The Cannibal Man (1972)

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The Cannibal Man
Original:La Semana del asesino
Ano:1972•País:Espanha
Direção:Eloy De La Iglesia
Roteiro:Anthony Fos, Eloy de la Iglesia
Produção:José Truchado
Elenco:Vincente Parra, Emma Cohen, Eusebio Poncela, Vicky Lagos, Ismael Merlo, Lola Herrera, Ángel Blanco, Charly Bravo, Manuel Clavo, Antonio Corencia, Antonio Fernandez, José Franco, Rafael Hernández, Emilio Hortela, Goyo Lebrero, Antonio Orengo, Fernando Sánchez Polack, Valentín Tornos

O cinema americano está passando por um revival daqueles filmes mais sérios sobre serial killers, como se fazia antigamente com Deranged (1974) e Henry: Retrato de Um Assassino (1986). Nos últimos anos, várias produções de baixo e médio orçamento têm se dedicado a recontar a trágica história da vida de psicopatas famosos, como Jeffrey Dahmer, Ted Bundy e do próprio Ed Gein, além de outros menos ilustres e de muitas histórias de ficção. Infelizmente, a maior parte destas produções lembra filmes feitos para a TV, sem um pingo de ousadia e com muito medo de chocar o espectador. Outra coisa que chama a atenção em todos eles, e em muitos outros filmes de horror, é que o vilão, com raras exceções, já nasce malvado, sem que exista uma explicação para a sua fúria.

Ou então se apela para os motivos manjados de sempre: trauma de infância, abusos por parte dos pais, satanismo, “vozes” na cabeça, etc e tal. Normalmente, assassinos de filmes são maus, e pronto. Mas há aqueles que tentam nos convencer do contrário. Um dos mais interessantes nesta linha é uma pérola injustamente desconhecida dos anos 70, chamada The Cannibal Man.

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Marcos, o herói deste filme espanhol de 1972, não tem nenhum trauma de infância, não foi abusado quando criança, nunca participou de seitas demoníacas nem torturou cães e gatos. Também não foi possuído pelo demônio nem cresceu sob a influência de uma mãe dominadora e fanática religiosa, como vemos normalmente nos outros filmes de horror e suspense. Enfim: Marcos não pode ser considerado um cara malvado, mas sim uma pessoa comum, com suas qualidades e defeitos. Mas à medida que a história vai tomando um rumo inusitado, Marcos passa por uma mudança brutal. E, na conclusão, após 1h30min de projeção, ele já terá se transformado de uma pessoa comum e simpática num dos maiores e mais sádicos assassinos que o cinema já mostrou. É justamente esta bizarra transformação – de pessoa normal em psicopata – que transforma este obscuro The Cannibal Man numa obra curiosa e diferente, que merece ser conhecida.

Quando eu escrevi sobre o filme O Dia de Satã, um dos preferidos do webmaster Marcelo Milici, eu comecei o texto lamentando o fato de milhares de filmes serem produzidos todo ano em todo o mundo, e que por isso mesmo torna-se virtualmente impossível que alguém conheça TODOS os bons filmes que circulam por aí. Algumas injustiças às vezes são cometidas, com produções muito boas não tendo o devido reconhecimento (como o filme canadense Slashers, que nem foi lançado por aqui…). Nem sempre foi assim, como lembram os “da antiga“: no passado, quando havia pequenas distribuidoras de vídeo além das “majors“, o país foi tomado de assalto por uma onda de filmes outrora obscuros. Era uma época em que produções como Cannibal Ferox e The Beyond iam direto para as locadoras nacionais. Hoje, porém, as distribuidoras maiores tomaram conta e apenas produções mais conhecidas ou de grandes estúdios, em sua maioria, são lançadas em DVD… Uma pena!

