Rota da Morte (2003)

Rota da Morte (2003)

Rota da Morte
Original:Dead End
Ano:2003•País:França, EUA
Direção:Jean-Baptiste Andrea, Fabrice Canepa
Roteiro:Jean-Baptiste Andrea, Fabrice Canepa
Produção:Sonja Schillito, Gabriella Stollenwerck, Cécile Telerman
Elenco:Ray Wise, Lin Shaye, Mick Cain, Alexandra Holden, Billy Asher Rosenfeld, Amber Smith, Karen S. Gregan, Sharon Madden, Steve Valentine. Clement Blake

É véspera de Natal e a família Harrington – uma típica família feliz de classe média – atravessa uma estrada escura rumo à ceia na casa de parentes distantes. Dentro do carro estão o pai Frank, a mãe Laura, os filhos Richard e Marion, mais o namorado desta, Brad Miller. O patriarca da família está zangado com o atraso, graças à demora dos filhos em ficar procurando “seus CDs da Marilyn Bronson”. Quando Richard corrige o pai, dizendo que o nome do cantor é Marilyn Manson, e que ele é um homem, não uma garota, Frank sacode a cabeça e lamenta: “Marilyn Manson é um cara? Mas aonde esse mundo vai parar?”.

Assim começa Rota da Morte, um interessantíssimo filme de horror de baixo orçamento realizado em 2003, que passou praticamente em branco aqui no Brasil e ganhou certa notoriedade apenas através da propaganda feita de fã para fã.

Eu escrevi uma resenha sobre o filme para a Boca do Inferno em meados de 2004, pouco depois de ele ter chegado às locadoras brasileiras (com uma capinha nada convidativa, que deve ter afastado muitos espectadores). Na época, comentei maravilhado sobre como Rota da Morte tinha me surpreendido. Infelizmente, a obra não sobreviveu a uma revisão feita há pouco tempo, e essa nova resenha é uma espécie de contraponto à minha opinião de sete anos atrás.

É complicado falar sobre a trama sem estragar algumas surpresas, e, acredite, a melhor coisa é assistir Rota da Morte sabendo pouco ou nada sobre a história, surpreendendo-se aos poucos como aconteceu comigo ao vê-lo pela primeira vez – e isso que o roteiro recicla um dos clichês mais batidos do gênero, que é o motorista que pega um atalho e se dá mal.

Sem dar muitos detalhes, o filme acompanha o carro da família Harrington rumo à casa da mãe de Laura, onde eles passam a noite de Natal há décadas. A diferença é que, desta vez, Frank resolveu pegar uma estrada secundária e desconhecida ao invés da interestadual, pois já é noite e ele preferiu fazer um caminho diferente para não pegar no sono no volante.

Aos poucos, a escura, deserta e aparentemente interminável estrada secundária faz aflorar a verdade sobre aquela “família feliz”: Brad e Richard vivem brigando no banco de trás, Frank e Laura vivem se alfinetando no banco da frente, Marion tem uma notícia daquelas bem complicadas para dar aos pais, e feridas muito antigas começam a ser abertas.

Para piorar, enquanto o carro passa por uma parte bem escura do bosque, Frank enxerga o vulto de uma garota vestida de branco, segurando um bebê no colo, no meio das árvores. Ele pára no acostamento e constata que a mulher misteriosa é uma loira sinistra com um ferimento grave na cabeça e um bebê embrulhado em trapos no colo. Ela não fala nada e tem o olhar perdido. Assustados, os Harrington decidem levá-la até um posto da polícia florestal por onde passaram alguns quilômetros antes. É aí que um horror desconhecido começa a tomar conta da viagem.

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Realizado com orçamento baixíssimo, Rota da Morte é o filme de estreia de uma promissora dupla de jovens cineastas franceses, Jean-Baptiste Andrea e Fabrice Canepa, que também assinam o roteiro. O filme só saiu do papel graças à teimosia de ambos: à época das filmagens, Jean-Baptiste tinha 32 anos e Fabrice, 28 anos; eles precisaram economizar o salário que ganhavam em empregos “comuns” para bancar este seu debut cinematográfico, e demoraram quase seis anos (!!!) para finalmente conseguir filmá-lo.

