Luigi Cozzi, o Mestre Italiano da Fantascienza

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Luigi Cozzi

Luigi Cozzi é um cara legal! Ele é fã de ficção científica, trabalhou com atores como David Hasselhoff, Caroline Munro, Christopher Plummer, Lou Ferrigno, Klaus Kinski e Donald Pleasence, lançou filmes dos gêneros mais variados, mas sempre divertidos, escreveu vários livros e artigos sobre ficção, é amigão de Dario Argento e ainda conheceu pessoalmente algumas das bandas de rock mais famosas dos anos 60 e 70, tipo Rolling Stones, pois trabalhou como crítico de música durante algum tempo!

Sua carreira cinematográfica desenrolou-se durante a melhor época do cinema italiano, entre as décadas de 70 e 80, ao lado de nomes talentosos como o próprio Argento, mais Lucio Fulci, Enzo G. Castellari, Antonio Margheritti. Se não dirigiu muitos filmes (foram 16, contando documentários, sendo que a aventura espacial Starcrash é o mais famoso deles), pelo menos pode se dar ao luxo de contar histórias divertidas, como quando ajudou Augusto Caminito a domar a loucura do autor Klaus Kinski no set de Nosferatu em Veneza, ou quando roubou o projeto do filme Hércules das mãos de Bruno Mattei e Claudio Fragasso, depois que o produtor odiou o roteiro escrito pela dupla!

Meu primeiro contato com Luigi Cozzi foi graças a uma fita lançada no Brasil pela Omni Vídeo, com o título Alien, O Monstro Assassino. Isso lá no começo dos anos 90. O filme parecia ser uma cópia de Alien, O Oitavo Passageiro, mas pegava bem mais pesado nos efeitos sangrentos, mostrando pessoas explodindo e suas tripas voando em direção à câmera. Mais tarde foi descobrir que aquele filme era Alien Contamination, um dos melhores trabalhos de Cozzi.

Injustamente defenestrado pela crítica, Luigi tem uma filmografia sólida, baseada na “fantascienza“, ou seja, na ficção científica (mesmo quando faz filmes de horror), e alguns detalhes que nenhum crítico bocó jamais percebeu, como o fato de suas histórias sempre terem fortes personagens femininas (normalmente as heroínas), e quase sempre uma personagem chamada Stella (que, em italiano, significa “estrela“, demonstrando a paixão de Cozzi pelo espaço), além de homenagearem os clássicos “sci-fi” feitos nos EUA nos anos 50. Chegou a escrever um roteiro baseado no livro Space Vampires, de Colin Wilson, que depois foi reescrito por Dan O’Bannon e virou o filme Força Sinistra, de Tobe Hooper! Cozzi assinava seus trabalhos com o pseudônimo “Lewis Coates“, e dirigia os próprios roteiros, nunca trabalhando com textos de terceiros.

Nos anos 90 ele abandonou o cinema, como muitos diretores da época, assim que a TV italiana tomou conta do mercado e tornou inviável a produção de filmes como os feitos antigamente. Então, Cozzi associou-se ao amigão Argento e fundaram a loja Profondo Rosso, especializada em livros, filmes e material sobre horror e ficção científica, que fica em Roma, e é visitada por gente do calibre de Tom Savini e Alice Cooper. Atualmente, está com 56 anos e pensa em voltar a dirigir, trabalhando em uma série televisiva de ficção científica para a TV italiana, em colaboração com Dario Argento.

No começo deste ano, eu estava escrevendo um artigo sobre Paganini Horror, penúltimo filme de Cozzi, feito em 1988, e, enquanto fuçava pela Internet, achei a página pessoal de Luigi. Lá estava o telefone da loja Profondo Rosso. Não titubeei e pedi para meu amigo que fala italiano, Eliseu Demari, que ligasse para lá e tentasse falar cinco minutos com o Cozzi, só para pegar algumas opiniões dele sobre Paganini Horror. Mas a conversa evoluiu e, como eu disse, Cozzi é um cara legal. Além de simpático, ele adora falar. Então combinamos de mandar umas perguntas por carta para ele responder.