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The Cannibal Man é um dos muitos filmes que não teve chance no Brasil, permanecendo inédito por aqui – e assim deve ficar por mais muito tempo. A bem da verdade, o filme é tão desconhecido por aqui que eu nunca havia lido qualquer resenha, texto, crítica ou linha que seja sobre ele; simplesmente, eu nem sabia que ele existia. E só fui conhecer este ótimo filme por um daqueles acasos do destino: em 2004, pesquisando para comprar o DVD importado do filme Mountain of the Cannibal God (no Brasil, A Montanha dos Canibais), de Sergio Martino, descobri que o filme era vendido pela Anchor Bay em programa duplo (disco de duas faces, com um filme de cada lado) justamente com… The Cannibal Man! Eu nem imaginava que filme era esse, mas como o disco com programa duplo custava baratinho, achei mais interessante levar duas produções pagando por um único DVD. O problema é que depois de ver o filme italiano, eu praticamente “esqueci” do outro lado do disco. Somente recentemente reencontrei o DVD na minha coleção e fiquei curioso com o título The Cannibal Man (em tradução literal, Homem-Canibal). Fã de filmes de canibalismo, fui dar uma checada no “lado B“, descobrindo que o trailer de The Cannibal Man era bem interessante. Pronto: foi amor à primeira vista!

O trailer remete ao sensacionalismo dos filmes italianos daquele mesmo período. Mostra um homem entrando num quarto escuro com uma expressão de horror. O narrador, então, com voz tétrica, pergunta:”Que horrível segredo haverá naquele quarto?“, e somos brindados com uma colagem de todas as imagens mais fortes do filme. Entra então o título, The Cannibal Man, que foi escolhido pela distribuidora americana tentando dar mais impacto à obra – , no original, o filme se chama La Semana del Asesino, ou A Semana do Assassino, porque toda a história se passa no espaço de sete dias. Na ânsia de conseguir um título chamativo e assombroso, a distribuidora gringa acabou cometendo um equívoco: apesar de matar diversas pessoas, o assassino Marcos jamais come carne humana; não é, portanto, um “homem-canibal“, conforme diz o título enganoso. Mas dá para o gasto…

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Realizado nos anos 70 – uma década naturalmente pessimista para o cinema de horror -, The Cannibal Man é uma produção barata dirigida por Eloy de la Iglesia, um diretor espanhol que estudou cinema em Paris – e, talvez, tenha algum parentesco, que não consegui confirmar, com o também espanhol Alex de la Iglesia, de O Dia da Besta e Ação Mutante. Homossexual assumido, Eloy realizou várias produções com temática gay durante aquele período, e inclusive The Cannibal Man tem um personagem gay. Posteriormente, acabou afundando no vício em drogas, que praticamente destruiu sua carreira. Está afastado do cinema desde 1987 e só foi voltar à direção em 2001, quando realizou um telefilme sobre o imperador romano Calígula. Embora quem assistia The Cannibal Man hoje em dia acredite que Iglesia tenha sofrido influência de outras produções pobres e chocantes do período, como O Massacre da Serra Elétrica, é bom lembrar que o filme espanhol foi feito em 1972, mesmo ano em que Wes Craven fazia Last House on the Left e muito antes de outros filmes com temática “canibal“, como O Massacre da Serra Elétrica e Quadrilha de Sádicos.

Porém, como todos estes clássicos citados, The Cannibal Man consegue tirar partido da produção paupérrima para criar um clima tenebroso de realismo e horror. As mortes são muito bem encenadas em seu efeito grosseiro, porém realista – economizando nos efeitos especiais, mas brincando com a imaginação do espectador, como Tobe Hooper fez em O Massacre da Serra Elétrica. A estética pobre do filme (especialmente nos cenários e roupas dos personagens) só destaca o tom documental da trama, de maneira que nas cenas mais grotescas quase chegamos a imaginar o mau cheiro dos cadáveres em decomposição ou o horror dos corpos sendo esquartejados. Além disso, em 1972 a Espanha estava em plena ditadura, comandada com mão de ferro pelo general Franco há 33 anos, e o roteiro reflete principalmente o medo da classe mais baixa pelas autoridades, especialmente pela polícia. A maior parte dos acontecimentos é motivada pelo medo do personagem principal de ser preso, tal o medo que os personagens sentem da polícia cruel do regime ditatorial.

