O Mutilador (1985)

O Mutilador (1985)
Um slasher sonolento que só vale pelo sangue derramado
O Mutilador
Original:The Mutilator
Ano:1985•País:EUA
Direção:Buddy Cooper
Roteiro:Buddy Cooper
Produção:Buddy Cooper
Elenco:Matt Mitler, Ruth Martinez, Bill Hitchcock, Connie Rogers, Frances Raines, Morey Lampley, Jack Chatham, Ben Moore, Trace Cooper, Pamela Weddle Cooper

Ah, os slasher movies… Provavelmente nenhum subgênero do horror foi tão amado e odiado quanto este, onde mocinhas peitudas e manés maconheiros eram perseguidos e mortos criativamente por assassinos mascarados e/ou deformados, mas quase sempre dementes ou com algum trauma de infância que justificasse a matança. Há quem diga que os primeiros slasher movies datam do final da década de 50 e início dos anos 60 (caso de Psicose, de Hitchcock, e Peeping Tom, de Michael Powell); outros, porém, acreditam que estes dois exemplos clássicos são produções muito requintadas para receber tal rótulo, e que o primeiro slasher legítimo, que lançou as bases para o gênero, foi o clássico italiano Banho de Sangue, de Mario Bava (1971). Também há os que acham que tudo começou com a produção Black Christmas (1974, refilmado como Natal Negro), dirigida por Bob Clark, ou ainda com o sucesso made in United States Halloween (1978), do mestre John Carpenter.

Seja quem for o pioneiro, seja qual for a data de surgimento deste subgênero, uma coisa é certa: nunca os slasher movies foram tão populares quanto nos anos 80. Todo mundo investiu na matança de adolescentes nesta era dourada dos assassinos mascarados: das “majors” (Paramount, Warner, Columbia…) às produtoras de quinta categoria ou independentes. E todo mundo faturou dinheiro. Alguns muito dinheiro. Até já pensei em escrever um artigo sobre a ascenção e declínio dos slashers, mas são tantos filmes lançados entre os anos 80 e 90 que seria mais fácil escrever um livro sobre o tema – e nos EUA até já existe um, chamado “Going to Pieces”, escrito por Adam Rockoff, e que recentemente virou um documentário interessante, ainda que bastante incompleto para a abrangência do tema.

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Dentro deste ciclo oitentista de matança, atualmente é muito difícil separar o joio do trigo. Tem muita coisa boa (a série Sexta-Feira 13, as primeiras continuações de Halloween, além de Acampamento Sinistro, Madman, Nightmare on a Damaged Brain, The Burning – Chamas da Morte, Quem Matou Rosemary?, O Pássaro Sangrento, Maniac Cop, entre outros); tem muita coisa meia-boca e tem muita coisa muito ruim. Na maioria das produções do gênero, detalhes importantíssimos como interpretações, direção e roteiro (incluindo construção do suspense e dos personagens) eram inexistentes; importava, isso sim, matar o maior número possível de figurantes on-screen, preferencialmente da forma mais sangrenta, violenta, exagerada e desagradável possível. Basta perceber a evolução da sangüinolência (e dos efeitos) em séries intermináveis, como Sexta-Feira 13, para perceber que o povo quer sangue. E quanto mais, melhor!

Essa sede de sangue de produtores e espectadores é algo que, por si só, mereceria uma análise semiótica. Há quem faça um paralelo entre o sucesso dos slasher movies e as execuções no Coliseu romano lá nos primórdios do nosso calendário gregoriano, quando os primeiros cristãos eram atirados aos leões para serem devorados vivos, diante de uma ensandecida plateia que acompanhava o “show” com mórbido prazer. Guardadas as devidas proporções, é algo parecido mesmo – ao ponto de muitos espectadores torcerem pelos VILÕES nas produções mais populares, gerando longas séries como a já citada Sexta-Feira 13 (atualmente em seu décimo filme e com remake) e A Hora do Pesadelo (sete no total, sem contar Freddy Vs Jason e o remake).