Um mês depois, o Eliseu recebe uma caixa enorme vinda da Itália. Dentro, além de 42 folhas de ofício datilografadas com as respostas das perguntas e ainda mais material que ele estava escrevendo para uma futura auto-biografia, Cozzi tinha mandado fotos de seu arquivo pessoal, cartazes e capas de seus filmes e livros, e ainda presentes, como alguns livros e revistas que editava e até uma raríssima edição dupla em DVD francês (!) de seu clássico Starcrash! Eu não disse que Luigi Cozzi era um cara legal?

Abaixo, o leitor pode conferir uma extensa entrevista, talvez a maior de toda a Internet, misturando trechos do material enviado por Cozzi por escrito com momentos de uma conversa telefônica de meia hora que tivemos com ele, devidamente gravada. Assim, pela primeira vez na Internet brasileira, você pode saber detalhes sobre os bastidores de filmes como Starcrash e Alien Contamination, sobre o péssimo roteiro de Bruno Mattei para Hércules, sobre os problemas legais para dirigir Starcrash 2 e até sobre um projeto que Cozzi e Dario Argento tinham de refilmar Frankenstein como uma metáfora sobre o nazismo! Divirta-se!

Boca do Inferno: Luigi, sua carreira foi marcada por filmes bem diferentes, de Starcrash, que é uma aventura espacial, a Paganini Horror, que é um filme de horror à la Dario Argento. Mas você gosta de dizer que é um apaixonado por ficção científica…

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Cozzi: Minha carreira sempre foi muito difícil, porque os produtores e distribuidores italianos odiavam, e ainda odeiam hoje, a ficção científica. Eles me consideravam algum tipo de maluco porque eu queria fazer filmes sobre naves espaciais, Alienígenas, histórias futurísticas. E até faziam piadas sobre mim! Mas eu tinha essa vontade dentro de mim e eu lutei, lutei, lutei imensamente, porque sempre quis ser um diretor de ficção científica, e me tornei um. Entretanto, todos os filmes de ficção científica que eu fiz foi para produtores e distribuidores de fora da Itália. Nenhum produtor italiano nunca estave envolvido com estes filmes.

Boca do Inferno: Como começou a sua amizade com Dario Argento?

Cozzi: Dario conseguiu seu primeiro emprego como crítico de cinema em um jornal, e enquanto ganhava dinheiro escrevendo sobre filmes, ele também começou a escrever roteiros. Assim que ele se tornou um conhecido roteirista, deixou o jornal. Seu pai, Salvatore, era uma pessoa importante na indústria cinematográfica italiana, então não foi difícil para Dario começar sua carreira no cinema. Quanto a mim, em 1963 eu editava uma publicação chamada Futura Fantasia, que era um tributo ao autor Ray Bradbury e foi o primeiro fanzine italiano sobre ficção científica. Logo depois, quando eu ainda era muito jovem, tinha uns 16 anos, fui contratado por uma revista profissional mensal, Galassia, como consultor. Eles me davam histórias e contos para traduzir do inglês para o italiano. E a partir deste momento, passei a trabalhar para revistas italianas de ficção científica: publiquei traduções, histórias, novelas, artigos, editei livros e antologias e, mais tarde, comecei a ser agente literário.

Até o começo dos anos 70, continuei trabalhando nas revistas. E, sendo um fã de música pop, comecei a escrever artigos sobre Rolling Stones, The Beatles, Deep Purple, Jimi Hendrix e outras estrelas da música. Meus artigos sobre música vendiam bem, e depois de um tempo fui contratado por uma revista italiana sobre pop-rock e trabalhei para eles. Foi quando eu conheci Dario Argento: fui enviado para entrevistá-lo, gostamos um do outro e ele estava preparando um novo filme, então me pediu para ajudá-lo na história, porque tinha visto alguns dos textos que eu escrevia para as revistas de ficção científica. Então trabalhamos juntos em Four Flies on Grey Velvet, e eu praticamente introduzi elementos científicos nos gialli que Argento fazia. Eu dei a Dario muitas e muitas idéias que vinham do campo da ficção científica, e ele aproveitou aquelas que mais gostou. (Nota: Luigi inclusive faz uma participação não-acreditava no filme, feito em 1971, como um assassino mascarado).

