Feliz Aniversário para Mim (1981)

Feliz Aniversário para Mim (1981) (23)

Feliz Aniversário para Mim
Original:Happy Birthday to Me
Ano:1981•País:Canadá
Direção:J. Lee Thompson
Roteiro:John C.W. Saxton, Peter Jobin, Timothy Bond, John Beaird
Produção:John Dunning, André Link
Elenco:Melissa Sue Anderson, Glenn Ford, Lawrence Dane, Sharon Acker, Frances Hyland, Tracey E. Bregman, Jack Blum Matt Craven, Lenore Zann, David Eisner, Lisa Langlois, Michel-René Labelle, Lesleh Donaldson

“Seis dos assassinatos mais chocantes que você jamais verá.”

Bobagem sangrenta”. Com estas duas singelas palavras, a mal-humorada crítica do velho Guia de Filmes Nova Cultural (que era a “Bíblia do Cinema” antes do advento da internet) resumia o filme Feliz Aniversário Para Mim, um slasher movie canadense de 1981 que se transformou num cult movie para toda uma geração. Feito no auge do sucesso dos “filmes sobre adolescentes sendo mortos criativamente por um assassino desconhecido e cruel”, tinha um cartaz antológico mostrando a foto de um sujeito apavorado prestes a ter um espeto de churrasco enfiado na goela. Do ladinho da imagem, uma frase anunciava de forma mórbida e saborosa: “Seis dos mais chocantes assassinatos que você jamais verá”! Ou seja: se você era fã de horror, não tinha como não querer ver. Mas, como bem definiu o Guia de Filmes Nova Cultural, Feliz Aniversário Para Mim não passa, resumidamente, de uma “bobagem sangrenta”. Isso é bom ou ruim? Só depende de você levar ou não a coisa a sério.

Feliz Aniversário Para Mim foi produzido quando os slasher movies eram uma febre, além de um negócio rentável, obviamente. Se Halloween, de John Carpenter, tinha sido um sucesso independente anos antes, agora os grandes estúdios estavam correndo desesperados para filmar seus próprios slashers, já escutando o tilintar das moedas entrando no cofre.

Feliz Aniversário para Mim (1981) (1)

Feliz Aniversário Para Mim foi bancado por John Dunning, Lawrence Nesis e Andre Link, produtores que, ao mesmo tempo, financiaram e rodaram outro conhecido slasher canadense, o superior Dia dos Namorados Macabro. Outra característica marcante da época era que os roteiristas tinham que rebolar para encontrar uma data festiva que pudesse servir como motivo para justificar os assassinatos, pós-Halloween e Sexta-Feira 13 (e Dia dos Namorados Macabro, claro). No ano anterior (1980), o também canadense Paul Lynch usou o baile de formatura de um grupo de adolescentes como desculpa para a matança, no péssimo porém famoso A Morte Convida para Dançar (“Prom Night“, com Jamie Lee Curtis); Feliz Aniversário Para Mim, obviamente, usa uma festa de aniversário de 18 anos como desculpa para “linkar” os assassinatos com a motivação do assassino. Ou seriam os assassinos? Mais adiante falamos sobre isso.

