Who Are You (2010)

Who are You (2010)
A felicidade está no coração!

Who Are You
Original:Krai... Nai Hong
Ano:2010•País:Tailândia
Direção:Pakphum Wonjinda
Roteiro:Eakasit Thairatana
Produção:
Elenco:Teerapong Liaorakwong, Sinjai Plengpanit, Pongpit Preechaborisutkhun, Kanya Rattapetch, Chatsoroth Thanuthipayakul

por Tiago Toy

As pessoas têm sérios preconceitos quanto aos filmes de terror asiáticos, embora o cenário tailandês seja bastante diversificada. Claro que existem produções que cavalgam pelo suspense (Shutter e Alone, por exemplo), mas se você está procurando por sangue e violência a série Art of the Devil certamente servirá as suas necessidades. Há também alguns projetos no formato de antologias, como 4bia e Phobia 2, verdadeiras alusões à diversidade. Who Are You pertence à categoria mais interessante de filmes de terror tailandês, misturando fotografia exuberante com fortes elementos dramáticos, sem apelar para o óbvio.

Who Are You (ou Who R U, dependendo de onde você procure por informação) é um filme de terror tailandês, dirigido por Pakphum Wonjinda. Para tirar o máximo proveito, algum conhecimento prévio da condição Hikikomori vem a calhar (jovens trancando-se em seu próprio quarto por anos a fio, muitas vezes ameaçando se suicidar caso as pessoas tentem entrar). Se você pensa que essa é mais uma “coisa” exclusiva do Japão, esqueça. Aparentemente, outros países estão lutando contra os mesmos problemas. É um motivo um tanto surpreendente para usar em um filme de terror, mas Wonjinda prova que se encaixa no gênero extremamente bem, especialmente quando você mantem a câmera fora do quarto trancado a maior parte do tempo.

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Na história, Nida (Sinjai Plengpanich) é uma mãe solteira, que trabalha vendendo DVDs (inclusive alguns onde ela atuou, quando ainda era atriz pornô). Ela é extremamente gentil, e possui uma ótima relação com seus clientes. No entanto, a comunicação com seu filho, Tung, é quase nula. O garoto é um viciado em jogos e está trancado em seu quarto nos últimos 5 anos. Mãe e filho se correspondem apenas através de bilhetes passados por baixo da porta, e Nida deixa comida pronta antes de sair. A situação não parece deixá-la preocupada, até que um amigo dela, Dome (Pongpit Preechaborisutkhun), que trabalha como produtor televisivo, aponta que o garoto talvez esteja sofrendo de uma síndrome chamada Hikikomori, onde a pessoa, geralmente o filho mais velho, fecha-se em seu próprio mundinho, nunca saindo do quarto pra nada e ficando extremamente irritada caso o invadam. Sugerindo que ela própria esteja contribuindo para que Tung não sinta necessidade de sair, Dome tenta ajuda-la – claro, com segundas intenções: o que Dome quer mesmo é uma ideia para um novo filme. Apesar de ter se interessado pela proposta, seu chefe o orienta a conhecer o garoto primeiro. Para seu azar, Dome topa, acarretando a primeira cena forte do filme. Tung não fica nada feliz com a visita do produtor, e as coisas vão de mal a pior, enquanto os problemas reais são lentamente revelados. Um tanto previsível, mas eficaz.

Sobrecarregada pela relação falha com o filho – embora não transpareça, Nida busca apoio em ensinamentos espirituais, onde a professora fala sobre o poder ilimitado da mente. Em uma das sessões, a palestrante conta sobre um homem que optou pela mudança de sexo e, após um acidente de carro, uma experiência considerada traumática, foi hipnotizado e passou a acreditar que era uma mulher. Então, menstruou, engravidou e deu à luz. Porém, quando foi revelada a verdade, seu “mundo perfeito” se desfez e ele se suicidou. Consequentemente, o bebê virou pó. Achei fantasioso demais! Tudo bem que é um filme de terror, e esse gênero quase sempre pende para o lado fantástico, mas pela maneira com que a história estava sendo desenvolvida, até aquele ponto, não encaixou. Até acreditaria na gravidez do transexual, mas não no bebê virando pó. O pior é que ela diz se tratar de um fato verídico. Fica a dúvida se a felicidade realmente é verdadeira, ou apenas uma ilusão à qual as pessoas se entregam para camuflar a dor da realidade, preferindo a segurança da mentira, uma fantasia.

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O Who Are You do título é basicamente um grupo de pessoas treinando o poder da mente. Em uma cena distinta, Nida está vendada e a professora a induz a acreditar que um lápis é um objeto muito delicado e um mero pedaço de papel é uma faca bastante afiada. Acreditando nisso, ela corta o lápis ao meio com o papel. O Who Are You é tão presente no dia-a-dia de Nida (ela até parece aquele tipo de religioso que constantemente tenta converter possíveis vítimas) que você acaba se perguntando se os estranhos ensinamentos espirituais têm algo haver com o mistério.

Do outro lado da rua, uma jovem garota chamada Pei (Kanya Rattapetch) assiste de sua janela o dia-a-dia dos vizinhos. Ela sofre de graves alergias, sendo superprotegida pela mãe, que não a deixa sair de casa em hipótese alguma, salvo as diversas consultas a que Pei é submetida, sejam espirituais ou convencionais. Sua janela dá vista para a janela do quarto de Tung, toda a vidraça forrada por papéis gastos.

