Críticas, Literatura

Legião (2017)

Arrepios discretos em um thriller de investigação e mistério, com pouca afinidade com o passeio que o demônio fez na Rua Prospect!

Legião
Original:Legion
Ano:2017•País:EUA
Autor:William Peter Blatty•Editora: Darkside Books

Parecia coisa do capeta. William Peter Blatty havia feito muitos trabalhos de não-ficção e roteiros de comédias, quando, em 1971, resolveu escrever uma obra intitulada O Exorcista, sobre uma menina de doze anos possuída pelo demônio. A inspiração em eventos reais e a força da narrativa colocou o livro na lista dos bestseller do The New York Times por 17 semanas, com a venda de 13 milhões de cópias nos Estados Unidos e a tradução para doze línguas. Mas, o estopim viria com a adaptação de William Friedkin, de 1973, com um trato especial no roteiro e na produção, conduzindo o longa à indicações ao Oscar, incluindo a primeira como Melhor Filme para o Horror, e doses altas de polêmicas pela ousadia proposta. A maldição de Regan traria um reconhecimento imediato aos envolvidos, e transformaria William Peter Blatty em uma referência no gênero, com a expectativa de que mais coisas boas viriam dele.

Enquanto a obra continuava atraindo curiosos, Blatty passou a desenvolver outros projetos. Em 1977, foi lançada nos cinemas a continuação, O Exorcista II – O Herege, de John Boorman, com a volta de Linda Blair, em um filme confuso e cheio de problemas, devido à intenção do diretor de fazer algo mais conceitual do que assustador e chocante (leia mais a respeito clicando aqui). A sequência oficial de O Exorcista só seria realmente escrita em 1983, sob o título de Legião, com o propósito de se aprofundar no personagem do tenente William Kinderman, envolto em uma trama de violentos assassinatos, com uma conexão assustadora com os acontecimentos do primeiro livro.

Legião não teve a mesma trajetória de sucesso. Não ficou entre os mais vendidos do The New York Times – o que levou o autor a processar o jornal, alegando que as vendas eram absolutas e que o livro estava sendo boicotado – e a opinião dos críticos foram alternadas, mas com a convicção de que se tratava de um trabalho inferior. Numa análise breve, a continuação é bastante diferente realmente, partindo para uma obra de investigação policial e reflexão filosófica do que assustadora e grotesca como era de se imaginar, tendo como base o primeiro. No entanto, deveria ser reconhecida pelos próprios méritos.

Nela, o pensador, mau humorado e irônico tenente Kinderman tem uma grande missão a cumprir: desvendar uma série de assassinatos, que trazem a assinatura de um serial killer morto. Começa com um garoto de doze anos, encontrado mutilado e crucificado com pás de remo, com a testemunha de uma senhora catatônica. Logo, uma nova vítima em circunstâncias parecidas é também encontrada: um padre, assassinado de maneira brutal no interior de um confessionário. Enquanto tenta entender a relação entre os crimes, embora já note a marca do assassino Geminiano, que foi baleado e morto pela polícia anos atrás, Kinderman vai destilando seus pensamentos aparentemente descontextualizados, que trazem questionamentos metafísicos e filosofias de boteco.

Seus colegas já passam a desconfiar de sua capacidade mental, ao passo que ele demonstra bastante inteligência nas investigações. Descobre, por exemplo, que as impressões digitais dão a entender que os crimes, mesmo com similaridades, parecem ter sido cometidos por pessoas diferentes. Sua busca pelo criminoso irá envolver um velho amigo, o padre Dyer, com quem lamenta a presença de uma carpa em sua banheira, e assiste, regularmente no aniversário da morte do Padre Karras, a filmes como o clássico A Felicidade Não se Compra. Ao visitá-lo no hospital, Kinderman encontrará as principais pistas, que levam a suspeitar do Doutor Amfortas e do psiquiatra Freeman Temple.

A obra de Blatty divide, então, a narrativa com a exposição do drama de Amfortas, que tentava a todo custo se comunicar com a amada morta através de gravações dos mortos pelo sistema EVP – algo totalmente inexistente na versão cinematográfica -, e as investigações de Kinderman. Alguns confrontos afiados e as descobertas trazem os principais elementos de terror do livro, e a ligação direta com original irá acontecer quando o Dr. Temple contar a respeito do paciente da sala 12 (no filme, é 11), conhecido como Girassol, que é a expressão de um personagem bastante importante do livro original: o padre Karras, que teria morrido ao se atirar da janela do quarto de Regan, rolando pela escadaria Hitchcock.

O ponto alto da literatura – e do filme – é exatamente o embate entre o herói e o vilão, partindo de citações a Shakespeare e óperas, e divagando sobre as identidades do Geminiano e do padre Karras. Aliás, o serial killer mencionado é uma referência proposital ao assassino conhecido como Zodíaco, que cometeu vários crimes e nunca foi descoberto. De acordo as trívias da internet, Blatty teria homenageado o verdadeiro porque, entre as cartas que o Zodíaco mandava à polícia, houve uma em que ele chamou o filme O Exorcista de comédia.

Legião é bastante parecido com a sua versão para as telas, intitulado O Exorcista 3, lançado em 1990. Isso se deve, claro, ao roteiro e direção do próprio Blatty, que ainda soube mesclar elementos de sua obra, com o acréscimo de sustos e cenas de terror. Tanto o livro quanto o filme não chegam aos calcanhares do clássico, servindo apenas como uma expansão dos acontecimentos e personagens. E a versão literária de Legião perde alguns pontos para o longa pelo final anti-climático, encerrando de maneira fria, sem algum ponto de emoção. Já a versão live-action optou pela saída mais fácil ao incluir um exorcismo na sequência final, para a exibição de alguns efeitos especiais e justificar o título.

Lançado de maneira caprichada pela Darkside Books, com um acabamento em vermelho e uma capa que chama a atenção em uma leitura em público, é uma obra que vale a leitura para os fãs do original e de thrillers de investigação com boa fluidez e facilidade no tema tratado, sem incomodar como a carpa que impediu Kinderman de tomar banho por três dias!

Em tempo, nota-se que o mestre Stephen King se inspirou no livro para compor a terceira parte de sua trilogia Bill Hodges, chamada Último Turno. Há algumas similaridades nas ações do vilão, com sua capacidade de comandar terceiros para os atos ou até induzir ao suicídio. Pode ser apenas coincidência também…

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