A ideia saiu da cabeça de John C. W. Saxton (Class of 1984 – Escola da Violência). Ele escreveu o roteiro a seis mãos com Peter Jobin e Timothy Bond; posteriormente, John Beaird, autor do script de Dia dos Namorados Macabro, foi chamado para dar uma polida no texto, mas não recebeu crédito. Outro nome da equipe de Dia dos Namorados Macabro é o maquiador Thomas R. Burman, que ficou a cargo das cenas de morte em Feliz Aniversário Para Mim. Quatro anos depois, ele seria o responsável pela criação da maquiagem do inesquecível Sloth no clássico Os Goonies, de Richard Donner. Já na direção temos o cineasta inglês J. Lee Thompson (morto em 2002). Um nome respeitado no passado – assinou clássicos como o Cabo do Medo original, de 1962, depois refilmado por Martin Scorsese nos anos 90, e Os Canhões de Navarone -, Thompson estava numa fase de decadência assustadora. Tanto que se transformaria num dos cineasta oficiais da picareta Cannon Pictures, fazendo filmes com um também velho e decadente Charles Bronson (Desejo de Matar 4, entre outros) e com Chuck Norris (Aventureiros do Fogo), além do risível de tão trash As Minas do Rei Salomão, com Richard Chamberlain e Sharon Stone. Filmado em Montreal, no Canadá, em julho de 1980, e lançado nos cinemas em maio de 1981, Feliz Aniversário Para Mim teve um orçamento alto para os padrões da época: 2.250.000 dólares (vale lembrar que Sexta-Feira 13 Parte 2, que é do mesmo ano, custou “apenas” um milhão de dólares!

Feliz Aniversário para Mim (1981) (2)

Quando o Guia Nova Cultural disse que o filme era uma “bobagem”, não estava sendo totalmente injusto: analisando friamente, percebe-se que a história e o roteiro são incrivelmente tolos, com uma quantidade quase insuportável de surpresas (muitas delas completamente absurdas), de suspeitos, de reviravoltas e de pistas falsas. Feliz Aniversário Para Mim é um daqueles slasher movies em que é preciso descobrir a identidade do assassino (um premissa que a série Pânico utilizaria à exaustão 15 anos depois). O problema é que o roteiro trata o espectador como um completo imbecil: todo e qualquer personagem, dos principais aos coadjuvantes, pode ser o assassino. Até porque, aparentemente, todas as pessoas em cena têm um par de luvas de couro negras idêntico ao par usado pelo assassino (hehehe), todas elas gostam de se esgueirar na escuridão para espionar os amigos, e todas, todas mesmo, fazem um olhar psicótico em close em determinado momento da trama!!! O recurso é tantas vezes utilizado que chega a dar raiva. Numa cena, por exemplo, duas moças invadem a casa de um dos rapazes, um garoto estranho que se dedica à taxidermia, e encontram a cabeça decepada de uma das amigas desaparecidas; mas trata-se, como descobrimos depois, de uma cabeça falsa de cera (!!!). Mais tarde, a polícia desenterra um crânio num dos canteiros da escola, no exato local por onde um dos rapazes havia passado momentos antes; mas trata-se de um crânio de gesso, roubado do laboratório de ciências (!!!). Fala sério: dá pra aguentar? No fim, chegamos à conclusão de que qualquer um pode ser o assassino (ou os assassinos), menos, é claro, os personagens mortos. Se bem que…

Feliz Aniversário para Mim (1981) (3)

Os personagens-vítimas de Feliz Aniversário Para Mim são um grupo de esnobes jovens riquinhos que estudam na Academia Crawford, um importante colégio canadense – e todos interpretados por atores muito velhos para fazer o papel de jovens adolescentes! O grupo muito humildemente se auto-proclama “Top Ten”, e são uns rapazes e moças medíocres que só sabem beber, fumar maconha, arranjar encrenca e participar do que chamam de “o jogo”: pular de carro por uma ponte levadiça antes que as duas metades se ergam completamente para a passagem dos barcos. Que gente sem nada para fazer, não?

Nossa heroína é Virginia Wainwright, mais conhecida como Ginny (interpretada por Melissa Sue Anderson, uma atriz mirim californiana que, quando crescida, não conseguia mais trabalho no cinema). Ginny está feliz por finalmente começar a fazer parte do “Top Ten”. Logo descobrimos que a moça é bem esquisitinha: ela perdeu a mãe num acidente de carro quatro anos antes (justamente na ponte onde a galera realiza “o jogo”), e sofre com alucinações e lapsos de memória – um efeito colateral da cirurgia que a moça sofreu no cérebro após o acidente. Vale destacar que a cena da cirurgia, mostrada em detalhes, é nauseante e clássica, embora tenha sido posteriormente superada pelas “cirurgias” ainda mais gráficas de Guerra para a Morte (1984) e de Jogos Mortais 3. Ah sim: Ginny em breve vai fazer aniversário de 18 anos. Afinal, o título precisa ter alguma justificativa, não é verdade?

