Ring – O Chamado (1998)

Ringu (1998)

Ring - O Chamado
Original:Ringu
Ano:1998•País:Japão
Direção:Hideo Nakata
Roteiro:Hiroshi Takahashi, Kôji Suzuki
Produção:Takashige Ichise, Shin'ya Kawai, Takenori Sentô
Elenco:Nanako Matsushima, Miki Nakatani, Yûko Takeuchi, Hitomi Satô, Yôichi Numata, Yutaka Matsushige, Katsumi Muramatsu, Rikiya Ôtaka, Daisuke Ban

A cena: um professor universitário descendo, agarrado a uma corda, até o fundo de um escuro poço, indo de encontro ao seu destino. Com uma lanterna nas mãos, ele ilumina as paredes do poço e descobre marcas de arranhões e fragmentos de pedaços de unhas. Em um misto de assustado e revoltado, o homem grita para a mulher que o aguarda na boca do poço: Ela estava viva! Sadako ainda estava viva!.

Este que é um dos momentos-chave de Ringu, filme japonês dirigido por Hideo Nakata em 1998, marca bem a sensação que permeia o espectador desde os primeiros dos 98 minutos da produção: medo do desconhecido, lugares escuros, angústia, suspense, mistério e o mais puro horror! Eu ousaria dizer que uma das experiências cinematográficas mais excitantes que existem é assistir Ringu pela primeira vez.

Claro que o filme continua excelente a cada oportunidade em que se reassiste, mas vendo pela primeira vez o espectador é uma pobre vítima do bombardeio de surpresas e reviravoltas assustadoras, algo que nunca mais será depois, quando já sabe de antemão todos os segredos do roteiro.

Ringu é baseado no livro homônimo de Kôji Suzuki, um autor de livros de horror popular no Japão, mas que, apesar do que relatam alguns mentirosos sites na Internet, não se envolveu no roteiro deste filme e nem na sua primeira continuação – ele foi roteirista apenas no terceiro filme, uma chamada prequel (relata incidentes acontecidos antes das duas outras produções), batizada Ringu Zero.

A história começa parecido com um daqueles tradicionais slasher movies à la Pânico: duas adolescentes estão sozinhas em casa, à noite, e uma conta à outra a lenda urbana sobre uma fita VHS amaldiçoada, que teria sido gravada misteriosamente em um canal de TV sem transmissão, registrando imagens desconexas que lembravam um pesadelo. Mas o detalhe é que quem assistisse à fita receberia, logo depois, uma ligação telefônica anunciando que iria morrer em sete dias. E, realmente, todas as pessoas que assistiram à fita morreram uma semana depois, de forma inexplicável.

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Pena que a tal lenda urbana seja real: tão logo uma das meninas acaba de relatar a história, a outra confessa que assistiu à fita amaldiçoada com um grupo de amigos, que se reuniram no chalé de uma colônia de férias na região de Izu. Ambas dão fartas gargalhadas até que o silêncio da noite é quebrado pelo som do telefone. Uma chamada telefônica que acontece, coincidentemente, logo após a história da fita amaldiçoada ser relatada.Mesmo apavorada, uma das meninas atende a chamada… apenas para descobrir, aliviada, que é a mãe da amiga. Mas tão logo esta fica sozinha, algo apavorante acontece: ela ouve um barulho às suas costas, se vira e faz uma última expressão de pavor, antes da imagem ser congelada e convertida para preto-e-branco. Assim, sem nenhum efeito digital ou pingo de sangue, inicia a apavorante produção japonesa.

Logo depois deste misterioso início (para quem não leu nada sobre o filme, como eu ao ver Ringu pela primeira vez, as informações vão sendo dadas aos poucos), o filme se entrega ao suspense e não pára mais de surpreender. Descobrimos que a menina que tinha visto a fita amaldiçoada morreu. Seu nome era Tomoko (interpretada por Yuko Takeuchi), e ela era sobrinha da repórter de TV Reiko Asakawa (a excelente Nanako Matsushima), que, coincidentemente, está preparando uma entrevista sobre a lenda urbana em torno da fita VHS amaldiçoada, uma história que já se espalhou por toda a cidade. Reiko vive com um filho pequeno chamado Yoichi (Rikiya Otaka), que, descobriremos mais tarde, tem certos poderes de clarividência.

No funeral de Tomoko, Reiko observa alguns detalhes intrigantes (nem uma autópsia conseguiu determinar a causa da morte de uma jovem saudável; o velório foi feito com a tampa do caixão fechada; a garota que estava junto com Tomoko no dia de sua morte enlouqueceu e foi internada em um manicômio).

