Chamas da Morte (1981)

1981: O ANO DA MATANÇA DE ADOLESCENTES

Poucas vezes o cinema matou tantos adolescentes quanto naquele longínquo ano de 1981. Foi neste começo de década que produtores americanos resolveram filmar dezenas de slasher movies, incentivados pela fantástica repercussão (e lucro) de dois filmes feitos anos antes, Halloween, de John Carpenter, lançado em 1978 (que custou 325 mil e rendeu 47 milhões de dólares!!!), e Sexta-Feira 13, de Sean S. Cunningham, lançado em 1980 (com um custo aproximado de 700 mil e uma renda que passou de 39 milhões de dólares!!!). Ou seja: era economicamente viável e rentável mostrar adolescentes sendo esquartejados nas telas de cinema.

Chamas da Morte (1981) (8)

1981 foi o ano em que os slasher movies atingiram o auge de produção/distribuição: 33 produções do gênero estrearam nos cinemas. A qualidade, claro, era variável, mas teve muita coisa boa no meio, como as interessantes sequências dos filmes que iniciaram este filão, Halloween 2 e Sexta-Feira 13 Parte 2. Vale lembrar que os slasher movies não eram, necessariamente, uma novidade nesta época. Desde os anos 50 existiam produções que já exploravam alguns dos clichês pré-slasher, inclusive os clássicos Psicose, de Hitchcock, e Banho de Sangue, do italiano Mario Bava (cujas mortes foram todas copiadas em Sexta-Feira 13 Parte 2). Antes mesmo do sucesso de Halloween já existiam obras como O Massacre da Serra Elétrica e Black Christmas (ambos de 1974).

O que aconteceu, a partir de Halloween e Sexta-Feira 13, foi uma padronização do estilo de se fazer slasher movies: os adultos saíram dos papéis principais para dar lugar aos adolescentes; garotas fortes e corajosas (e necessariamente virgens e livres de vícios) eram as heroínas, enquanto o restante do elenco era trucidado; fazer sexo era o mesmo que cometer suicídio; o assassino era mascarado e/ou deformado, e por aí vai. Todos os clichês e estereótipos dos slasher movies (incluindo o cara brincalhão que assusta todo mundo e o garanhão que diz “já volto” e nunca volta) surgiram a partir do sucesso de Sexta-Feira 13. E a “Era Slasher” durou muito tempo, morrendo no final da década de 80, graças à enorme quantidade de títulos com poucas variações. Ironicamente, este subgênero seria retomado na metade da década de 90, com o sucesso de Pânico, dirigido por Wes Craven, que começou como uma brincadeira com os clichês do sub-gênero e logo virou um produto pasteurizado a exemplo dos próprios slasher movies com que brincava…

Chamas da Morte (1981) (9)

Fique agora com uma relação de 10 dos 33 filmes lançados em 1981. São os mais representativos, interessantes ou violentos da safra – embora a maior parte nem tenha sido lançada no Brasil. The Burning não conta, obviamente, por já ser o tema central da análise. Mas, com certeza, figura entre os melhores daquele ano em que o sangue de adolescentes jorrou e tingiu as telas de cinema…

Sexta-Feira 13 Parte 2 (Friday the 13th Part II)
Direção: Steve Miner

Sexta-Feira 13 - Parte 2 (1981)

Após o sucesso estrondoso do original, era natural esperar por uma sequência. Como a assassina do primeiro filme tinha sido decapitada na conclusão, o roteirista Ron Kurz teve que improvisar e criar um novo vilão, um certo Jason, cuja existência era citada apenas por cima no original. E, quem diria, Jason Voorhees se transformaria num dos personagens mais lendários do moderno cinema de horror, atacando em outros nove filmes! A história se passa cinco anos após o original e mostra Jason despachando os monitores que querem abrir um acampamento de férias próximo a Crystal Lake (onde ocorreu o massacre da Parte 1). Considerando o nível das continuações posteriores, esta é uma das melhores. Mas a produção sofreu com vários problemas: o agente da atriz Adrienne King (estrela do primeiro filme) pediu um cachê muito alto, por isso ela aparece 10 minutos e é morta logo no início! Para piorar, a censura cortou quase todas as cenas sangrentas, fazendo desta Parte 2 a mais brochante de toda a série (e nem existe uma versão pirata sem cortes circulando pela rede…). Custou 1 milhão e rendeu 21 milhões de dólares.

