Críticas, Literatura

O Demonologista (2015)

Andrew Pyper trabalha um medo sofisticado, ajudado pela narrativa em primeira pessoa e pelas indagações curiosas da parceira do protagonista

O Demonologista
Original:The Demonologist
Ano:2015•País:EUA
Autor:Andrew Pyper•Editora: Darkside Books

“Há coisas neste mundo que a maioria de nós nunca vê. Nós nos treinamos para não vê-las, ou tentamos fingir que não vimos se elas ocorrem. Mas há uma razão para o fato de, não importa o quão sofisticadas ou primitivas, todas as religiões terem demônios. Algumas podem ter anjos, outras não. Um Deus, deuses, Jesus, profetas – a figura de autoridade máxima varia. Há muitos tipos diferentes de criadores. Mas o destruidor sempre toma, essencialmente, a mesma forma. O progresso do homem tem sido, desde o início, frustrado por provadores, mentirosos, corruptores. Criadores de pragas, loucura, desespero. A experiência demoníaca é a única verdadeiramente universal de todas as experiências religiosas do homem.” (Trecho do livro O Demonologista, de Andrew Pyper)

O Diabo mora nos detalhes.” Pode ser no desaparecimento repentino de uma senhora no porão de sua residência, numa caronista ousada, ou até nas ações de um grupo de crianças endiabradas, ele está ali. Até no encontro do padre Lucas Vidal com seu pai, no espetacular Diário de um Exorcista, de Luciano Milici, e nas reações exageradas de uma criança inocente em O Exorcista, de William Peter Blatty. E também está presente na jornada ao Inferno do professor David Ullman em busca de sua filha Tess, desaparecida depois de um aparente suicídio.

Com uma produção literária intensa, impondo suas obras entre as mais lidas e premiadas, o autor canadense Andrew Pyper traçou um estudo interessante sobre o clássico O Paraíso Perdido, de John Milton, nas páginas macabras de O Demonologista, lançado em 2013 oficialmente, e que encontra-se atualmente traduzido pela editora fantástica Darkside Books. Em vez de um ensaio reflexivo sobre o poeta inglês, ele desenvolveu um enredo de ficção primoroso, repleto de analogias e possibilidades, conduzindo o leitor a um passeio tortuoso até o “outro lado“.

Ao mesmo tempo em que se considera um estudioso de Milton, principalmente de seu texto supremo, que apresenta uma visão curiosa sobre o embate entre Deus e Satã, David é extremamente cético. Marcado por uma série de tragédias na infância – afogamento, doença, suicídio -, ele sente que está perdendo a esposa para um conhecido, e a amiga O´Brien para o câncer. Ele recebe uma oferta irrecusável, principalmente nesse período perturbado de más notícias, de se aprofundar e oferecer seus conhecimentos em Veneza, após a visita de uma estranha. Não apenas pelo dinheiro, mas pela possibilidade de se afastar dos problemas, ele aceita a viagem, sem imaginar que toda a experiência adquirida pode não ser suficiente para o que virá.

O Demonologista (2015)(1)

David experimenta (e documenta) uma possessão, e, antes que possa voltar para seu mundo pessoal, perde sua filha de 12 anos, no que a polícia e testemunham apontam como suicídio inexplicável. Algo o seguiu até o hotel, e está por todos os lados – talvez, sempre esteve. A partir de pistas e conexões astutas, o professor embarca nessa outra viagem, tendo encontros constantes, seja por assombrações demoníacas ou por um misterioso Perseguidor, disposto a impedi-lo de completar seu intento a todo custo.

Andrew Pyper trabalha um medo sofisticado, ajudado pela narrativa em primeira pessoa e pelas indagações curiosas da parceira do protagonista. Sua visão particular dos acontecimentos, singularmente por sua condição cética, torna a experiência mais intensa, mais dinâmica e crível. Se existe um pesar em suas mais de 300 páginas, está no argumento levemente inspirado em outras literaturas e no final quase anti-climático. Se a jornada fosse um pouco além, ultrapassando as barreiras da imaginação e da loucura – como um real contato com o Inferno -, o resultado poderia ser plenamente satisfatório. Contudo, são meros detalhes. Mas, não são neles que o Mal absoluto se estabelece?

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1 Comentário

  1. Eduardo Chiesa

    Um dos mais bem escritos sobre o assunto. Recomendo muito para quem gosta de um livro muito bem detalhado, muito bem escrito e com muitas reviravoltas. E, claro, um bom e velho suspense.

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