Ryomi (Kiriko Shimizu), a irmã de Reiko e mãe de Tomoko, está desconsolada com a morte da filha e pede a ajuda da repórter para investigar o que realmente aconteceu. É quando o espectador tem seu primeiro grande choque no filme. Ryomi diz: Você precisava ver como Tomoko estava quando eu a encontrei dentro do armário, e então um rápido flashback mostra o mulher abrindo a porta e encontrando a filha morta com uma expressão inominável de pavor registrada em seu rosto.

Na saída do funeral, a repórter encontra alguns jovens colegas de Tomoko falando sobre o acontecido e descobre que sua sobrinha teria assistido à fita amaldiçoada, tema de sua matéria sobre lendas urbanas. Por meio da conversa, descobre que outros amigos de Tomoko teriam morrido nas mesmas circunstâncias misteriosas de sua sobrinha. A princípio, Reiko acha tudo uma grande bobagem, mas no dia seguinte, quando está na estação de TV, encontra aleatoriamente, no arquivo de jornais, uma reportagem falando sobre dois jovens encontrados mortos dentro de um carro trancado. Eram dois amigos de Tomoko, e morreram na mesma noite que ela.

Novamente, o diretor de Ringu assusta seu espectador sem apelar para sangue ou efeitos especiais: Reiko assiste a um vídeo feito por repórteres no dia em que os dois adolescentes mortos misteriosamente foram retirados de dentro do carro trancado. Quando a porta se abre, um deles cai com uma expressão de extremo pavor imortalizada em seu rosto – a mesma expressão de medo de Tomoko.

Mais e mais interessada na história, a repórter vai até o quarto da sobrinha e encontra o canhoto para retirar um filme fotográfico em uma loja de revelação 24 horas. Ela mesma pega as fotografias e descobre o chalé onde os adolescentes passaram as férias… mas também encontra mais um mistério pela frente: algumas das fotos saíram estranhamente deformadas, com os rostos das pessoas fotografadas completamente disformes.

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Movida pelo instinto investigativo e também pela mórbida curiosidade, Reiko parte para Izu, em busca do local onde os jovens ficaram uma semana antes da morte. Ao alugar o chalé, visualiza uma fita sem qualquer identificação, largada no meio de outros videotapes em uma estante ao lado da mesa da recepção. A fita chama a atenção da repórter, que na hora lembra da lenda urbana sobre a amaldiçoada. Ela pede ao gerente do chalé a quem pertencia, mas este responde que alguém deve ter esquecido por aqui.

É quando Ringu realmente começa. Reiko vai para a cabana e, após hesitar por um momento, coloca a fita no videocassete. Imagens misteriosas, e ao mesmo tempo chocantes, aparecem na tela da TV. A fita acaba, a repórter respira fundo e, logo após desligar o videocassete, escuta, horrorizada, o telefone tocar. O pesadelo está começando. Ao atender, nenhuma voz do outro lado da linha: apenas um ruído macabro que faz Reiko ter a certeza de que está amaldiçoada e morrerá em uma semana.

Revelar mais sobre a história seria estragar totalmente a surpresa do espectador. Mas, para resumir, Reiko se une ao ex-marido, o professor universitário Ryuji Takaiama (Hiroyuki Sanada), para tentar resolver o mistério. E ela tem exatos sete dias para encontrar uma forma de driblar a maldição. Os dois analisam as bizarras imagens da fita e descobrem uma estranha história envolvendo uma mulher com poderes sobrenaturais, chamada Shizuko Yamamura, que vive em uma ilha chamada Oshima e teria previsto a erupção de um vulcão. É na ilha que pode estar a chave do mistério da fita amaldiçoada. Conseguirá o casal encontrar uma solução antes do prazo de sete dias encerrar?

Ringu, para quem não viveu no planeta Terra na década passada, foi filmado em 2002 pelo estúdio americano Dreamworks (isso, aquele que é do Spielberg). Ganhou a direção de Gore Verbinski, diretor de A Mexicana, filme que a imprensa brasileira convencionou chamar de chato, apesar de ser bastante divertido.

The Ring, a versão americana, tinha tudo para ser um grande fiasco. Explico: Ringu, além de uma produção japonesa, é um filme lento, sem movimentos de câmera mirabolantes e cortes rápidos de cena (que estão na versão americana), sem efeitos especiais (que também estão na versão americana) e sem a necessidade de mostrar mortes e sustos a cada dois ou três minutos (isso, obviamente, também está na versão americana).

