Críticas, Televisão

O Nevoeiro – 1ª Temporada (2017)

Perguntas ficam no ar e dificultam uma visão clara dos acontecimentos: como conseguiram destruir um conceito tão rico e surpreendente?

O Nevoeiro - 1ª Temporada
Original:The Mist - Season One
Ano:2017•País:EUA
Direção:Guy Ferland, Nick Murphy, Adam Bernstein, David Boyd, James Hawes, Richard Laxton, Matthew Penn, T.J. Scott
Roteiro:Christian Torpe, Amanda Segel, Andrew Wilder, Peter Biegen, Noah Griffith, Peter Macmanus, Daniel Stewart, Daniel Talbott, Stephen King
Produção:Guy J. Louthan, Michael Mahoney, Peter Macmanus
Elenco:Morgan Spector, Alyssa Sutherland, Gus Birney, Danica Curcic, Okezie Morro, Luke Cosgrove, Darren Pettie, Russell Posner

Uma névoa de incerteza sempre paira sobre o espectador diante de uma nova adaptação de Stephen King. Por vezes, resultados desastrosos serviram de prova de que nem sempre seus textos possuem uma força narrativa suficiente para a transposição para a tela grande ou pequena. Com mais erros do que acertos, a dúvida até faz sentido, embora não impeça o público de conferir o trabalho, intrigado por uma possibilidade surpreendente. Só em 2017, há exemplos de adaptações boas e ruins, sem que a balança penda para um lado que possa determinar a tendência: se A Torre Negra foi considerada uma grande decepção, por outra perspectiva, há o fenomenal It – A Coisa e a boa aceitação à série Mr. Mercedes. E tem O Nevoeiro

Baseado num conto homônimo do autor, publicado na antologia Tripulação de Esqueletos, em 2007 foi feita uma adaptação incrível, sob a direção de Frank Darabont, conhecido por outros excelentes tratos no material original: Um Sonho de Liberdade (1994) e À Espera de um Milagre (1999). O resultado foi simplesmente impressionante, com uma narrativa muito similar ao texto original, contando com um elenco de rostos reconhecidos como o de Thomas Jane, Marcia Gay Harden e William Sadler. Claustrofobia e fanatismo religioso são a base de uma história de horror, com um dos finais mais trágicos do cinema fantástico, superando o que Stephen King imaginou em sua publicação.

Com a boa aceitação, houve boatos sobre a realização de continuações que apresentariam o mesmo fenômeno em outros lugares até o desenvolvimento de uma série de TV em 2016. Como o material é interessante, qualquer fã de terror e de Stephen King imaginava que não haveria como estragarem o produto, uma vez que o conto era a descrição completa de um enredo assustador e atmosférico. Mas, a inspiração se demonstrou sutil já nas primeiras imagens e trailers, que deixavam de lado os monstros para apresentar tensão e pessoas feridas digitalmente. Logo, os episódios confirmariam as expectativas baixas das prévias: The Mist não só descartou toda a essência do conto, como se transformou numa variável de The Walking Dead, mais próximo da pavorosa Under the Dome do que de bons tratos como A Tempestade do Século.

A série se inicia com um trágico incidente ocorrido em uma pequena cidade americana. A jovem Alex (Gus Birney), mesmo a contragosto de sua mãe super-protetora Eve (Alyssa Sutherland), consegue a permissão do pai, Kevin (Morgan Spector), para ir a uma festa adolescente em companhia do amigo Adrian (Russell Posner), com a perspectiva de se aproximar de seu interesse amoroso, o esportista Jay (Luke Cosgrove). Contudo, a menina não volta no horário combinado, e é encontrada chorando na porta de casa, dizendo que foi vítima de estupro do rapaz com quem pretendia se relacionar. Kevin vai à delegacia prestar uma denúncia, temeroso pelo fato do menino ser filho do policial Connor (Darren Pettie).

Enquanto ocorre o conflito familiar, com acusações envolvendo problemas do passado, um militar desmemoriado, Brian Hunt (Okezie Morro), invade a delegacia, com informações desconexas sob a aproximação de um nevoeiro que teria devorado seu cachorro. Ele é mantido sob custódia e é considerado insano, ficando próximo a uma outra prisioneira, a viciada Mia (Danica Curcic), que precisou assassinar um homem, quando estava tentando cavar algo em um celeiro. Toda essas conturbadas situações combinam com a chegada de uma densa névoa na cidade, gerando diversas mortes e a sensação de insegurança.

