Anos 2000: O horror está morto. O horror está vivo.

Foi lendo os antigos guias de VHS da editora Nova Cultural que passei a ter o costume de listar nomes de diretores de filmes de horror e suspense. Achava engraçado o fato de que boa parte das resenhas destruíam obras pouco conhecidas, geralmente lançadas por distribuidoras como Dado Group, DIF e Videocassete do Brasil. Algumas edições depois, o anuário da Nova Cultural abriria mão das cotações 0 (zero) e 1 (um) com a desculpa de oferecer ao leitor somente uma amostragem de filmes medianos para cinema, descartando o que fosse considerado de baixa qualidade. Tal atitude elitista dos editores, embasada pela opinião dos críticos (não menos intransigentes), deixou de fora muitas produções baratas e/ou obscuras de horror. Não deixei de acompanhar as edições seguintes do guia, mas sentia falta do grande número de filmes do gênero que os primeiros números apresentavam, nem que fosse apenas para ler as implicâncias e desaforos escritos. Através delas era possível descobrir, por exemplo, que o italiano Lucio Fulci fora um dos diretores mais bem representados durante o auge da era do VHS no Brasil, com mais de uma dúzia de filmes lançados nas locadoras.

Alexandre Aja, Eli Roth, Scott Derrickson
Alexandre Aja, Eli Roth, Scott Derrickson

As revistas esporádicas como a SET – Terror e Ficção, entre outras, tratavam o horror e seus aficionados com maior respeito, embora diversos textos (relidos hoje) pouco acrescentavam aos filmes. Serviam mesmo para que pudéssemos ler algo sobre o gênero e ficar a par das novidades que estavam chegando às locadoras. O que nos impulsionava era a curiosidade em vasculhas as prateleiras empoeiradas por fitas de VHS e descobrir por algo peculiar e desafiador. Apesar disso, confesso que um pouco da arrogância dos críticos dos guias e das revistas estava impregnada em mim. Não a atitude benéfica de se dissecar uma produção, analisando suas qualidades artísticas, sociais e históricas, mas a de simplesmente deixar de lado filmes que ninguém conhecia ou falava. Claro que tive uma grande cota de tranqueiras assistidas, graças ao esquema ‘alugue cinco ou mais filmes e devolva as fitas na terça-feira’, mas ainda me ressinto de nunca ter visto os bons filmes italianos de canibais naquele momento, por exemplo.

Se a decadência das revistas de cinema ao longo dos anos 1990 fez com que desistisse por um tempo de acompanhar o gênero, foi com a chegada da internet, pouco a pouco, que me senti novamente como na época dos guias de vídeo. Correção: a coisa era melhor ainda, pois agora tinha com quem conversar a respeito de John Carpenter e David Cronenberg. As listas de discussão do Boca do Inferno e da Canibal Holocausto me fizeram aprender muito e conhecer pessoas que compartilhavam a mesma afeição ao horror que eu já tivera alguns anos antes. E navegando pela internet pude encontrar várias informações sobre filmes, de horror ou não, que havia visto na televisão quando criança e que até então, nunca mais tinha visto qualquer coisa a respeito. No meio de todo esse resgate nostálgico, das novas amizades feitas (muitas existem até hoje) – e logo depois, com a chegada do DVD e da possibilidade de se baixar filmes antigos pela rede – percebi o quanto eram ruins os filmes de horror produzidos no novo milênio.

Ainda hoje, e depois de um olhar mais aprofundado, continuo a defender o período de 2000 até 2006 como o mais fraco que já existiu no gênero. Mesmo com filmes importantes como Os Outros (2001) e Terra dos Mortos(2005), esses anos não trouxeram, no geral, produções significativas o bastante e já anunciavam a grande quantidade de porcarias que inundariam o mercado a partir de então. Reparem que os found footage ainda não haviam se popularizado, tampouco os filmes de zumbi eram feitos na mesma proporção numérica que temos atualmente. As maiores pragas eram o revival frouxo dos slashers, a moda do J-horror e seus fantasminhas rancorosos, além da já presente (péssima) ideia de se refazer os principais filmes de horror das décadas anteriores. Mas até aí, o que haveria de tão diferente nesse período para atacá-lo dessa forma? Acredito que justamente nesses anos começa a ser possível perceber o tamanho da dificuldade dos velhos realizadores em continuar trabalhando.

