Greg Mc Lean – O herdeiro do Ozploitation

Greg Mclean (1)

A história do cinema de ação e de horror australiano foi documentada no ótimo Além de Hollywood: O Melhor do Cinema Australiano (Not Quite Hollywood: The Wild, Untold Story of Ozploitation!), dirigido por Mark Hartley em 2008. No longa-metragem era mostrado o que de melhor o cinema de exploração da terra dos cangurus produziu nas décadas de 1970-80, com grandes sucessos de bilheteria dentro e fora do país e a eventual exportação de talentos para Hollywood: George Miller, Peter Weir, Richard Franklin, Russel Mulcahy, etc. Nunca mais houve uma geração tão explosiva e rebelde como essa no cinema da Austrália. Nos últimos tempos, diretores como Jennifer Kent (The Babadook, 2014), David Michôd (The Rover – A Caçada, 2014), Justiz Kurzel (Snowtown, 2011) e Sean Byrne (The Loved Ones, 2009) voltaram a colocar o berço de Mad Max em evidência no mapa. Mas antes mesmo do documentário de Mark Hartley sobre o ozploitation ser lançado, o nome de Greg McLean já havia chamado a atenção do público em 2005, com o Wolf Creek – Viagem ao Inferno, primeiro filme com o implacável Mick Taylor, o serial killer que aterroriza os desertos do Outback.

Quando apareceu em meio à primeira leva do torture porn, Wolf Creek devolveu para as telas a sensação de perigo que ronda a região interior da Austrália. O exercício de tensão e de violência praticados pelo matuto Taylor em suas vítimas o colocou como a antítese do bom mocismo de Crocodilo Dundee (citado por Taylor no filme). Para interpretar o vilão foi chamado John Jarrat, conhecido ator local e que esteve presente em alguns ótimos filmes da época de ouro do ozploitation, como Mais Próximo do Terror (Tony Williams, 1982) e Dark Age (Arch Nicholson, 1987). O diretor Greg McLean, logo em sua estreia em longas, acabou sendo colocado no mesmo grupo das revelações junto de Rob Zombie, Eli Roth, Alexandre Aja e James Wan (este aqui apesar da origem malaia, também foi criado na Austrália). Tratava-se de uma seleção de nomes interessantes, todos despontando após filmes violentos e que buscavam um público cansado do revival asséptico dos slashers e dos fantasminhas asiáticos.

Greg Mclean (2)O filme seguinte de McLean seria mais um passo em direção às raízes do cinema de gênero australiano. Morte Súbita (Rogue, 2007) era o típico filme de crocodilo assassino, mas com um cuidado maior no roteiro do que se esperaria de produções atuais. No elenco estão Michael Vartan (do seriado Alias: Codinome Perigo), e os locais Radha Mitchel (Eclipse Mortal; Terror em Silent Hill), Sam Worthington, antes de fazer carreira em Hollywood (em filmes como Avatar), além de John Jarrat. Só que no lugar de um personagem aos moldes de Mick Taylor, ficou com o papel de um homem pacato de meia-idade que de nada lembra o psicopata de Wolf Creek. Se no passado, Jarret pode enfrentar crocodilos gigantes em Dark Age, aqui a árdua tarefa ficou para os atores mais jovens. Longe de ser um festival de mortes a cada minuto, o longa aposta mais no suspense ainda que encontre espaço para o eventual embate entre homem e monstro na conclusão. Os efeitos especiais responsáveis por dar vida à criatura se mostram bem convincentes, justificando o orçamento de 25 milhões de dólares. Infelizmente, Morte Súbita teve uma péssima distribuição a cargo da Dimension Films de Harvey Weisntein (sempre ele) e não teve a mesma repercussão de Wolf Creek.

A experiência mal sucedida de Morte Súbita marcou Greg McLean e o deixou longe da direção por vários anos. Em algum momento chegou a ser cogitado para comandar Atividade Paranormal 2. Mas logo depois voltaria no papel de produtor executivo em dois longas. O melhor foi o filme de ação policial Busca Sangrenta (Red Hill, 2010), que depois levou o seu diretor, Patrick Hughes, a ser chamado por Sylvester Stallone para fazer Os Mercenários 3 (The Expendables 3, 2014). O outro filme que McLean se envolveu foi a razoável ficção O Combate Paranormal (Crawspace, 2012) de Justin Dix, que em seus melhores momentos lembra as produções de Roger Corman nos anos 1980. Greg McLean voltaria ao posto de diretor somente em 2013, ao trazer de volta Mick Taylor para uma sequência superior ao original. Novamente contando com o talento de John Jarret, o novo filme trazia mais violência, mais cadáveres e mais frases de efeito, a tal ponto que poderia muito bem se chamar A Câmara de Horrores do Sádico Mick Taylor. Nem mesmo o momento de torture porn foi esquecido. O assassino do Outback entrava de vez no hall dos grandes monstros do horror contemporâneo.

Greg Mclean (3)

Para o ano de 2016, McLean tem vários projetos engatilhados. Um deles é a minissérie em seis capítulos explorando o passado de Mick Taylor, e que ainda não tem data para estrear na televisão australiana. Ele está com dois filmes prontos: The Darkness e The Belko Experiment. O primeiro, um terror com espíritos, produzido pela companhia especializada Bloomhouse e estrelada por Kevin bacon e Radha Mitchell, ganhou um recente trailer genérico. O outro, escrito e coproduzido por James Gunn (de Seres Rastejantes e Guardiões da Galáxia) terá como cenário um edifício em São Paulo, apesar de ter sido rodado na Colômbia. Na trama, os funcionários de uma multinacional são fechados dentro da empresa e obrigados a matar uns aos outros. Atualmente, McLean prepara o drama de sobrevivência Jungle, a ser estrelado por Daniel Radcliffe, enquanto que a possibilidade de um terceiro Wolf Creek continua mais forte do que nunca. Ainda será preciso determinar se Greg McLean passa por um surto criativo ou se apenas começou a receber e aceitar trabalhos em baciada. Três longas, dirigidos em dez anos, não foi o suficiente ainda para lançar seu nome como um dos principais expoentes do gênero. McLean tem evoluído a cada filme, tendo conseguido resultados dignos de nota em Wolf Creek 2. O cinema australiano de gênero não depende apenas dele, mas mesmo assim, não parece haver cineasta mais enraizado com os ideais da geração que mostrou ao mundo como o território australiano poderia ser um local perigoso.

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Leandro Caraça

Leandro Caraça

Professor de História e Pesquisador especializado em Cinema de Gênero. É Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Multimeios da Unicamp. Cresceu em meio à poeira das locadoras de VHS.

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