Entrevistas, Literatura

Flávio Assunção: “utilizei tudo que consegui para criar essa mente perturbada”

O jornalista cearense conversou com o Boca do Inferno e contou sobre como foi o processo de criação de O Outro Lado, seu primeiro thriller, escrito em três perspectivas diferentes e com um serial killer que acredita ser bom

Um serial killer que acredita ter nascido com o dom de reconhecer indivíduos realmente bons, uma mulher que se dedica a cuidar da irmã em coma e um adolescente que teve sua acessibilidade reduzida após um acidente. Estes são os personagens que contam a história de O Outro Lado, livro de estreia do jornalista Flávio Assunção.

Em uma entrevista exclusiva, o Boca do Inferno conversou com o autor e descobriu mais sobre o processo de criação da obra, como surgiu a história do livro e que Alan, o serial killer e um dos personagens principais, realmente tem uma mente um tanto quanto perturbada. Confira a conversa e corra atrás do seu exemplar!

O que te fez escrever um thriller como sua primeira obra?

Escolher o thriller psicológico veio por dois motivos. Primeiro que minha formação literária foi através de thrillers, meus autores preferidos escrevem nesse estilo e todas as técnicas que eu utilizei n’O Outro Lado foram recebidas através dos livros que eu li, dos autores com os quais eu pude me envolver; e também, a forma como eu queria mostrar essa trama só poderia ser feita através de um thriller, que é uma narrativa mais rápida, profunda e dinâmica, e O Outro Lado tem essa pegada de tensão e suspense, onde cada capítulo tenta instigar o leitor a buscar mais da história, tentar se aprofundar mais para descobrir o que vai acontecer.

Quais são as suas obras literárias preferidas do gênero?

Existem dois autores que utilizam essa fórmula narrativa de mostrar o ponto de vista do psicopata, que foi o que eu busquei fazer em O Outro Lado, que são o Dean Koontz e o Jeffrey Deaver. Então, baseado no que eu fiz em O Outro Lado, se eu pudesse destacar dois autores que tanto me serviram como inspiração como modelo narrativo, eu diria que são eles.

Quanto tempo você demorou para você realizar todo o processo do livro?

O processo de escrita levou em torno de dois anos, mas se a gente levar em consideração a parte da edição, produção e distribuição aí demorou quatro anos para que o livro fosse publicado.

Quais foram as suas maiores dificuldades?

A parte mais difícil do livro foi a que corresponde à construção psicológica de um dos personagens principais, que no caso é o serial killer, porque eu precisei construir uma personalidade única que fosse ao mesmo tempo coerente e verossímil. Embora existam diversos materiais que abordem a psique por trás dos serial killers, ainda assim não é possível a gente ter uma plena convicção das divagações que existem na mente deles, são só suposições, então foi necessário utilizar de tudo que consegui adquirir de conhecimento sobre o tema e trabalhar bastante para que essa mente perturbada fosse construída de uma maneira que não soasse artificial e que convencesse o leitor, então eu diria que a parte mais difícil mesmo foi essa construção psicológica desse personagem em questão.

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Que tipo de pesquisa você teve que fazer para criar o perfil dos três personagens principais?

Em relação ao serial killer, eu sempre tive um vasto interesse em casos reais, eu assistia documentários, lia livros que retratavam a questão psicológica desses assassinos e acompanhava reportagens sobre acontecimentos marcantes na história. A partir desse meu próprio interesse é que surgiu a ideia de desenvolver uma trama onde eu pudesse colocar o leitor em contato com a mente deturpada de um psicopata; mas para isso eu realmente precisei ler bastante, assistir a documentários, conversar com psicólogos… Então a construção desse psicopata foi toda nessa linha de pesquisa e também com um pouco de suposição, afinal, não tem como a gente adivinhar o que se passa na mente de cada um deles. No caso dos outros dois personagens não foi necessária uma pesquisa para que eles fossem criados, até porque os dramas pelos quais eles passam são dramas que muitas pessoas na nossa sociedade também sofrem. Uma mulher que há anos convive com a irmã em coma sem poder fazer nada a respeito e abdicando de uma vida de prazeres para poder cuidar dela… O outro personagem é um adolescente que depois de um acidente perdeu as duas pernas e o braço e vive agora angustiado por essa situação, convive dia após dia esperando a morte chegar. Então, no caso dos outros dois personagens, são situações mais rotineiras, situações que podemos encontrar não facilmente, mas que existem por aí.

O serial killer é baseado em algum outro personagem da literatura ou do cinema?

Na verdade não, durante o processo de escrita eu sempre me preocupei em não me deixar influenciar por personagens que já tenham existido em livros, filmes ou mesmo em pessoas reais que eu tive acesso nos livros e documentários que eu vi. Então o personagem desse livro foi criado do zero, com uma personalidade única tentando ao máximo ser verossímil e coerente. Eu englobei tudo o que eu pude aprender para poder criar meu próprio personagem com a sua própria personalidade.

Como foi escrever a narrativa em três perspectivas diferentes?

Os capítulos são intercalados a partir do ponto de vista dos três personagens principais e a ideia disso foi no sentido de poder mostrar o cotidiano de cada um deles, seus dramas, pensamentos e angústias, até o momento em que eles vão se cruzar e fazer parte do mesmo universo, que é o momento da história em que as coisas ficam mais profundas e permeadas de tensão. Ao mesmo tempo em que foi um processo complicado foi também divertido do ponto de vista criativo, porque são três personagens totalmente diferentes, com dramas pessoais também distintos, e poder trazê-los para dentro do mesmo universo, para o mesmo ponto crítico da história, foi desafiador e gratificante.

Como você fez com a parte técnica da escrita?

Eu acabei não seguindo nenhum padrão, eu comecei pelo final, escrevi primeiro o último capítulo e depois desenvolvi a história para que chegasse ao momento da conclusão. Não escrevi só sobre determinado personagem ou seguindo um caminho linear, eu fui escrevendo de acordo com o que eu sentia naquele momento, então mesmo estando no começo eu escrevia passagens que eu vislumbrava que estaria próxima do final, ou no meio do livro.

Você já tem outros projetos em mente?

Sim, atualmente eu estou engajado no desenvolvimento do meu próximo livro, que é um romance policial chamado Paraíso Negro. Ele deve ser lançado em algum momento de 2017 e, embora seja um estilo um pouco diferente de O Outro Lado, ele também tem uma natureza mais obscura e vai lidar com o tema de desaparecimentos e tráfico de adolescentes, temas um tanto quanto polêmicos, que vão servir tanto para conscientizar quanto para chamar a atenção para uma problemática que existe no nosso país.

Você tem mais alguma coisa a dizer?

Eu espero ter conseguido despertar o interesse dos leitores em conhecer mais sobre O Outro Lado, foi um livro feito com muito carinho e que felizmente está dando uma repercussão maravilhosa. Também quero me colocar à disposição de jovens escritores que queiram tirar dúvida sobre o processo de escrita, ficarei muito feliz em ajudar todos os que também querem realizar o sonho de se tornarem escritores!

O Outro Lado está disponível em formato físico no site do autor e na Livraria Cultura. Em ebook, o livro pode ser encontrado na Amazon, Kobo, Buqui, App Store, Livraria da Folha de SP e Livraria da Travessa. Para entrar em contato com o autor você pode acessar seu site, Facebook ou mandar um e-mail.

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1 Comentário

  1. Fantástico Artigo…

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