CONTAGEM DE CADÁVERES: 9 mortes (2 off-screen)

Halloween 2
Direção: Rick Rosenthal

Halloween 2 (1981)
Uma ótima sequência do famoso filme de John Carpenter, que não só começa onde o original terminou (o que é raro), mas ainda complementa as ideias do primeiro filme e inclui algumas novas, resgatando os personagens sobreviventes e ampliando a mitologia ao redor do serial killer Michael Myers. Laurie Strode (Jamie Lee Curtis), sobrevivente do original, é levada a um hospital após ser atacada pelo psicopata Michael. Porém, o assassino não desiste e invade o local (convenientemente escuro e deserto), matando médicos e enfermeiras taradas enquanto procura pela vítima – que, conforme descobrimos nesta sequência, é sua irmã. O próprio Carpenter escreveu o roteiro (com a falecida Debra Hill) e deu uma mãozinha aos produtores, filmando ele mesmo algumas cenas. Sua ideia era terminar de vez a saga de Michael Myers, tanto que reserva um fim nada agradável ao vilão. Claro que o dinheiro falou mais alto, e Michael foi “ressuscitado” por produtores inescrupulosos após um terceiro filme (Halloween 3) sem relação com os dois anteriores. Vários momentos memoráveis e cenas de tensão explícita, numa continuação muito bem feita e que não envergonha o filme original. Custou US$ 2.500.000 e rendeu US$ 25.533.818.

CONTAGEM DE CADÁVERES: 10 mortes (1 off-screen)

Dia dos Namorados Macabro (My Bloody Valentine)
Direção: George Mihalka

Dia dos Namorados Macabro (1981) (1)
Outro dos bons filmes da safra de 1981, foi feito no Canadá e tem muitos fãs até hoje. Entre as produções lançadas naquele ano, é a mais violenta: tem 12 mortes. Infelizmente, a tesourinha da censura cortou as melhores cenas e quase todas as mortes estão incompletas – inclusive na versão recentemente lançada em DVD nos Estados Unidos. O filme conta a história de uma cidadezinha traumatizada por uma tragédia envolvendo mineiros, muitas décadas atrás. Um deles, Harry Warden, ficou maluco e jurou vingança. Quando a cidade tenta fazer um baile de Dia dos Namorados (para justificar o título), Harry volta vestido com trajes de minerador, e passa a matar os jovens da cidade com sua picareta, enviando para a polícia os corações arrancados, dentro de caixas de bombons. Mesmo que a censura tenha diminuído as cenas de mortes, ainda assim sobrou bastante sangue e cenas antológicas, como aquela em que os jovens tentam escalar o fosso da mina por uma longa escada.

CONTAGEM DE CADÁVERES: 12 mortes (1 off-screen)

A Hora das Sombras (Final Exam)
Direção: Jimmy Huston

A Hora das Sombras (1981) (1)
Este filme é ruim de doer, entrando na lista apenas por ser um dos raros títulos da época lançados em VHS no Brasil (pela extinta Globo Vídeo), e por ter uma das mais altas contagens de cadáveres da safra de 1981, num total de 11 mortes. Basicamente, é a história de um assassino mané, sem máscara nem rosto deformado (anti-clichê), mas mudo que nem uma porta, que invade o campus de uma universidade e passa a sistematicamente matar os alunos durante 90 minutos, sem surpresas ou reviravoltas. O tal assassino não tem nome e nem razão de existir, apenas surge do nada e sai matando a galera! O título original, “Exame Final“, virou o que virou porque era moda, no Brasil, lançar filmes de terror com “A Hora…” no título, graças ao sucesso de A Hora do Espanto.

