Nova York – Cidade Violenta (1984)

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Murder Rock (1984)
Giallo + dança = sono
Nova York - Cidade Violenta
Original:Murderock - Uccide a passo di danza
Ano:1984•País:Itália
Direção:Lucio Fulci
Roteiro:Gianfranco Clerici, Lucio Fulci, Roberto Gianviti, Vincenzo Mannino
Produção:Augusto Caminito
Elenco:Olga Karlatos, Ray Lovelock, Claudio Cassinelli, Cosimo Cinieri, Giuseppe Mannajuolo, Berna Maria do Carmo, Belinda Busato, Maria Vittoria Tolazzi, Geretta Geretta, Christian Borromeo, Robert Gligorov, Carlo Caldera

No começo do ano de 1984, enquanto tomava banho, o cineasta italiano Lucio Fulci escorregou no sabonete e caiu, batendo a cabeça na parede. O resultado da pancada foi imprevisível: Fulci acordou lamentando seu passado de filmes extremamente violentos e sangrentos, e decidiu que seu próximo projeto seria uma coisa mais amena e inofensiva, para o público jovem. No caso, uma versão italiana (mas dublada em inglês e filmada em Nova York!) de Flashdance, aquele musical mela-cueca de 1983, que foi um grande sucesso de público no mundo inteiro – incluindo, obviamente, o Brasil. Ainda atordoado pela pancada, Fulci bolou a história, escreveu o roteiro e apresentou ao produtor italiano Augusto Caminito, que leu e provavelmente não acreditou que aquilo era um trabalho do mesmo responsável por Zombie e The Beyond.

Melindroso, sabendo que o nome do homem atraía público, Caminito possivelmente concordou em produzir o filme desde que Fulci colocasse uns assassinatos na trama, só para que os fãs de seus trabalhos anteriores não reclamassem tanto. Acredito até que o cineasta bateu pé, mas enfim se rendeu. Com uma condição: os assassinatos não seriam violentos nem chocantes; na verdade, desta vez ele não filmaria um único take utilizando sangue cenográfico ou mutilações em close, como tantas vezes fez no passado…

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Claro que não foi assim que surgiu Murder Rock – Dancing Death (no original, Murderock – Uccide a Passo Di Danza), filme notório por ser um dos piores da prolífica carreira de Fulci – e que, como toda prolífica carreira, também tem outros filmes bem ruins. Ao que se sabe, o cineasta nunca bateu a cabeça na parede do banheiro, mas esta seria uma boa explicação para entender como é que um sujeito faz um filme extremamente sangrento como o extraordinário e sádico New York Ripper (1982), e apenas dois anos depois consegue usar um argumento praticamente idêntico numa produção convencional e sem uma gota de sangue sequer… E mesmo que Flashdance fosse um grande sucesso de bilheteria também na Itália, Fulci definitivamente não é a melhor das escolhas para dirigir a versão macarrônica do musical xarope de Adrian Lyne.

É fato que o diretor vinha pegando leve em seus projetos, após emplacar uma fantástica série de ótimos e sangrentos filmes de horror entre 1979 e 1982: a boa safra começou com o clássico Zombie, seguido por Pavor na Cidade dos Zumbis (1980), The Beyond/Terror nas Trevas e A Casa do Cemitério (ambos de 1981). A partir de 1982, Fulci resolveu largar as ilhas e cidadezinhas infestadas de mortos-vivos e passou a investir num terror mais urbano, como já fazia seu conterrâneo Dario Argento. New York Ripper, um dos grandes filmes do diretor, é justamente um giallo à la Argento, com um misterioso assassino de luvas negras matando mulheres na Big Apple, sempre de forma violentíssima (incluindo gilete mutilando o bico do seio em close!!!).

E foi justamente a crueldade deste corajoso projeto que selou definitivamente a carreira do cineasta, pois os excessos de New York Ripper geraram polêmica e duras críticas ao suposto machismo de Fulci (pela forma como as mulheres são torturadas e mortas violentamente no filme). Tentando se “comportar“, ele optou por obras mais convencionais: no mesmo ano de 82, por exemplo, fez Manhattan Baby, outro terror urbano, onde serpentes, espíritos e fenômenos sobrenaturais estão concentrados num apartamento bem no meio de Nova York, e não numa distante casa assombrada; sonolento, o filme é uma versão “qualquer nota” de Poltergeist e economiza bastante no sangue.

