Viagem Maldita X Quadrilha de Sádicos

Viagem Maldita X Quadrilha de Sádicos
(Atenção: contém spoilers sobre Quadrilha de Sádicos e Viagem Maldita)

FICOU MELHOR
– A origem dos mutantes é mais plausível neste remake do que no original. Para quem não lembra, em Quadrilha de Sádicos os vilões eram todos crias do gigantesco Júpiter, o filho deformado e grotesco do dono do posto de gasolina. Quando o frentista cansou das maldades de Júpiter (que inclusive incendiou sua casa, matando a irmã), tentou arrebentar a fuça do próprio filho com uma barra de ferro e abandonou-o no deserto, onde ele criou sua própria família numa caverna. Graças aos testes nucleares na área, Júpiter e uma puta barata tiveram filhos deformados, que passaram a saquear os turistas que passavam pelas redondezas. Em Viagem Maldita, o clã surge a partir de uma família de mineradores que se recusa a abandonar a área de testes nucleares no deserto do Novo México (um deles, aparentemente, é o tal frentista do posto de gasolina). Quando os filhos destes mineradores passaram a nascer deformados, devido à radiação, o clã começou a viver escondido nas casas de uma cidade-fantasma usada pelo Exército para os testes, matando os turistas que passam por ali.

– O frentista não é flor que se cheire em Viagem Maldita. Se no original ele era um coitado que não concordava com a matança perpetrada pelos canibais, e já estava preparado para se mandar da região quando os Carter chegaram no seu posto, no remake o sujeito é um filho da puta que está de parceirada com os vilões, indicando o “atalho” direto para o covil dos monstros a todos os turistas que passam pelo seu estabelecimento. Em troca, recebe parte do saque dos veículos. Em Quadrilha de Sádicos, o frentista tenta se suicidar por não tolerar mais a situação e é salvo por Big Bob Carter, sendo posteriormente morto pelo próprio filho, Júpiter. Em Viagem Maldita, o frentista explode a própria fuça com um tiro de escopeta, talvez arrependido por ter mandado os Carter para morrer, e nunca fica claro se ele é pai de Júpiter ou não.

Quadrilha de Sádicos podia até ser um filme violento em 1977, mas com o tempo virou mais um filme tenso do que propriamente um filme sangrento. O mesmo não acontece com Viagem Maldita, que é excessivamente violento do início ao fim, mostrando mutilações on-screen, golpes de machado, cabeças explodidas, dedos decepados, tirambaços no pescoço e por aí vai. Além disso, a maioria dos personagens principais passa o segundo ato cobertos de sangue, dos pés à cabeça. E todo mundo sofre, tanto os que morrem quanto os que ficam vivos – é só lembrar que Doug, ao contrário do que acontecia no original, além de apanhar feito cachorro, ainda tem dois dedos decepados com uma machadada!

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Wes Craven tem uma fixação mal-explicada por armadilhas (elas aparecem não só em Quadrilha de Sádicos, mas também em Last House on the Left, Quadrilha de Sádicos 2, A Hora do Pesadelo, Pânico e por aí vai). Embora Aja tenha mantido a clássica armadilha dos palitos de fósforo na porta do trailer, existente também no original, ele felizmente deixou de fora uma cena pavorosa de Quadrilha de Sádicos, onde Júpiter cometia a improvável cagada de pisar exatamente dentro do laço de uma armadilha preparada por Bobby e Brenda – e, naquela enorme extensão de deserto, o cara pisar EXATAMENTE no local onde havia uma armadilha escondida é muito azar (ou muita sorte, no caso dos heróis)!!! Tudo bem que, em Viagem Maldita, Bobby perde um tempão fazendo um rudimentar sistema de alarme com fio de náilon, que na prática não serve para nada… Mas está valendo!

– É diferente você ver atores conhecidos nos papéis principais e secundários do que o bando de desconhecidos que participava do original. Ajuda, por exemplo, colocar Ted Levine e Kathleen Quinlan como as primeiras vítimas, pois ambos passam uma imagem de simpatia e o espectador chega a se sentir frustrado quando eles morrem. Ao mesmo tempo, é legal ver Billy Drago no papel de Júpiter (embora ele apareça muito pouco e o personagem tenha sido mal-desenvolvido em relação ao original) e Robert Joy, pavoroso como Lizard (a maquiagem do seu lábio leporino é surpreendente!).