Feliz Aniversário para Mim (1981) (5)

Feliz Aniversário para Mim (1981) (6)

Feliz Aniversário para Mim (1981) (7)

Feliz Aniversário para Mim (1981) (8)

Feliz Aniversário Para Mim começa justamente com o assassinato de uma das “Top Ten”, Bernardette O’Hara (Lesleh Donaldson), que é atacada pelo misterioso assassino de luvas negras (uma citação aos gialli italianos, talvez?) quando está entrando em seu carro. A cena, posteriormente repetida até a exaustão, lembra a morte de Nancy em Halloween, só que bem mais violenta e realista: enquanto se debate tentando escapar do sufocamento, Bernardette chuta, desesperada, as portas e janelas do carro, além de arranhar o teto do veículo com o sapato. Quando a moça parece morta, e o assassino afrouxa o aperto das mãos, eis que a “vítima” dá um pulo e sai correndo do carro (esperta, ela), somente para ser morta mais tarde com uma navalhada no pescoço. Detalhe: ao ver o assassino se aproximando, ela diz: “Ah, é você! Me ajude, por favor!”. Logo, desde o começo sabemos que o matador é alguém conhecido das vítimas. Pelo menos várias vezes ao longo do filme os personagens largam um “Ah, é você!” antes de morrer. Quem será o misterioso assassino?

Feliz Aniversário para Mim (1981) (4)

Enquanto Bernardette tem a garganta aberta de orelha a orelha (e, num slasher movie, morrer antes mesmo dos créditos iniciais é foda, hein?), seus amigos estão num bar enchendo a cara sem saber que serão as próximas vítimas. A cena serve apenas para apresentar os personagens-vítimas: além de Ginny, temos o esquisito Alfred Morris (Jack Blum), que o roteiro tenta desesperadamente transformar em suspeito número 1; a melhor amiga de Ginny, Ann Thomerson (a bela alemã Tracy Bregman, que infelizmente sumiu do cinema); o narigudo Steve Maxwell (Matt Craven); Rudi (David Eisner) e sua namorada Maggie (Lenore Zann, que também fez o slasher Horário de Visitas); o motociclista e filho do embaixador francês Etienne Vercures (Michel-René Labelle), e o loirinho halterofilista Greg Hellman (Richard Rebiere). Após arrumarem briga no bar, numa brincadeira envolvendo um rato dentro de uma caneca de cerveja (!!!), eles saem bebuns para participar do “jogo” na ponte. Ginny, que participa do lance pela primeira vez, passa mal e corre a pé para casa, passando, convenientemente, pelo meio de um cemitério que fica no caminho, onde pára para visitar o túmulo da sua mãe. Na escuridão, Etienne observa de maneira suspeita (será ele o assassino? hehehehe). O rapaz segue Ginny até sua casa e entra sorrateiramente em seu quarto. Mas não, ele não é o assassino – apenas um tarado que rouba uma calcinha da garota, numa das muitas pistas falsas do roteiro.

Feliz Aniversário para Mim (1981) (9)

No dia seguinte, na aula de ciências, o professor usa eletricidade para obter estímulos involuntários de pernas decepadas de rã. Ao ver isso, Ginny tem um flashback do momento de sua operação cerebral – lembre-se que ela perdeu a memória recente, só que aos poucos vai sendo bombardeada por fragmentos do que lhe aconteceu no passado. Saindo da aula, vai conversar com seu psiquiatra, o dr. David Faraday (interpretado pelo ator veterano Glenn Ford, morto em 2006, e que empresta certa dignidade à produção). O médico explica que Ginny foi cobaia para um experimento revolucionário de recuperação do tecido cerebral – ou algo do gênero -, e que aos poucos vai recuperar a memória do que lhe aconteceu quatro anos antes.

