O Dragão Vermelho Ataca Duas Vezes

O FBI está com uma batata quente nas mãos: um misterioso assassino, que ataca de acordo com o ciclo lunar, está exterminando famílias inteiras com requintes de crueldade. Marido, esposa e crianças são executados brutalmente a tiros e facadas, e o psicopata ainda quebra todos os espelhos da casa, colocando seus cacos sobre os olhos mortos das vítimas.

Quando duas famílias são mortas em cidades diferentes, o chefe do FBI Jack Crawford resolve apelar a um de seus melhores agentes, Will Graham, que tem um histórico brilhante na identificação e captura de serial killers. Foi ele o responsável pela prisão do dr. Hannibal Lecter, um psicopata canibal perigosíssimo que matou nove pessoas.

O problema: traumatizado por quase ter sido morto por Lecter ao prendê-lo, Graham deixou o FBI para tratar de problemas psiquiátricos e para cuidar da família, morando no litoral, onde conserta barcos. O pedido de Crawford comove o ex-agente, que resolve voltar à ativa e tentar identificar o assassino antes da próxima lua cheia, quando ele irá matar outra família.

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A polícia e a imprensa chamam o serial killer de “Fada dos Dentes“, ao descobrirem que ele usa uma monstruosa dentadura para morder suas vítimas antes de matá-las. Preocupado com a falta de pistas e sem inspiração para “sentir” a personalidade do assassino, Will Graham resolve recorrer ao aprisionado dr. Lecter e tentar traçar um perfil da “Fada dos Dentes“, tentando aprisioná-lo antes que seja tarde demais.

Louco de vingança, Lecter finge ajudar o agente, quando na verdade faz jogo duplo, incentivando a “Fada dos Dentes” a matar a família de Graham.

Enquanto isso, o que o FBI não desconfia é que a tal “Fada dos Dentes” é Francis Dolarhyde, uma pessoal “normal“, que trabalha em um estúdio de revelação de fotos e filmes – onde escolhe suas vítimas. Abusado pela avó durante a sua infância, Dolarhyde cresceu traumatizado e criou uma segunda personalidade: ele acredita estar possuído pelo “Dragão Vermelho“, monstrengo pintado em uma tela de William Blake. E também acredita que a única forma de transformar-se no Dragão Vermelho é executar famílias inteiras (ou “transformá-las“, no seu entender).

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Só que Dolarhyde irá travar um verdadeiro confronto psicológico com o Dragão Vermelho quando se apaixona por Reba McClane, uma garota cega que trabalha no mesmo laboratório. Ele quer ficar com Reba, mas o Dragão quer matá-la. Conseguirá o agente Graham descobrir a identidade do assassino antes que o Dragão Vermelho force Dolarhyde a matar novamente?

Esta é a trama de “Red Dragon“, ou “Dragão Vermelho“, livro escrito pelo americano Thomas Harris em 1981. Anos depois (uma década, para ser mais exato), este livro se tornaria famoso por ser a primeira aparição literária do famoso assassino Hannibal “The Cannibal” Lecter, que tornou-se um ídolo popular após o estrondoso sucesso de O Silêncio dos Inocentes (livro e filme), em 1991.

Dragão Vermelho voltou às telas com este mesmo nome, em um filme dirigido por Brett Ratner, com Anthony Hopkins no papel de Hannibal e mais um grande elenco. O que pouca gente sabe é que muitos anos antes alguém já tinha dirigido uma versão de “Red Dragon“, rebatizada como Manhunter, numa época onde ninguém imaginava que o dr. Hannibal Lecter se tornaria um dos vilões mais famosos do mundo.

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O motivo pelo qual escrevi este extenso artigo é um só: apresentar ao leitor interessado nas aventuras de Hannibal Lecter as diferenças e semelhanças entre as duas versões de “Red Dragon“, a primeira feita em 1986 e a segunda em 2002. Muitos anos separam os dois filmes, o que contribui para enormes mudanças na própria forma de fazer cinema.