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O fracasso comercial de Manhattan Baby e a polêmica de New York Ripper abalaram a parceria de longos anos entre Fulci e o produtor italiano Fabrizio De Angelis, com quem o diretor vinha trabalhando desde a década de 70. Livre, leve e solto, Lucio perdeu-se em trabalhos extremamente convencionais, buscando outros projetos e outros públicos. Começou filmando Conquest/La Conquista, de 1983, uma produção conjunta entre México, Itália e Espanha, cópia bagaceira de Conan, O Bárbaro. Ainda se notava a influência dos trabalhos anteriores do cineasta (cabeças arrebentadas, corpos partidos ao meio, zumbis…), mas Fulci apagou de vez esta lembrança com a chatíssima ficção científica The New Gladiators (1984), e finalmente com Murder Rock, principal alvo deste artigo. Os projetos posteriores jamais lembrariam os áureos tempos do diretor, e apenas mancharam mais e mais seu nome (basta lembrar que ainda teríamos Zombie 3 pela frente…).

No caso de Murder Rock, a culpa não é só de Fulci. O roteiro, inspirado numa ideia do diretor, foi escrito em parceria com Gianfranco Clerici (puta que pariu, o homem que escreveu Cannibal Holocaust!!!), Roberto Gianvati e Vincenzo Mannino (que, com Clerici e Fulci, já havia assinado dois anos antes o roteiro de New York Ripper). Agora, o que eu realmente queria saber: como é que algo tão ruim sai da cabeça de quatro roteiristas com ótimos “antecedentes“?

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Tirando a fotografia extraordinária de Giuseppe Pinori (que pode ser mais nitidamente avaliada na cópia em DVD), e alguns bons enquadramentos e ângulos de câmera do diretor, Murder Rock é medíocre do início ao fim. Pior: é um giallo tardio, já que este subgênero tipicamente italiano andava mal das pernas nesta época – muitos até o consideravam ultrapassado, mas o mestre Argento mostrou que não era bem por aí com Terror na Ópera, de 1988. Dono de um estilo próprio de fazer cinema, Fulci não precisava (nem deveria) pagar mico imitando tão descaradamente os clichês desse tipo de filme, começando pelo assassino com luvas negras e passando pelo detalhe mais velho que o cinema da fotografia que pode revelar a identidade do matador, dois elementos exaustivamente explorados, de maneira muito mais criativa, em outros gialli, inclusive os de Argento.

Murder Rock já começa assustador, mas no mau sentido, é óbvio. Primeiro, o espectador é presenteado (sim, isso foi uma ironia) com uma colagem de cenas de dançarinos de break (ainda existe isso?) em alguma boate fuleira, daquelas cheias de luzinhas coloridas piscando e globo de vidro. Pois é, e ainda tem gente que jura que os anos 80 eram tudo de bom…

A trilha sonora, já na introdução, é simplesmente pavorosa: imagine o pior do pop-rock-disco oitentista quintuplicado. Se até a música de Flashdance hoje é praticamente insuportável, imagine a trilha imitona do genérico italiano! Quando os créditos terminam, com o habitual “directed by Lucio Fulci“, você por um momento pensa que a tortura acabou…

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Ledo engano: eis que um novo número de dança e uma nova música escabrosa pegam o espectador de surpresa, dessa vez com um monte de jovens dançando em suas roupas de ginástica (maiôs, bandanas na testa, joelheiras, enfim, a moda super-fashion da academia nos anos 80…). O responsável pela tortura musical é o inglês Keith Emerson, da banda Emerson, Lake & Palmer. O mesmo cara tinha composto uma trilha fantástica para Mansão do Inferno, de Dario Argento, apenas quatro anos antes, mas aparentemente também escorregou no sabonete e bateu a cabeça enquanto tomava banho, porque aqui quer apenas machucar os tímpanos do espectador. Suas quatro músicas da trilha de Murder Rock (anote os nomes para NUNCA baixá-las por acidente: “Tonight is the Night“, “Not so Innocent“, “Are the Streets to Blame” e “You are Not Alone Tonight“) não só são insuportáveis, como o filme as torna insuportáveis, utilizando as mesmas músicas duas ou três vezes ao longo da edição!!! Bleargh!!!!

