Críticas, Televisão

Black Mirror – 3ª Temporada (2016)

Apesar da notável queda na qualidade em comparação com suas temporadas anteriores, ainda é uma das melhores séries de TV de todos os tempos.

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Black Mirror - 3ª Temporada
Original:Black Mirror - Season 3
Ano:2016•País:EUA
Direção:Joe Wright, Dan Trachtenberg, James Watkins, Owen Harris, Jakob Verbruggen, James Hawes
Roteiro:Joe Wright, Dan Trachtenberg, James Watkins, Owen Harris, Jakob Verbruggen, James Hawes
Produção:Ian Hogan, Mary McCarthy, Sanne Wohlenberg, Lucy Dyke, Joanne Crowhter, Charlie Brooker, Annabel Jones, Laurie Borg
Elenco:Bryce Dallas Howard, Alice Eve, James Norton, Wyatt Russell, Hannah John-Kamen, Wunmi Mosaku, Alex Lawther, Jerome Flynn, Susannah Doyle, Gugu Mbatha-Raw, Mackenzie Davis, Denise Burse, Malachi Kirby, Michael Kelly, Madeline Brewer, Adriane Labed, Kelly Mcdonald, Faye Marsay, Benedict Wong

Criada por Charlie Brooker como uma crítica às consequências do uso exagerado da tecnologia pela sociedade moderna, a série de TV britânica Black Mirror começou discretamente. Inicialmente, contando com três episódios por temporada, a série foi exibida pelo Channel 4 em dezembro de 2011 e, dois anos depois, ganhou sua segunda temporada, que foi ao ar pelo mesmo canal em fevereiro de 2013. Com apenas seis capítulos exibidos ao longo de pouco mais de dois anos, a série caiu nas graças da crítica especializada e, embora com um status mais cult, público. O falatório em torno da série e de sua ácida visão sobre nosso futuro garantiu um especial de natal no ano seguinte, em dezembro de 2014.

Porém, os altos custos de investimento dificultavam o crescimento da série e seus longos intervalos entre uma temporada e outra deixavam os fãs angustiados sobre o futuro de Black Mirror. Já havia negociações sobre um remake americano rolando nos bastidores desde que a produtora de Robert Downey Jr. adquiriu os direitos para um longa baseado na série que, felizmente, nunca se concretizou. O futuro da melhor série sobre o futuro ainda era incerto até que, em meados de 2015, a série entrou para a grade da Netflix e, finalmente, teve um maior reconhecimento do público devido à qualidade indiscutível de suas tramas e a relevância de seus tamas. Depois disso, em pouco tempo, a Netflix anunciou que iria produzir com exclusividade uma terceira temporada da série.

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A terceira temporada de Black Mirror entrou na grade da Netflix no último dia 21 de outubro, dando continuidade ao formato original com episódios independentes passados em futuros não tão distantes mostrando como a tecnologia pode moldar e influenciar nossa realidade, com roteiros do criador da série, Charlie Brooker, e direção de nomes como Dan Trachtenberg (Rua Cloverfield 10) e James Watkins (A Mulher de Preto). A produção da série continuou impecável, com excelente fotografia e efeitos bastante elaborados para uma produção “televisiva”, criando uma realidade plausível e convincente. Há uma perceptível, embora pequena, queda na qualidade das temporadas anteriores para esta. Talvez nem tanto em questões de roteiro, mas nas mensagens presentes nos seis episódios desta terceira temporada de Black Mirror, mesmo que cada um deles traga um novo e fascinante olhar sobre nosso futuro e, pior ainda, sobre o nosso presente.

3×01 – Perdedor (Dir: Joe Wright)

A temporada começa com um Black Mirror clássico. Em um futuro não tão distante, onde as pessoas compartilham tudo o que acontece ao seu redor em busca de curtidas e elogios nas redes sociais, o número de likes define o peso de uma pessoa na sociedade, criando castas e atribuindo funções a cada um através do número de estrelas de seus perfis online. Isso gera uma sociedade padronizada, onde ninguém xinga ou se comporta mal para não perder suas curtidas. A fotografia quase onírica reforça a atmosfera de “Instagram” do episódio, tornando-o um dos melhores da série até agora.

