Ghosthouse – A Casa do Horror (1988)

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Ghosthouse - A Casa do Horror
Original:Ghosthouse / La casa 3
Ano:1988•País:Itália
Direção:Umberto Lenzi
Roteiro:Umberto Lenzi, Sheila Goldberg, Cinthia McGavin
Produção:Joe D'Amato
Elenco:Lara Wendel, Greg Rhodes, Mary Sellers, Ron Houck, Martin Jay, Kate Silver, Donald O'Brien, Willy M. Moon, Kristen Fougerousse,

Existem filme que têm uma fama tão ruim que a gente chega até a ser influenciado pelos comentários negativos. Dessa forma, nós assistimos já com a intenção de malhar e achar o filme tão péssimo quanto o anunciado. É o caso, por exemplo, de bombas atômicas como Nunca Brinque com os Mortos, ou Crocodilo, porqueira (não é nem porcaria) surpreendentemente dirigida pelo veterano Tobe Hooper, sem o menor empenho. Ou seja, produções sobre as quais nunca lemos ou ouvimos elogios.

Ghosthouse – A Casa do Horror é outro exemplo, mas para mim foi uma surpresa. Sempre que ouvi alguém falar ou li algo sobre este filme, era para chutá-lo. Falar mal do elenco, da história, da direção arrastada, enfim, o filme seria a maior porcaria de todos os tempos, pelos comentários. Mesmo assim, comprei o VHS já raríssimo no Brasil (lançado pela extinta Screen Life) e me surpreendi primeiro com o desenho e fotos da capinha, depois com a sinopse na contracapa, que diz mais ou menos o seguinte: “Ghosthouse faz com que o pesadelo de Freddy Krueger pareça um sonho tranquilo“. Interessante, não?

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Por essas e por outras, minha esperança de ver uma bomba monumental aumentava a cada minuto. Até porque é um filme italiano filmado nos Estados Unidos por Umberto Lenzi, que já não é um grande cineasta (eu particularmente só gosto dos seus filmes sobre canibais, que são Cannibal Ferox e Os Vivos Serão Devorados). Pior: Lenzi assina com o pseudônimo Humphrey Humbert! Quer dizer, se nem um diretor que está acostumado a fazer filmes ruins resolve assumir a direção deste, que porcaria deve ser?

De qualquer jeito, o Felipe aqui é um cara corajoso e não se deixa abater, afinal, já viu porcarias muito piores (como Halloween Ressurrection, que muitos ainda insistem em endeusar). E lá vai o nosso herói colocar a fita no videocassete, acomodar-se na poltrona e preparar-se para a sessão de tortura, com o controle remoto ao lado e a tecla FF bem preparada para ser acionada a qualquer momento.

Aqui é que vem a surpresa. Sabe quantas vezes o FF foi pressionado??? Nenhuma vez! Sabe quantas vezes o Stop foi utilizado? Nenhuma vez também! Sabem qual é meu veredicto? Ghosthouse não é nenhuma obra-prima. Mas está muito longe da bomba que tentam pintar. É um bom filme de horror, na verdade um amontoado de clichês, baboseiras e loucuras diversas (dobermans invisíveis, ventiladores assassinos, piscina de leite corrosivo), que funciona e prende a atenção do espectador até o fim, mesmo com o péssimo elenco e algumas coisas muito mal resolvidas no roteiro.

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Vamos lá para um tour pela Ghosthouse: o filme começa com a música tétrica de Piero Montanari (que muita gente também achou péssima, mas eu achei interessante), enquanto a câmera de Umberto Lenz… ops!, Humphrey Humbert (hehehehe) passeia por uma velha casa em estilo vitoriano construída na área rural de New England, nos EUA (pareceu-me a mesma casa de A Casa do Cemitério, de Lucio Fulci, mas posso estar enganado).

No interior da escura casa (que permanecerá escura do início ao fim), Sam Baker (Alain Smith) desce as escadas até o porão à procura da filha Henrietta (Kristen Fougerousse). Encontra, no caminho, um gato morto. E a menina, num canto do escuro porão, com uma tesoura ensanguentada na mão e um boneco de palhaço. Brrrrr… Bonecos em filmes de horror nunca são boa coisa – lembram do palhaço de Poltergeist?

