com o nível de dificuldade apresentado em hordas de inimigos que parecem não ter fim. Mas para os que gostam de desafios, as batalhas com chefes são recompensadoras, principalmente as com os dois deuses que guardam o portão do Hel. Lembro-me de ter sentido meu corpo rígido e dolorido ao derrotar o primeiro. E esse tipo de experiência é bastante raro em si.

Tecnicamente, a equipe da Ninja Theory investiu pesado no visual. O gráfico realista valoriza principalmente seus cenários épicos, mas trabalha de forma incrível e envolvente os devaneios de Senua, principalmente na resolução de puzzles onde você precisa “enxergar o que não está lá”. Como o jogo é em terceira pessoa, o destaque ainda vai para a interpretação da alemã Melina Juergens, que dá alma de forma pouco vista no mundo dos jogos a sua personagem, fazendo com que todo o sacrifício de Senua se transforme em emoções na nossa pele.

Através de uma técnica de “cinematografia em tempo real” bastante eficiente e revolucionária – principalmente na questão de custos – processos de criação das cenas do jogo que levariam até meses, foram reduzidos a questão de horas pelo estúdio.

E o áudio também é um trabalho excepcional a parte. Além da trilha sonora emblemática baseada principalmente em cânticos, todo o som do jogo em si vem com representação tridimensional, com destaque para as vozes que perturbam a cabeça da personagem e, consequentemente, a nossa, sempre variando em sentimentos como conforto e raiva. Essa tecnologia é usada inclusive num momento chave do jogo em que não há luz e por isso você se vê obrigado a se guiar apenas através do som. Assim, é quase obrigatória a utilização de fones de alto desempenho se você quiser o máximo que o jogo tem a oferecer.

A soma de todos esses elementos acabam gerando um fator surpresa: a empatia.

Apegamo-nos a Senua de maneira surpreendente, quase que logo de cara, com sua jornada de sacrifício beirando a total insanidade. Maltratada durante toda a vida pelo pai e pelo seu povo, que consideravam sua doença mental um sinal de demônios e desgraças, Senua teve apenas uma felicidade em sua vida, um amor, e isso foi retirado de forma tão dolorosa e traumática, que ela aceitou fazer parte do próprio Ragnarok para conseguir isso de volta, numa jornada que nunca nos dá esperanças e não parece fazer sentido nenhum, não importam as vitórias sobre os obstáculos.

E ainda assim, mesmo sobre tamanhas tristezas e momentos aterradores, desejar que nossa protagonista alcance sua redenção é um resultado admirável de um trabalho feito com dedicação onde, mais uma vez destaco, o entretenimento é apenas um mero detalhe.

Hellblade: Senua’s Sacrifice está disponível para PlayStation 4, X-Box One e PC.

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Samuel Bryan

Samuel Bryan

Jornalista, acreano, tão fã de filmes, games, livros e HQs de terror, que se não fosse ateu, teria sérios problemas com o ocultismo. Contato: games@bocadoinferno.com.br

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