Sete minutos e dois números de dança depois, finalmente começa o filme propriamente dito. Descobrimos que os jovens dançando até suar são alunos de uma respeitada escola de música nova-iorquina chamada “Arts for Living Center” – se fosse o Fulci de alguns anos antes, certamente seria “Arts for Living Dead“. A escola é administrada por Candice Norman (a belíssima grega Olga Karlatos, eternamente lembrada como a mulher que teve o olho furado no clássico Zombie). Ela é uma ex-dançarina que teve que abandonar um futuro brilhante como dançarina da Broadway após ser atropelada por um motociclista, no passado; agora, ela desconta sua “perda” forçando os alunos a treinar e treinar até o limite de suas forças, tipo um Capitão Nascimento da dança – uffff, essa foi forçada!

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No staff da escola, temos ainda Margie (Geretta Marie Fields, a “Chocolate” do “clássicoRatos, do Mattei), a professora responsável por exigir o máximo de treino e dedicação dos jovens dançarinos. Já Dick Gibson (Claudio Cassinelli, ator-fetiche de Sergio Martino, visto em A Ilha dos Homens-Peixe) é sócio de Candice e o responsável por fechar o acordo com uma dupla de engravatados para que os alunos da escola participem de um musical que vai estrear com destaque em algumas semanas. O problema é que os empresários querem apenas três estudantes, obviamente os melhores dançarinos do grupo. Candice não gosta da ideia, pois acredita que isso vai criar uma acirrada competição entre os jovens. “Se os garotos descobrirem, eles vão fatiar um ao outro! Vamos ter problemas, Dick, eu garanto!“, prevê a bela mulher, dando o tom do que vem a seguir.

A matança não demora a começar: logo nos primeiros 15 minutos, um casalzinho de dançarinos pede a Margie para ficar na escola até mais tarde, com a desculpa de “treinar alguns passos“. hahaha. Até parece… Logo vemos os dois se amassando no vestiário. Mas a escola tem um sistema de segurança de altíssima tecnologia. Lembra do computador de bordo da série Alien, que ficava repetindo, com uma voz feminina gravada, o tempo que faltava para a autodestruição da nave? Pois é a mesma coisa: uma voz gravada sai dos alto-falantes no interior do prédio avisando que todos devem deixar as salas de aula e vestiários, porque toda a escola será “eletronicamente fechada” em 15 minutos! (hahahahaha)

Enfim, o casalzinho curtindo seu amasso no vestiário não quer nem saber se a porta vai ser eletronicamente fechada ou o escambau. E logo as luzes começam a piscar – o sistema está se autodesligando. A moça, que se chama Susan (Angela Lemerman), tira o resto da roupa e vai tomar um banho, em cenas de nudez gratuita – pelo menos neste aspecto Fulci não afinou. É quando aparece um misterioso par de mãos com luvas negras (hahahaha), e estas mãos fazem a garota desmaiar com clorofórmio. Em seguida, uma enorme agulha é introduzida no seio de Susan, penetrando até perfurar o coração. Embora a cena seja visualmente terrível e bem-feita, com close no corpo molhado e no metal entrando na pele, o efeito sonoro é simplesmente ridículo: parece que a agulha está atravessando isopor, e não carne humana! E qualquer colocação real de piercing é mais sangrenta e chocante que isso. E, em tempos de Jogos Mortais, uma agulha enfiada numa teta é algo tão inocente quanto pisar num caco de vidro.

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A polícia entra em cena e começa a investigação de praxe, liderada pelo tenente e comedor de amendoim Borges (Cosimo Cinieri, que interpretou o antiquário em Manhattan Baby). Engraçado é que o sujeito tem mais cara de bandido do que qualquer outro dos “suspeitos” da trama. Margie, que encontrou o corpo, está chorando desesperada. O namoradinho da vítima, Willy (Christian Borromeo, de Tenebre), é interrogado e diz que estava em outra sala esperando que Susan trocasse de roupa. “Por que logo ela? Susan era uma boa garota… Era realmente a melhor do grupo!“, choraminga Margie, e quase sem querer tenta esclarecer ao espectador a motivação do assassino – ou será assassina? Depois, numa bela cena digna de Argento, os médicos empurram a maca com o cadáver da moça; a câmera foi colocada sobre a maca e acompanha o corpo passando entre os cabisbaixos colegas da morta.

