Preacher – 1ª Temporada (2016)

Preacher (2016)

Preacher - 1ª Temporada
Original:Preacher - First Season
Ano:2016•País:EUA
Direção:Sam Catlin, Evan Goldberg, Seth Rogern
Roteiro:Sam Catlin, Evan Goldberg, Seth Rogern
Produção:April Blair
Elenco:Dominic Cooper, Ruth Negga, Joseph Gilgun, Ian Colleti, Lucy Griffits, W. Earl Brown, Jackie Earle Haley, Grahan McTavish, Tom Brook, Anaton Yusef, Derek Wilson

Antes de qualquer coisa, temos que deixar claro que assistir Preacher com os olhos de leitor, fã da revista original de Garth Ennis e Steve Dillon – publicada originalmente nos EUA pelo selo adulto da DC, o Vertigo –, pode ser extremamente frustrante. O gibi original é um marco nos quadrinhos. Questionadora, herege, desbocada e surtada, a HQ de Garth Ennis marcou não só uma época, mas toda uma geração de leitores que se apaixonaram pelo trio de personagens e por suas aventuras em busca de Deus.

Portanto, é de se supor que, caso você não seja um leitor de Preacher, ou seja, um fã que consegue deixar todo o preconceito de lado, você irá aproveitar muito bem a série. Correto? Não! A série desenvolvida por Sam Catlin (Breaking Bad), Evan Goldberg (É O Fim) e Seth Rogern (Superbad) para a AMC – mesmo canal de The Walking Dead, outra adaptação livre dos quadrinhos, e muito superior – é um desastre.

Preacher (5)

Alguns dizem que a primeira impressão é a que fica. E se pegarmos como exemplo o episódio piloto de Preacher, podemos comprovar esta teoria na prática. Logo na estreia da série, já fica bem claro que há um receio enorme dos produtores de se ir longe demais. Assim, a escolha por adaptar para as telas uma história tão ousada e sem limites como Preacher se torna uma “queima de cartucho” em algo que talvez ficasse muito melhor em um canal fechado ou uma série de filmes com maior censura.

Preacher é uma série sobrenatural que mistura comédia, drama e acompanha Jesse Custer (Dominic Cooper), um pastor do Texas, que junto com sua ex-namorada Tulipa (Ruth Negga) e um irlandês vagabundo chamado Cassidy (Joseph Gilgun), são introduzidos em um mundo muito maior do que imaginavam. Durante um momento de crise de fé, Jesse é dominado por uma entidade filha de um anjo e um demônio chamada Gênesis, que lhe dá o poder da palavra, tornando-o capaz de fazer com que qualquer pessoa o obedeça. O problema é que esta entidade fugiu do Céu e agora anjos estão atrás de Jesse para recuperar Gênesis. Algo que o pastor não parece interessado em colaborar.

Preacher (2016)

O trio principal de personagens, Jesse Custer (Dominic Cooper), Tulipa O’Hare (Ruth Negga) e Cassidy (Joseph Gilgun) entregam um bom trabalho, apesar de Ruth Negga exagerar na marra de Tulipa ao tentar interpretar uma mulher forte, assim como todo o elenco de apoio. O que falta realmente é um roteiro bem amarrado e coerente. A teimosia de Tulipa em envolver Jesse em um acerto de contas do passado não parece justificável em nenhum momento, mesmo quando descobrimos o motivo real. A atitude de Emily (Lucy Griffits) para se livrar de um pretendente insistente é tão ruim quanto a aparente tranquilidade com que o Xerife Root (W. Earl Brown) descobre o atual paradeiro de seu filho Cara-de-Cu (Ian Colleti).

É fácil compreender a necessidade em se alterar algumas situações na transposição dos quadrinhos para as telas. Precisamos gerar interesse em um público maior, trazer o ineditismo para aqueles que leram a HQ e, como sempre, todo mundo quer dar a sua visão sobre a obra original. Há também as questões orçamentais que impedem grandes efeitos especiais, pelo menos em uma primeira temporada. A decisão em transformar as viagens e a comunicação entre a Terra e o Céu em algo analógico, quase vintage, é interessante. O inferno onde se encontra o Santo dos Assassinos (Grahan McTavish) também é uma solução boa e barata para algo que, definitivamente, esbarraria em questões de custo se tentassem reproduzir o quadrinho – embora eu deva confessar que esta passagem é uma das coisas mais legais do gibi. Para aqueles que reclamaram da mudança étnica de Tulipa, vale a pena lembrar-se das questões raciais envolvendo a família de Jesse, o que pode render bons momentos no futuro.

Preacher (2016)

E por falar em futuro, se você pretende plantar pistas do que está por vir na série e manter o interesse do público, você tem que saber exatamente o que está fazendo. Deve se ter domínio sobre o que mostrar e o que esconder. Em determinado momento, mostra-se o inferno pessoal de um dos personagens, mas até que o público entenda o que está acontecendo, há uma repetição de cenas que beira o insuportável. Em outros pontos personagens surgem em situações tão estranhas que o telespectador irá se perguntar se pulou algum episódio. Mas, o final da primeira temporada promete aproximar mais a série do material original, deixando de lado a trama metida a Twin Peaks white trash da congregação do bom pastor e partindo para o mote principal do gibi: a busca de Jesse por Deus.

A série, assim como o episódio piloto, é bipolar. Alternando entre momentos de horror psicológico, com menções a abuso sexual e pedofilia, e piadas sem-graça e forçadas de um humor infantil, bem característico de Seth Rogern. Quando a série parece prestes a encontrar seu rumo, entram em cena situações constrangedoras, como tudo que envolve Odin Quincannon (Jackie Earle Haley), por exemplo. Encontrando seu caminho e sua identidade própria, Preacher tem potencial para se tornar algo interessante e, no mínimo, ousado para os padrões da TV aberta. Afinal, não é sempre que vemos alguém questionando os desígnios de Deus para o grande público. Seth Rogern só precisa parar de se esforçar para parecer cool como Quentin Tarantino, já que o máximo que consegue ser é um Kevin Smith piorado.

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Rodrigo Ramos

Rodrigo Ramos

Designer por formação e apaixonado por HQs e Cinema de Horror desde pequeno. Ao contrário do que parece ele é um sujeito normal… a não ser quando é Lua Cheia. Contato: rodrigoramos@bocadoinferno.com.br

Um comentário em “Preacher – 1ª Temporada (2016)

  • 13/08/2016 em 20:57
    Permalink

    Simplesmente decepcionante…
    Por outro lado, tivemos Outcast, bem mais sólida e com essa temática de céu/inferno de outra perspectiva. Vai rolar resenha de Outcast?

    Resposta

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