Feliz Aniversário para Mim (1981) (12)

Feliz Aniversário para Mim (1981) (13)

A turma toda se reúne para ver uma corrida de motos, vencida pelo amigo Etienne – aquele que roubou a calcinha de Ginny, lembra? Após a vitória, o motociclista promete pegar um tragão para todos, mas antes quer dar um trato na sua moto. É claro que não vai dar tempo de confraternizar com os amigos: enquanto está sozinho em sua garagem, Etienne recebe uma visitinha do assassino, que simplesmente atira o cachecol do cara na roda da moto e acelera, num criativo processo de enforcamento! Enquanto isso, os amigos no bar estranham o fato de Etienne e Alfred (eu não disse que queriam fazer dele o suspeito número 1?) não aparecerem. Ginny e Ann resolvem ir até a casa de Alfred, onde pulam uma janela para entrar; numa cena cretina e dispensável, elas encontram sobre a mesa a cabeça decepada de Bernardette, dentro de uma bandeja ensanguentada. Alfred então aparece com luvas pretas iguais às do assassino e um olhar malvado, mas é apenas mais um susto falso: como eu escrevi lá no começo, a cabeça decepada é de cera. hahaha. Que bizarro senso de humor dos roteiristas deste filme…

Feliz Aniversário para Mim (1981) (18)

Naquela noite, mais uma vítima: o fortinho Greg está em sua casa fazendo levantamento de peso quando aparece o assassino. “Ah, é você!”, diz o candidato a vítima – e, se ele lembrasse de dizer o nome do “você” em questão, o mistério estaria imediatamente encerrado! hahaha. “Me ajude aqui, coloque mais uns pesos”, pede Greg, sem suspeitar que está assinando a própria condenação. Na morte mais legal, o assassino calibra o haltere com um peso acima do suportável e tira os suportes onde o jovem apóia o peso, obrigando-o a ficar segurando o troço erguido. E como o assassino é um grande filha da puta, ainda atira um disco de 20 quilos no saco de Greg (!!!), fazendo-o soltar o imenso haltere sobre a própria garganta! Ui!!! Deve ter doído – nas duas vezes! hahahaha.

Feliz Aniversário para Mim (1981) (15)

Feliz Aniversário para Mim (1981) (16)

Não perca a conta: já morreram três, e o cartaz promete “seis dos assassinatos mais chocantes que você jamais verá”. Bom, pelo menos até agora, nada de chocante (navalha no pescoço? cachecol na roda da moto? haltere no pescoço?). Talvez as cenas da moto e do haltere possam ser consideradas criativas (a da moto nem tanto), mas chocantes? Hmmm… Soa a publicidade falsa para mim! O pior é que as mortes seguintes não são lá muito inspiradas: teremos ainda tesoura de jardinagem enfiada na barriga (cena nada inspirada, ainda mais considerando que o mais violento The Burning é do mesmo ano), cabeça esmagada com um ferro (hmm, nada demais…), outra garganta cortada (que original!) e a já clássica cena do churrasquinho na goela. Tal cena, é bom comentar, pouco ou nada tem a ver com a foto legal do cartaz do filme: na verdade o assassino enfia um palito de madeira bem fajuto na boca do infeliz, e é uma cena discreta e pouco memorável (seria legal ver a ponta do espeto saindo na nuca do sujeito, talvez com um pedaço de churrasquinho ainda pendurado, hahahaha!). “Seis dos assassinatos mais chocantes”? Bom, na verdade são sete, porém “chocantes” é muito exagero. Ainda mais se compararmos com as cenas bem superiores de outros slasher movies do período, como os já citados The Burning (com os imbatíveis efeitos especiais de Tom Savini) e Dia dos Namorados Macabro.