3×02 – Versão de Testes (Dir: Dan Trachtenberg)

A proposta de Versão de Testes é interessante: um sujeito descola um trabalho em uma empresa de games para testar o jogo mais recente e extremo da companhia. Uma espécie de survival horror em VR onde todo o game é gerado através do subconsciente do jogador, usando seus maiores medos para compor o roteiro e ambientação da história. Porém o resultado é um episódio que mais parece um filme de horror genérico direto para home vídeo do que parte de Black Mirror. Uma oportunidade única de se discutir os limites da realidade virtual e até que ponto a mente humana está pronta para lidar com isso, mas o resultado não empolga.

3×03 – Cala a Boca e Dança (Dir.: James Watkins)

O terceiro episódio desta temporada é também o melhor e um dos mais pungentes da série até agora. Kenny (interpretado de maneira incrível por Alex Lawther) é chantageado por um grupo de hackers após ter um vídeo intimo gravado pela câmera de seu laptop, invadido por um malware, e terá que executar cada uma das tarefas passadas pelos hackers através de seu celular. Aos poucos vamos descobrindo uma rede de pessoas também chantageadas, cada uma lutando para manter seus podres escondidos, até a conclusão acachapante e pessimista ao melhor estilo Black Mirror. Cala Boca e Dança levanta uma indigesta discussão sobre a privacidade e os limites da internet onde todos agem sem as amarras do mundo real, no episódio mais realista e factível da temporada e, talvez por isso, o mais forte.

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3×04 – San Junipero (Dir.: Owen Harris)

Nem tudo é treva em Black Mirror e San Junipero consegue a façanha de fugir aos padrões da série ao entregar uma bela história de amor entre duas jovens passada nos anos 80 que, a princípio pode causar estranhamento por se tratar de uma série que debate a tecnologia, mas a delicada e comovente trama vai se revelando aos poucos para o telespectador que vai encaixando todas as peças do enigma. O resultado é um dos mais bonitos episódios da série em um debate que, embora a princípio possa parecer otimista, coloca em cheque questões sobre vida após a morte e a existência de um “lugar melhor”. Se pensarmos bem, não é tão otimista assim.

3×05 – Engenharia Reversa (Dir.: Jakob Verbruggen)

No futuro, os americanos estão envolvidos em uma longa guerra contra criaturas que eles chamam de “baratas”. A xenofobia, política higienista e o ódio irracional discutidos em Engenharia Reversa são temas bastante relevantes em tempos de Donald Thrump e Bolsonaro, mas o debate acaba sendo muito superficial e o episódio acaba com um “twist” previsível e pouco impactante. Este quinto episódio da terceira temporada de Black Mirror disputa com Versão de Testes o posto de pior episódio da temporada. A vantagem de Engenharia Reversa é que sua mensagem é um pouco mais forte do que a do capítulo dirigido por Dan Trachtenberg.

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3×06 – Odiados pela Nação (Dir.: James Hawes)

O maior episódio da série até agora, com quase uma hora e meia de duração, Odiados pela Nação é um dos melhores. A trama mais longa se sustenta durante todo o decorrer do episódio e o que se inicia como um debate sobre o ódio na internet e os haters passa aos poucos para um debate sobre a privacidade e a segurança na era dos drones e ainda sobra espaço para falarmos sobre ecologia. O roteiro é conciso e instigante, com Charlie Brooker se mostrando um excelente roteirista também ao trabalhar com tramas mais longas e complexas nesta história sobre uma série de assassinatos envolvendo pessoas marcadas nas redes sociais por seus haters para serem mortas em vinte e quatro horas. Uma ótima conclusão para esta terceira temporada, que vai deixar os fãs ansiosos por mais.

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Um pouco mais positiva do que suas antecessoras, a terceira temporada de Black Mirror mostrou a versatilidade de Charlie Brooker e atesta novamente o selo de qualidade Netflix que, novamente, produziu uma das melhores séries disponíveis na atualidade e, mesmo com uma notável queda na qualidade da série em comparação com suas temporadas anteriores, Black Mirror ainda é uma das melhores da TV de todos os tempos. Para os fãs de uma boa ironia, a tecnologia moderna agora é fundamental para que possamos acompanhar essa nova temporada de Black Mirror, mas a série não poupa esforços para esfregar na cara dos telespectadores o futuro negro que se aproxima caso não deixemos de um pouco de lado nossos celulares e tablets e voltemos a nos conectar entre nós mesmos.

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1 Comentário

  1. Tiago Ricardo Charão

    Discordei com relação a crítica. A terceira temporada é indiscutivelmente a melhor por apresentar três dos melhores e mais significantes episódios da série: “Nosedive”, “Shut up and dance” e “Hated in the Nation”.

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