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Mas o grande mérito do roteiro do próprio Iglesia e de Anthony Fos é que, diferente dos vilões que vemos assiduamente em filmes do gênero, que normalmente já nascem com uma tendência à maldade e à crueldade, o assassino de The Cannibal Man, Marcos (interpretado por Vicente Parra, morto em 1997), é apenas um cara pobre que leva uma vida comum, banal, morando em um casebre no meio do nada, rodeado por apartamentos da high society. Neste aspecto, chega a lembrar Henry, o melancólico personagem de Michael Rooker em Retrato de um Assassino (1986). A diferença entre Marcos e Henry (e todos os outros psicopatas do cinema) é que Marcos não gosta de matar. Na verdade, odeia. Mas se vê obrigado a fazê-lo. E é este conflito interno que torna a história tão interessante. Graças a uma série de imprevistos e burrices, o rapaz vê-se obrigado a matar boa parte do elenco para que a polícia não descubra que ele, acidentalmente, assassinou uma pessoa logo nos minutos iniciais. Dessa forma, o medo de ser preso e de ter sua vida destruída numa penitenciária é tão forte que ele prefere matar pessoas queridas, como a namorada e o próprio irmão, para escapar da polícia!!!

Na história, Marcos trabalha num matadouro, onde diariamente convive com nacos de carne crua e rios de sangue dos animais abatidos. Mas nem se abala, devorando um sanduíche com toda a tranquilidade enquanto o gado é esquartejado. A uma desafortunada cadeia de eventos que transforma aquele cara comum num monstro sanguinário e cruel inicia-se numa noite como qualquer outra, quando ele sai com sua namorada (Emma Cohen). O casalzinho vive um relacionamento secreto, pois o pai da garota não aprova o romance. Com o adiantado da hora, e o medo de andarem pelas ruas escuras – lembrem-se, eles vivem numa ditadura, onde a polícia, a partir de determinada hora, sai fazendo blitz e pedindo documentos das “pessoas suspeitas” que ainda estão na rua -, Marcos e a moça pegam o táxi de um sujeito bem mal-humorado. Como eles se excedem nos carinhos e beijos no banco de trás do carro, o taxista pára o veículo e manda os pombinhos saírem. “Meu táxi não é cabaré, fora daqui“, grita o motorista. Após uma rápida discussão – pois Marcos se recusa a pagar pela corrida, já que o motorista desistiu de levá-los ao seu destino -, o taxista fica puto e agride ambos. Porém, quando está dando tapas no rosto da garota, Marcos surge em sua defesa com uma enorme pedra na mão, desferindo um golpe certeiro na cabeça do motorista, que cai desacordado. O casal então foge, com medo.

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No dia seguinte, Marcos está trabalhando normalmente no matadouro, esforçando-se para esquecer a noite frustrada, e vê a notícia no jornal sobre um taxista encontrado morto na calçada. Pela foto, ele identifica o homem que agrediu com a pedrada na noite anterior. Quando conta tudo à namorada, ela se descontrola e, sem conseguir suportar a culpa, tenta forçar o rapaz a procurar a polícia e confessar o”crime“. Marcos recusa, sabendo que sua vida já miserável vai desabar de vez se ele for preso, pois perderá o pouco que tem (inclusive o emprego). Sabe, também, que ninguém vai acreditar que ele matou o taxista acidentalmente. Diante da insistência da garota, que diz que irá à polícia por conta própria, o rapaz não vê outra saída para o dilema: agarrando-a num beijo apaixonado, que ao mesmo tempo tem a finalidade de impedir que grite, Marcos estrangula friamente a namorada, esquecendo que até a noite passada fazia planos de casar com aquela agora vítima.