E tem a história sobre Frankenstein: entre 1972 e 1973, logo após Four Flies…, Dario teve a ideia de produzir um clássico do horror no velho estilo dos filmes da Universal, e decidiu que eu seria perfeito para dirigir o filme sob sua supervisão. No início, Dario queria fazer um remake de A Múmia, depois pensou em The Wolf Man, mas no final chegou à conclusão que a melhor ideia era fazer um novo Frankenstein. Conversamos várias vezes sobre isso, nossa idéia era fazer um filme bem próximo do clássico de 1931, dirigido por James Whale, misturando algumas ideias de A Noiva de Frankenstein no projeto. A história se passaria na Alemanha, durante os anos 20, pouco antes de Hitler tomar o controle, e a ideia era criar um paralelo entre o monstro de Frankenstein e o monstro de Hitler, o nazismo: dois monstros surgindo ao mesmo tempo na Alemanha!

Nós escrevemos um roteiro inteiro, trabalhando juntos, e então o pai de Dario, Salvatore, foi para Londres, onde a Paramount tinha seu escritório europeu. Você vê, naquela época, Dario tinha contrato com a Paramount, para quem dirigiu Four Flies… Em Londres, o pai de Dario discutiu o projeto de Frankenstein com a Paramount por uns dez dias, mas o estúdio não estava muito interessado no projeto. No final, eles disseram que só iriam distribuir o filme se Argento conseguisse que ele fosse feito numa co-produção com a Hammer. Então Salvatore Argento se encontrou com Michael Carreras, o presidente da Hammer, e discutiu o projeto com ele. Mas Carreras disse que filmes clássicos de horror estavam mortos na bilheteria, e que Frankenstein não era mais um sucesso, porque a Hammer tinha acabado de lançar um filme chamado Frankenstein And the Monster from Hell e foi um fracasso! (Nota: este filme é de 1974 e foi dirigido por Terence Fisher). Por isso, a Hammer recusou-se a juntar forças conosco para fazer o filme, e a Paramount também se recusou a dar sinal verde ao projeto. E então Salvatore Argento voltou de Londres e este projeto conjunto de Cozzi-Argento morreu para sempre… Nos anos 90, fiz dois documentários sobre Dario, chamados Dario Argento: Master of Terror e Il Museo Degli Orrori di Dario Argento. Eu adorei fazê-los, me diverti bastante, porque trabalhei com total liberdade, sem pressões e sem problemas com produtores, porque eu mesmo os produzi! E eu amo documentários sobre a arte de fazer filmes, eu já tinha feito diversos documentários para a TV italiana, e pessoalmente apresentei e conduzi a maioria deles. É por isso que muitos fãs de ficção científica da Itália me conhecem pessoalmente, porque eles viram estes documentários, que foram reprisados várias vezes na TV desde 1978.

Boca do Inferno: Seu filme mais conhecido é o Starcrash, de 1979, feito dois anos depois do sucesso de Star Wars. Fale sobre ele.