Para escrever este artigo, foi necessário reler o romance “Red Dragon” de Thomas Harris. Assim descobri que em alguns momentos Dragão Vermelho é mais fiel ao livro, mas em outros é Manhunter que tem maior fidelidade às ideias do autor. Mas o que mais chama a atenção é a péssima tradução da Editora Record, que lançou “Red Dragon” no Brasil: eles traduziram “Tooth Fairy“, ou seja, “Fada dos Dentes“, que é o apelido do assassino, para “Gay Dentuço“!!!! Acredite se quiser!!!! Toda santa vez que alguém se refere ao assassino no livro, este alguém se refere a ele como sendo “Gay Dentuço“!!!! Pobre Francis Dolarhyde.

Acompanhe, agora, uma alucinante viagem pelo universo das duas adaptações de “Red Dragon“. Se você ainda não viu os filmes, cuidado: há muitos spoilers, inclusive informações detalhadas sobre os finais dos dois filmes. Ainda está aqui? Ótimo, então vamos lá:

Um livro, dois filmes

Corria o ano de 1986. O diretor americano Michael Mann, nesta época, andava em alta graças ao sucesso da série “Miami Vice“, que produzia e até dirigiu vários episódios. Foi quando parou em suas mãos o roteiro de um filme chamado Red Dragon, baseado em um romance homônimo escrito por Thomas Harris em 1981. Não era um best-seller, mas a trama interessou Mann pelos seus conflitos psicológicos e pela trama de suspense. Só o nome Dragão Vermelho, que podia associá-lo a uma produção de artes marciais, foi descartado e virou Manhunter, algo como “Caçador de Homens” em tradução literal. Bem pouco chamativo, não é mesmo? E realmente pouca gente se interessou por Manhunter quando o filme estreou em 86. O tal suspense psicológico de Michael Mann foi botado para escanteio e injustamente esquecido.

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Um pequeno salto no tempo: o ano é 1991 e um diretor um tanto quanto novato, chamado Jonathan Demme, que chamava a atenção com obras malucas como De Caso com a Máfia e Totalmente Selvagem, apresentou oficialmente ao mundo o psiquiatra canibal dr. Hannibal Lecter. O filme era O Silêncio dos Inocentes, baseado em “Silence of the Lambs” (que quer dizer “O Silêncio das Ovelhas“), este sim um best-seller escrito pelo mesmo Thomas Harris de “Red Dragon“. Filme e livro fizeram muito sucesso.

Historicamente, O Silêncio dos Inocentes ainda teve o feito de levar um gênero um tanto indigesto (suspense tétrico, com tons de sadismo e violência explícita) a um grande público, graças à direção de Demme, que soube manter a atenção do público sem apelar para banhos de sangue. Resultado: mesmo sendo um “filme de terror“, ganhou cinco Oscars. E transformou Hannibal Lecter de vilão em herói.

Thomas Harris podia muito bem ter aproveitado seus milhões de dólares ao invés de escrever “Hannibal“, a terceira aventura com o personagem, em 1999. Neste mesmo ano, o livro também virou best-seller, mas a reação do público não foi das melhores: ele chegou a entrar nas listas de piores livros daquele ano. “Hannibal” é mesmo uma caca, uma porcaria que faz de tudo para transformar Hannibal Lecter em um personagem simpático, e ainda termina com o vilão e a mocinha Clarice Starling enamorados!

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Hannibal” foi adaptado para o cinema por Ridley Scott, outro que podia ter se poupado de pagar este mico. Um horror de filme, muito violento, sem qualquer sutileza e expurgado de cenas de indescritível mau gosto, como forçar uma das vítimas a comer o próprio cérebro. Pelo menos mudaram o horrendo final da história original.