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A situação sai do controle e o agora assassino não sabe o que fazer. Sem tempo para pensar, esconde o cadáver da moça debaixo da sua cama e vai trabalhar normalmente, enquanto busca uma solução para livrar-se do corpo. Como eu disse, Marcos não é um cara naturalmente malvado e não entende direito o horror do que ele fez num ato de desespero. Sua única felicidade é saber que seu namoro era secreto, e por isso os pais da garota jamais poderão incriminá-lo do seu desaparecimento. Assim, no final da tarde, ele pára num boteco para tentar relaxar e encontra Steve (Ángel Blanco), seu irmão caminhoneiro, que voltou de viagem e vai casar no final de semana. Neste momento, obcecado pela culpa e sem conseguir controlar-se, Marcos resolve contar a Steve o que fez. Ele leva o irmão para casa e mostra o cadáver, pedindo uma sugestão sobre o que fazer – e esperando que o irmão mais velho lhe salve a pele, talvez ajudando-o a se livrar do cadáver. Porém, ao contrário do que o assassino imaginava, Steve dá o mesmo conselho que a vítima havia dado anteriormente: quer que ele procure a polícia e conte tudo. Neste momento, o mundo de Marcos desmorona de vez: se a morte do taxista tinha sido acidental, ele não teria desculpas para justificar o assassinato da namorada. Novamente, diante do risco de ir preso, o assassino mais uma vez se descontrola e, por puro instinto, acaba matando o próprio irmão, com golpes de chave inglesa na cabeça.

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O segundo cadáver também é colocado no quarto, sobre a cama, e então a rotina de Marcos mergulha definitivamente no caos. À medida que a semana passa, a cada novo dia, o coitado se vê obrigado a matar alguém, quando, graças aqueles eventos irônicos do destino, diversas pessoas entram na sua casa pelos mais variados motivos, desde Carmen (Lola Herrera), a noiva de Steve, que quer informações sobre seu desaparecimento, até o sogro do irmão, passando por Ruth (Vicky Lagos), a garçonete vagabunda do bar da esquina, que é secretamente apaixonada por Marcos. Sempre que alguém está a ponto de descobrir a verdade sobre a matança ou sobre o “quarto dos horrores” onde os cadáveres são depositados, Marcos se vê obrigado a agir, matando os invasores violentamente. Logo, com o tempo, os cadáveres se acumulam e a situação se torna insuportável. O fedor da decomposição se instala no casebre, as moscas tomam conta do quarto, cachorros começam a circular pelo lado de fora da casa, sentindo o cheiro do sangue… O que fazer para escapar da prisão iminente? No auge do desespero, Marcos vê em seu emprego no matadouro uma forma rápida e fácil de se livrar das vítimas; assim, começa a esquartejar os cadáveres e levar, aos poucos, os pedaços para o matadouro, onde mistura as “evidências” à carne de gado moída, que depois é revendida à população!!!

Tudo parece perfeito… porém, no processo, Marcos vai passando por uma irreparável degradação psicólógica – como qualquer pessoa normal obrigada a matar e esquartejar cadáveres -, e ainda sofre com o assédio de Nestor (Eusebio Poncela, de Matador, de Pedro Almodovar). Ele é um rapaz rico e homossexual, que vive num dos prédios de apartamentos ao redor do casebre. Sem que Marcos saiba, Nestor observa tudo que acontece na casa por meio de binóculos e uma providencial clarabóia que permite com que vigie o interior da sala da casa de Marcos. Aos poucos, após os primeiros crimes, Nestor passa a invadir a vida de Marcos, intrometendo-se primeiro como um vizinho chato até virar um amigo e confidente, e então, talvez… algo mais! O espectador fica perdido, sem saber qual a motivação do jovem gay – fazer jogo psicológico com o assassino para que ele assuma sua culpa ou ajudá-lo a encobrir os crimes? É a relação ambígua entre assassino e testemunha ocular, digna de um filme de Hitchcock, que diferencia The Cannibal Man de vários outros filmes do gênero onde o foco está nos crimes e no assassino em si, sem um personagem para dar o contraponto.

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A citação ao grande cineasta inglês Alfred Hitchcock, o mestre do suspense, não é gratuita. Embora The Cannibal Man seja um filme bem diferente daqueles que o mestre Hitchcock costumava fazer, alguns detalhes da história lembram clássicos como Frenesi e Psicose, principalmente o fato de o espectador ver-se obrigado a torcer pelo vilão do filme, mesmo sem querer. Lembra em Psicose, quando Norman Bates joga um carro no lago e ele não afunda – e, por algum motivo, o espectador fica tão nervoso quanto o assassino? Ou em Frenesi, quando o estrangulador que apavora Londres tem um momento de humor negro, tentando arrancar um incriminador alfinete de gravata das mãos rígidas de uma vítima na carroceria de um caminhão de batatas – quem nunca torceu para que o vilão conseguisse pegar aquele maldito alfinete sem ser visto pelo motorista do caminhão? É justamente este sentimento antagônico (o espectador não sabe se quer torcer para que o vilão seja preso ou para se dê bem) que ressalta a inteligência do roteiro de The Cannibal Man.