– No papel de Bobby Carter, Dan Byrd, com seus 21 anos de idade, convence muito mais que Robert Houston no original. Ele interpreta o caçula dos Carter com um misto de medo pela situação violenta e o pavio curto e rebeldia típicos dos jovens modernos – tanto que, após o ataque ao trailer, solta um “Isso não vai sair barato!“, mostrando-se muito mais propenso à vingança do que o próprio Doug.

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– Doug, no original, era interpretado pelo apagado Martin Speer. O roteiro do remake salienta o fato de Doug ser um bunda-mole transformado em assassino casca-grossa por força da situação, e o personagem é muito melhor trabalhado (principalmente nas suas “tendências pacifistas” no primeiro ato). Também é bom lembrar que, em Quadrilha de Sádicos, Doug matava só um dos mutantes, e ainda por cima precisava da ajuda de Ruby para conseguir dar cabo do vilão; já em Viagem Maldita, é só o cara sentir o gostinho de sangue que se torna um psicopata praticamente incontrolável, dando cabo de três dos principais mutantes! Se fosse uma competição de macheza, o Doug versão 2006 faria o Doug de 1977 mijar nas calças de medo…

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– O canibalismo é muito mais explícito em Viagem Maldita do que em Quadrilha de Sádicos. Embora o original tenha uma cena muito interessante não-aproveitada no remake – Júpiter conversando com a cabeça carbonizada e decepada de Big Bob, enquanto saboreia nacos de carne do pobre coitado -, havia bem pouco canibalismo on-screen. Já Viagem Maldita atira carne humana praticamente na fuça do espectador: além de mostrar Doug aprisionado num freezer repleto de pedaços de gente cortados como carne de açougue, o novo filme ainda inclui uma nauseante cena em que Júpiter arranca os órgãos internos da falecida Ethel para um lanchinho rápido!

– O ataque ao trailer ficou ainda mais selvagem e violento no remake. O estupro de Brenda é consumado em cortes rápidos (no original de Craven nada aparecia, ficando subentendida a violência que a garotinha sofria); Lizard ainda abusa rapidamente de Lynn, ameaçando o seu bebê com um revólver. A cena em que ele devora um pássaro que estava na gaiola continua marcante nas duas versões, mas a matança perpetrada por Lizard quando Lynn e Ethel chegam ao trailer ficou mais sangrenta e covarde. Além de tudo, a câmera de Aja não tem pressa em livrar o espectador do tormento: com quase 10 minutos de duração, o ataque ao trailer em Viagem Maldita é bem mais longo e gráfico do que em Quadrilha de Sádicos.

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FICOU PIOR
– A conclusão de Quadrilha de Sádicos era curta e grossa: quando os Carter perdiam sua humanidade e desciam ao nível dos agressores, matando-os violentamente, a tela ficava vermelha e entravam os créditos finais. Simples assim: não havia tempo para reconciliações, música heróica ou explicações de como os “heróis” sairiam daquele vasto deserto; ficava, isso sim, uma sensação de desesperança, de que os sobreviventes, mesmo tendo escapado, ficariam brutalmente traumatizados e jamais se tornariam “normais” novamente. Neste sentido, o desfecho de Viagem Maldita é erroneamente convencional e hipócrita: encena não só o reencontro triunfante de Doug e seu bebê com Bobby e Brenda – num abraço apertado de “Agora tudo está bem!” -, mas ainda vem com aquele eterno clichê de que “o pesadelo não acabou“, quando ficamos sabendo que eles estão sendo observados por outros mutantes e que dificilmente sairão vivos dali…

– Os laços familiares entre os canibais eram muito melhor trabalhados em Quadrilha de Sádicos. Basicamente, havia uma estrutura patriarcal liderada pelo Papai Júpiter (James Whitworth), que comandava o clã formado pelos filhos Mars (Lance Gordon), Pluto (Michael Berryman), Mercury (Peter Locke) e Ruby (Janus Blythe). Em várias cenas, a “família unida” ficava bem evidente, inclusive com cenas na caverna onde os vilões viviam – e mais ênfase no sistema de comunicação deles por walkie-talkies. Ao mesmo tempo, é Júpiter, como bom pai e chefe do clã, quem lidera o ataque final dos seus filhos ao trailer, na parte final do filme. Em Viagem Maldita, embora existam evidências de que todos os mutantes sejam parentes, não há uma estrutura familiar bem definida. Júpiter (Billy Drago) aparece apenas em duas cenas e nunca ficamos sabendo se ele é pai, tio ou irmão de todos os outros; o grande destaque vai para Lizard (Robert Joy, na versão 2006 do Mars do filme original) e Pluto (Michael Bailey Smith), com pequenas aparições de Ruby (Laura Ortiz) e de “novos” vilões: Goggle (Ezra Buzzington), Big Brain (Desmond Askew) e Cyst (Greg Nicotero), que não chegam a ter tempo de cena suficiente para fazer diferença.