Podia ser um ponto final, mas os produtores sabiam que o dr. Hannibal Lecter ainda tinha potencial para render mais uns milhões. Ao invés de esperarem Thomas Harris escrever um quarto livro com o personagem, resolveram dar sinal verde para uma refilmagem de Manhunter, agora sim com o seu nome original, Red Dragon, ou Dragão Vermelho. Brett Ratner, vindo de filmes leves como A Hora do Rush e Um Homem de Família, topou o desafio e entregou um filme muito melhor do que muito profissional anda fazendo – é só comparar com o próprio Hannibal, do “veterano Ridley Scott. A estreia do filme foi um estrondoso sucesso e uma bela aceitação tanto da crítica quanto do público, levantando uma curiosidade quanto a Manhunter, o filme original.

Ninguém deu bola para o filme quando ele foi lançado no Brasil, no comecinho dos anos 90, pela VTI Home Vídeo, já com o nome Dragão Vermelho. Mas vale a pena assistir às duas versões, pois ambas se revelam filmes bastante diferentes, com erros e acertos, mas muita inventividade e, principalmente, estilos diferentes de dirigir as cenas.

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Diferenças claras

O que mais chama a atenção na comparação entre Manhunter e Dragão Vermelho é o tempo que distancia um filme do outro, nada mais nada menos de 16 anos. Nestes 16 anos, o dr. Hannibal Lecter virou ídolo de uma multidão de leitores e um dos vilões mais cultuados do cinema. Mas em 1986 ninguém nunca tinha ouvido falar do tal Hannibal Lecter, a não ser os poucos leitores do romance de Thomas Harris.

Em “Dragão Vermelho“, o romance, Hannibal Lecter é um personagem secundário da trama. O confronto principal acontece entre o agente do FBI Will Graham e um piscopata assassino de famílias inteiras, apelidado de “Fada dos Dentes” pelos tabloides. O dr. Hannibal Lecter aparecia para ajudar Graham a traçar a personalidade do assassino e conseguir agarrá-lo. O problema: Lecter foi preso por Graham, e ao invés de ajudá-lo, como fez com Clarice Starling no posterior O Silêncio dos Inocentes, o vilão quer mesmo é ferrar com a vida do mocinho.

Fiel ao romance, Manhunter tem duas únicas cenas mostrando Hannibal Lecter, embora fale-se seu nome praticamente durante o filme inteiro. Já em Dragão Vermelho o personagem aparece bem mais. Na história de Thomas Harris, Will Graham visita Hannibal Lecter em sua prisão uma única vez. Em Dragão Vermelho, resolveram colocar muito mais visitas, para que o personagem imortalizado por Anthony Hopkins pudesse aparecer muito mais.

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O Hannibal Lecter original, interpretado por Brian Cox (e chamado Hannibal LECKTOR), era um personagem de pouco carisma e nem um pouco assustador. Cox não conseguiu assustar o espectador apenas com o olhar, como fez Hopkins em O Silêncio dos Inocentes. E as particularidades canibalísticas do vilão nem ao menos são citadas em Manhunter. O espectador recebe poucas informações sobre o personagem no filme, sabendo apenas que ele é um assassino muito perigoso.

Manhunter e Dragão Vermelho começam de forma diferente. Em 1986, Michael Mann iniciou seu filme com uma tomada de câmera em terceira pessoa (como se o espectador visse o que estava sendo filmado por uma terceira pessoa), que sobe uma escada iluminando a escuridão até chegar a um quarto onde um casal dorme. A esposa acorda. Entram os créditos de abertura. Assim, Francis Dolarhyde, o Dragão Vermelho do filme, começa sua participação na trama.

Já em Dragão Vermelho, há um prólogo mostrando a prisão de Hannibal Lecter, que são apenas citadas no filme original e no livro. Talvez o roteirista Ted Tally quisesse começar o filme já com uma sequência violenta e de impacto. Nela, o agente Will Graham investiga assassinatos pedindo ajuda ao dr. Hannibal Lecter em seu consultório. Ele descobre que o assassino é o próprio psiquiatra ao examinar um livro de receitas, mas acaba apunhalado no peito pelo vilão. Quando tudo parece perdido, Graham consegue crava uma flecha entre as costelas de Lecter e ainda abatê-lo com vários tiros. Entram os créditos, com manchetes de jornais apresentando o julgamento e prisão do dr. Lecter.