Segundo Jean-Baptiste contou numa entrevista, a inspiração veio de uma lenda urbana muito popular no interior da França, sobre um casal que dá carona a uma garota no meio de uma floresta escura apenas para depois descobrir que era o fantasma de uma jovem morta em acidente de carro (mas não se preocupe que no filme a coisa é diferente). A dupla demonstra talento inquestionável ao conseguir manter o espectador vidrado na tela durante os 80 minutos de uma história que se passa quase que totalmente dentro de um carro em movimento, com algumas paradas esparsas aqui e ali na beira da estrada.

Ou seja: durante a maior parte do tempo não há sequer cenários, apenas uma longa estrada deserta e um carro com cinco pessoas dentro! Isso me lembrou um outro filme de estreia, mas de um cineasta infinitamente melhor sucedido: Encurralado (1971), de Steven Spielberg, que mostrava um motorista sendo perseguido por um enorme caminhão durante 1h30min, com algumas poucas paradas na beira da estrada e a maior parte da narrativa se passando no interior do carro do protagonista!

Para manter o interesse do espectador por uma história dessas, os diretores tiveram a sorte de contar com uma excelente dupla de atores principais: os veteranos Ray Wise e Lin Shaye interpretam os patriarcas da família Harrington. Ele, principalmente, dá um show de interpretação como o pai impotente diante da ameaça sobrenatural que ameaça sua esposa e filhos. Acho até que Rota da Morte perderia metade da graça sem o ator como protagonista.

Se você não ligou o nome à pessoa, Wise será sempre lembrado pela sua insana interpretação de Leland Palmer, o pai de Laura Palmer no seriado cult Twin Peaks. Mas já encarnou um montão de personagens populares, incluindo um dos vilões de Robocop e, mais recentemente, o antagonista do monstro em Olhos Famintos 2 e o Diabo do seriado televisivo Reaper. Já Lin é irmã do diretor da New Line Cinema, Robert Shaye, e já apareceu em quase 150 filmes, de Criaturas 2 e 2001 Maníacos à franquia Sobrenatural, de James Wan. É ótimo ver esses atores, geralmente coadjuvantes, assumindo os papéis principais.

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Eles encabeçam um elenco formado por três jovens esforçados: Mick Cain (o filho Richard), Alexandra Holden (a filha Marion) e Billy Asher (o genro Brad). Dos três, o único que obteve mais destaque no cinema de gênero foi Cain, que trabalhou como dublê de Justin Long em Arraste-me para o Inferno, de Sam Raimi. Vale destacar também as pequenas participações da bonita Amber Smith como a misteriosa garota de branco, e do eterno figurante Jimmie F. Skaggs (já falecido) na cena final.

Bem, o motivo para eu ter achado Rota da Morte um filme bem acima da média ao vê-lo pela primeira vez é que a trama, embora simples, funciona e surpreende. O detalhe de o filme se passar no interior de um carro em movimento poderia depor contra, fazendo com que a narrativa ficasse arrastada e repetitiva. Mas a direção é tão inspirada que a ambientação se torna claustrofóbica, e a viagem dos Harrington nunca fica chata por causa das várias surpresas ao longo do caminho – quando você acha que o pior já aconteceu, os diretores preparam algo ainda mais tenebroso.

Além disso, há um genuíno clima de horror e de tensão que é cada vez mais difícil de encontrar em produções recentes, e que funciona principalmente quando você assiste o filme sozinho e no escuro – nada de vê-lo numa sala barulhenta com amigos embriagados e brincalhões. À medida que a família avança por aquela estrada, o espectador sente-se tão incomodado e apreensivo quanto os próprios personagens.

E se há uma coisa que funciona lindamente no filme é justamente este clima de opressão e de medo do desconhecido proporcionado por aquela maldita estrada escura e deserta, que parece sempre seguir em linha reta, e cuja paisagem jamais muda, para o desespero dos protagonistas (e do espectador).

Em vários momentos, os diretores usam tomadas aéreas para mostrar o carro da família perdido em meio a uma interminável escuridão, com os faróis tentando inutilmente iluminar algo (uma casa, um posto de gasolina, um retorno para a rodovia principal) naquele cenário de pesadelo. Quem já dirigiu à noite em uma estrada desconhecida (e deserta), e pensou que nunca chegaria a lugar algum, vai se identificar com a situação. E se a gasolina terminar? E se o pneu furar no meio do nada?

Porém é numa revisão que os pontos fracos de Rota da Morte tornam-se mais evidentes. Um deles é o suposto final-surpresa, que já não era novidade na época em que o filme foi lançado (2003), e agora, oito anos depois, já virou um clichê dos mais asquerosos – muita gente vai matar a charada sobre o mistério da estrada interminável ainda nos primeiros dez minutos. Tivesse saído 10 ou 20 anos antes, a conclusão seria um choque de deixar o espectador de olhos arregalados; hoje, a reação mais comum é perguntar: “De novo isso?”.