Cozzi: Starcrash teve um excelente elenco… Christopher Plummer, Caroline Munro, David Hasselhoff, Joe Spinell, Marjoe Gortner… Todos eles foram pessoas muito gentis e excelentes profissionais, e nós tivemos muita diversão trabalhando juntos. Munro… bem, ela é uma mulher fantástica, de grande beleza. Eu a vi no filme The Golden Yoyage of Sinbad (Nota: filme de 1974, dirigido por Gordon Hessler), e disse ao produtor de Starcrash, Nat Wachsberger, que a queria como a heroína, Stella Star. No início, o produtor não me escutou e tentou conseguir uma estrela mais popular, como Rachel Welch ou Patti D’Arbanville. Mas elas não aceitaram ou pediram muito dinheiro. Então, quando estávamos bem próximos do início das filmagens, e ainda sem nossa estrela, o produtor se aproximou de mim como quem não queria nada e perguntou: “Hã, Luigi, há algum tempo você me falou sobre uma atriz inglesa que queria para estrelar o filme… Como era mesmo o nome dela?“. Foi assim que Caroline foi contratada. Até hoje, eu me considero sortudo por ter conseguido Caroline no elenco, porque ela ficou simplesmente fantástica no papel!

O único problema de Caroline era seu marido, Judd Hamilton. Ele era um ator e, bem, não estava feliz em ver sua esposa no meu filme e ele fora do projeto. Então ele foi falar com o produtor. Para a gente poder se livrar dele, resolvemos oferecer o papel de robô! Assim, ele ficaria fechado dentro de uma armadura, onde não podia incomodar ninguém!

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Mas eu estava enganado. Embora sua participação fosse apenas com a voz, que ainda seria dublada depois, em cada cena que nós filmávamos ele perguntava: “Luigi, eu falei direitinho? Luigi, eu não falei bem, por favor, vamos refazer esta cena!“. E assim foi ficando cada vez pior! Por isso, para ser franco, eu amava Caroline, mas odiava seu marido!

Por outro lado, Christopher Plummer era um perfeito cavalheiro e um super profissional. Ele chegou, filmou comigo apenas um dia e meio e então pegou o avião de volta para casa! Assim era ele, um ator muito rápido, mas também muito bom. Ele é um excelente ator! Por isso, fiquei muito feliz ao reencontrá-lo algum tempo depois, no set de Nosferatu em Veneza.

David Hasselhoff era outro profissional perfeito. Foi ótimo trabalhar com ele. Eu o escolhi pessoalmente. Os produtores me mandaram fitas mostrando novelas americanas para que eu pudesse ver e escolher alguns jovens atores dos Estados Unidos. Entre eles, estava David. Eu disse ao produtor que tinha achado que ele era o melhor, e o produtor aceitou minha escolha e resolveu contratá-lo.

Joe Spinell era outro homem muito divertido. Ele era realmente um encanto, ficava sempre contando piadas para todos. E era muito prestativo, quando não estava atuando, ele oferecia ajuda para passar as falas com os outros atores. Spinell interpretou seu papel da forma que eu queria, com muito humor e auto-paródia.

Quanto a Marjoe Gortner, bem, no começo eu não estava muito feliz em relação a ele. Isso porque Starcrash foi feito graças ao financiamento da Sam Arkoff´s American International Pictures, e Marjoe era um grande amigo de Sam, então quando ele ouviu falar daquele novo filme de ficção científica que estava sendo feito em Roma, insistiu para que Sam o colocasse nele. E Sam concordou, porque Marjoe tinha acabado de estrelar o filme Food of the Gods (Nota: A Fúria das Feras Atômicas, de Bert I. Gordon), que fez um monte de dinheiro para Arkoff. Você sabe como são essas coisas, não é? Então Marjoe pegou o primeiro vôo para Roma e marcamos um encontro para discutir que papel ele teria no filme. Foi aí que nós colidimos.

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Veja bem, o meu roteiro tinha uma ideia principal: a heroína Stella Star, interpretada por Caroline Munro, era a única personagem humana na primeira metade do filme, assim sua beleza seria muito mais percebida. Na verdade, minha ideia era fazer uma versão “ficção científica” da história dos três mosqueteiros, com a fantástica Stella Star no meio e ao seu lado o robô Elle e o alienígena Akton. Sim, eu disse alienígena, esta era a minha ideia! No meu roteiro, Akton era um humanoide, uma criatura muito similar ao monstro do filme This Island Earth (Nota: filme de 1955, dirigido por Joseph M. Newman), que fosse feio, porém bonzinho e muito inteligente, além de ter vários poderes mentais. Como queriam que Marjoe fizesse o filme, pensei que ele poderia interpretar o Alienígena. Mas Marjoe ouviu minha ideia e simplesmente disse “Não!“, ele não iria, de forma alguma, cobrir o rosto com maquiagem, e disse também que já tinha falado com Arkoff e Arkoff havia autorizado ele a fazer conforme queria.