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Em Manhunter, a prisão de Lecter é narrada por Graham ao seu filho em uma cena inexistente na refilmagem. Ele explica que foi visitar Lecter em busca de pistas e encontrou um livro sobre ferimentos de guerra. Neste momento, sentiu um estalo e percebeu que o Lecter era o assassino. Ele então saiu do consultório para ir pedir ajuda em um telefone público, pois estava desarmado, e foi então atingido quase que mortalmente por Hannibal Lecter. Esta versão de “Manhunter” é mais fiel ao romance de Thomas Harris, onde a prisão de Lecter é narrada desta mesma forma.

Após os créditos, os dois filmes começam a ficar parecidos. Em ambos, o chefe do FBI Jack Crawford (Dennis Farina em Manhunter e Harvey Keitel em Dragão Vermelho) tenta tirar o ex-agente Will Graham (William L. Petersen em 1986, Edward Norton em 2002) da aposentadoria. Ele vive com a família à beira do mar, onde conserta barcos. A diferença é que em Dragão Vermelho, graças ao prólogo, o espectador já sabe que Graham resolveu largar o FBI depois do violento e quase mortal ataque de Lecter. Em Manhunter e no livro, esta informação é apresentada somente mais tarde.

Pessoalmente, prefiro Petersen do que Norton na pele de Will Graham. Edward Norton é um bom ator, mas, na minha opinião, não conseguiu passar uma imagem de veterano agente do FBI, já que é muito jovem para o papel. E no livro Graham é um personagem amargurado, perdido entre a bondade e a maldade, a um passo de pegar o gosto por matar. Estes problemas psicológicos foram totalmente esquecidos em Dragão Vermelho, onde Graham é o mocinho bonzinho e pronto. Mas em Manhunter o personagem foi apresentado com muito mais fidelidade.

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No livro, ficamos sabendo que Graham acabou internado para tratamento psiquiátrico após a prisão de Lecter e também pelo choque provocado em uma ação onde foi obrigado a matar um outro psicopata, chamado Garret Jacobs Hobbs. Em Manhunter, na mesma conversa com seu filho em que narra a prisão de Lecter, Will conta porque ficou internado: “Eu não conseguia esquecer os pensamentos de Lecktor. E eram os pensamentos mais feios do mundo“. Este conflito interno de Will Graham também é mostrado em uma cena forte do livro que foi aproveitada nos dois filmes: quando o agente visita o canibal, este pede: “Como você acha que conseguiu me prender?“.

Will responde: “Você estava em desvantagem, você é louco“, ao que Lecter responde: “Não Will, nós dois somos iguais“. Pena que Dragão Vermelho não tenha aprofundado os problemas psiquiátricos do herói, que se torna bem mais amargurado e interessante em Manhunter.

Curioso também é como os filmes mostram o primeiro encontro de Will Graham com o jornalista sensacionalista Freddy Lounds (interpretado por Stephen Lang em 1986 e por Phillip Seymour Hoffman na versão mais recente). Graham tem raiva do jornalista por causa de uma foto tirada quando este se recuperava da facada que levou de Lecter. No livro o encontro é rápido e Will agride o jornalista apenas verbalmente. Em Manhunter, que mostra um herói mais amargurado e violento, Lounds apanha feio quando o agente do FBI o agarra, atirando-o sobre um carro estacionado e quebrando o pára-brisa com o impacto. Cena exagerada, que ficou melhor em Dragão Vermelho, quando Graham encosta Lounds na parede ameaçando uma surra, mas é impedido por Crawford.