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Isso porque, em nenhum momento, o roteiro tenta transformar Marcos em uma criatura hedionda, como normalmente acontece nos filmes. Ele é todo tempo retratado como uma pessoa comum, que perde o controle diante de uma situação que simplesmente não consegue controlar – e é interessante parar um pouco para pensar em como nós mesmos agiríamos diante desta mesma situação. Por isso, às vezes o espectador acaba se identificando com o drama do “vilão” e acaba torcendo para que ele não se dê mal. Uma das cenas mais emblemáticas dentro desta ideia é aquela em que Marcos sai de casa com uma bolsa cheia de pedaços de cadáveres, rumo ao matadouro, mas é importunado por um grupo de amigos. Eles agarram a bolsa de suas mãos e começam a jogá-la de um lado para o outro enquanto fazem piada do rapaz – sem suspeitar do conteúdo da bolsa. Ironicamente, o espectador fica o tempo todo torcendo para que a bolsa não abra, revelando o macabro conteúdo e denunciando o assassino.

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Se funciona como filme de suspense, The Cannibal Man também tem qualidades que o tornam obrigatório para fãs de horror. Como eu escrevi anteriormente, o filme faz bom uso da pobreza da sua produção na composição da história. O cenário da casa de Marcos, por exemplo, é o retrato fiel de um lar miserável. Ali se passa a maior parte da história, passando uma sensação de desconforto e claustrofobia. E quando o local se transforma num matadouro humano, cada cena que se passa na casa chega a provocar repulsa no espectador, que fica só imaginando o odor que deve estar impregnando o local. Não por acaso, no auge do desespero (e da putrefação das vítimas), o assassino corre comprar perfume e desodorante para tentar (inutilmente) desinfetar o lar onde é obrigado a continuar vivendo. O momento em que Marcos esvazia, desesperadamente, vários frascos de desodorante na sala da sua casa chega a provocar náuseas, porque o espectador não consegue decidir o que é pior: o fedor dos cadáveres podres ou da overdose enjoativa de perfume!!!

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Além disso, a exemplo dos filmes sobre canibalismo que os italianos passariam a fazer no mesmo ano de 1972 (iniciando, com Deep River Savages, de Umberto Lenzi, um prolífico ciclo de obras dentro deste sub-gênero), The Cannibal Man também usa cenas reais de matança de animais na tentativa de chocar, ainda mais, o já sensibilizado espectador. No caso, as cenas passadas no matadouro são para quem não se importa em ver como são feitos aqueles suculentos bifes que encontramos na nossa mesa na hora do almoço: vemos bois verdadeiros sendo pendurados de cabeça para baixo, tendo seus pescoços cortados, sangrando até a morte, e então sendo esquartejados sistematicamente pelos funcionaríos do matadouro. Todas as cenas são reais e o espectador não é poupado dos detalhes macabros; logo, quem tem estômago fraco vai querer fechar os olhos. No Reino Unidos, onde a censura é implacável com cenas de violência contra animais (até mesmo cenas de cavalos caindo em filmes de bangue-bangue são cortadas), The Cannibal Man perdeu exatos oito minutos, sendo retirados provavelmente todos os takes sangrentos do matadouro.