Então eu fui falar com meu produtor e ele disse: “Luigi, Arkoff é nosso distribuidor, ele é muito importante para nós. Para nós e para o seu filme. Então, por favor, encontre uma solução, mas não brigue com o Marjoe Gortner!“. No final, tive que desistir da minha ideia original, e Gortner interpretou Akton como um ser humano normal. Acho até que ele fez seu papel muito bem, mesmo que eu continue lamentando que a história não tenha sido como eu havia escrito originalmente, sendo Stella Star a única humana entre robôs, alienígenas e outras criaturas, onde sua beleza poderia se destacar muito mais!

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Quando Starcrash foi feito, era uma importante produção americana, a primeira iniciada depois do sucesso de Star Wars. No começo da produção, inclusive, o compositor Ennio Morricone foi contratado para fazer a trilha sonora de Starcrash. Entretanto, nós tivemos um confronto de ideias e Morricone recusou-se a fazer a música do filme, então o produtor chamou John Barry. Ele não aceitou imediatamente, disse que queria ver o filme antes de dar sua resposta. Barry veio até Roma e eu o encontrei no laboratório de gravação, onde estávamos editando o filme. Mostrei a ele uma versão ainda não-acabada do filme e, durante as cenas, explicava para ele como imaginava que devia ser a trilha. Quando a exibição terminou, Barry me confessou que tinha gostado muito do filme, que tinha achado divertido. E foi assim que ele aceitou compor a trilha sonora de Starcrash.

Boca do Inferno: O figurino sexy usado por Stella Star, a heroína interpretada por Caroline Munro, lembra muito a Barbarella interpreta por Jane Fonda no filme de Roger Vadim. Você se inspirou em Barbarella?

Cozzi: Sim, tem influência da Barbarella, mas também me inspirei em capas de revistas de ficção científica dos anos 50, capas de romances, porque na Itália, nessa época, por volta de 1958, 1959, havia uma coleção que se chamava Astronauts in Bikini (risos), que eram uns romancezinhos estúpidos, mas com capas belíssimas. Eram as chamadas “pulp fictions“. Então, para fazer o figurino de Caroline, eu me baseei nas capas destes livros. Essas ilustrações são anteriores a Barbarella, são de 58, e a Barbarella é dos anos 60.

Boca do Inferno: Que outras influência você teve, além de Star Wars, é claro?

Cozzi: Todos os filmes desse gênero na época, como Forbidden Planet, War of the Worlds (Nota: o clássico A Guerra dos Mundos)… Mas sobretudo os filmes com efeitos em stop-motion feitos por Ray Harryhausen, tipo Sinbad. Para mim, Starcrash é uma versão de Sinbad, no espaço, com uma garota. (risos)

Boca do Inferno: Recentemente, você sabe, George Lucas pegou seus velhos filmes da série Star Wars e adicionou um monte de efeitos especiais novos feitos por computador, tirando aquele estilo “anos 70“. E os novos filmes da série são praticamente feitos no computador. Se você tivesse a chance, e a tecnologia, mexeria também em Starcrash, adicionando novos efeitos?

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Cozzi: Não, mas eu faria um novo filme do gênero nessa linha. Para mim, Star Wars é um filme tecnológico, enquanto Starcrash é um filme de fantasia, é diferente, feito propositalmente desse modo mais fantasioso. George Lucas fez uma ficção científica, enquanto eu fiz algo menos realista, mais voltado para o lado da fábula, dos contos-de-fadas. Sem dúvida, os efeitos de computador são outra coisa, hoje os meios são diversos. Mas os filmes modernos, exceto alguns poucos, não me atraem muito. Eles têm muitos efeitos de computador, não há mais personalidade. Há algum tempo atrás, os filmes eram menos perfeitos, mas havia mais personalidade, tanto em efeitos especiais quanto no âmbito pessoal da produção.

Boca do Inferno: E você gostou dos novos Star Wars?

Cozzi: Não. (risos) Prefiro os antigos.

Boca do Inferno: Você nunca pensou em fazer uma outra aventura com a personagem Stella Star, talvez um Starcrash 2?

Cozzi: Quando Starcrash foi lançado nos Estados Unidos, ele rendeu mais de 16 milhões de dólares, foi um grande sucesso para a produtora New World, de Roger Corman. E imediatamente depois disso, Judd Hamilton, o marido de Caroline Munro, me pediu para escrever um outro filme de ficção científica. Na época eu estava acabando de escrever uma aventura espacial chamada Star Riders, e entreguei este novo roteiro para Judd. Após alguns meses, ele me telefonou e me convidou para participar do Cannes Film Market, que acontece durante o Festival de Cannes, dizendo que queria fazer um negócio relativo a Star Riders.

Fui até lá e me encontrei com Menahen Golan, o presidente da Cannon Pictures, que tinha feito um acordo com Judd para produzir Star Riders. No começo, fiquei muito contente, mas depois descobri que Judd e seu amigo David Winters tinham reescrito meu roteiro de Star Riders e colocado nele a personagem Stella Star, que não estava na versão original. Eu fiquei muito triste com isso, porque eles não pediram minha permissão para fazer a mudança, e simplesmente recusei me envolver no projeto. Golan ficou decepcionado com minha recusa, enquanto Judd e Winters ficaram nervosos. Então eu expliquei a todos eles que Star Riders não foi escrito para ser uma nova aventura de Stella Star, e que se eles queriam um novo filme de Stella Star, eu poderia facilmente escrever um outro roteiro, um novo roteiro, mas antes de tudo eu precisaria negociar com Wachsberger, o produtor de Starcrash, porque ele havia registrado o nome Stella Star nos Estados Unidos e era uma personagem criada por ele e por mim. Na verdade, Wachsberger não tinha nada a ver com a personagem, foi uma criação totalmente minha, mas ele registrou o nome como se tivesse colaborado na criação de Stella Star, então aquilo virou um um problema: para fazer um novo filme de Stella Star, todos os interessados deveriam ter a permissão de duas pessoas, a minha e a de Wachsberger!

Como você pode ver, a situação toda estava uma bagunça. No fim, a Cannon ficou furiosa com Hamilton e Winters e colocou a culpa toda neles. Comigo foi diferente: Golan gostou do meu roteiro de Star Riders sem Stella Star e decidiu que iria fazer o filme de qualquer jeito. Nós trabalhamos um tempo na pré-produção, mas o resultado é que o filme ficou muito, muito caro. A história se passaria em um planeta aquático de uma galáxia distante, e a maioria do filme se passaria sobre a água ou debaixo dela (Nota: muito antes de Waterworld!), o que seria muito complicado e caro para filmar. Por diversos meses, eu tive encontros com Golan tentando descobrir uma maneira mais barata de fazer o filme, mas não encontramos. Então no final Golan me disse: “OK, vamos esquecer Star Riders, ele não pode ser feito com um orçamento reduzido. Mas eu ainda quero que você me faça um filme de ficção científica… Então, vamos fazer Space Vampires!“. A Cannon me contratou para fazer um roteiro baseado no livro Space Vampires, de Colin Wilson, e o trato era que se o roteiro fosse aprovado, eu também iria dirigir o filme. No fim, nem Space Vampires iria sair do papel.

Em todo caso, voltando a Star Riders, era um roteiro muito bom e original, muito caro, mas também extremamente espetacular, uma versão futurística da história bíblica de Moisés, que se passaria em um futuro distante, no planeta aquático. Na verdade, todo mundo gostou desde roteiro, não apenas Golan. A produtora de Sergio Leone pensou em financiá-lo, depois Mario Bava gostou do roteiro e tentou transformá-lo em filme, mas não conseguiu pela mesma razão: ele não poderia ser feito com pouco dinheiro! E no fim, o roteiro continua nunca filmado. Então um dia eu falei com A. E. Van Vogt, o escritor que me ajudou no roteiro, e pedi: “O que você acha de transformarmos a história em livro?“. Alguns anos depois, conseguimos acabar o livro e ele foi publicado na Itália como “um romance de A. E. Van Vogt e Lewis Coates“.

E não foi a única vez. Eu sempre achei uma pena escrever um bom roteiro e ter que deixá-lo perdido para sempre porque ele não foi filmado. Então eu peguei cinco ou seis de meus melhores roteiros nunca filmados e publiquei como livros na Itália, assim como novelizações dos roteiros de Starcrash e Alien Contamination, meu filme posterior, feito em 1980.

Boca do Inferno: Acho que Alien Contamination é um dos seus melhores filmes. Qual a história por trás da produção?

Cozzi filma numa plantação de bananas na Colômbia
Cozzi filma numa plantação de bananas na Colômbia

Cozzi: Contamination foi vendido como um filme sangrento na tradição do Zombi 2, de Fulci, mas eu estava mais interessado em fazer uma homenagem aos clássicos filmes de ficção científica americanos dos anos 50. Este filme foi feito pelo produtor Ugo Valenti, que tinha trabalhado com Mario Bava em Shock. Naquela época, Valenti vivia entre Santo Domingo (na República Dominicana) e Nova York, então ele ficou sabendo que meu Starcrash tinha sido um sucesso de bilheteria em todo o mundo, inclusive nos Estados Unidos, e queria produzir outro filme de ficção científica feito por mim.

Eu estava em Santo Domingo, trabalhando com Joe D’Amato, e fui convidado a continuar por lá, porque Valenti queria que eu visitasse alguns lugares, algumas possíveis locações em Santo Domingo para depois fazer um filme de ficção científica. Fiquei um mês visitando locais e pensando numa história ao estilo Alien, O Oitavo Passageiro, de Ridley Scott, que estava estreando nos cinemas. Eu já tinha visto, gostei e escrevi o roteiro de Alien Contamination, mas depois o produtor não fechou acordo em Santo Domingo e o filme foi feito na Colômbia, nas cidades de Baranquilla e Cartagena.

Primeiro, Valenti encontrou um sócio, mas ele não tinha dinheiro suficiente para o projeto. Então, Valenti precisou de um sócio na Itália para produzir esse filme de ficção científica, que foi escrito por mim como um tributo aos filmes clássicos dos anos 50, que eu adorava. Mas na Itália nenhum produtor estava interessado em um filme de ficção científica. Então, depois de um certo tempo, Valenti teve um encontro com um velho amigo seu, Claudio Mancini (Nota: produtor-executivo dos filmes de Sergio Leone).

Mancini soube sobre a grande bilheteria do filme Zombi 2, então aceitou a proposta de Valenti, mas queria que eu mudasse meu filme para uma espécie de “Son of Zombi 2” (O Filho de Zombi 2). Foi por isso que ele contratou Ian McCulloch (que esteve em Zombi 2) como um dos heróis, e foi por isso que Mancini recusou minha ideia de ter Caroline Munro para o papel principal. Ela ficaria perfeita no papel, era minha opinião e a de Valenti também. Mas Mancini disse que uma cientista jamais poderia ser interpretada por uma atriz tão bonita como Caroline Munro, e me obrigou a trabalhar com outra atriz, uma canadense (Louise Marleau). Ela era uma boa atriz, mas eu tinha em mente uma bela mulher para o papel.