Alheia ao que acontece na sua escola, Candice está tomando banho e podemos matar a saudade dos seios de Olga Karlatos (vistos anteriormente em Zombie; aliás, a titia continua em plena forma, e ainda mostra a comissão de frente outras duas vezes ao longo do filme). O telefone toca, mas a voz anônima apenas sussurra do outro lado da linha (será o assassino? hehehe). Então a campainha toca; é Dick, que aparentemente tem uma relação de amor e ódio com a dona da escola. Eles conversam por alguns momentos, mas o telefone toca novamente e desta vez é Bob (Carlo Caldera), um dos instrutores da escola, avisando sobre a morte de Susan.

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Parece que o filme vai engrenar, mas eis que Fulci acha que é hora de dar mais uma torturadinha básica no espectador. Por isso, somos “brindados” com mais dança e mais Keith Emerson na escola. Mais roupas de ginástica e mais corpos sarados e suados dando pulinhos à la Flashdance. Isso até Willy interromper o ensaio com um faniquito: “Isso está certo? ISSO ESTÁ CERTO??? Vocês dançam sem dar a mínima para o fato de Susan estar morta!!!“. O pessoal até fica meio assim, mas Candice aparece e dá uma mijada na garotada, dizendo que este é o preço do sucesso e que eles precisam ensaiar de qualquer jeito: “Vocês têm que dançar! Esqueçam o que é certo e o que é humano! Porque não há tempo para chorar aqui!“. hahahaha. Eu não disse que ela parecia o Capitão Nascimento? Só faltou um: “Zero-dois, por que você não está dançando? Tá com nojinho?“. Para piorar, numa interpretação exagerada e involuntariamente hilária, Olga Karlatos arregala os olhos, cerra os punhos e grita: “Porque vocês não podem parar!!! NÃO PODEM!!!!“. hahahaha. Caveira, capitão! Senta o dedo nessa porra!!!

Novamente, você até acha que o filme vai começar a engrenar… Mas Fulci, torturador sádico e desgraçado, filha da puta sujo, carrasco, prefere apelar para mais uma cena de dança. Esta, pelo menos, é das boas: num inferninho, que aparentemente é um cabaré, uma das alunas gostosas, Janice, dança ao som da mesma música dos créditos iniciais (aparentemente, Keith Emerson compôs músicas DE MENOS e os caras tiveram que reaproveitar sempre as mesmas!!!), usando um biquíni apertado que mal cobre seu “cofrinho“. De longe, é a cena mais, digamos, interessante do filme: à meia-luz e com muito gelo seco ao fundo (estamos nos anos 80, lembra?), a dança da moça lembra palidamente a Jennifer Beals em Flashdance, com exceção de que a atriz americana não rebolava a bunda nem abria tanto as pernas quanto a dançarina da versão italiana, interpretada por Carla Buzanfa… ou melhor, Buzzanca!!! Eu até suspeitei que aí tinha algo, pois a garota mostra um jeito muito sexy de requebrar o quadril e tem um corpão de primeira. Curioso, fui pesquisar no IMDB e descobri o segredo: Carla nasceu em São Paulo, e aparentemente herdou o gingado e a gostosura das nossas lindas mulheres brasileiras!!!

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Bem, taradices à parte, voltemos à película: após sair do inferninho, Janice vai até seu apartamento e descobre que não está sozinha – há alguém escondido na escuridão. Mas não é o assassino, e sim Willy (que, aliás, é a cara do ator Cillian Murphy!). Não tente entender como o cara entrou no apê da moça, e nem pense que o fulaninho é o assassino; ele foi até ali apenas para choramingar pela morte de Susan e adiar a execução de Janice por mais alguns minutos. Mas é só o rapaz sair de cena para a dançarina encontrar seu passarinho de estimação morto, com uma enorme agulha atravessada no corpo emplumado. Infelizmente, caros amigos, nunca mais veremos a gostosinha dançar, pois ela se transforma na próxima vítima do matador da agulha!!! hahahaha. Como isso soa ridículo, não é verdade? E Fulci, firme em sua convicção de não mostrar violência, desta vez nem mesmo filma o ataque a Janice, cortando diretamente para a cena onde seu cadáver (e o do passarinho, hahahaha) é encontrado.