CONTAGEM DE CADÁVERES: 11 mortes (3 off-screen)

Noite Infernal (Hell Night)
Direção: Tom DeSimone

Noite Infernal (1981) (1)
A fraternidade Alpha Sigma Rho prepara um evento especial de iniciação para seus novos membros: a chamada “Noite Infernal“, onde quatro calouros (dois casais) precisam sobreviver a uma noite dentro de uma mansão abandonada. Ali, no passado, um homem teria matado a esposa e os filhos deformados. Diz a lenda, é claro, que um dos filhos teria sobrevivido ao massacre. Ninguém dá bola para a história e o quarteto se prepara para a noitada na mansão iluminada à luz de velas, enquanto os veteranos da fraternidade armam diversos esquemas para apavorar os calouros. O problema é que realmente existe um assassino deformado vivendo na casa, e que não irá tolerar a invasão. Com todos os clichês do gênero, Noite Infernal é valorizado pela participação de Linda Blair, como uma das calouras trancadas na mansão. Infelizmente, a cópia lançada em VHS pela Nacional Vídeo é muito escura e não permite ver praticamente nada nas cenas de morte.

CONTAGEM DE CADÁVERES: 8 mortes (2 off-screen)

A Ilha dos Cães (Humongous)
Direção: Paul Lynch

A Ilha dos Cães (1981)
Em 1946, uma garota é estuprada durante uma festa na ilha de seu pai. O agressor é atacado por cães e morto. Mais de 30 anos depois, um grupo de amigos viaja de barco e acaba enfrentando problemas, indo parar justamente na tal ilha. O local está abandonado desde o episódio traumático de 1946, a não ser por uma criatura deformada e monstruosa que perambula pela floresta matando os pobrezinhos. Dirigido pelo inglês Paul Lynch, que no ano anterior (1980) havia feito o muito ruim Prom Night – Bale de Formatura, este é outro slasher movie fraquinho e formulaico, onde desde o começo se imagina quem morre e quem vive. Poucas cenas de peitinhos, mas a maquiagem da criatura vale uma olhada – assim como a bela Janet Julian, que fez O Rei de Nova York, de Abel Ferrara. Lançado em VHS pela Globo Vídeo, novamente numa cópia escura e que permite ver bem pouco nas (muitas) cenas noturnas.

CONTAGEM DE CADÁVERES: 7 mortes (2 off-screen)

Quem Matou Rosemary? (The Prowler/Rosemary’s Killer)
Direção: Joseph Zito

Quem Matou Rosemary? (1981)
Este entra com louvor entre os melhores slasher movies da década de 80, com efeitos violentíssimos do mestre Tom Savini (que fez este filme logo depois de The Burning) e direção inspirada de Joseph Zito (que foi convidado a dirigir Sexta-Feira 13 parte 4 após o sucesso desta sua obra). Durante a Segunda Guerra Mundial, Rosemary, uma garota que abandonou o namorado, é morta junto com seu novo pretendente. O assassino, vestido com trajes de soldado, deixa uma rosa vermelha na cena do crime. Mais de 30 anos depois, o soldado assassino retorna à cidadezinha para uma onda de novos crimes, todos violentíssimos – como ao apunhalar um garoto na cabeça até a lâmina atravessar debaixo do queixo!!! Inclui, ainda, uma cena de cabeça explodida a tiro de espingarda, a exemplo do que Savini havia feito em Maniac, de William Lustig, lançado no ano anterior. Quem Matou Rosemary? saiu em VHS no Brasil pela Transvídeo e vale uma olhada. O bom elenco tem os veteranos Lawrence Tierney e Farley Granger.