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Mas as cenas de violência contra “humanos” também são bem realizadas, ainda que o filme jamais caia na vala do “gore extremo” – pois é muito mais um suspense dramático do que um slasher gorefest. Mesmo assim, as poucas mortes espantam pela violência e realismo. Tem até uma cena imitando Banho de Sangue, do italiano Mario Bava, que é do ano anterior (1971), onde uma vítima é atingida com um cutelo bem no meio da cara – esta cena foi copiada 10 anos depois no cinema americano, por Steve Miner, em Sexta-Feira 13 – Parte 2. Outros momentos bastante violentos são aquele em que Marcos despacha o irmão Steve dando-lhe repetidos golpes na cabeça com a chave inglesa, e a garota que tem a garganta cortada lentamente pelo assassino. Não há nada demais nos efeitos – que se resumem ao sangue jorrando, sem uma maquiagem mais elaborada com látex ou materiais do gênero -, mas a edição nas cenas de morte é precisa, com cortes rápidos e closes no rosto de agonia das vítimas. O diretor Iglesia surpreende, ainda, ao usar supercloses de olhos, de gotas de suor rolando pela cara de seu personagem principal, de lâminas afiadas de facas e até da carne cozida numa colher de sopa.

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O filme ainda tem momentos inspirados na forma como aborda o canibalismo. É praticamente um “canibalismo implícito“, pois, como Marcos livra-se dos corpos em seu local de trabalho, muita gente deve ter devorado avidamente carne humana sem nem ao menos saber! Apesar do tema, entretanto, o filme nunca cai na vala exploitation de mostrar pedaços de gente ou membros decepados. Pelo contrário: em uma cena bem realizada, que sintetiza o esquartejamento dos cadáveres, a câmera mostra o “vilão” entrando, com um enorme cutelo na mão, no quarto onde as vítimas são “armazenadas“. Porém, a câmera opta por acompanhar a operação do lado de fora, mostrando apenas a sombra do assassino descendo o cutelo repetidas vezes sobre os corpos – fazendo com que o espectador não testemunhe o hábito em si, mas apenas escute os sons e imagine o que está acontecendo lá dentro. A cena ficou tão boa que acabou no cartaz do filme.

Mesmo sem mostrar explicitamente os esquartejamentos, The Cannibal Man tem um clima tão realista que consegue provocar e chocar o espectador. Não por acaso, este foi o primeiro filme a ser lançado nos cinemas americanos com aquela brilhante tática de distribuir sacos de vômito ao público que comprava ingresso. Essa tática publicitária seria repetida muitas vezes posteriormente, em O Massacre da Serra Elétrica, Zombie e até em Fome Animal. E, realmente, a ideia da carne humana estar sendo misturada à bovina no matadouro é de virar o estômago. Isso difere The Cannibal Man das produções americanas posteriores, como O Massacre da Serra Elétrica e Quadrilha de Sádicos, onde os vilões canibais matam as vítimas para seu próprio “prazer“, e não para alimentar, involuntariamente, os outros. Mas o roteiro do filme espanhol tem uma cena bem irônica, quando Marcos vai a um restaurante e fica paralisado de horror ao encontrar, em meio à sopa que come, pedaços da carne processada pelo matadouro onde ele trabalha… Será que estará comendo um pedacinho do irmão ou da namorada? É esta dúvida que deixa o assassino nauseado, fazendo-o perceber, pela primeira vez, o horror de seu ato.

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Além dos títulos The Cannibal Man e La Semana Del Asesino, a obra ganhou ainda um terceiro título em seu lançamento na Europa: The Apartment of the 13th Floor (O Apartamento no 13º Andar), fazendo referência direta ao apartamento de onde o misterioso Nestor observa os atos do assassino. Com um clima adequado de horror e suspense, uma história bastante convincente e envolvente e algumas cenas de violência bem realizadas, além do tom macabro que acompanha todo o tempo de projeção, The Cannibal Man é um filme diferente, que merece ser colocado na sua futura lista de compras de DVDs importados ou mesmo na lista de futuros downloads. Definitivamente, não é uma obra-prima. Mas com certeza você vai ficar pensando no filme por um bom tempo, e ainda terá a comprovação de que, decididamente, não se fazem mais filmes como nos velhos tempos…

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E, definitivamente, não é um filme para esta garotada de hoje em dia, criada em multiplex e acostumada a uma overdose de efeitos especiais feitos por computador. Trata-se de um filme sério, adulto, mórbido, chocante e cruel até a medula. Aliás, The Cannibal Man talvez seja uma das histórias mais dramáticas e realistas sobre um serial killer que eu já vi. Portanto, recomendo apenas para iniciados.

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Felipe M. Guerra

Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga "Entrei em Pânico...", entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

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