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Enfim, esta introdução enrolada é apenas para apresentar O Mutilador, objeto desta análise. O nome já diz tudo. E convenhamos: é um dos melhores títulos de filme de horror que alguém já teve a cara-de-pau de criar (qual fã de horror não se interessaria por algo chamado O Mutilador?). O cartaz de cinema é ainda mais chamativo. Mostra jovens cadáveres pendurados numa parede, lembrando o triste destino dos personagens de O Massacre da Serra Elétrica original, enquanto uma mão anônima segura um enorme gancho de pesca. E, num cantinho, está a frase mais criativa da história dos slasher movies, um trocadilho intraduzível: “By pick, by fork, by axe, bye bye!” (Por picareta, por ancinho, por machado, tchauzinho!). Infelizmente, tudo o que havia de criatividade acabou no título, no cartaz e na tagline. O restante é mais do mesmo, e um mais do mesmo produzido com a melhor das intenções, mas o pior dos resultados. Chato, enrolado e previsível, O Mutilador é um típico “espetáculo no Coliseu romano”: a única atração são as mortes, sangrentas e violentíssimas, e espalhadas ao longo de um roteiro songomongo, repleto de cenas risíveis, personagens imbecis e situações songomongas, risíveis e imbecis.

O Mutilador é o primeiro (e, felizmente, único) trabalho de um sujeito chamado Buddy Cooper. É difícil saber se Buddy era um amante de horror sangrento ou apenas um picareta que tentou aproveitar o filão dos slasher movies para faturar uns trocados (já que ele, além de diretor e autor do roteiro, também é produtor da película). O filme originalmente se chamava Fall Break (“Feriadão”); felizmente, Buddy resolveu trocar para algo muito mais interessante – fala sério, você preferiria assistir uma produção de horror chamada Feriadão ou O Mutilador? E o roteiro de Cooper é um primor de inteligência. Começa numa casa de campo, onde uma mulher (Pamela Weddler Cooper, mãe, esposa ou talvez irmã do diretor) prepara um bolo de aniversário; na sala, um garotinho (Trace Cooper, filho, irmão mais novo ou talvez sobrinho do diretor) tem a fantástica ideia de limpar as espingardas da coleção de armas do seu pai, que, no caso, é o aniversariante do dia. Enquanto lustra uma das armas, o garoto tem também a brilhante ideia de apontar a espingarda como se fosse um cowboy e apertar o gatilho. E não é que o papai aniversariante foi burro o suficiente para guardar uma espingarda carregada num armário sem chave, à disposição do filho pequeno? Pois é: a espingarda dispara, o tiro atravessa a porta da cozinha e, num caso raro de mira fantástica que nem soldados altamente treinados têm, atinge em cheio as costas da mamãe, que cai morta. O piá de merda se aproxima do cadáver e solta um “Mommy! Mommy!” tão falso e forçado que o espectador fica com vontade de dar um tapão na orelha do garoto pra ver se ele acorda. Ao mesmo tempo, o papai volta de uma caçada e encontra a esposa caída numa poça de sangue. Ele então dá uma bomba no lado da orelha do guri (merecida!!!) e, aparentemente lelé da cuca e chocado com a cena, arrasta o cadáver da esposa para a sala, onde relaxa tomando um uisquinho. E assim começa nossa história. Cruz-credo…

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A trama dá um salto de uns 15 anos no tempo e reencontramos nosso garoto atirador de elite e assassino de mães, agora já crescido. Ele se chama Ed Jr. (Matt Mitler, que posteriormente apareceu em Basket Case 2, de Frank Henenlotter). Ed, aparentemente, leva uma vida normal, alheio ao fato de ter fuzilado e matado a mamãe quando criança. O mesmo não se pode dizer de seu pai, Jack (interpretado por Jack Chatham), que após perder a esposa ficou meio tantã, jogou-se de cabeça no alcoolismo e nunca mais falou direito com o filho – parece ter ficado internado por um tempo também, mas o roteiro não se preocupa em explicar isso, muito menos se alguém foi incriminado pela morte da mamãe. Enfim, é feriadão e Ed e sua namorada Pam (Ruth Martinez) tentam encontrar algo para fazer, junto com dois casais de amigos – Mike (Morey Lampley) e Linda (Frances Raines), Ralph (Bill Hitchcock) e Sue (Connie Rogers). Sim, você não leu errado: um dos atores tem sobrenome “Hitchcock”, o que torna O Mutilador um caso raro em que você pode dizer “Vi um filme do Hitchcock que era uma bela merda!”. hehehehe

Quando os seis jovens manés já estão conformados em passar o feriadão no campus, eis que Ed recebe um telefonema do papai. Jack quer que ele e seus amigos vão até sua casa de praia para limpá-la. É claro que o grupo adora a ideia; afinal, limpar uma casa, seja na praia, no campo ou na cidade, é um programa tão divertido… e ainda mais num feriadão! Curiosamente, Ed nem estranha o fato do pai, que nunca falou com ele após a morte acidental da esposa, e que ainda por cima não bate bem da cabeça, ter feito tal convite de uma hora para a outra. Enfim, são meras conveniências do roteiro… Não demora cinco minutos para a turma se mandar pra praia.

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A casa da família fica num local deserto, onde não tem polícia nem vizinhos próximos (que conveniente!). Os jovens encontram a porta da frente aberta, só que encaram como algo normal – assim como o “pequeno detalhe” de um velho machado medieval pendurado na parede ter desaparecido misteriosamente. Manés que são, também não se preocupam em checar os cômodos da casa (afinal, ninguém checa os cômodos de uma casa de praia fechada há anos, não é verdade?). Pois se tivessem checado, eles descobririam logo no começo do filme que, na sala de ferramentas no porão da casa, está escondido o próprio Jack, o pai de Ed, que vem a ser o “Mutilador” do título. Aparentemente, Jack remoeu a morte da esposa estes anos todos, e finalmente resolveu dar o troco no seu filho assassino. O roteiro só não se preocupa em explicar porque ele não se vingou antes, quando Ed era um pirralho e não tinha condições de se defender, ou porque não se preocupou em pegar o filho sozinho, para não ter o trabalho de matar todos os seus amigos antes de chegar à vítima prioritária… Mas é inútil tentar entender, por isso vamos adiante.

Enquanto no porão Jack se revira e sonha com diferentes formas de matar Ed (e o ator que interpreta o assassino faz a única expressão facial que conhece, a de demente), dentro de casa a garotada se diverte – e, neste caso, diversão significa jogar Banco Imobiliário e beber cerveja! Seguindo à risca a “Bíblia Sagrada dos Slasher Movies”, o roteiro de Buddy Cooper é formulaico e previsível até na caracterização dos personagens: Pam, a namorada de Ed, é virgem e passa o filme inteiro resistindo às investidas do rapaz (afinal, se der para Ed vai deixar de ser virgem e não sobreviverá no final!); Ralph é o brincalhão ao estilo Ned (Sexta-Feira 13), Ted (Sexta-Feira 13 Parte 2) e Shelly (Sexta-Feira 13 Parte 3), que passa o tempo todo armando sacanagens para os amigos, de forma que quando ele toma o que merece todo mundo pensa ser mais uma de suas brincadeiras de mau gosto; e Mike é o atleta loiro e sarado que só pensa em fazer sexo – e esta, claro, é a última coisa que ele faz antes de morrer, pois fazer sexo em slasher movies é o mesmo que assinar sua sentença de morte – você lembra do rapaz falando isso em Pânico, do Wes Craven, não lembra? Resumindo: os personagens de O Mutilador não são personagens, e sim caricaturas. Quase sátiras, se você preferir. Só não são sátiras porque o filme não é engraçado. Nem mesmo involuntariamente.

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Mas num slasher movie chamado O Mutilador, o que você mais espera é que o dito cujo entre em ação e comece a mutilar os personagens, correto? Bem, infelizmente não é o que acontece aqui. Nosso amigo Buddy Cooper confundiu “criar suspense” com “enrolar”, e passa os primeiros 40 minutos fazendo justamente isso: enrolando. Ed fica mostrando as tralhas do seu pai para os amigos, incluindo uma máscara antiquíssima usada para sacrifícios humanos e a foto de um sujeito que foi atropelado pela lancha do seu pai (e vai saber porque o papai resolveu guardar uma foto do momento!); todos falam muita bobagem e caminham para lá e para cá sozinhos. A coisa só começa a melhorar quando Mike e Linda saem para um passeio noturno e encontram uma piscina nas proximidades (que conveniente!). Resolvem mergulhar pelados antes de uma trepadinha básica, pois em slasher movies todo mundo gosta de ficar pelado dentro das propriedades alheias sem qualquer constrangimento e sem medo de que alguém apareça e dê um flagrante. E, claro, os dois se transformam nas primeiras vítimas dO Mutilador.

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A situação é tão ridícula que vale a pena narrar aqui em detalhes, e vocês que não assistiram tentem visualizar a cena. Mike e Linda estão numa piscina, correto? Uma piscina é cheia de água, correto? A água é transparente, correto? Pois, acredite se quiser, O Mutilador consegue entrar na piscina sem ser visto, mergulhar por tempo indeterminado (sem ser visto e milagrosamente também sem morrer afogado), agarrar Linda por baixo d’água e afogá-la enquanto Mike também está mergulhando e, portanto, nada vê. Agora pense comigo: quanto tempo você consegue ficar mergulhando sem subir para a superfície para respirar? Trinta segundos? Quarenta e cinco segundos? Um minuto, vá lá? Pois no tempo em que Mike fica submerso, O Mutilador não só agarra e afoga Linda (e vamos considerar que leva uns 2 minutos para conseguir afogar alguém), como ainda consegue puxá-la para fora da gigantesca piscina e esconder-se nas proximidades antes de Mike voltar à superfície! Percebeu o absurdo? O loirinho deve ter ficado uns 10 minutos debaixo d’água para permitir tamanha desenvoltura dO Mutilador sem nada perceber!!! Pior: quando Mike percebe a falta da garota, encontra uma trilha de roupas – deixada pelo assassino, é óbvio -, e resolve segui-la. A trilha vai até o porão da casa (e neste momento você precisa visualizar O Mutilador caminhando pela praia, arrastando o corpo de Linda e deixando a trilha de roupas, tudo junto e em tempo recorde). Finalmente, o garoto abre a porta da sala de ferramentas, onde a trilha de roupas femininas termina, e, num passe de mágica, O Mutilador liga um enorme motor de lancha, e usa a hélice para retalhar o bobalhão. A cena é fantástica: o “atorMorey Lampley está sendo esquartejado por um motor de lancha, mas faz uma cara como se estivesse passando por um exame de próstata. Depois que a hélice faz seu serviço, somos brindados com a primeira cena sangrenta, onde Mike, agonizante, exibe o peito todo arrebentado e uma das mãos com os dedos decepados. Detalhe: no andar de cima, ninguém sequer escutou o motor da lancha ou os gritos do bobalhão. Isso que é piso com isolamento acústico, hein?

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Preocupados (mas não muito) com o desaparecimento de Mike e Linda, os outros dois casais vão passear na praia também. Encontram um policial (interpretado pelo dublê Ben Moore), que chega de surpresa só para dar um susto falso. Ele previne a garotada para ter cuidado: “Uma tempestade se aproxima e vocês podem ser atingidos por raios”. hahahaha! Deve ser o aviso mais imbecil que um policial de filme classe B já deu a um grupo de jovens!!! Em seguida, o homem da lei zeloso e com medo dos raios vai dar uma checada na casa de praia da turma e se transforma na nova vítima dO Mutilador: primeiro, tem um facão enterrado bem no meio da fuça. Depois, enquanto ainda está agonizante, sua cabeça é decepada com a ajuda do estiloso machado medieval que “desapareceu” de dentro da casa. A cena da cabeça rolando pela areia, e parando bem na frente da lanterna que o policial segurava, até tem seu charme.

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A partir de então, a trama ainda dá mais uma enrolada, com as idas e vindas dos personagens que restaram, para lá e para cá. E O Mutilador, claro, segue atacando quando eles estão sozinhos (o que acontece com bastante frequência). E tome cenas idiotas: numa das mais clássicas, Ralph está indo deitar com Sue quando a moça pede para ele ir trancar a porta da frente – porque, no universo dos jovens de slasher movies, é a coisa mais normal do mundo ir dormir deixando as portas da casa completamente escancaradas! O rapaz se recusa a fechar a tal porta, e então Sue diz que, se o namorado for fazer o que ela pede, terá sexo em seguida. Pois não é que o diretor nos mostra a cena do rapaz saindo correndo para fechar a porta com câmera acelerada e trilha cômica, como se fosse uma velha comédia de Charles Chaplin? hahaha. Para piorar, Ralph ainda fica uns 10 minutos caminhando e falando sozinho até ser finalmente silenciado pelO Mutilador, que enfia um garfo de feno no pescoço do sujeito e deveria receber os aplausos emocionados do público – afinal, Ralph era o personagem mais irritante em cena, e deveria ter sido o primeiro a morrer! Embora bem feita, a cena do garfo de feno perde feio para as mortes com a mesma ferramenta de jardinagem mostradas em outro slasher, Quem Matou Rosemary?, de Joseph Zito, feito dois anos antes (e com os imbatíveis efeitos de Tom Savini).

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Restam então Ed, Pam e Sue, e perceba que embora o filho seja o alvo prioritário dO Mutilador (pela lógica), o vilão continua se recusando a matá-lo, deixando-o por último, sabe-se lá por que motivo. E apesar de os amigos terem desaparecido misteriosamente, os três sobreviventes continuam fazendo tudo sem o menor cuidado – ou seja, entrando em salas escuras, se separando a todo momento, etc etc. Numa dessas, Sue tem um encontro pouco amistoso com O Mutilador, quando, na cena mais famosa e asquerosa do filme (cortada na versão para o cinema), o assassino enfia um gancho de pesca de tamanho descomunal no meio das pernas da moça (que está de calça, mas mesmo assim o impacto da cena é grande); não contente com o ato, O Mutilador ainda torce o gancho, fazendo jorrar um rio de sangue e deixando arrepiado qualquer ser humano normal. Sue, que faz uma expressão tenebrosa de quem parece estar tendo um orgasmo sádico com aquele pedaço pontudo de metal enfiado na vagina, recebe o golpe de misericórdia com o machado, tendo sua cabeça decepada, desta vez off-screen.

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Sobra apenas o casal virgenzinho, e eu não queria estragar a surpresa de ninguém, mas vou ter que contar o final, que é de uma grosseria e falta de lógica imensas. Após uma luta selvagem com O Mutilador – que é um ser humano normal, porém de repente parece mais imortal que Jason e Michael Myers JUNTOS -, Ed e Pam acabam dentro de um carro, com o assassino pendurado no porta-malas. A mocinha tem a feliz ideia de acelerar e prensar O Mutilador contra um muro, quando Ed pela primeira vez reconhece no intruso o seu amado e caduco papai. O carro vai para a frente e O Mutilador, vejam só, acaba partido em duas metades: as pernas com as tripas penduradas escorregam e caem na areia, enquanto o outro pedaço do corpo fica pendurado no carro até cair também para o chão. Chega a polícia (atrasada, como sempre), um dos homens da lei se aproxima do assassino despedaçado e, acredite se quiser, O Mutilador acorda (ele está dividido no meio e com as tripas espalhadas pela areia, lembra?), agarra a perna do policial e a decepa com seu machado medieval, ao mesmo tempo em que dá “gargalhadas de dominar o mundo”, como diria Peter Baiestorf. É isso mesmo: O Mutilador, que deveria ser um homem normal, sem superpoderes, pacto com o demo ou mutações genéticas, consegue cortar a perna de alguém com um machado e ainda rir sadicamente mesmo estando partido ao meio!!! hahahaha. É simplesmente brilhante!!!

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Caso este meu detalhado relato não tenha deixado bem claro, O Mutilador é um filme bem ruinzinho, que só sobrevive no imaginário popular graças à má fama de suas cenas extremamente sangrentas, especialmente a do “gancho na perereca”. Infelizmente, demora muito para o sangue começar a fluir, e demora muito MESMO. Quando 86 minutos parecem 386 minutos, é porque algo está muito errado, ainda mais numa produção com contagem de cadáveres relativamente alta (são sete mortes, quase todas bem sangrentas e gráficas). Infelizmente, na prática, O Mutilador é um daqueles filmes que nos fazem abençoar e acender uma vela para o sujeito que inventou a tecla fast foward: é praticamente impossível alguém aguentar a lenga-lenga e conseguir resistir ao desejo de passar para a frente as cenas mais xaropes. Eu mesmo, nas várias vezes em que vi, usei o FF sem dó nem piedade, saltando imediatamente para as bem-feitas cenas de morte, único atrativo dessa produção capenga – e lá vamos nós para a analogia com o Coliseu romano novamente…

Considerando a produção barata, os efeitos especiais de Mark Shostrom e Anthony Showe são crus e eficientes, sem poupar no sangue, e mostrando as mutilações praticamente em close, mesmo quando a maquiagem não é lá tão convincente. A música de Michael Minard também tem alguns momentos inspirados, especialmente a mistura de sons distorcidos e ruídos na famosa cena do gancho na vagina. O restante é pura rotina, inclusive o trabalho de câmera do diretor de primeira viagem. Não por acaso, tirando o galã Matt Mitler e Frances Raines, o restante do elenco nunca mais apareceu em frente às câmeras. Sumiram, e sem fazer falta.

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O Mutilador foi filmado em algumas semanas no final de 1984, com um orçamento irrisório, em Atlantic Beach, na Carolina do Norte, e lançado nos cinemas em janeiro de 85. Um dos “astros“, Matt Mitler, em entrevista recente, lembra que toda a equipe foi recebida com entusiasmo, como se fossem astros de Hollywood – ah, se aquelas pobres pessoas soubessem… Na verdade, a única pessoa “famosa” envolvida no projeto era o dublê Ben Moore, que inclusive é creditado como “participação especial“. Além de ter feito as cenas perigosas em produções famosas, como Bad Boys 2, Triplo X e Máquina Mortífera 4, Moore apareceu, durante poucos segundos, como um motorista de ônibus no fantástico Clube da Luta, dividindo a cena com Edward Norton. Nada mal para quem perdeu a cabeça, literalmente, em O Mutilador… hehehehehe.

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Na mesma entrevista, o jovem astro Mitler – que hoje não quer nem saber de filmes de horror e recusou dois convites para projetos da Troma – lembra que a galera gostava de armar pegadinhas no set, como esconder a cabeça decepada do personagem de Ben Moore nos quartos da equipe técnica, normalmente debaixo dos lençóis, para dar um susto nos incautos. Outra memória engraçada de Mitler é a filmagem da cena em que a colega de elenco Frances está pelada na piscina, quando é atacada pelO Mutilador. Segundo o ator, era uma noite gelada de matar, e parte da equipe (inclusive o operador de câmera Peter Schnall e o diretor Cooper) teve que entrar na água com Frances. “Eles provavelmente teriam repetido a cena até ela ficar doente se não estivessem morrendo de frio também“, diverte-se Mitler. Ele lembra, ainda, que não ficou inteiramente satisfeito com o roteiro e sabia que havia diversos furos na trama, entretanto manteve-se fiel ao texto ao perceber a forma apaixonada como o diretor Buddy Cooper dedicava-se ao projeto. Apaixonada é apelido, já que o sujeito colocou metade da família no elenco – além da mãe e do garotinho que aparecem no início, há outros dois figurantes com sobrenome “Cooper“.

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Falou-se, no final dos anos 90, sobre uma seqüência de O Mutilador. Como ninguém iria engolir um assassino que atacasse dividido ao meio – seria mais ou menos como aquele zumbi do Fome Animal!!! hehehe -, o título provisório era Son of the Mutilator, e, obviamente, veríamos Ed, o sobrevivente do filme original, herdando os cruéis talentos de seu papai. “Tal pai, tal filho…” seria uma boa frase para estampar o cartaz. Mas o projeto não foi adiante e até hoje não passa de especulação. Nada impede, entretanto, que algum produtor com boa vontade ajude a transformar a ideia em realidade, já que hoje em dia vive-se uma onda de “revival” dos velhos slasher movies. Além dos inúmeros remakes, produções dos anos 80 estão ganhando sequências tardias – caso de Sleepaway Camp, de 1983, que ganhou a sequência Return to Sleepaway Camp, com o mesmo diretor e parte da equipe do original.

A pergunta é: nos tempos politicamente corretos (e chatos) de hoje, será que veríamos o “Filho dO Mutilador” esquartejando um rapaz com um motor de lancha ou enfiando um gancho na vagina de uma garota? Dificilmente… E é por isso que, mesmo ruins, produções como O Mutilador merecem ser redescobertas e conhecidas: porque fazem parte de um cinema que, para o bem ou para o mal, não existe mais!

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Felipe M. Guerra

Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga "Entrei em Pânico...", entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

4 comentários em “O Mutilador (1985)

  • 29/07/2019 em 19:08
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    Filme fraquinho, de verdade. Só vale pelas cenas de morte e pelas atrizes.
    Só isso.

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  • 07/07/2019 em 01:31
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    Lentidão e furos no roteiro são realmente seus grandes defeitos, mas as belas cenas de mortes e toda a coragem e ousadia (inexistente no cinema atual) transformam este filme numa obra imperdível (e rara) para os fãs dos slasher móveis! Melhor agradecer que reclamar, já que os filmes e o “mimimi” da atualidade se tornaram o verdadeiro vilão da nossa geração! Assistam e desfrutem das belas cenas de assassinato e da cínica da cara de pau de seus realizadores! Tão bizarro que beira a qualidade nos dias de hoje.

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  • 15/09/2015 em 02:22
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    Olá!!! Adorei a critica!!! Realmente esse Multilator consegue tantas proezas quanto O Jason!! Me escaralho de rir com esse texto!!

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  • 11/01/2015 em 20:14
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    é um filme ruim ! para quem vai se aventurar em assistir filmes de terror ,ele deve ser em dos ultimos a ser visto,tambem com tantos furos no roteiro e trama arrastada que demora para seguir em frente .. mesmo com 86 minutos , é um filme como eu disse só deve ser assistido por realmente fanaticos por este tipo de genero ,os mais exigentes esqueçam.. é um filme dificil de ser em encontrado hoje em dia poi foi lançado em VHS lá no começo da decada de 90 pela extinta LAMY FILMES.

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