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Sam fica horrorizado com a crueldade da menina loira e de vestido branco e a tranca no porão para que ela pense no “mal que fez a uma criatura de Deus“. Sobe para a sala e fala rapidamente com a esposa, antes que os dois sejam, vamos dizer assim, brutalmente esquartejados (em inglês, butchered, soa mais legal), por um assassino que aparece “off-screen” e do qual só se vê a mão. Sam tem a cabeça arrebentada por uma machadada (explícito), e sua esposa tem a cabeça cravejada de cacos de vidro de um espelho que explode e a garganta atravessada por um enorme facão (explícito). Logo, extremo gore já nos primeiros cinco minutos de filme! Mais sangue e violência do que em Manhattan Baby, de Lucio Fulci, inteiro (vi os dois filmes na mesma noite, daí a comparação).

Corta para a tela tradicional: “Vinte anos depois“, e somos apresentados ao nosso “herói“, Paul, interpretado por Greg Scott. O ator americano é inexpressivo que nem uma porta e seu grande momento cinematográfico é este… hehehe. Só voltaria a ter destaque ao aparecer, digitalizado em bytes, no jogo de videogame “Star Wars: Rebel Assault 2“, como um dos pilotos rebeldes. Legal, não?

Paul é um radioamador. Pode soar estranho falar em radioamador hoje, em tempos de Internet. Mas na época (anos 80) era o quente. Como não havia Internet, as pessoas conversavam com um equipamento de rádio (como os caminhoneiros fazem até hoje), usando letras e números que eram seu “nick“. Bem, Paul passa a noite inteira conversando com garotas e rapazes de todos os Estados Unidos pelas ondas do rádio, ao invés de dar bola para a namorada gostosinha, Martha (Laura Wendel).

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Certa madrugada, Paul está tentando sintonizar uma faixa para conversar com um amigo e pega apenas estática e sons estranhos. Repentinamente, uma desesperada mensagem de socorro entra na frequência. O rapaz instintivamente pega um gravador e registra a mensagem, onde um homem amedrontado grita por socorro antes de se silenciar; em seguida, escuta o grito de uma moça. Depois, começa a tocar uma tétrica musiquinha infantil. Assustados com aquilo, Paul e Martha duvidam que possa ser brincadeira de alguém. Com o auxílio de um computador, o jovem radioamador consegue rastrear a frequência de onde veio a mensagem. Ganha um doce quem adivinhar onde é: a velha casa do início do filme, claro!

Apesar de morar distante do local, e acreditando estar fazendo uma grande coisa ao invés de simplesmente ligar para a polícia e deixar ela se virar, Paul sai em viagem com a namorada e seu equipamento de radioamador a tira-colo. Encontram no caminho um caroneiro esquisito, Pepe (Willy Moon), que insiste em fazer brincadeiras idiotas com uma mão falsa que possui. O carona logo salta do carro (numa incongruência total de roteiro, ele volta mais tarde) e o casal chega à casa, aparentemente abandonada. Mas, no sótão, encontram uma aparelhagem de radioamador. É quando descobrem que a casa não está tão abandonada.

Um grupo de jovens está acampado com seu trailer nas cercanias do local. Um deles, Jim (Martin Jay), também é radioamador e resolveu montar seu equipamento dentro da casa. Também estão acampados Mark (Ron Houck), amigo de Jim, e as garotas Susan (Mary Sellers, de O Pássaro Sangrento) e Tina (Kate Silver). Quando Paul e Martha mostram a mensagem ao grupo, eles identificam a voz como sendo de Jim e o grito de Tina, mas ambos juram não ter feito nenhuma transmissão do gênero.