Mas se Fulci não pretende mostrar violência explícita, pelo menos nudez gratuita há aos montes. Dormindo confortável em sua cama, sem saber do assassinato de mais uma aluna, Candice sonha que corre pelada, com os peitos e a bunda de fora (coberta apenas com uns paninhos transparentes), de um homem misterioso que segura, numa das mãos, a mesma agulha utilizada pelo assassino. Quando o sujeito vai espetá-la, ela acorda apavorada.

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Mais adiante, Candice vê um outdoor e se espanta ao perceber que o modelo do anúncio é exatamente o homem do seu sonho! Com a ajuda de Dick, ela investiga o sujeito e descobre que trata-se de um modelo alcoólatra chamado George Webb (Ray Lovelock, de Let Sleeping Corpses e Macchie Solari/Autopsy). Seguindo de perto o que acontece em 99% dos filmes do gênero, Candice se aproxima do cara e começa a se envolver com ele – sem saber, ao certo, que relação ele tem com os assassinatos e porque estava representado de forma tão ameaçadora em seu sonho. Peraí: a mulher sonha que o cara matou ela, e mesmo assim dorme com o sujeito??? Mas a lógica não pediria justamente o contrário???

Acredito que nem seja preciso falar mais muito sobre Murder Rock. Desde já, saiba que o assassino vai atacar novamente (e, mais uma vez, furar o seio da vítima até chegar ao coração), a polícia vai ficar no escuro até os 5 minutos finais e todos os clichês dos gialli serão reciclados sem grandes resultados. O pior deles é quando o misterioso matador ataca na casa de outra das jovens dançarinas e uma menininha, paralisada de medo, não consegue fazer nada para ajudar além de fotografar o ataque. O tenente Borges fica sorridente, pensando que vai poder identificar o psicopata assim de barbada, mas é claro que a cabeça da criatura ficou fora do quadro da foto – e apenas um pequeníssimo detalhe vai poder identificar o assassino, somente nos minutos finais, quando este já matou novamente, se revelou e explicou toda a sua motivação.

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Desde já, fique sabendo que o misterioso George existe apenas para desviar a atenção, e o responsável pelas mortes é alguém da própria escola – afinal, as futuras vítimas sempre saem com o tradicional: “Oh, it’s you…“, normalmente seguido de um “Oh my God!“, ou “What are you doing?“. hehehehe. E nem se preocupe muito em raciocinar, já que a identidade do culpado fica muito óbvia desde os 15 minutos iniciais. O roteiro “genial” (sim, foi mais uma ironia), escrito a 8 mãos, só não explicou porque diabos o matador resolveu utilizar uma arma tão imbecil e pouco ameaçadora, como uma agulha, para matar suas vítimas (sinceramente, achei que teria um motivo…).

Numa entrevista publicada há alguns anos e agora disponível na internet, Fulci diz que a culpa por este “giallo musical” foi do produtor Augusto Caminito, que quis aproveitar a gorda bilheteria de Flashdance e obrigou o diretor a incluir as inúmeras cenas de música e dança. Na mesma entrevista, ele diz que não ficou satisfeito com a trilha sonora de Emerson, mas foi obrigado a usá-la no filme porque Caminito já havia fechado o contrato com o compositor antes mesmo do início das filmagens – talvez isso explique porque o nome de Keith Emerson aparece em letras maiúsculas nos créditos iniciais, em fontes maiores do que as do nome do próprio Fulci!!!

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Murder Rock tem tantos problemas que seria perda de tempo enumerá-los todos. O principal é a ausência de tensão, de suspense e, principalmente, da violência explícita pela qual Fulci é conhecido. O roteiro tenta emular um típico giallo, mas o estilo já estava mais do que ultrapassado em 1984 – e nenhum dos quatro roteiristas procurou ser particularmente criativo ou surpreendente nas cenas de morte e nas “reviravoltas“. A identidade do matador não chega a empolgar, e o filme perde mais tempo com as inúmeras cenas de dança do que com a trama principal, justamente para aproveitar o sucesso de Flashdance. Aliás, vale citar que um dos títulos alternativos da película era justamente Slashdance!!! hahahahaha.