Mas o que dá certa notoriedade a Feliz Aniversário Para Mim, na minha opinião, é a coragem de matar até o “astro famoso convidado”, Glenn Ford, que mesmo tendo uma participação mais decorativa do que qualquer outra coisa, não escapa de ficar coberto de sangue cenográfico. Uma grande surpresa, pelo menos para mim, ainda mais considerando que astros veteranos em filmes de horror normalmente fazem pequenas participações estilo “piscou, perdeu”, mas raramente se envolvem no massacre! Outro diferencial, considerando os slasher movies oitentistas, é o fato de este ser dirigido por um cineasta veterano e que realmente entende do ofício. Se outros filmes da época eram produções amadoras dirigidas por equipes completamente amadoras (e normalmente ineptas), aqui o diretor Thompson tenta dar um toque mais sofisticado ao que, friamente, é apenas uma seqüência de assassinatos tolos de jovens tolos. Aliás, parece até que o cineasta não quer assumir sua obra como um slasher tradicional, e inclusive tenta dar um clima “hitchcockiano” à coisa toda, principalmente na metade final. Claro que não funciona…

Feliz Aniversário para Mim (1981) (10)

O ápice de Feliz Aniversário Para Mim, como o nome já indica, é a festa de 18 anos de Ginny, onde os convidados ao redor da mesa são os cadáveres putrefatos dos jovens mortos até então. É uma cena macabra e que dificilmente sai da cabeça de quem viu, mesmo que colecionar cadáveres e guardá-los todos num mesmo local tenha se tornado um clichê nos anos que se seguiram. Outro ponto curioso do roteiro, em comparação ao que se fazia na época, é o fato dos assassinatos acontecerem num intervalo grande de tempo (não todos na mesma noite ou na mesma hora, como acontecia na série Sexta-Feira 13). Com isso, a polícia pode entrar em ação e investigar os “desaparecimentos” no colégio, inclusive drenando rios à procura dos corpos e dando buscas nos matagais dos arredores. Só achei meio forçado a forma como os próprios amigos dos jovens desaparecidos (e mortos, como o espectador bem sabe desde o início) dão pouca importância para o fato dos companheiros estarem desaparecendo sem deixar rastros, e nem ao menos se preocuparem com a hipótese de serem as próximas vítimas!

Feliz Aniversário Para Mim tem uma trama cartunesca, exagerada, absurda e, no final das contas, é mesmo apenas uma grande bobagem, como resumidamente definiu o Guia Nova Cultural. Os personagens passam o tempo todo tomando atitudes ilógicas e que ninguém tomaria na vida real, como visitar cemitérios à noite e perseguir pessoas pela escuridão SEM ter a intenção de matá-las! Lógico, a maior parte destas atitudes só estão ali como pistas falsas, tentando fazer com que o espectador suspeite deste ou daquele personagem. O esquisitão Alfred, por exemplo, protagoniza uma cena constrangedora de tão exagerada: ele segue Ginny até o cemitério (à noite, é claro), lentamente e sem fazer barulho, se esgueirando por trás da moça, e então leva a mão ao bolso e tira… uma faca, certo? Errado! Ele tira uma rosa para a moça!!! hahaha. E o que dizer da cena em que Rudi leva Ginny (sempre ela, coitada…) para o escuro campanário de uma igreja e, subitamente, faz uma expressão de psicopata e se aproxima da moça com uma faca na mão. Ela grita e sangue escorre pelo chão da igreja. Rudi matou Ginny, certo? Errado: ele tentou cortar a corda do sino do campanário e cortou acidentamente a própria mão, o que justifica o sangue que pingou!!! hahahaha. Claro que, pela quantidade de sangue no chão da igreja, Rudi deveria ter decepado uns três dedos acidentalmente…

Feliz Aniversário para Mim (1981) (19)

O mais absurdo, entretanto, é a conclusão da trama e a revelação da identidade do assassino e de suas motivações. Se você chegou até aqui e ainda não viu o filme, PARE DE LER IMEDIATAMENTE, porque a partir de agora a “spoleação” vai ser violenta!

