Críticas, Literatura

As Crianças do Milharal (1977)

Conseguiu transmitir uma sensação eficaz de desconforto ao unir o medo inocente – as crianças – à principal fortaleza do homem – a religião!

Sombras da Noite (livro) (2)

As Crianças do Milharal
Original:Children of the Corn
Ano:1977•País:EUA
Páginas:28• Autor:Stephen King•Editora: Objetiva

“Ela fora colocada num pau transversal, como um medonho troféu de caça, os braços amarrados pelos pulsos e as pernas pelos tornozelos com arame farpado comum, que poderia ser comprado em qualquer loja de ferragem do Nebraska por setenta centavos o metro. Os olhos tinham sido arrancados e as órbitas estavam cheias com sedosos fiapos de pendões de milho. As mandíbulas escancaradas num grito silencioso, a boca cheia de sabugo de milho”

Children of the Corn” foi publicado pela primeira vez na revista “Penthouse“, em março de 1977, para depois fazer parte da coletânea “Night Shift“. Fazendo uso de um argumento simples, mas extremamente criativo e fértil, o consagrado escritor de horror moderno Stephen King conseguiu transmitir uma sensação eficaz de desconforto ao unir o medo inocente – as crianças – à principal fortaleza do homem – a religião.

Levemente inspirado no clássico A Profecia (The Omen), do ano anterior, Children of the Corn desenvolveu uma trama de poucas horas, envolvendo crianças assassinas, uma religião pagã e uma cidade fantasma, palco de um acontecimento bizarro enfrentado pelo conflitante casal Vicky e Burn.

Ilhados por plantações de milho – bastante comum nas cidades do interior -, a dupla fazia uma longa viagem à Costa Oeste com a finalidade de visitar o irmão e a cunhada de Vicky, e também definir as diferenças e o futuro da relação. No caminho, entre discussões e ofensas, atropelam acidentalmente um garoto que acabara de cruzar a estrada. Nesse ponto, detalhista como de costume, King deixa claro que o Thunderbird não apenas bateu no menino como também passou por cima de seu corpo com as rodas dianteiras e traseiras.

Sombras da Noite (livro) (3)

Ao investigar o corpo com mais atenção, entorpecidos pelo forte cheiro de fertilizante, eles descobrem que o menino já estava praticamente morto, vítima de uma garganta cortada, quando o carro o encontrara. Próximo dali uma maleta com vestígios de sangue, acompanhada da sensação aterrorizante de estarem sendo observados. Resolvem levar o corpo e os objetos pessoais à cidade mais próxima, Gatlin, enquanto cruzam com uma irônica placa na estrada:

“GATLIN 8 KM. DIRIJA DEVAGAR. PROTEJA NOSSAS CRIANÇAS.”

Burn e Vicky iniciam mais uma série de desavenças ao som da única rádio sintonizada no local, com suas mensagens religiosas, emitidas estranhamente por crianças. Na maleta, Vicky encontra um crucifixo feito artesanalmente de milho. Assim, lentamente, King vai apresentando novos elementos, deixando o leitor apenas com a certeza de que os dois estão entrando num local onde não são bem vindos: placas que separam palavras que formam mensagens; o incômodo silêncio total da cidade de Gatlin; os preços que indicam uma pausa no tempo de cerca de dez anos; uma estranha e conservada igreja com os dizeres: “O PODER E A GRAÇA DAQUELE QUE ANDA POR DETRÁS DAS FILEIRAS“.

Convencida do perigo iminente, Vicky tenta convencer Burn a desistir de explorar a região, mas, maravilhado pelas descobertas, ele transforma a simples missão de levar um corpo à delegacia uma desculpa para conhecer os mistérios de Gatlin. Até mesmo o som de risadas infantis não serviam de consolo para o desespero de Vicky, que aumentou ainda mais quando seu marido resolveu tirar as chaves do carro e entrar na pequena igreja.

“O Cristo era sorridente, vulpino. Tinha olhos grandes e fixos; Burt lembrou-se nervosamente de Lon Chaney em O Fantasma da Ópera. Em cada uma das pupilas, alguém se afogava num lago de fogo. Entretanto, a coisa mais esquisita era o fato de que o Cristo tinha cabelos verdes…cabelos que, examinados com mais atenção, revelavam-se como um emaranhado de milho no início do verão.”

Depois de examinar a Bíblia rasgada e o órgão que não podia ser tocado pois a música só poderia vir “da boca humana“, Burt encontrou o livro de registro de óbitos, escrito com letras de criança, indicando que algo terrível acontecera em 1964, quando os menores assumiram a região, matando seus pais como sacrifícios para algo que, supostamente, andava pelas fileiras. Ele fica ainda mais horrorizado quando percebe que não houve mais nascimentos em Gatlin, apenas duas crianças: Eva Tobin e Adam Greenlaw – as únicas que poderiam procriar e continuar a geração daqueles que veneram o milharal.

A partir desse ponto, o pesadelo deixa de ser apenas investigativo e torna-se real, quando os jovens, liderados por um menino ruivo, resolvem buscar novos sacrifícios, perseguindo Burt pela cidade até o encontro trágico com “Aquele que Anda por Detrás das Fileiras“. King ainda termina o conto adequadamente com as crianças realizando o ritual de passagem de Malachi para a “continuidade do favor“, que ocorre sempre que uma criança faz 18 anos.

Não há como não se impressionar com a grandeza desse texto, uma das produções mais criativas do autor. Era a época da prisão de Charles Manson, assassino e fanático religioso, o que tornava a ideia ainda mais eficaz, com seus simbolismo perturbador.

Children of the Corn” serviu de base para a produção de oito filmes, além de uma produção independente e um remake, claramente inferiores ao conto. Na verdade, nenhum filme conseguiu reproduzir com perfeição o horror transmitido nas 28 páginas da história de Stephen King. O primeiro filme até que teve um efeito satisfatório – mesmo com suas falhas e limitações -, ao conduzir a trama sem muita ousadia, mas com muita liberdade de criação, principalmente na composição dos personagens.

A tal produção independente foi uma adaptação caseira, porém mais fiel ao texto original, realizada por um grupo de estudantes, resultando no curta “Os Discípulos do Corvo“, presente no filme Túnel do Horror, já lançado em VCD no Brasil. Mais uma prova da fertilidade do texto de Stephen King.

Abaixo, você confere uma minuciosa análise dos longas por Juvenatrix e Felipe M.Guerra. São textos belíssimos, com muitas imagens e curiosidades de cada produção, num esforço sobre-humano, quase um sacrifício, daqueles que andam por detrás do Boca do Inferno

Colheita Maldita (1984) (2)
Colheita Maldita 2: O Sacrifício Final (1993) (2)
Colheita Maldita 3 (1994) (2)
Colheita Maldita IV (1996)
Colheita Maldita V – Campos do Terror (1998)
Colheita Maldita 666 – Isaac Está de Volta (1999)
A Colheita Maldita 7: A Revelação (2001)

Leia também:

2 Comentários

  1. Esse é um dos meus contos favoritos de King. Dá um bom frio na espinha.

  2. Murilo

    AMO <3

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *