Vozes do Além (2005)

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Vozes do Além
Original:White Noise
Ano:2005•País:UK, EUA, Canadá
Direção:Geoffrey Sax
Roteiro:Niall Johnson
Produção:Paul Brooks, Shawn Williamson
Elenco:Michael Keaton, Deborah Kara Unger, Ian McNeice, Chandra West, Sarah Strange, Nicholas Elia, Mike Dopud, Marsha Regis

Antigamente, lá pelo começo da década de 90, a febre era comprar os velhos aparelhos conhecidos como “três em um“. Era um trambolho que continha toca-discos, para os velhos LPs em vinil; rádio com dois decks, para reproduzir e gravar as velhas fitinhas K-7 de áudio, e, claro, a coqueluche da época, o leitor de CDs. Como o compact disc ainda era uma grande novidade, a galera comprava o gigantesco “três em um” para poder ouvir também suas dezenas de discos em vinil e fitas cassete. Ah, que tempos inocentes…

E o que diabos isso tem a ver com Vozes do Além, o tal filme de horror estrelado por Michael Keaton, sobre o fenômeno conhecido como EVP (Electronic Voice Phenomena, ou “Fenômeno de Voz Eletrônica“)? Bem, meus amigos, acontece que Vozes do Além é o típico filme “três em um“: na sua ânsia de surpreender o espectador, o péssimo roteirista Niall Johnson criou uma trama inicialmente assustadora sobre um homem que recebe mensagens da esposa morta através de aparelhos eletrônicos, mas que logo se transforma numa bobagem sobre a previsão de tragédias que acontecerão no futuro, e, finalmente, numa ridícula e totalmente inexplicável história de serial killers!!! Tem cabimento? Três conceitos que poderiam ser interessantes se desenvolvidos separadamente estão aqui, todos agregados em um único filme, ou uma única bomba!!!

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Esta produção conjunta entre EUA, Canadá e Inglaterra começa com pretensões de seriedade, citando uma frase do inventor americano Thomas Alva Edison (que, em 1928, já tinha uma teoria sobre a gravação de mensagens espíritas), e logo depois explicando o que diabos é o fenômeno EVP. Para quem não sabe, as pessoas que acreditam no EVP dizem ser possível que os espíritos dos mortos, no plano onde estão, possam se comunicar com os vivos através de equipamentos sensíveis que “captem” estas mensagens. No caso, televisores e aparelhos de rádio mal-sintonizados, no tradicional “chuvisco” – que nos Estados Unidos é chamado “white noise“, ou ruído branco, o título original do filme; como ninguém veria uma produção chamada Chuvisco – O Filme, aqui no Brasil virou Vozes do Além mesmo…

Após estas breves explicações, o roteiro de Johnson nos apresenta o tradicional “casal feliz antes da tragédia“, comum nos filmes de horror. Trata-se de Jonathan Rivers (Michael Keaton, o eterno Batman de Tim Burton, em atuação empenhada, porém que logo resvala no ridículo), um arquiteto divorciado que vive a vida que pediu a Deus ao lado de uma famosa escritora, a gatinha Anna (Chandra West, que apareceu novinha na quarta e quinta partes da série Puppet Master, aquela dos bonecos assassinos!). Uma noite, porém, Anna não volta para casa. Jonathan descobre que o carro da amada foi encontrado à beira de um rio e que ela está desaparecida. Quem sabe sequestrada… Ou morta!

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Após longos dias sem notícias, o arquiteto tenta retomar sua vida normal. Porém, logo recebe a visita de um homem chamado Raymond Price (Ian McNeice, o gordão de Ace Ventura 2), que diz a Jonathan trazer mensagens de Anna. Só tem um porém: Anna está morta, e enviando suas mensagens do além-túmulo através do fenômeno EVP. Jonathan vence o ceticismo e vai até a casa de Raymond, que se apresenta como um estudioso da EVP – uma espécie de “médium tecnológico“, que vive cercado de aparelhos eletrônicos para captar mensagens dos mortos através de gravadores de áudio e da TV. Como faz isso há décadas, guarda toneladas de fitas com mensagens psicografadas do além. E Jonathan reconhece, numa destas fitas repletas de chiados, a voz da desaparecida Anna, cujo cadáver realmente é encontrado pela polícia alguns dias depois.

Fascinado com o fenômeno, e também com a possibilidade de comunicar-se com o fantasma da amada, Jonathan repentinamente se transforma num obcecado pela EVP. Ele deixa o filho pequeno (do primeiro casamento) de lado, pára de ir trabalhar e compra uma moderna aparelhagem para tentar receber, em casa, as mensagens da finada. Ao mesmo tempo, se relaciona com outra das “clientes” de Raymond, Sarah Tate (Deborah Kara Unger), que também acredita cegamente na psicografia eletrônica. E não é que o arquiteto realmente logo começa a “captar” o espírito de Anna através da TV fora de sintonia? O problema é que as aparições do além vêm acompanhadas de tragédias… Em alguns dias, Raymond aparece morto, com sua aparelhagem totalmente destruída, e Jonathan começa a captar mensagens de espíritos zangados. Por fim, descobre que Anna está lhe enviando, através da televisão, imagens mostrando tragédias que acontecerão no futuro, de forma que o marido possa intervir, evitando acidentes e mortes!!!

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Bem… Será que só eu achei forçada esta estranha reviravolta nos acontecimentos? Quer dizer, de uma história séria, interessante e crível sobre um sujeito amargurado que começa a se comunicar com a esposa morta, Vozes do Além repentinamente se transforma numa ficção científica meiga ao dar a Jonathan a capacidade de intervir em desgraças futuras, salvando, por exemplo, um inocente bebê que morreria num acidente de carro – graças às pistas e imagens que Anna lhe mostra através da TV. Mas se essa primeira reviravolta pode lhe parecer estranha, espere só pela segunda reviravolta, porque esta sim afunda definitivamente o que poderia ser um bom filme de horror: Jonathan começa a captar mensagens de três fantasmas serial killers (cruz-credo!!!), que, aparentemente, comandam um assassino humano em nosso plano (!!!), fazendo-o matar inocentes (!!!), entre eles a própria Anna!!! E então nosso heroico arquiteto descobre, mais uma vez a partir das imagens mostradas pela namorada morta, como chegar ao esconderijo do assassino, onde está aprisionada uma futura vítima… Será que Jonathan conseguirá salvá-la, ou Anna tem outros planos para o namorado?

Contando com uma direção preguiçosa e exagerada do estreante Geoffrey Sax (que até então só dirigiu telefilmes e episódios de seriados, e deve continuar fazendo isso o resto da vida), Vozes do Além afunda como uma bigorna no oceano após os primeiros 40 – e promissores – minutos, perdendo-se num festival de sustos fáceis e efeitos grosseiros em CGI (os três fantasmas serial killers, quando se materializam, parecem ter saído do horrendo A Múmia, de Stephen Sommers!). E o roteiro ainda subestima a inteligência do espectador quando revela a identidade do assassino humano, um zé-mané que apareceu anteriormente em dois segundos do filme (quando muito), e o diretor ainda chega a incluir uma cena em flashback destes dois segundos, como que querendo justificar a suposta “verossimilhança” da história!!!

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Agora, é o “fim da várzea” (para utilizar uma expressão gauchesca) quando o espectador resiste ao bombardeio de efeitos de computação gráfica e põe-se a analisar a bomba que está assistindo. A primeira questão que surge é: “Como é que a história sobre as mensagens da mulher morta pela TV se transformaram nessa baboseira???“. Mas esta é a menor das questões: logo o cérebro do incauto espectador é acometido por um turbilhão de perguntas e dúvidas, tão numerosas que seria preciso fazer duas ou três sequências para responder todas. Seguem algumas:

– Por que os três fantasmas malvados deixaram Raymond recebendo mensagens de EVP durante décadas antes de finalmente decidir matá-lo?

– Por que apenas Jonathan parece receber visões do futuro para poder evitar calamidades, e mais ninguém?

– O que a personagem de Deborah Kara Unger está fazendo no filme, se não tem qualquer utilidade na trama, servindo apenas de “escada” para Jonathan descobrir algumas coisas sobre EVP e logo depois sendo descartada da maneira mais folgada e gratuita?

– Como é que um cara esclarecido e racional como Jonathan sai acreditando de cara num desconhecido como Raymond e nem ao menos contesta aquelas gravações e imagens precárias mostradas pelo médium? Quer dizer, convenhamos: EVP são mensagens quase inaudíveis e vultos que aparecem no chuvisco da TV! Caramba, isso pode ser qualquer coisa, de estática a interferência na TV! Como é que Jonathan não duvida, nem por um instante, daquilo?

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– Por que Jonathan deixa de lado o filho pequeno, que é uma pessoa viva e real, que precisa de seu amor, carinho e atenção, para ficar olhando obcecadamente para o chuvisco da tela da TV em busca de mensagens da namorada que já morreu?

– Por que os fantasmas serial killers precisaram recrutar um humano para fazer o trabalho sujo se eles mesmos podiam se materializar e dar cabo das vítimas? Aliás, qual a finalidade do trio ficar ameaçando Raymond e Jonathan durante a maior parte do filme com mensagens agressivas para de repente matá-los sem mais nem menos?

– Como é que o tal assassino humano, aparentemente um sujeito de classe social inferior, arranjou dinheiro para comprar um moderno equipamento de gravação de áudio e vídeo, que parece ter saído da sede da Nasa em Houston?

– Como engolir o fato de que, ao conhecer o fenômeno da EVP, Jonathan praticamente abandona sua vida, deixando de ir trabalhar para ficar fuçando em sua aparelhagem? Aliás, o cara se transforma de arquiteto em especialista de informática e eletrônica num piscar de olhos!

E por aí vai… A conclusão ainda consegue ser de uma imbecilidade incrível, deixando o espectador com cara de tacho e a seguinte dúvida: “Se Anna sabia que tal coisa iria acontecer, por que desta vez ela não mandou a mensagem para que seu marido pudesse alterar o futuro?“.

O que sobra de Vozes do Além são alguns raríssimos momentos arrepiantes, como o susto que Jonathan leva (e o espectador também) no momento em que uma visão assustadora se materializa na TV fora de sintonia, bem na hora em que o pobre herói está praticamente agarrado ao aparelho. Ou a ligação que nosso herói recebe do celular de Anna – quando a dita cuja já está morta e enterrada, e seu celular guardado na gaveta da casa do viúvo! Algumas das “mensagens do além” também são tétricas. Mas é no mínimo frustrante quando você percebe que os documentários que acompanham o filme, nos extras do DVD de Vozes do Além, são infinitamente mais assustadores que o próprio filme, mostrando mensagens supostamente reais gravadas através do Fenômeno de Voz Eletrônica.

Agora, eu fiquei realmente emocionado ao imaginar o que o cinema oriental faria com o mesmo argumento, considerando a maravilha que é Shutter – filme coreano sobre outra lenda urbana moderna, a dos fantasmas registrados em fotografias. Quem sabe a gente não vê, finalmente, um remake ao contrário, ou um filme americano refeito no Oriente – e melhorado. Com seu argumento interessante, bem que Vozes do Além merecia uma versão melhor. Mas sem mensagens do futuro e sem o trio de “gasparzinhos do Mal“…

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Felipe M. Guerra

Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga "Entrei em Pânico...", entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

5 comentários em “Vozes do Além (2005)

  • 31/05/2019 em 11:02
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    Onde encontro esse filme para baixar?

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  • 28/10/2017 em 09:34
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    Me salvou!! Eu estava vendo esse filme antes de vir trabalhar e não deu tempo de ver tudo. Fiquei igual uma doida procurando esse filme para acabar de ver….O começo estava muito interessante, mas depois dessas descrições, vi que o filme ficou meio cagado…Obrigada, pelo conteúdo da matéria.

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  • 18/11/2016 em 15:53
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    ”O FIM DA VARZEA” sensacional. Achei que esse ”ditado” era comum só por aqui no centro do RIO GRANDE. Mas resume bem esse filme. Boas ideias colocadas no lixo.

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  • 11/11/2016 em 01:45
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    Shutter é tailandês, não coreano. E é realmente excelente. 😉

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  • 06/11/2016 em 00:23
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    este filme iclusive é premiado, sendo a cena da tv mais assutadora , só não me recordo qual festival premiou o filme.. mas acho o filme bem legal..

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