Pois veja você que a trama avança transformando a própria Ginny na principal suspeita. Até aí, tudo bem… Afinal, Ginny tem um trauma de infância relacionado aos seus amigos que estão desaparecendo e que, involuntariamente, provocaram o acidente que matou sua mãe – conforme descobrimos na metade final da história. Além disso, a operação no cérebro que ela sofreu provoca devaneios e lapsos de memória. Será que, durante estes lapsos, Ginny não está matando seus amigos sem desconfiar? Você até acha que é isso mesmo quando vê Ginny esfaqueando Alfred com a tesoura de jardinagem e enfiando o espeto de churrasquinho na goela de Steve. E, acredite ou não, este era para ser o final original do roteiro de Feliz Aniversário Para Mim: Ginny era a assassina que matava entre um lapso e outro de memória e comemoraria seu aniversário de 18 anos com os amigos mortos sentados ao redor da mesa! Apesar de escrito, este final não foi filmado. Sabe por quê?

Feliz Aniversário para Mim (1981) (11)

Espertos, os produtores acharam que era preciso uma “reviravolta surpreendente” na conclusão, um final-surpresa (como fizeram também em Dia dos Namorados Macabro, diga-se de passagem; lembra?). Assim, espalharam para a imprensa que vários finais foram gravados para que ninguém, nem mesmo os atores, soubesse quem era o assassino, e que cinemas diferentes exibiriam conclusões diferentes (já pensou?). Certamente, muitos trouxas foram ver mais de uma vez em cinemas diferentes, motivados pela tal publicidade. Mas a verdade é que essa história dos vários finais é pura mentira, o filme todo foi rodado SEM O FINAL! E, neste ínterim, John Beaird foi chamado para criar a reviravolta que culminaria no “final-surpresa“. Nesta conclusão “improvisada“, descobrimos que a assassina é Ann, que, acredite ou não, perambulou o tempo todo vestida como Ginny, com suas roupas e até uma máscara facial imitando a amiga (!!!). É o típico “final Scooby-Doo“, com a “verdadeira” Ginny arrancando a máscara da sua falsa clone e revelando a maléfica Ann. O mais curioso é a motivação da assassina: ela queria se vingar de Ginny porque a mãe da garota era amante do seu pai, o que levou a família de Ann ao divórcio. O mesmo motivo foi utilizado por Billy Loomis (interpretado por Skeet Ulrich) em Pânico, de Wes Craven, 15 anos depois – e você pensava que o roteiro de Kevin Williamson era original, não é?

Feliz Aniversário para Mim (1981) (20)

Feliz Aniversário para Mim (1981) (21)

O fato desta conclusão ter sido filmada às pressas e de maneira improvisada fica ainda mais evidente quando percebemos que, em algumas cenas, Ann, que deveria ser a assassina, está junto aos outros personagens (a cena da morte de Bernardette é o maior exemplo), num monumental furo do roteiro. Além disso, a forma como a assassina “substituía” a verdadeira Ginny, adormecendo a pobre coitada com clorofórmio para tomar seu lugar e matar os amigos, é tão forçada e absurda que chega a ser engraçado como o filme tenta levar a coisa a sério!!! Além do mais, fica a pergunta: se Ann queria se vingar de Ginny, por que diabos matou todos os outros personagens ao invés de descontar sua fúria diretamente no alvo de sua vingança? Mistérios cinematográficos… E é impossível não se mijar de rir com esta conclusão improvável e totalmente inverossímil!!!