Mas o defeito que mais me incomodou na revisão é o comportamento idiota e absurdo dos personagens. O filho adolescente e maconheiro Richard é o campeão de fazer burrada: sabendo que há uma ameaça desconhecida espreitando naquela estrada escura e deserta, o mané se afasta da família e do carro em cada parada, seja para fumar um baseado, seja para masturbar-se (!!!) no meio da floresta. Meu amigo, sejamos francos: por mais excitado que você esteja, quem em sã consciência pensaria em bater punheta durante uma viagem com a família, perdido no meio do nada e no escuro? Sem contar que o sujeito leva um pôster de mulher pelada no bolso do casaco, talvez já pensando numa punhetinha eventual na próxima parada!

E não fica só nisso: ainda no começo do filme, os Harrington decidem dar carona à misteriosa loira de branco até o posto policial mais próximo, como eu já expliquei. Só que não há espaço para todos no carro, e assim a filha Marion desce e segue pela estrada escura e deserta a pé! Exato: nenhum dos homens no carro sequer cogita que uma garota sozinha numa estrada escura possa correr perigo, e nem seu irmão, nem seu namorado descem para acompanhá-la (ou se oferecem para seguir a pé enquanto ela fica no carro)! Até parece que um pai iria deixar sua filha seguir sozinha desse jeito, mesmo que ele seja o lunático do Ray Wise!

Enfim, são pequenas bobagens que acabam depondo contra o filme numa segunda avaliação, fazendo com que perca vários pontos. E talvez Rota da Morte funcionasse melhor como um curta ou média-metragem, pois tem a maior cara de um episódio de série tipo Masters of Horror esticado, e lá pelas tantas começam a ficar redundantes os conflitos entre a família e as cada vez mais constantes paradas na estrada. Uma recauchutagem no roteiro, repensando essas ações estúpidas dos personagens e o final-surpresa nada surpreendente, beneficiaria o resultado final.

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Se hoje eu já não acho Rota da Morte tão maravilhoso como tinha achado sete anos atrás, e se já percebo muitos defeitos bem básicos na narrativa, por outro lado ainda o considero bem eficiente como uma coletânea de imagens assustadoras e/ou incômodas.

Não são poucas: a misteriosa loira de branco com um bebê no colo perambulando pela floresta, a estrada interminável, a casinha abandonada na beira do asfalto, um tétrico carrinho-de-bebê (muito parecido com o de O Bebê de Rosemary) que bloqueia a passagem do carro, o fósforo que ilumina o fantasma às costas do protagonista. Ironicamente, essas imagens aparecem mescladas a momentos de puro humor negro – como a inacreditável “masturbação cerebral”, algo que só vendo para crer.

Mesmo para quem já viu um pouco de tudo em matéria de cinema fantástico, há duas cenas que são no mínimo impressionantes: o rapaz que tem os lábios arrancados on-screen durante um “beijo” (um efeito que não deixou os diretores 100% satisfeitos, mas eu pessoalmente achei muito bom) e o momento em que um dos personagens subitamente se atira para fora do carro sem maiores avisos.

Na época do seu lançamento, Rota da Morte ficou restrito ao circuito de festivais, e inclusive conquistou prêmios em eventos respeitados, como o Fant-Asia Film Festival, no Canadá, e o Brussels International Festival of Fantasy Film, na Bélgica. No famoso Fantasporto, em Portugal, chegou a concorrer a Melhor Filme, mas não levou.

A Lionsgate se interessou pela obra após ler/ouvir vários elogios e adquiriu os direitos de distribuição, mas nunca chegou a lançá-la nos cinemas, optando pelo lançamento direto em DVD nos Estados Unidos. Deve ter se arrependido quando o filme começou a ser bastante elogiado e recomendado entre fãs de cinema fantástico, algo que se repetiu também aqui no Brasil.

Não é difícil de entender o apelo de Rota da Morte e porque ele conquistou tantos fãs: nesses tempos de excesso de computação gráfica, sustos falsos e orçamentos inchados, os diretores Jean-Baptiste e Fabrice conseguem prender a atenção do espectador sem recorrer a efeitos especiais ou extrema violência (embora a cena dos lábios arrancados seja muito bem feita); eles também não se rendem àqueles sustos fáceis em que é o aumento da trilha sonora que faz o espectador pular da cadeira, e não o fato de a cena ser assustadora.