Assim, a narrativa divide a série em três núcleos: um composto por Kevin, Mia, Adrian e Brian, isolados numa delegacia – e depois pela cidade; outro, na igreja, com Connor, o padre Howard (Bill Carr) e a futura fanática religiosa Nathalie Raven (Frances Conroy); e, por fim, o que acontece no shopping, onde estão Alex, Eve, Jay e personagens que se destacarão como Kimi (Irene Bedard), o segurança Kyle (Romaine Waite), o gerente do shopping Gus (Isiah Whitlock Jr.) e o que trabalha na loja de games, Vic (Erik Knudsen). Os dois primeiros grupos ficam tentando encontrar meios de chegar ao shopping, tendo que enfrentar diversas situações típicas que acometem pessoas que se encontram presas: brigas, loucura e assassinato.

Embora o conceito original seja interessante, a série, desenvolvida por Christian Torpe, não se sustenta nos dez episódios, trazendo quase nada de empolgação além daqueles pequenos dramas e diálogos vazios, habituais no programa com zumbis. Há referências ao conto com a menção aos militares do projeto Ponta de Flecha, também explorado no filme de 2007, e a Primavera Negra, um episódio que aconteceu na mesma cidade em 1860 e foi considerado um castigo divino, como consequência de um crime – e que nos faz pensar como seria interessante um filme que abordasse esse período.

Nathalie deixa o lado cristão, e, após uma tentativa de caminhada no nevoeiro, e diz ter sido tocada por outra entidade, mais relacionada à Natureza e à mariposa. Então, a discussão religiosa está presente, principalmente no embate entre crenças, e na provação proposta pelo padre. E essas incertezas, no simbolismo do nevoeiro, também serão o foco das mentiras constantemente ditas pelos personagens, destacando a insanidade de alguns como justificativa de suas ações.

Assim, o nevoeiro perde aquela força monstruosa, com seres que homenageiam o universo de Lovecraft, para servir, realmente, como um castigo divino ou a expressão do que a pessoa teme, enquanto deixa no ar possibilidades sobre o envolvimento militar nas experiências – intensificado no final aberto, propondo uma segunda temporada. Perguntas ficam sem respostas, e o enredo, desenvolvido por Christian Torpe, não se sustenta como deveria na composição de uma série de dez capítulos.

É provável que The Mist não chegue a ter uma continuação, como aconteceu com outras séries compradas e exibidas na Netflix. É bom assim. Adaptações como esta e Under the Dome ferem a belíssima carreira de Stephen King e deveriam ser mantidas na obscuridade.

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6 Comentários

  1. BB

    O filme é muito bom e tem um dos melhores finais para um filme de Terror de todos que já vi. A série, pelos comentários que li, nem vou começar a ver…

  2. Eliezer

    Os atores realmente são ruins. A esposa e a filha do protagonista são péssimas, de causar vergonha alheia. A Frances Conroy é uma exceção, mas o restante não ajuda. Algumas mortes são chocantes, mas outras, que deveriam causar mais impacto, são tolas. Uma pena que desperdiçaram um material tão bom.

  3. Vini

    Caramba, eu fiquei muito puto com essa série e como eles conseguiram pegar um conto e um filme que eu tanto gosto e deixaram altamente sem charme. No Omelete deram acho q 4 estrelas e eu fiquei me perguntando se a pessoa tinha visto os mesmos 10 episódios que eu vi. Nada de monstros lovecraftianos, uma Névoa que parece pensar, mortes toscas, situações ridículas e trocar a fanática religiosa por uma…O que? Uma Vegan fanática? Tudo muito ruim, personagens principais que são difíceis de vc gostar – Acho que o personagem que eu mais cheguei a dizer “po, espero que não morra” foi o Vic – Mas putz, os protagonistas são muito chatos.

  4. Henrique

    Duas estrelas! Foi muito generoso, Marcelo. Série ruim demais! Como conseguiram errar com uma história com tantos elementos interessantes? Atores fracos, alguns péssimos (aquela atriz que faz a filha, Jesus!). Personagens chatos, mal desenvolvidos, que agem como babacas em situações completamente inverossímeis. As pessoas ficam alguns dias confinadas e já começam a agir como um bando de psicopatas. Nada convence nessa série, tudo parece forçado. E pra fechar com chave de ouro: NÃO TEM MONSTROS!! Decepção total! Melhor reler o conto ou rever o filme e ignorar essa porcaria.

  5. Guilherme

    Infelizmente a série ficou muito fraca. Concordo com o comentário anterior sobre os personagens, muito vazios, sem graça. Lembrando (que na mina opinião) o filme é muito bom e o final eu achei melhor que o do conto.

  6. Marcus Matheus

    essa série é um lixo… efeitos toscos e péssimos atores, vc não consegue ter empatia com nenhum deles, parei no ep 4

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