Em flashbacks, percebemos que Pei e Tung se conheciam na escola, onde sofriam bullying constante: ela por ser “a alérgica”, sempre passando mal quando as crianças jogavam pó de giz em seu rosto ou gatos em sua cabeça; ele por ser filho de uma atriz pornô, limitando-se a abaixar a cabeça enquanto o caçoavam. Diversas vezes, Pei observa a janela de Tung, perguntando-se porque ele não saiu mais daquele quarto. Tudo o que consegue ver é a sombra curvada do garoto através da cortina de papéis.

Outras pessoas passam a especular sobre Tung, e algumas mais extremas duvidam que ele seja humano. Já faz um bom tempo desde que o viram ou ouviram falar sobre ele. O único traço de evidência de que ele ainda está no quarto vem através dos bilhetes praticamente monossilábicos, ou de sua sombra na janela. Questionada por uma senhora sobre o filho, que diz ter ouvido que Tung saíra do quarto um dia desses, Nida passa a viver um dilema: Tung realmente está naquele quarto ou existe outra coisa vivendo atrás daquela porta cerrada por 5 anos? Ou os relatos de visitas noturnas de Tung ao mundo exterior são apenas invenções de fofoqueiros? Você terá que ver pra descobrir.

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A performance da atriz Sinjai como a mãe atormentada é boa e bastante emocional; Kanya, por sua vez, é convincente em outro personagem igualmente atormentado. Talvez você encontre semelhanças perturbadoras que conectem sua condição: uma tem um filho que não quer sair de seu quarto, enquanto a outra anseia por sair, mas não pode.

O filme começa com boas intenções, e até tenta destacar algumas questões sociais (vício do jogo, retraimento social de jovens). Ele também tem uma forma eficaz de revelar certos detalhes por meio de flashbacks dos personagens, o que ajuda a entender o que está, de fato, acontecendo. Porém, como o que vemos quase nunca é o que entendemos – e considerando que o cinema oriental nos surpreende na maioria das vezes -, não pense que decifrará a verdade antes do desfecho.

Por falar nele, não espere uma cena onde tudo é mastigado antes do mistério ser resolvido. A “verdade” é cuspida na nossa cara, rápido demais, e o desfecho dessa verdade surpreende mais do que o primeiro. Não entendeu? Lembre-se que orientais adoram finais duplos, ou um final para explicar um motivo, e outro final para explicar o motivo do motivo. Isso quando não há também um terceiro. Uma história construída tão delicadamente desde o começo termina em um tobogã de caminhos indefinidos. Você pensa que entendeu, então aparece algo e você fica com Poker Face. Em seguida, a situação se repete. Não é clichê, felizmente, e detalhes que tenham passado despercebidos no decorrer do filme se encaixam no final. Nem todas as perguntas são respondidas e outras ficam confusas (de quem é aquele cadáver com um rato saindo da boca?), mas quem disse que tudo precisa ser esclarecido?

O filme se afasta um pouco do tradicional modelo asiático, mantendo os fantasmas e aparições ao mínimo, preferindo focar no drama e estética. O resultado final é um filme de terror muito bem filmado, que merece um público mais amplo, embora possa ser decepcionante para quem espera por fantasmas brancos de cabelos negros se contorcendo nas escadas. Embora peque em algumas cenas que têm o único propósito de assustar, desnecessárias (como a alucinação do macaco, ou o policial bisbilhoteiro), os defeitos não comprometem o geral.

Definitivamente, o aspecto mais marcante de Who Are You é o uso das cores. Ainda que haja muitas cenas noturnas, tons coloridos e vibrantes estão por toda parte. A cinematografia tailandesa é conhecida por ser focada em cores fortes e emotivas, mas Wonjinda nos leva a um nível totalmente novo. O trabalho de câmera em si é excelente, e até mesmo os poucos efeitos especiais encontrados são de qualidade de topo.

A trilha sonora também é um ponto forte. A adição de alguns efeitos sonoros sutis aqui e ali dão ao filme uma vantagem extra. É interessante ver uma cena bastante simples se tornar assombrosa apenas adicionando os efeitos certos à trilha sonora. Não me refiro aos sustos fáceis (dois ou três, no máximo), mas é definitivamente a concepção geral do som que mais impressiona.

Não espere ficar chocado ou horrorizado; Wonjinda claramente não está interessado nisso. Se você deixar a trilha sonora fazer seu trabalho, terá cenas muito assustadoras aqui – ou, no mínimo, tensas. Porém, se até então você decidiu que este não é um filme muito bom, as mesmas cenas provavelmente perderão todo o efeito, deixando-o com quase nada.

Há um motivo forte como plano de fundo, e algum drama misturados, o que eleva o filme acima do terror genérico. Pessoas que estejam com vontade de matar a saudade de garotinhas no poço ou mulheres destroçadas gemendo no sótão pensem duas vezes antes de assistir Who Are You. Ou deem uma chance, e sejam surpreendidos por um nível diferente de terror. Eu fui.

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Autor Convidado

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Um infernauta com talentos sobrenaturais convidado a ter seu texto publicado no Boca do Inferno!

Um comentário em “Who Are You (2010)

  • 14/10/2013 em 06:13
    Permalink

    Acabei de ver e gostei muito como sempre o Boca do Inferno nos dando ótimas dicas de filmes estão de parabéns.

    Resposta

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