Inclusive lá naquela minha primeira resenha de Rota da Morte, de 2004, eu recomendava que o leitor anotasse os nomes dos dois diretores-roteiristas, argumentando que poderíamos esperar outros filmes bem melhores vindos da dupla. Infelizmente, minhas expectativas foram muito otimistas, e esse caso específico me lembra aquelas bandas de um único sucesso. Depois desse filme, a parceria se desfez e Jean-Baptiste dirigiu apenas mais um filme, a comédia de humor negro Grande Coisa (2006), com David Schwimmer e Simon Pegg, enquanto Fabrice não fez mais nada.

Mesmo assumindo que o resultado geral perdeu alguns pontos em meu conceito nessa revisão, continuo achando Rota da Morte um trabalho acima da média. Até porque qualquer historinha mais ou menos original parece muito melhor em comparação com a maioria dos filmes de horror contemporâneos, que geralmente se resumem a refilmagens sem conteúdo ou sequências de franquias intermináveis (como Jogos Mortais e Premonição).

Por isso, embora tenha reescrito completamente a minha resenha lá de 2004, eu ainda concordo que poucas vezes uma estrada escura foi tão assustadora quanto neste filme. E fale a verdade: quando foi a última vez que você viu um filme de terror com apenas cinco personagens que passam praticamente o tempo inteiro dentro de um carro em movimento?

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Felipe M. Guerra

Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga "Entrei em Pânico...", entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

8 comentários em “Rota da Morte (2003)

  • 16/10/2019 em 20:48
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    Ótimo filme, grande mérito conseguir se manter quase totalmente dentro de um carro e na escuridão da estrada. Recomendo!

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  • 26/07/2015 em 23:20
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    O filme está realmente acima da média. Porém, aquelas cenas consideradas “absurdas” podem ser vistas dentro de um outro contexto. O filme fala de prazeres daqueles que já morreram. O garoto com a masturbação e o baseado, a cena em que a mãe sente orgasmo ao colocar a mão na cabeça… Enfim.
    E o fato da moça andar sozinha na escuridão é simples de explicar: foi a unica que sobreviveu naquele acidente. Todos já estariam mortos.

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  • 25/09/2014 em 01:20
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    Gostei muito. O filme é “leve”, digamos assim, porque as cenas cômicas parecem naturais e o fato de serem ligeiras contribuem pra não ferrar com o suspense e o foco. Achei a violência na medida certa, o comportamento dos personagens bastante adequado, mesmo na cena do adolescente punheteiro (quem lembra da juventude sabe que tesão dava até na hora da missa). Claro, a cena da guria ficando a pé na estrada por falta de lugar no carro é ABSURDA. Os roteiristas estavam focando demais na necessidade de deixar a personagem sozinha pra que ela pudesse, em voz alta, dizer “pro espectador” que estava pensando em dar um pé na bunda do namorado, pra depois, já de volta no carro, ela revelar que está grávida.

    A velha protagonista é demais. Uma simpatia só, adoro ela em Insidious 1 e 2 como a “medium”. Recomendo Dead End pros amigos e friso que o clima tem que ser de sossego pra melhor apreciar!

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  • 15/05/2014 em 20:01
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    Eu gostei deste filme, ele tem um clima tenso e assustador, isto sem falar naquela estrada deserta e sinistra.

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  • 12/01/2014 em 17:06
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    Poxa, vi o trailer do filme e achei q seria mais um humor negro sem graça. Aquilo q é mostrado parece ser muito sem noção. Mas vou dar um voto de confiança no Guerra e assistir ao mesmo.

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  • 26/12/2013 em 09:32
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    Aconselho. É daqueles filmes que provam que qualidade não se faz com dinheiro. Tem um clima tenso, perturbador.
    Eu o vi há um bom tempo no Telecine Action (sim, na época de ouro). Depois procurei e baixei.

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  • 24/12/2013 em 14:35
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    parece interessantíssimo,procurarei imediatamente pra assistir.

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  • 24/12/2013 em 01:11
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    ja li essa resenha em 2011. adoro filme assim de terror que ser passa em estrad deserta e a noite e muito tenso. so nao gostei do final. seria melhor ser voce um assassino de verdade dentro de um carro. por faz uma resenha de outro filme de terror que ser passa em estrada tambem o nome do filme e cadillac preto tambem e muito e muito tenso e de 2003 tambem.

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