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Se em Dragão Vermelho Hannibal Lecter é um personagem de destaque que aparece desde o começo do filme, em Manhunter o assassino Hannibal Lecktor só vai surgir após 20 minutos de fita rolando, quando Graham vai visitá-lo no manicômio. Esqueça a famosa cela de O Silêncio dos Inocentes: em Manhunter o doutor está confinado em uma cela normal com grades e suas paredes não estão repletas de desenhos feitos pelo erudito assassino. Detalhe: em nenhum momento durante os 120 minutos de Manhunter é feita alguma citação ao canibalismo do dr. Lecter. Sabe-se, apenas, que ele é um perigoso e frio assassino, mas seus gostos culinários peculiares não foram aproveitados pelo roteirista do filme de 1986.

Outra cena significativamente diferente tanto no livro quanto nos dois filmes é o telefonema que o dr. Lecter dá do próprio manicômio para descobrir o endereço de Will Graham, informação transmitida à “Fada dos Dentes“. No livro, o vilão precisa enfiar os dedos pelas malhas da rede de nylon que existe na sua cela para discar, já que não há teclas no aparelho. Em Manhunter, o vilão dá uma de McGyver (lembram do seriado Profissão Perigo???): ele abre o telefone, usa o papel de alumínio de um chiclete para provocar um curto-circuito no aparelho e assim conseguir uma ligação externa para uma telefonista (o telefone não tem teclas). Ele então diz que não tem os braços e pede para que ela faça a ligação. Descontando o exagero de transformar Hannibal em mestre da eletrônica – e o que um assassino serial está fazendo com chicletes numa prisão de segurança máxima?? -, a solução de Manhunter é mais inteligente do que a de Dragão Vermelho, onde Lecter bate no fone do aparelho o número que pretende ligar, um truque tão antigo e primário que chega a ser risível nenhum guarda ou oficial pelo menos suspeitar que o vilão poderia utilizá-lo. Ainda mais considerando toda a segurança que envolve a cela de Lecter.

Manhunter tem uma cena muito interessante que não existe no livro e nem em Dragão Vermelho: quando se desloca de avião para uma das cenas de crime, Graham pendura nos fundos do assento à sua frente as fotos das famílias Leads e Jacobi. Em seguida, abre a pasta e examina alguns relatórios, mas logo pega no sono. Ele acorda com o choro assustado da menina sentada ao seu lado, pois a pasta se abriu enquanto o agente dormia, espalhando as horripilantes fotos das vítimas mortas pela “Fada dos Dentes“, com espelhos enfiados nos olhos.

Outro detalhe mal aproveitado em Dragão Vermelho, mas que está em Manhunter, é quando Graham descobre uma impressão digital parcial no olho de uma das vítimas da família Leads. Em Dragão Vermelho a descoberta fica nisso e não se fala mais na tal da impressão digital, um furo enorme do roteiro. Tanto no livro quando em Manhunter, Will fica pressionando o laboratório a toda hora pedindo se conseguiram alguma identificação por meio da impressão digital, ação que, no fim, se revela infrutífera, pois a impressão não estava nos arquivos do FBI.

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A armadilha feita pelo FBI usando Will Graham como isca para a “Fada dos Dentes“, graças a uma matéria difamatória publicada no jornal Tattler pelo jornalista Lounds, também sofreu substanciais mudanças de uma versão para a outra. No livro, Graham recebe uma ligação de um homem misterioso que fala sobre os assassinatos dos Leads e dos Jacobi. A ligação é rastreada e descobre-se que o homem não era a “Fada dos Dentes“, mas sim o próprio Lounds, com um modificador de voz, tentando descobrir alguma informação secreta do FBI para as suas reportagens. Para não se encrencar, ele aceita em levar adiante o plano de Graham, publicando uma matéria onde diz que a “Fada dos Dentes” é homossexual. Esta reportagem assinaria o destino do jornalista, que se torna a próxima vítima do assassino.