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– Apesar de Pluto e Mars comandarem a matança em Quadrilha de Sádicos, o grande vilão era o Papai Júpiter, que organizava todas as ações dos rebentos. Com uma enorme cicatriz no rosto, que dividia seu nariz em dois, o Júpiter de 1977 era um grandalhão selvagem e assustador, que chegava a matar violentamente o próprio pai (o frentista do posto de gasolina), mas tinha inteligência suficiente para conceber planos de ataque e para dar discursos tentando justificar seus atos. Neste aspecto, dá dez a zero no Júpiter versão 2006, que só aparece rapidamente no meio do filme, quando aprisiona Big Bob, e no final, quando aparece fazendo um lanchinho e é rapidamente despachado por Bobby e Brenda. Não chega a falar nada, apenas rosna como um animal, e nem de longe lembra o vilão calculista e ameaçador do original. O fato de ser ou não a figura patriarcal do clã também não é esclarecido no remake.

– O destino de Ruby em Viagem Maldita é bastante inverossímil. Embora no original ela também tenha se voltado contra a sua família, ajudando Doug a salvar seu bebê e até atacando o próprio irmão Mars, é um tanto inconcebível a maneira como a Ruby do remake se sacrifica para matar Lizard (ambos caem de um penhasco e morrem abraçados) e assim salvar dois completos desconhecidos (Doug e seu bebê). No original, Ruby tinha visivelmente suas segundas intenções em ajudar os Carter – afinal, sonhava em deixar o deserto e viver no “mundo civilizado“. No remake, o sacrifício da menininha não convence em momento algum, até porque os Carter provavelmente não pensariam duas vezes em matá-la como aos seus irmãos caso ela não tivesse ajudado a salvar o bebê…

– A maquiagem dos vilões em Viagem Maldita é muito exagerada, chegando a ser engraçada até. Quadrilha de Sádicos usava, basicamente, atores muito feios (especialmente Michael Berryman no papel de Pluto) e um pouquinho de maquiagem (dentaduras postiças, o corte na fuça de Júpiter). No remake, os mutantes são mutantes MESMO, lembrando mais criaturas monstruosas fugidas do set de Pânico na Floresta. Já perdi a conta de quantas piadinhas li na internet comparando o novo Pluto ao Sloth do filme Os Goonies, e realmente um é a fuça do outro, o que tira um pouco do impacto. Lizard e Júpiter são os menos grosseiros em cena, já que acabaram representados como pessoas normais “enfeiadas“; já Goggle, Big Brain e Cyst, e até mesmo Ruby, aparecem como monstruosidades, e as toneladas de maquiagem nem sempre convencem, tornando os personagens muito exagerados. Claro que seria “politicamente incorreto” usar atores com defeitos de nascença (como Berryman) nos tempos atuais, mas bem que os maquiadores podiam ter se segurado um pouquinho na hora de criar o visual dos vilões!

Viagem Maldita (2006) (4)

PLACAR FINAL: Viagem Maldita 9 x 5 Quadrilha de Sádicos

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Felipe M. Guerra

Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga "Entrei em Pânico...", entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

7 comentários em “Viagem Maldita X Quadrilha de Sádicos

  • 23/09/2014 em 16:58
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    Last House on the Left pode até ser o filme mais brutal que o Craven já dirigiu, mas está longe de ser seu trabalho mais famoso como o sempre exagerado Felipe Guerra afirma no texto.

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  • 22/09/2014 em 23:27
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    Discordo radicalmente do Felipe quando diz que The Hills Have Eyes e Hostel foram os 2 maiores filmes de horror lançados por aqui no ano de 2006! São dois ótimos filmes, com certeza, mas The Descent foi inquestionavelmente a maior produção do gênero lançada naquele ano.

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  • 14/09/2014 em 16:05
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    Realmente The Hills Have Eyes é o único filme que o remake é bem melhor que o original. Um dos meus filmes favoritos com certeza.

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  • 26/07/2014 em 06:54
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    Apesar de ser um remake de um classico e tao bom quanto.

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  • 13/03/2014 em 17:36
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    apesar do primeiro ser ótimo,o remake supera.

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  • 09/03/2014 em 15:59
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    Show de bola amo Viagem Maldita!!!!!!!!

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