Feliz Aniversário para Mim (1981) (14)

Como aconteceu com outros slasher movies de 1981 (The Burning, Dia dos Namorados Macabro, Sexta-Feira 13 Parte 2, etc etc…), Feliz Aniversário Para Mim teve problemas com a censura americana, que exigiu cortes nas cenas mais sangrentas. O que foi cortado nunca foi reeditado, e assim a película foi lançada no mundo todo em versão censurada, tanto em VHS como, mais recentemente, em DVD. O curioso é que o mundo todo vê o filme cortado, menos os ingleses, pois lá, miraculosamente, ele foi lançado em VHS numa versão sem cortes! A fita virou raridade e cópias podem ser encontradas a preço de ouro no E-Bay. Entre os momentos existentes nesta “rare print“, que nós, brasileiros, não vimos na fita lançada aqui pela LK-Tel Columbia, estão: sangue esguichando do pescoço cortado de Bernardette, no início; mais takes da tenebrosa cirurgia cerebral; mais sangue na cena da motocicleta (conforme mostra a foto abaixo, publicada em 1981 pela revista americana Fangoria); e dois takes da cabeça do personagem de Glenn Ford sendo esmagada e esguichando sangue nas paredes. Agora vai saber quando veremos esta versão “uncut“, considerando que Feliz Aniversário Para Mim foi recentemente lançado em DVD nos States numa edição ridícula, cortada, sem extras e com a arte da capinha alterada (sim, tiraram a clássica foto do cara com o espeto de churrasco enfiado na boca!!!).

Feliz Aniversário para Mim (1981) (22)

Longo demais para o slasher movie boboca que é (a trama se arrasta por praticamente duas horas, quando pelo menos 40 minutos são pura enrolação!!!), Feliz Aniversário Para Mim é imperfeito e incompleto. Não é dos meus preferidos. Aliás, sempre que eu revejo, sinto que falta alguma coisa – e na última vez que revi, cheguei a cochilar nos diversos momentos de marasmo. Talvez falte mais sangue nas cenas de morte (lembre-se: supostamente, são os “seis assassinatos mais chocantes que você jamais verá!“). No geral, não há nada de tão chocante, e os próprios efeitos são simplórios, tímidos. Não vemos o rosto do sujeito arrasado pela roda da moto (apenas um esguicho mixuruca de sangue); não vemos o pescoço do halterofilista esmagado pelo próprio haltere (novamente, apenas um esguicho mixuruca de sangue), e nem ao menos vemos o espetinho atravessando a boca do infeliz (e, do jeito que o espeto é enfiado, ele sai pela NUCA do cara, e nem deveria matá-lo, apenas ferí-lo!). Talvez também faça falta uma edição mais dinâmica, já que as cenas de morte são separadas por loooooooooooongos momentos em que nada acontece, ou entrecortadas com takes de corridas de motos e até de um jogo de futebol (pelo menos é bem curioso ver um jogo de futebol num filme estrangeiro, inclusive com cobrança de pênalti!!!).

Ou talvez, ainda, incomode o fato de que o roteiro não consegue fazer com que nos importemos com os personagens e com o que acontece a eles (a pior coisa numa produção do gênero). Quem sabe J. Lee Thompson seja um diretor muito “profissional” para o subgênero em questão – certa vez disseram que Stanley Kubrick era muito cerebral para fazer terror por causa do resultado intimista de O Iluminado. Mesmo com tantos defeitos, Feliz Aniversário Para Mim ainda goza de certa aura “cult“, sendo idolatrado por fãs de todas as idades. Envelheceu muito mal, mas mantém-se popular. Eu, porém, continuo achando um slasher bastante irregular, que nem ao menos é tão sangrento quanto deveria ou quanto a publicidade anuncia. Não entra nem a pau no meu “Top Ten” dos slashers, talvez nem mesmo no Top 20.