Em Manhunter Lounds não apronta nada: ele é procurado pelo FBI sem saber que aquilo é tudo uma grande farsa. Lounds acredita estar fazendo uma reportagem real com Graham, e ainda insiste para sair posando ao lado do agente do FBI na foto para a capa do “Tattler“. Já em Dragão Vermelho, Lounds é preso por usar uma identidade falsa do FBI para tentar conseguir fotos das autópsias das vítimas da “Fada dos Dentes“, Encrencado, resolve publicar a matéria falsa para não ser preso.

A estas alturas da história, Manhunter já está nos 60 minutos. É quando acontece a primeira aparição da “Fada dos Dentes“, para a tortura de Lounds. Ou seja, o grande vilão da história só aparece depois de uma hora de filme (descontando o início, onde ele nem aparece)! A primeira parte do filme é preenchida com muitas cenas familiares que existem no livro mas foram simplesmente descartadas em Dragão Vermelho. Inclui-se aí a conversa de Graham com o filho, explicando seus problemas psiquiátricos. Em Dragão Vermelho não tem lenga-lenga e a “Fada dos Dentes” aparece praticamente desde o começo, quando cola recortes da prisão de Hannibal Lecter em seu enorme diário, e ao longo de algumas cenas, fazendo halterofilismo e chamando pela avó morta – típica coisa de serial killer de filme americano.

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A tortura do jornalista é mais violenta em Dragão Vermelho, quando o assassino coloca a tenebrosa dentadura que pertenceu à sua avó e arranca os lábios de Lounds, cuspindo-os no chão. Em Manhunter, a cena termina quando o assassino começa a “beijar” o jornalista, e então só se escutam gritos abafados. Nos dois casos, e também no livro, Lounds termina seus dias queimado vivo em uma cadeira-de-rodas jogada do furgão do assassino para a frente do prédio do “Tattler“. A diferença é que, no livro, Lounds não morre imediatamente: ele ainda recebe a visita de Graham na Unidade de Tratamento Intensivo, onde finalmente morre devido às queimaduras.

Há ainda mais uma cena em Manhunter que não existe na segunda versão cinematográfica e nem no livro. Trata-se de um momento de suspense que acontece logo após a publicação da mentirosa notícia no “Tattler“. Will Graham caminha pelas ruas escuras em frente ao prédio onde deixou-se fotografar, esperando ser atacado pela “Fada dos Dentes“. Há muitos atiradores e policiais nas redondezas, esperando o mínimo movimento para atacar. Subitamente, a solidão da rua é rompida quando um estranho caminha em direção a Graham. É apenas um pedestre, óbvio, mas que vai comer o pão que o diabo amassou ao ser cercado pelos policiais brandindo armas, tão logo passe próximo do agente.

Dragão Vermelho capricha mais na caracterização do assassino do que Manhunter. No filme de 1986 nem é mostrada a enorme tatuagem da cauda de um dragão que o assassino tem nas costas. A tenebrosa dentadura da avó, que a “Fada dos Dentes” usa nos crimes, também é pouco utilizada no primeiro filme (só aparece na cena da tortura de Lounds). E nada do enorme diário onde o assassino escreve seus devaneios. Enquanto no filme e no livro Francis Dolarhyde, o “Fada dos Dentes“, vive em um velho asilo dirigido pela falecida avó, um casarão antigo de madeira, em Manhunter ele mora em uma casa normal, que em nada lembra um velho asilo e tem até móveis moderninhos e uma parede inteira decorada com uma imagem do solo lunar!

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Claro que também ajuda ter um Ralph Fiennes sarado no papel de assassino de Dragão Vermelho. Em Manhunter Dolarhyde é interpretado pelo patético Tom Noonan, ator totalmente inadequado para o papel, já que é muito magrinho e frágil, lembrando mais um travesti do que um grande vilão. Se em Dragão Vermelho a aparição da “Fada dos Dentes” para o aprisionado Lounds é assustadora, em Manhunter fica cômica quando esperamos ver um perigoso assassino e aparece um fracote, calvo, com um roupão e uma meia-calça enfiada na cabeça! Não ter dado a caracterização ideal ao vilão principal foi o maior erro do filme de 1986.