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Logo as coisas começam a ficar malucas. O grupo se separa para investigar barulhos esquisitos pela casa. Martha desce ao porão e potes de conservas incham e explodem (belo efeito), uma cabeça decepada gira na máquina de lavar e o fantasma da menina de branco com seu palhaço demoníaco aparece para assustá-la. Ela corre e é Jim quem desce para o porão, encontrando a mesma menina, desta vez com um ventilador girando alucinadamente. O rapaz grita por socorro (detalhe: é o mesmo grito que Paul ouviu no radioamador na noite anterior!!!) e uma das lâminas do ventilador se solta, cortando sua jugular.

Os outros jovens continuam andando de lá para cá. Tina entra no trailer do grupo e a TV se liga sozinha, exibindo a imagem da menina e seu palhaço. Martha entra em um quarto infantil e encontra vários brinquedos… inclusive o palhaço, que toma vida e tenta sufocá-la, enquanto todas as coisas do quarto começam a voar ao seu redor (até as penas dos travesseiros). Mark é caçado por um gigantesco doberman fantasma (é ver para crer), e tem que se jogar pela janela para escapar!

Quando todos conseguem escapar da suas respectivas ameaças sobrenaturais, descobrem que Jim está morto e surge um jardineiro débil mental que mora próximo à casa e tenta matar as garotas. Paul dá um cacete nele, mas o psicopata consegue fugir. Fim do primeiro ato.

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Estamos na metade do filme e a polícia chega! Brilhante! É o tipo de coisa que costuma acontecer só no final!!! O policial incrédulo de plantão diz que Jim foi morto pelo jardineiro maluco, e surpreendentemente Tina, Mark e Martha, que tiveram experiências sobrenaturais e foram até atacadas por fantasmas, concordam com ele e esquecem tudo que aconteceu antes!!! Paul e Martha voltam para Boston deixando Mark, Tina e Susan para trás.

Aí acontece um erro grosseiro de continuidade. Dá tempo do casal voltar a Boston, tomar banho e começar a mexer no computador e tal (o que, presume-se, deve ter levado pelo menos um bom par de horas). Mas logo o filme dá um corte e volta para a casa assombrada, mas Mark, Tina e Susan continuam lá, apesar de terem se despedido de Paul e Martha há muitas horas! Quando eles tentam ir embora, um problema no motor do trailer obriga-os a ficar por ali. Logo anoitece e eles se vêem às voltas com os fantasmas da casa novamente.

Paralelamente, em Boston, Paul decifra a mensagem da cantiga infantil que gravou pelo radioamador. Ela diz: “burial, burial” (enterro). É quando o jovem começa a se dar conta de que coisas estranhas estão acontecendo naquela casa (dããããããã!), resolvendo voltar para lá com a namorada para resolver o mistério.

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A partir daí, a sangreira rola solta. Temos pessoas partidas ao meio, pessoas atravessadas por tesouras de jardinagem, pessoas com a cabeça estourada a marteladas e até um zumbi com cara de caveira repleta de vermes!!! Também volta o caroneiro sem graça do início do filme, mas só para aumentar a contagem de cadáveres. Surpreendentemente, apesar dos jovens terem presenciado acontecimentos sobrenaturais apenas um dia antes, eles continuam tomando atitudes ridículas, como ficar andando pelo interior da sinistra casa sozinhos, ou então separando-se a cada momento. Pior: apesar de alguém ter sido assassinado ali 24 horas antes, a polícia nem ao menos se preocupa em dar uma passada no local para ver se os jovens tinham ido embora mesmo ou se ainda estavam por lá!!!

A história ainda dá mais uma reviravolta quando descobrimos que não é a casa que é assombrada, mas sim… Ah, não. Não vou contar. Vocês precisam pegar o Ghosthouse e dar uma chance para ele, porque realmente o filme não é tão ruim como falam.

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Os efeitos especiais são OK (especialmente a sangreira), tem os clichês típicos de casas assombradas (portas que se fecham sozinhas, torneiras que jorram sangue), o personagem da menininha com seu palhaço é bem tétrico (vilões infantis são ótimos, Sadako que o diga), e a história por trás da maldição da casa até convence. Só o final é meio brochante, mas não dá para malhar uma produção inteira só pela conclusão equivocada.