Feliz Aniversário para Mim (1981) (17)

Mas uma coisa vou ter que assumir: o pôster original de Feliz Aniversário Para Mim, com seu churrasquinho sangrento, é imbatível e inesquecível, além de uma das imagens mais marcantes do cinema de horror da década de 80. Imagem esta que certamente fez e faz muita gente temer o simples ato de desfrutar de um suculento espetinho…

PS: Encerro com uma curiosidade. Apesar da propaganda enganosa feita pelos produtores de Feliz Aniversário Para Mim (de que o filme teria finais diferentes em cinemas diferentes), realmente existe uma produção que adotou esta tática bizarra. Trata-se da comédia Os Sete Suspeitos, de Jonathan Lynn, feita em 1985 e, pasmem, inspirada no jogo de tabuleiro “Detetive” – sim, aquele do Coronel Mostarda com a chave inglesa no hall de entrada!!! Três conclusões diferentes foram gravadas, e em cada uma o assassino era uma pessoa diferente! Logo, se você fosse ao cinema do seu bairro ver Os Sete Suspeitos, assistia um final; se fosse ao cinema de outro bairro, acabava vendo uma conclusão completamente diferente!!! Já pensou que doideira? O cara teria que ir três vezes a cinemas diferentes ver o mesmo filme só para conferir os finais alternativos!!! hahahaha. Para facilitar, nos EUA, os caras colocaram anúncios nos jornais anunciando que tal cinema exibia o “Final A“, tal cinema o “Final B“, e tal cinema o “Final C“. Com a falta de lógica e inspiração no final de alguns títulos (tipo Lenda Urbana e Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado), bem que o recurso poderia ser utilizado novamente, para driblar a falta de criatividade dos roteiristas que escrevem estas bombas!

(Visited 1.508 times, 5 visits today)
Felipe M. Guerra

Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga "Entrei em Pânico...", entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

7 comentários em “Feliz Aniversário para Mim (1981)

  • 15/09/2019 em 17:53
    Permalink

    O cara dá duas caveirinhas e escreve um texto do tamanho de um livro do Stephen King imagina se fosse um livro bom. Adoro os textos do Guerra mas as vezes o cara divaga demais

    Resposta
  • 13/07/2016 em 00:46
    Permalink

    Acho que eu entendi o que o John Beaird quis contar com esse final-surpresa:a vingança da Ann contra a Ginny era fazer com que a garota fosse acusada das mortes dos Top Ten.Por isso a psicopata se vestia como ela e até usava uma máscara do rosto dela.E como a killer sabia dos lapsos de memória da menina,ela não teria como explicar aonde estava na hora das mortes ou seja não teria álibi.Mais pra esse plano dar certo,Ann deveria deixar um dos jovens vivo pra testemunhar contra a Ginny.

    Resposta
  • 13/11/2015 em 09:25
    Permalink

    Assisti ontem, e achei bem fraquinho.

    Resposta
  • 11/05/2015 em 20:25
    Permalink

    Feliz aniversario pra mim estava na minha de filmes de terror 80s que eu precisava ver. agora, me resta alguns como A morte convida para dançar (que me recuso ver o remake antes do classico).
    Para mim, o filme tem altos e baixos. a falta de carisma dos personagens (a ginny é a que mais se esforça e exibe talento), os dialógos cliches dos filmes do subgenero, enfim, são uma das coisas que desagrada
    No geral, n foi tipo de filme q eu dou player a cada 5 min pra nao chegar ao final (sou desses).
    Feliz aniversario para mim poderia ter sido um slasher marcante (nao só pelos cartazes geniosos e atrativos) mas ainda assim, é muito superior ao Acampamento sinistro (tragico filme)

    Resposta
  • 11/05/2015 em 20:15
    Permalink

    Ha um tempo havia procurado esse filme na net para assistir e nao encontrei. eis que me da vontade de pesquisar novamente após ler um pouco dessa crítica e consigo um link com 4 players rodando em estado excelente! minhas semana de sorte. nao e todo dia que se encontra um slasher oitentista de horror disponivel.

    Resposta
  • 11/05/2015 em 19:54
    Permalink

    Foi interessante ver na época (deixa-se entender, baixei na net um tempão atrás), então, deu pra se divertir, mas, não assistiria novamente

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

WP-Backgrounds Lite by InoPlugs Web Design and Juwelier Schönmann 1010 Wien