Há ainda pequenas diferenças entre os dois filmes que não mudam a história, mas dão um detalhe de humor negro. Em Manhunter, o código que Lecter manda publicar no “Tattler” para a “Fada dos Dentes” decifrar é retirado do livro de leis do Estado de Maryland. Em Dragão Vermelho, os produtores optaram por um simples livro de receitas, ressaltando o lado canibal de Hannibal.

A relação de Francis Dolarhyde com uma garota cega, Reba McClane (Joan Allen em Manhunter e Emily Watson em Dragão Vermelho) é mais aprofundada em Dragão Vermelho. Como no livro, o assassino tenta deter o Dragão Vermelho que o ordena matar para poder ficar em paz com a amada. E ele tenta fazê-lo justamente comendo a figura original do “Dragão Vermelho” pintada por William Blake, quando faz um rápido ataque ao museu em Nova York. Nada disso acontece em Manhunter. Sua relação com a cega é discreta, embora o roteirista tenha aproveitado a bela cena em que o assassino, já com o coração amolecido, leva a cega ao zoológico para “sentir” um tigre de perto pela primeira vez.

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Outro detalhe marcante é a modernização de muitos detalhes do primeiro filme e do livro para Dragão Vermelho. Apesar da história se passar bem antes de O Silêncio dos Inocentes, no começo dos anos 80, o mundo mostrado em Dragão Vermelho com certeza é o nosso mundo moderno, em uma falha da produção, que deveria ter usado uma ambientação mais anos 80. No livro, por exemplo, a “Fada dos Dentes” escolhia as famílias que iria matar após a revelação de filmes feitos em Super 8 e exibidos com projetor, como no cinema (lembre-se que os videcassetes ainda não eram populares na primeira metade da década de 80). Manhunter optou em usar os rolos de filme, mas Dragão Vermelho prefere atualizar para fitas VHS.

Mas a mais gritante diferença entre Manhunter e Dragão Vermelho está no final. Tanto no livro quanto em Dragão Vermelho, Dolarhyde sequestra Reba em casa e a leva ao seu casarão, onde espalha gasolina por toda parte, provocando um incêndio. Ele ainda simula sua própria morte com um tiro de espingarda no rosto, usando um outro cadáver para isso. No livro, ele “pega emprestado” o corpo do frentista de um posto de gasolina com quem tinha tido uma discussão momentos antes; em Dragão Vermelho resolveram não complicar: Dolarhyde usa um colega de trabalho de Reba, que abateu a tiros quando foi sequestrá-la em casa (este assassinato também aparece em Manhunter). Quando o público pensa que o filme está acabando, Dolarhyde reaparece na casa de Graham. No livro, o ataque é um pouco diferente do mostrado em Dragão Vermelho: Graham está pescando com a família quando a esposa lhe avisa de que Jack Crawford está no telefone. Quando se aproxima da casa, Graham é atingido à traição por Dolarhyde, que salta de um esconderijo e afunda uma faca no rosto do agente do FBI. Este só é salvo da morte pela esposa, que chega na hora com uma arma e estoura a cabeça do assassino. Um pouco menos violenta, esta cena foi aproveitada no final de Dragão Vermelho. A diferença é que Dolarhyde está no interior da casa do agente tendo seu filho como refém. Graham começa a provocar o assassino falando como a sua avó, até que Dolarhyde, furioso, salta sobre ele e inicia uma luta, encerrada a tiros por Graham e por sua esposa. Pessoalmente, acho desnecessária a cena em que o herói imita a avó do psicopata para atiçá-lo – sem contar que a reação do assassino deveria ser outra, ou seja, justamente matar a criança pela provocação do inimigo. E Graham não leva nenhuma facada no rosto no filme. Uma carta escrita por Hannibal Lecter não é entregue ao herói quando ele está no hospital se recuperando, no final do livro. Ao invés disso, Crawford prefere queimá-la.