CONTAGEM DE CADÁVERES: 8 mortes

Horário de Visitas (Visiting Hours)
Direção: Jean-Claude Lord

Horário de Visitas (1981)
Michael Ironside, que quase nunca faz papéis de vilão (hehehe), interpreta um assassino psicopata que ataca e estupra uma apresentadora de TV (Lee Grant, de A Profecia 2), deixando-a à beira da morte. A moça, porém, escapa do terrível destino e é levada para o hospital, apenas para passar mais 1h30min sendo perseguida pelo assassino, já que ele invade o local e começa a matar pacientes e enfermeiras em busca da sua vítima. Emulando a situação básica de Halloween 2 (a ambientação num hospital também remete a Absurd/Rosso Sangue, do italiano Joe D’Amato, lançado no mesmo ano), Horário de Visitas tem um bom elenco, contando ainda com uma pequena participação de William Shatner. Foi lançado em VHS no Brasil pela Abril Vídeo.

CONTAGEM DE CADÁVERES: 8 mortes (1 off-screen)

Campsite Massacre/The Final Terror
Direção: Andrew Davis

Campsite Massacre (1981)
Dirigido pelo mesmo cara que depois comandaria blockbusters de ação (entre eles, O Fugitivo e Efeito Colateral), este filme continua inédito no Brasil. Chama a atenção por reunir um elenco repleto de nomes conhecidos: Adrian Zmed (do seriado T.J. Hooker), Rachel Ward (a professorinha de A Fortaleza), Daryl Hannah (pós-Blade Runner) e Joe Pantoliano (Matriz). A história é o trivial: um grupo de jovens parte em uma expedição para acampar numa região remota da floresta, onde são massacrados por um misterioso assassino. Duas das mortes acontecem ainda antes dos créditos iniciais, e depois só tem mais quatro – e um montão de sustos falsos e cenas dispensáveis. Filmado em 1981, mas lançado apenas em 1983.

CONTAGEM DE CADÁVERES: 6 mortes (1 off-screen)

Graduation Day
Direção: Herb Freed

Graduation Day (1981)
Outro slasher inédito no país. Laura é uma estudante que, às vésperas do dia da formatura, morre de ataque cardíaco após vencer, em tempo recorde, uma prova de 100 metros rasos. A partir de então, vários esportistas da escola, membros da equipe em que Laura estava, começam a morrer violentamente. Será que a falecida corredora voltou dos mortos ou é alguém querendo vingar seu trágico destino? O elenco tem dois nomes conhecidos no elenco: o canastrão Christopher George (que no mesmo ano fez O Terror da Serra Elétrica) e a gatinha e musa trash Linnea Quigley (de A Volta dos Mortos-Vivos). Apesar do excesso de clichês, Graduation Day tem algumas cenas muito inspiradas, como o jogador de futebol americano morto ao tentar agarrar uma bola com um espada escondida em seu interior. Custou 250 mil e rendeu US$ 1.900.000.

CONTAGEM DE CADÁVERES: 9 mortes

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Felipe M. Guerra

Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga "Entrei em Pânico...", entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

5 comentários em “Chamas da Morte (1981)

  • 17/12/2017 em 03:37
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    A espera acabou a versátil lançou ui na caixa que contêm esse filme é o acampamento sangrento também

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  • 29/01/2015 em 19:53
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    Eu gosto deste filme, é muito bom, eu tenho ele.

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  • 04/01/2015 em 21:37
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    The Burnining é um dos meus filmes favoritos! Divertido, violento, ágil. Me admira não ter ganhado sequências, mas é melhor assim hehe! Excelente texto!

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  • 30/12/2014 em 00:31
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    só louco pra assistir esse filme , pois na década de 80 eu não tinha televisão , era um sofrimento só quando via a chamada desse filme na tv do vizinho..

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  • 26/12/2014 em 22:52
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    A minha única reclamação do Boca do Inferno é o fato da maioria dos textos aqui publicados serem bem curtos, deixando aquele gostinho de quero mais quando trata de determinados filmes. Por isso, eu gosto bastante quando publicam um texto do Felipe M. Guerra porque além de serem grandes e informativos, também são muito divertidos e sinceros. Não é um crítico almofadinha escrevendo; é só um cara normal que adora cinema. Realmente fantástico.

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