E mais: se Fulci ganha certo crédito por desnudar frequentemente suas belas atrizes (principalmente minha musa Olga Karlatos), perde totalmente todo este crédito por ter um ótimo elenco à disposição e não aproveitá-lo. Tirando as beldades, Ray Lovelock está completamente perdido (e irreconhecível, para quem lembra dele com barba em seus outros filmes). Desperdiçado, Claudio Cassinelli mal aparece num papel secundário que não fede nem cheira. Cosimo Cinieri também não é a melhor escolha para tenente de polícia, mas pelo menos tenta interpretar de maneira bem humorada, sempre saboreando seus amendoins… Ah sim: olho vivo para não perder as rápidas participações especiais do próprio Fulci (como um agente) e de Al Cliver (Zombie) como um analista de sons da polícia.

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Embora seja bem filmado, bem editado e, vá lá, bem narrado, Murder Rock é um tiro n’água: sem suspense e sem sangue, o filme é absolutamente comum e sem graça. E além de não emocionar, ainda deixa o espectador morrendo de sono, já que frequentemente corta da trama de mistério para os intragáveis números de dança. Tirando a apresentação solo da Carla Buzanfa (opa, Buzzanca!), todas as cenas de dança são um convite ao tédio, com coreografias chinfrins repletas de pulinhos e rebolados – e, ressalto, a intragável trilha sonora de Keith Emerson. Talvez estas longas cenas possam agradar àqueles tarados por aeróbica (aqui na minha cidade tem um maluco que adora passar horas olhando pela vitrine de uma academia!), já que Fulci não economiza nos closes de bundas rebolando e coxas e seios com gotinhas de suor deslizando… Para o público feminino, entretanto, tais cenas não terão qualquer apelo (com exceção das lésbicas, claro), apenas aumentando a vontade de passar o filme adiante e pular para as partes mais interessantes – que, infelizmente, não existem!!!

Com uma contagem de cadáveres minúscula (apenas três mortes, se não considerarmos o triste destino do passarinho de Janice e do próprio assassino), e o modus operandi sem graça utilizado pelo matador (as vítimas nem ao menos estão vivas para gritar e se debater enquanto ele enfia a agulha no coração), Murder Rock é sem sombra de dúvidas um dos maiores equívocos do pobre Fulci. E pensar que isso, pasmem, saiu em DVD duplo lá nos States!!! Aliás, se não tivesse as toneladas de nudez gratuita, não haveria nada, mas nada mesmo para ver. Meu conselho de humilde crítico amador e tarado profissional: assista apenas para pequena participação da Carla Buzzanca e pelo festival de peitos desfilando entre uma cena bocó e outra. E tente esquecer que esse filme chato e arrastado foi dirigido por “aqueleLucio Fulci que todo mundo gosta…

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Apesar dos anteriores Conquest e The New Gladiators também serem produções fraquinhas, é Murder Rock que, na minha opinião, assinala o ponto final da carreira do velho Lucio; a partir de então, o ex-“Godfather of Gore” só foi ladeira abaixo, transformando-se no “Godfather of BORE“, assinando lixos unicamente por dinheiro e entregando filmes com uma qualidade constrangedora em comparação aos seus trabalhos mais famosos – a única exceção, talvez, seja A Cat in the Brains, na verdade uma colagem das cenas sangrentas de suas outras obras. E o mestre nem teve a chance de fazer uma despedida à altura, já que morreu em 1996 sem deixar novos clássicos para uma nova geração…

Se você é daqueles que adora caçar raridades, nem será preciso baixar o filme ou procurar pelo DVD duplo importado: acredite se quiser, mas Murder Rock saiu em VHS no Brasil, lá nos tempos pré-históricos em que existia esse tipo de coisa, selado pela distribuidora Videoban com o pavoroso título de Nova York – Cidade Violenta – mas violenta por que, se morrem apenas quatro pessoas e um pássaro o filme inteiro? Coloque a fita no seu velho e empoeirado videocassete, abaixe bem o volume para poupar os ouvidos dos tenebrosos acordes da trilha de Keith Emerson e divirta-se com um dos piores gialli made in Italy da história! Ah, se não fosse pela Claudinha…

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Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga "Entrei em Pânico...", entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

One thought on “Nova York – Cidade Violenta (1984)

  • 03/08/2014 em 03:10
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    O filme é uma porcaria , mais vale a pena conferir só pela nudez gratuita que é o que interessa no filme .

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