Ringu é um suspense psicológico, onde o medo surge naturalmente. O início é assustador. Os 50 minutos seguintes são de pura investigação e suspense, com raríssimos momentos de ação, mas bombardeando o espectador a cada momento com mais e mais peças do quebra-cabeças. Já os 20 minutos finais são o que de mais assustador foi feito no cinema de horror há muito tempo. E tudo mostrado de uma forma realmente assustadora, sem abusar para a tradicional overdose de efeitos digitais ou violência explícita, tão comum ao cinema de horror americano e europeu. O filme, injustamente, ganhou um único prêmio, o Golden Raven Award, no Festival Internacional de Fantasia de Bruxelas, na Bélgica, em 1999.

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Mas a história é tão bem bolada e o próprio filme em si tão perfeito que algum alto executivo hollywoodiano deve ter percebido o seu potencial. E até porque os roteiristas americanos andam tão mal no quesito criatividade – alguém lembra de ter visto algum filme de horror americano sem fantasmas feitos por computador ou assassinos perseguindo adolescentes, nos últimos anos??? – que levariam, no mínimo, mais 50 anos para escrever um roteiro tão perfeito e criativo quanto o de Ringu.

Entretanto, uma refilmagem literal não seria possível, principalmente devido às tradicionais diferenças entre Oriente e Ocidente. Isso sem contar que o grande público não está acostumado a filmes como Ringu, por isso a refilmagem, The Ring, ganhou mais dinamismo, ação, surpresas e sustos por minuto – mas, mesmo sendo um bom filme, nem de longe se equipara ao original.

É só ver os dois filmes para perceber que em Ringu o medo vem ao natural, enquanto na refilmagem a produção usa e abusa de música alta nas cenas de horror e de efeitos especiais para exagerar a cara de horror das pessoas mortas, por exemplo. Até as imagens da fita amaldiçoada ganharam uma nova roupagem, repleta de efeitos especiais, mas não conseguiram superar o impacto causado pela versão oriental da mesma fita.

The Ring foi batizado como O Chamado no Brasil, mas o título original tem dois sentidos: ring pode ser traduzido como o chamado telefônico em si (aquele que recebem as pessoas que assistiram à fita, avisando que irão morrer), mas também como círculo – um círculo misterioso é justamente a primeira imagem da fita amaldiçoada, tanto no filme original quanto na refilmagem.

Muitos detalhes da trama original japonesa foram alterados, especialmente a origem da fita maldita – que no filme oriental envolvia poderes paranormais e uma vidente, e na ocidental diz respeito a uma misteriosa matança de cavalos em uma ilha e uma garotinha com poderes psíquicos. Mas a essência básica, e os sustos, foram mantidos.

Mesmo assim, um conselho de amigo: ver o Ringu original pela primeira vez, sem saber seus mistérios e segredos, é uma experiência única. Por isso, escolha sabiamente entre as duas versões porque, infelizmente, você nunca mais vai ter o prazer de ver Ringu pela primeira vez novamente.

 

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Felipe M. Guerra

Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga "Entrei em Pânico...", entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

8 comentários em “Ring – O Chamado (1998)

  • 15/02/2017 em 13:33
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    Otimo filme, o original de 1998. O cinema nipônico em se tratando de obras relativas a supense/terror-horror, ainda esta que gatinhando. O cinema oriental geralmente se resume a samurais, gueixas. Assisti “Operação Dragão” (1973) com Bruce Lee. Alias toda a filmografia completa dele e´muito dificil em locadoras. Sem contar as copias piratas nos anos 1980 e 1990.

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  • 14/02/2015 em 05:50
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    Concordo com a ideia de que ver esse filme sem saber dos detalhes antes é uma experiência única. Eu o assisti em 2002/2003 no Cinemax, quando o remake ainda estava nos cinemas. E simplesmente fiquei uma semana inteira perturbado. hehehe.
    Gosto muito do remake, mas esse original é muito melhor justamente pelo que reclamam: sobre ser mais confuso e tecnicamente “inferior”; e essas são justamente as características que tornam esse filme mais climático em sua história de horror.

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  • 11/04/2014 em 16:32
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    Vi tanto o japonês quanto o norte americano e na minha opinião, a versão japonesa é muitíssimo melhor.

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  • 12/01/2014 em 12:53
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    Não entendi muito a critica. Eu já vi o remake, se eu for ver o original agora não terá a mesma graça?

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    • 18/01/2014 em 18:34
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      Assisti,realmente não tem a mesma graça assisti-lo depois do remake, mas ainda assim tive sustos e ele tem muitas cenas de tensão. (:

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  • 07/01/2014 em 04:54
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    Tenho um box em casa com a trilogia Ring – O Chamado. É uma edição especial de colecionador com os três filmes japoneses com áudio original e dublado, lançado pela California.

    É um dos meus filmes de terror/suspense favoritos. Certamente deixou sua marca no hall da fama do cinema de terror oriental. Obviamente prefiro a versão original japonesa, mas já assisti as duas.
    Essa obra vale realmente essas 5 caveiras.

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