God of War (2018)

God of War
Original:God of War
Ano:2018•País:EUA
Desenvolvedora:Santa Monica Studio•Distribuidora: Sony Interactive Entertainment

Foi difícil chegar ao final de God of War 3, lá em 2010, sem se perguntar o que seria do futuro de seu protagonista ou se simplesmente haveria algum futuro. Uma vez dominado por uma fúria insana motivada por um desejo quase cego de vingança, onde destruiu tudo que esteve no seu caminho (matar Gaia me dói até hoje), o filho renegado de Zeus arrasou todo o panteão olimpiano, matou seu pai brutalmente e encerrou esperanças ao renegar um futuro para os deuses e o próprio mundo.

Deveria ser seu fim, mas eis que oito anos depois voltamos a controlar Kratos manuseando um machado, cortando… uma árvore.

Esse é o começo de God of War, jogo que nos coloca mais uma vez na pele do Fantasma de Esparta, mas dessa vez muito longe da casa que ajudou a destruir sem pensar nas consequências. Sim, muito longe da Grécia, agora vivendo em Midgard, reino dos homens de outro grupo de deuses, os nórdicos.

Esse não é mais o Kratos poderoso, arrogante e autoconfiante que conhecemos nos três primeiros jogos da franquia. É um Kratos mais velho, ainda absurdamente forte, mas longe do seu auge, assombrado constantemente pelo peso do seu próprio passado.

Na terra fria de Midgard, a árvore que Kratos corta tem uma marca dourada em forma de mão. Ela foi escolhida por Faye, mulher que Kratos conheceu e de alguma forma amou, para sua própria pira funerária. É também desse momento que vem a maior novidade do jogo: Kratos tem um filho, Atreus, uma criança para cuidar sozinho, agora que a mãe se foi. E junto com todos os sentimentos da vida que o aterrorizam, ele não faz ideia de como fazer isso.

É então que o inevitável acontece. Precedido por sua fama, Kratos recebe a visita indesejada de Balder, filho de Odin. Jovem, ágil, extremamente poderoso e arrogante, é como se Kratos encontrasse um espelho de sua juventude. E, obviamente, o que era pra ser uma conversa, afinal Odin “apenas” queria saber o que o Fantasma de Esparta fazia em Midgard, virou um caos, com uma batalha impressionante logo de cara culminando com Balder tendo o pescoço quebrado.

Com um intenso começo, é de se imaginar que a partir daí, Kratos e Atreus embarcam numa poderosa viagem de fúria contra todos os deuses nórdicos? Não!

Kratos e seu filho tem uma única missão aqui, levar as cinzas de Faye até o cume mais alto de todos os nove reinos da mitologia nórdica como assim ela desejou em vida. O tempo de matar deuses acabou. Que os nórdicos resolvam seus problemas. Kratos e Atreus terão um relacionamento para consertar, mesmo que agora os moradores de Asgard tenham sua atenção. Tudo mudou… para melhor!

A franquia God of War sempre se caracterizou por um jogo de ação extremamente ágil e direto. É Kratos enfiando a porrada loucamente com suas Lâminas do Caos presas por correntes nos braços, sem dar tempo pros inimigos respirarem e sequer saberem o que os atingiu.

Agora, praticamente tudo muda. Saem as lâminas (mesmo que as cicatrizes das correntes estejam lá) e entra o Leviatã, um poderoso machado místico. Além de todo tipo de golpe que Kratos pode dar com o artefato, ele ainda possui movimentos especiais mágicos do tipo leve e pesado e, a mais bem vinda e gostosa de suas habilidades, a capacidade de arremessá-lo e chamá-lo de volta a qualquer momento, que nunca ficará defasada e sempre será útil incrementada aos combos.

Sem pulos livres e com uma esquiva que deverá ser melhor utilizada a partir de agora, o combate em God of War é vívido e simplesmente brutal. Kratos ainda é um assassino impiedoso e a cinematografia de batalha é prova disso.

Além disso, o jogo assume um lado de RPG. Se nos anteriores Kratos só tinha para equipar os poderes e armas que tirava de cada deus que lhe ajudava (ou ele matava), agora ele tem uma série de equipamentos para descobrir e aprimorar, aumentando atributos como força, defesa, vitalidade, sorte e alguns outros. Essa é de longe uma das melhores novidades do jogo, já que conseguir sets de armaduras novos, além dos itens necessários para os upgrades das armas, irá tomar horas e dificilmente se tornará tedioso.