Ghosthouse ainda adapta algumas boas ideias de outros filmes de casas assombradas, como O Iluminado. A cena em que Paul tenta decifrar a palavra cantada na música infantil me lembrou o enigma da palavra “redrum” em O Iluminado. E a menininha fantasma é um clichê bem típico, utilizado inclusive em um outro filme italiano sobre casa assombrada, chamado A Casa do Medo, de Alessandro Capone, que também é bem legal.

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Três curiosidades: na Itália o filme foi lançado com o título La Casa 3, para parecer que era continuação da série A Casa do Espanto (que na Itália chama-se La Casa). E o veterano diretor de tudo quanto é gênero, Joe D’Amato, produziu o filme, mas não gostou do trabalho de Lenzi e exigiu a retirada do seu nome dos créditos. Vai entender. Mais uma: parte da trilha sonora foi “roubada” por Lenzi da trilha que Simon Boswell fez para o filme O Pássaro Sangrento, de Michele Soavi.

Ghosthouse também é um dos últimos bons filmes de horror de Umberto Lenzi. Ele faria ainda A Praia do Pesadelo nos Estados Unidos, com o pseudônimo Harry Kirkpatrick (um slasher movie muito ruim), e Black Demons em 1991, espécie de seqüência de Demons 1 e 2, de Lamberto Bava. Sumiu do mapa em 1996 e nunca mais deu sinal de vida, como muitos outros diretores italianos do período que se recusaram a fazer filmes para a TV.

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Felipe M. Guerra

Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga "Entrei em Pânico...", entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

5 comentários em “Ghosthouse – A Casa do Horror (1988)

  • 21/07/2020 em 19:12
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    Boa noite.
    Você colocou uma informação errada no seu texto.
    O filme se chama “La Casa 3” não para parecer continuação de “A Casa do Espanto”, e sim para parecer continuação do “Uma Noite Alucinante” que na Itália o primeiro e o segundo filme se chamaram “La Casa” e “La Casa 2”.
    e ainda tem o “La Casa 4” e o “La Casa 5”.
    Respectivamente O Feitiço das Almas e Vingança das Bruxas.

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  • 22/01/2017 em 16:44
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    Gostei da resenha/critica
    Parei o filme com 15 minutos para consultar o IMDB sobre o diretor e elenco. e acabei parando aqui no boca do Inferno que traz todos os detalhes:diretor.elenco etc.Até agora estou gostando!Tem suspense ,clima e tudo que o gênero permite.
    ah.estou assistindo esse filme em 720p com uma ótima imagem e com uma legenda bem sincronizada.
    Parabéns pela critica e pelo site, o Boca do Inferno é nota 1000
    abs

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  • 21/12/2016 em 02:19
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    Olá parceiro, tudo bem? Apesar do filme ser fraco ele fez parte da minha infância, por isso se tornou um clássico aqui em minha prateleira! Me lembro que fiquei noites e noites sem dormir por causa da música do palhaço (Burial rsrsrs). Então quando crescemos lembramos de filmes que assustaram a nossa infância! Eu tenho o VHS raríssimo e muito lindo (por sinal) aqui na estante, atualmente pode ser ruim para os adultos ( muito ruim), mas na infância qualquer filme que nos assusta se torna um clássico!!
    Obs: Adoro esse site cara, acompanho muiiiiito e nunca deixo de ler suas críticas antes de assistir qualquerrr filme de terror!!! Parabéns viu!

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  • 16/05/2016 em 17:33
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    Porra Guerra, tô com saudade das suas críticas no Boca e no Filmes Para Doidos. Este filme que você resenhou deve ser muito legal; eu vi “A Casa do Medo” uma única vez há cerca de 20 anos atrás (no tempo do VHS) e gostei muito, na época esse filme me deixou com bastante medo.

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  • 15/05/2016 em 12:57
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    Poxa! Eu aprendi a dar chance às bombas depois de assistir Blood Frenzy. Sim! É outro amontoado de clichês e soluções ruins, mas é divertido pacas. Fiquei curioso pra ver esse Ghosthouse.

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