Ti West, James Wan, Jim Mickle
Ti West, James Wan, Jim Mickle

Estamos falando da geração que começou nos anos 60 (Romero, Argento) ou 70 (Carpenter, Hooper, Dante, etc.) e que, bem ou mal, acompanhamos desde os tempos do VHS e dos cinemas de bairro. Após a década de 80, não foi possível uma continuidade na mesma proporção, com diretores novos dedicados ao horror e que mantiveram uma carreira longa e de qualidade. Talvez apenas Stuart Gordon, que estreou nos cinemas em 1985, manteve uma carreira digna dentro do gênero até 2008, data de seu último trabalho (feito para televisão). Clive Baker, após Hellraiser, não provou ser nas telas “o futuro do horror”, como bradou Stephen King. A carreira de Richard Stanley tomou outros rumos após o desastre de A Ilha do Dr. Moreau. E alguém duvidaria de que Tom Holland seria um nome importante e bastante presente após A Hora do Espanto e Brinquedo Assassino? Em território italiano, a decadência da indústria de cinema faria inúmeras vítimas, como no caso do irregular Lamberto Bava, que se segurou bem até 1993, e da promessa Michele Soavi, que dirigiu seu último horror em 1994. No Japão, entre os realizadores que se destacaram no mercado de produções para vídeo, somente Kiyoshi Kurosawa anda produzindo bons filmes e sem intervalos grandes. Mais do que isso, firmou-se com o tempo como o melhor diretor japonês em atividade atualmente.

Enquanto que os principais nomes surgidos durante a década de 1980 não corresponderam à expectativa, a geração anterior continuou insistindo no gênero, com altos e baixos. Entre os cineastas das antigas, Romero teve melhores resultados e Wes Craven deixou como derradeiro trabalho o bom Pânico 4. O trabalho dos demais variou do satisfatório ao ridículo, e aqui não posso deixar de mencionar os últimos longas de Dario Argento e Tobe Hooper. Nunca deixei de defender nenhum dos dois, mas tudo tem seu limite. Existe uma única sequência boa em Drácula 3D de Argento e no fraco Djinn, Hooper ainda se mostra capaz de criar momentos de qualidade. Porém, não foi possível a qualquer um dos dois sobrepujar as péssimas condições de trabalho que lhe foram oferecidas e a falta de ânimo que os acompanha a um bom tempo. Correndo por fora, temos David Cronenberg, que desde a segunda metade dos anos 80 soube como se reinventar, deixando de ser visto como um diretor de filmes de horror, coisa que Romero e Carpenter sempre reclamaram para quem quisesse ouvir.

A facilidade das novas tecnologias digitais permitiu o aumento de produções de horror, desovando um número impressionante de filmes ruins nos últimos dez anos, capaz de deixar até o maior rato de locadoras de mal com a vida. Ao mesmo tempo, começaram a aparecer diretores jovens, alguns dedicados exclusivamente ao horror, outros nem tanto, mas todos perfeitos para se mapear essa nova geração.

Durante este ano de 2016, tentarei aqui no Boca do Inferno, fazer um panorama do cinema de horror do novo milênio ao analisar isoladamente diretores mais recorrentes e/ou interessantes. Muitos deles já possuem uma filmografia bastante irregular, enquanto que alguns continuam a ser uma incógnita. Mas são eles que giram a roda, que estão mantendo uma regularidade de produções. Será possível que algum, entre eles, alcance o mesmo status dos senhores da geração 60/70? Ou isso já aconteceu? Eu mesmo já quebrei a cara ao apostar em certos diretores que depois fizeram longas extremamente ruins. Mas isso faz parte do jogo. O cinema de horror está vivo, cambaleante, meio torto, mas ainda vivo.

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Leandro Caraça

Leandro Caraça

Professor de História e Pesquisador especializado em Cinema de Gênero. É Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Multimeios da Unicamp. Cresceu em meio à poeira das locadoras de VHS.

4 comentários em “Anos 2000: O horror está morto. O horror está vivo.

  • 18/02/2016 em 15:14
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    Cara, gostei do seu texto. Mas concordo com o Carlos. Filmes de terror sempre foram muito mal recebido pela critica e não é de hoje, muitas obras do gênero que hoje são clássicas, passavam nas sessões mais poeirentas dos cinemas quando foram lançados.