Agora esqueça toda esta reviravolta de “simulação da própria morte“, incêndio no casarão e outros detalhes: o final de Manhunter é seco e direto, sem enrolação, e devo confessar que acredito ter ficado mais interessante que o do próprio livro – afinal, este negócio de simular a própria morte soa meio ridículo, meio “hollywoodiano” demais, você não acha? Manhunter termina quando, após identificar o assassino, Graham, Crawford e a polícia seguem em duas viaturas para a casa de Dolarhyde. Uma delas se acidenta no caminho e os policiais ficam a pé. Crawford resolve parar a operação e esperar por reforços para entrar na casa, mas Graham fica tomado pela fúria ao ver Dolarhyde por uma janela, tentando matar Reba. Tomado pela fúria e ódio que sente pelo assassino, o agente empunha sua arma, começa a balbuciar “Stop, stop!” (Pare, pare!) e corre em direção à casa! Com uma trilha sonora muito doida, Michael Mann filma Graham correndo em câmera lenta em direção ao assassino, com uma arma repleta de balas explosivas no tambor, e atravessando a vidraça da casa de Dolarhyde como se não houvesse qualquer obstáculo. No procedimento, o agente sofre sérios cortes no rosto provocados por Dolarhyde com um enorme caco de vidro na mão. Ele ainda dá o maior cacete no agente, que cai no chão da cozinha. Ao perceber que está cercado, o assassino fica completamente alucinado: ele pega uma espingarda e sai atirando pelas janelas e portas, abatendo vários policiais, tudo em câmera lenta e com a mesma trilha sonora maluca a todo volume! O vilão então volta para a cozinha para terminar o serviço com Graham. Ao aproximar-se, Dolarhyde é alvejado inúmeras vezes pelo herói, em uma cena que mostra muito bem o descontrole emocional do herói, executando praticamente a sangue frio o vilão. Depois, ainda se aproxima do cadáver sem vida de Dolarhyde e ameaça lhe dar mais um tiro, na cabeça, quando chegam os reforços.

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Felipe M. Guerra

Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga "Entrei em Pânico...", entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

5 comentários em “O Dragão Vermelho Ataca Duas Vezes

  • 12/10/2018 em 16:43
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    Precisava dessa análise, acabei de ler o livro e fui ver a versão de 2002. Valeu, me incomodaram algumas mudanças no filme, acho que mexe na motivação dos personagens. Foi bom saber da outra versão, mesmo não me animando pra ver.

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  • 16/08/2018 em 00:55
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    Cara,estou vendo hoje essa versão de 1986,não sabia que existia.
    Sua análise é muito boa.
    Parabéns

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  • 22/10/2016 em 22:40
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    Adorei seus comentários. Gostaria de saber a sua opinião sobre o seriado Hannibal de 2015.Grata.

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  • 07/07/2015 em 05:23
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    Cara, parabéns pelo artigo, de verdade. Sou muito fã do Dr. Lecter (principalmente em “O Silêncio dos Inocentes”, óbvio), e desde então, tenho futricado em TUDO que envolve/aparece o nosso querido canibal. Também tenho a trilogia do Thomas Harris e concordo com a sua opinião em relação aos romances. E sobre a comparação entre “Manhunter” (1986) e “Dragão Vermelho” (2002), você foi perfeito, descreveu tudo o que de fato acontece de uma maneira verdadeira e clara, não tem onde tirar nem por. Li todo o artigo e deixo aqui os meus parabéns. Abraços.

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  • 09/06/2015 em 22:25
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    Ótimo artigo. Ainda não vi Manhunter, mas depois dessa análise pretendo ver, além de rever Dragão Vermelho, faz anos desde a ultima vez que assisti o filme. Também faz um tempo que pretendo ler os livros do Hannibal, mas sempre enrolo.

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