Infelizmente, o jogo possui uma falha onde deveria ser sua maior riqueza, a árvore de habilidades. Embora não inútil, a verdade é que não é desafiador conseguir todos seus atributos, mas triste mesmo é que você vai esquecer como usar boa parte deles e nem vai fazer muita diferença lembrar de alguns movimentos. A dificuldade em dropar certos itens também irá consumir certa paciência, principalmente quando estiver muito avançado e os equipamentos mais poderosos estiverem disponíveis.

Como Kratos não está sozinho em sua jornada, melhorar Atreus também é obrigatório. O garoto dispara flechas que podem ser melhoradas, realiza ataques chamando a atenção dos inimigos e às vezes os imobiliza, o que é uma baita ajuda. Mas assim como na vida real, roupa de criança é cara e as do garoto tem os valores mais elevados.

Com uma mistura de narrativa linear com mundo aberto, onde o Lago dos Nove concentra uma gigantesca área a ser explorada junto com outros reinos que podem ser visitados e inúmeros desafios para serem completados, God of War não acaba quando sua campanha termina. Para conquistar todos os troféus do jogo são necessárias pelo menos 50 horas, o que torna o fator replay empolgante.

Você não vai querer largar esse jogo mesmo depois de terminá-lo!

Todos os deuses merecem morrer?

Para um fã de cultura pop, uma das coisas necessárias para acompanhar God of War é esquecer de como a mitologia nórdica foi retratada nos filmes Marvel. Em sua narrativa, o jogo é uma releitura poderosa de todos os elementos da real história escrita sobre os deuses asgardianos em sua forma mais aterradora e cruel possível. Ainda assim, não consegui deixar de fazer um paralelo do game com uma HQ da Casa das Ideias para Thor chamada O Carniceiro dos Deuses. Sem entrar em muitos detalhes, nela, Thor enfrenta Gorr, um ser mortal que após ver todos que amava serem desprezados pelos deuses, decidiu que iria eliminá-los um a um. Todos os deuses. De todos os planetas. De todas as religiões. Ao enfrentar o deus do trovão, Goor, com suas motivações palpáveis sobre o que é justiça e a imparcialidade, causa uma marca em Thor, ao lhe lançar uma dúvida sobre o verdadeiro papel dos deuses.

Em God of War, Kratos está mais humanizado do que nunca e acaba sendo uma estranha mistura de Goor e Thor retratados em O Carniceiro. Kratos odeia todos os deuses, mas ele mesmo e seu filho são deuses. Como superar o ódio de si mesmo e do sangue divino quando isso está presente naquilo que mais se aproxima do que ele ama? Como fugir da sina de sua linhagem de deuses onde os filhos precisaram matar seus pais?

Kratos não é a chave da futura queda dos deuses nórdicos. O fim deles já está escrito há muito tempo, na profecia do Ragnarok, mesmo que a existência do espartano comece a fazer parte disso. E é com a chegada de Mimir na jornada que toda a romantização de Thor e Odin cai por terra. Que cada história contada pelo “ser mais inteligente do mundo” na verdade se revela como um conto de terror de deuses lutando e se tornando amargos e cruéis na tentativa de evitar o próprio fim.

Mas se Kratos não é o protagonista da tragédia asgardiana, isso não muda o fato dele ser o protagonista de sua própria história. Sua relação com Atreus cresce e se constrói de forma natural, superando as barreiras de tudo aquilo que poderia fazer com que ela fosse um erro por si só. Afinal, quem imaginaria o Kratos de seus jogos anteriores vivendo uma aventura ao lado de uma criança?

É justamente na construção dessa relação que God of War mexe com as nossas emoções. Somos as lágrimas de Atreus quando ele mata um humano pela primeira vez sem imaginar o quanto isso iria destroçá-lo, somos o abraço que Kratos não consegue dar para confortar o filho por não saber como demonstrar afeto. Somos a própria Fúria Espartana despertada para proteger aquilo que mais nos custa. Mas somos o Deus da Guerra, donos do nosso próprio destino numa narrativa poderosa e envolvente de um homem e seu filho que enfrentarão o próprio apocalipse para superar as diferenças, mesmo que estranhamente… tudo já esteja escrito!

God of War é exclusivo para PlayStation 4

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Samuel Bryan

Samuel Bryan

Jornalista, acreano, tão fã de filmes, games, livros e HQs de terror, que se não fosse ateu, teria sérios problemas com o ocultismo. Contato: games@bocadoinferno.com.br

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