    Acontece que o gênero de horror não apenas no cinema, mas em todo o geral, dos filmes, a livros, teatro, tv, games e quadrinhos, atualmente anda passando por algumas reformulações que uns entendem como decadência e outros não…..Stephen King mesmo que você citou no texto, qual foi seu ultimo sucesso avassalador que causou frisson nos últimos anos? ao mesmo nível de O iluminado por exemplo? Nenhum, ao menos não com o mesmo impacto do seu auge. É preciso entender também que o horror dos dias de hoje não é o mesmo horror de 1970/80 e 90 pq a sociedade não é a mesma.

    Por exemplo, existe uma série de TV chamada “Black Mirror” que lida, através da fantasia e ficção cientifica com o lado obscuro (e até horrível) de uma sociedade tecnocrata como a nossa. É um tipo de horror que lida com questões atuais e abrangentes e que cumpre o mesmo papel de Além da imaginação cumpria em 1960.
    O outro problema também, que os fãs de terror são os fãs do cinema/literatura/games/musica mais saudosistas que existem. Sério, eu mesmo sou assim, graças a internet eu conheci dezenas de filmes dos anos 70/80/90 que eu não conheci na época que as locadoras ainda eram vivas. É muito fácil cair no clichê de dizer que “Não existe slasher como Halloween” ou que os filmes de zumbis bons são apenas os italianos feitos com menos de 30mil dolares….enfim esse saudosismo de muitos fãs de horror só prejudica o gênero porque eles se negam a reconhecer o valor de algumas obras atuais simplesmente pq são atuais. (Sem levar em conta as qualidades da produção, dos atores, etc…) Não to dizendo que esse é o seu caso, mas sei que é de muitas pessoas fãs de terror.

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  • 16/02/2016 em 20:09
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    Gostei do texto. Acho válido diversos comentários a respeito dos
    “clássicos” do terror do ano 70 e 80. Apesar disso, é preciso parar e
    refletir a respeito destes clássicos em seu tempo de lançamento. Como
    assim?

    Existem aqueles filmes que sabemos que, logo de cara,
    serão considerados clássicos do horror de uma geração. Ouso dizer que
    “Invocação do Mal”, para falar de um terror (extremamente) recente, já é
    um clássico desde seu nascimento. Principalmente pela falta de
    qualidade em muitos filmes de terror da atualidade. Agora, será que
    podemos afirmar que James Wan será um futuro Romero? Evidentemente que
    não. Romero não atingiu status de clássico em seus primeiros filmes. A
    Noite dos Mortos Vivos é de 1968!! Romero ganhou Status de Clássico nos
    anos 90 e, principalmente, agora em que a onda dos filmes Zumbi surgiu.

    O
    que estou tentando dizer é que é ainda muito cedo afirmarmos ou não que
    a geração de terror dos anos 2000 é uma porcaria ou não. Existem filmes
    muito bons de alguns diretores e outros péssimos destes mesmos
    diretores ao longo do caminho. Romero e Wes Craven vivem apenas de
    filmes bons? Não. Roman Polanski tem seus filmes ruins e não deixa de
    ser um clássico por isto.

    Outro ponto importante, é a facilidade
    na produção de filmes independentes. Nos anos 70 e 80 ter uma câmera
    custava caro. Ter um filme no cinema era uma proeza. Produzir um filme e
    lançar em VHS era ainda mais difícil. Hoje em dia, com Netflix e
    Torrens podemos ter o mundo do cinema em nossas mãos e todas as
    porcarias produzidas que vem junto. Nos anos 70 e 80 havia uma seleção
    melhor de filmes, principalmente os de estréia dos diretores.

    Para
    finalizar, acho um erro dizer que o Horror morreu. O saudosismo é ruim,
    seja para o cinema, para a música ou para a política. Temos tendência a
    dizer que o que é antigo é bom e o que é novo é ruim.

    O terror nunca morreu, nem piorou, nem melhorou. Ele apenas existe.

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  • 16/02/2016 em 01:22
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    De 2000 pra cá muita coisa mudou no Horror positivamente e negativamente , é normal ter altos e baixos , mais mesmo nesses 6 anos citados tivemos sim algumas obras de destaque só que em menor proporção .
    O Horror nunca morreu , sempre seguiu vivo independente das épocas !

    Resposta

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