E este foi apenas o começo de minha longa briga com Mancini. Como ele odiava ficção científica e não queria que Contamination fosse um verdadeiro filme de ficção científica, e eu queria justamente isso, nós dois brigamos o tempo todo durante as filmagens e até depois, durante a edição. No final eu ganhei e Contamination virou um filme de ficção científica, mas Mancini queria transformá-lo em uma espécie de filme do James Bond misturado com Zombi 2, sem nada de ficção científica.

O nome Contamination foi uma ideia de Mancini. Meu roteiro se chamava Aliens Arrives on the Earth (Os Alienígenas Chegam à Terra). Mas quando Mancini envolveu-se na produção, ele disse que não gostava do meu título e que ia jogá-lo no lixo. Ele já tinha um projeto chamado Contamination, era um roteiro escrito por Dardano Sacchetti que copiava o filme The China Syndrome (Nota: Síndrome da China, filme feito por James Bridges em 1979, sobre os perigos do vazamento de uma usina nuclear). Como Mancini não encontrou um distribuidor para este projeto, ele resolveu desistir dele, mas aproveitar o título no meu filme. Então, começou a chamar meu roteiro de Contamination, um título que eu não gostava muito. Eu prefiro a versão americana, Alien Contamination, que fica mais próximo da minha ideia original. Apenas Contamination não diz nada! Então nós começamos a filmar e meu filme estava batizado de Contamination. Nunca tivemos problemas com o pessoal da Fox, existe uma história que o filme originalmente iria se chamar Alien 2 e tivemos problemas legais, mas não houve nada disso. Meu filme apenas se chamava Aliens Arrives on the Earth no roteiro, mas quando a produção começou, o título mudou para Contamination, nunca para Alien 2.

E tem a questão do monstro. Eu queria fazê-lo com miniaturas ou então em forma de boneco em stop-motion, enquanto o produtor Mancini novamente ficou contra as minhas ideias. Na verdade, ele era contra qualquer tipo de efeito especial, ele acreditava que não era possível fazê-los na Itália, o que eu sabia que estava longe de ser verdadeiro, e já tinha mostrado que era possível em Starcrash. Em todo caso, Mancini, como era o produtor, decidiu o que seria feito: ele conhecia um pessoal em Milão que trabalhava criando monstros mecânicos para programas de TV. Logo, eu percebi o que eles iam fazer e odiei, mas Mancini não dava ouvidos às minhas objeções!

Ele simplesmente contratou esse pessoal e disse para eles construírem um monstro em tamanho grande que seria operado mecanicamente. Mas quando eles chegaram no set de filmagens com aquele enorme monstro mecânico… bem, ele não funcionava de jeito nenhum! O equipamento estava quebrado, a parte mecânica não funcionava, até a luz no olho do monstro estava muito fraca, e lá estava eu tentando resolver estes problemas enquanto filmava. Então, eu decidi usar uma iluminação bem fraca nas cenas com o monstro, somada a uma edição bem rápida. A sequência com o monstro deve ter mais de 100 cortes diferentes! E coloquei mais luz no olho do monstro por meio de efeitos óticos. O resultado final não ficou tão ruim, na minha opinião… Pelo menos, ficou bem melhor do que aquele monstro mecânico parecia no set!

Boca do Inferno: Em algumas entrevistas, você diz que não gosta muito de Alien Contamination

Cozzi: Não é que eu não gosto, é que prefiro mais o gênero de fantasia espacial. Alien Contamination não é assim, é uma história de ficção científica que se passa na Terra. Mas eu prefiro os filmes com naves espaciais, com heroínas, com garotas.

Boca do Inferno: Luigi, você diz que não gosta muito de filmes sanguinolentos, mas Alien Contamination é bem violento, com tripas explodindo e tudo mais…

Cozzi: Mas é uma violência fantasiosa, envolvendo monstros, extraterrestres… Fantasia, enfim. Eu prefiro a violência fantasiosa, não real.

Boca do Inferno: Então você não gosta, por exemplo, dos filmes de Lucio Fulci?

Cozzi: Fulci era um ótimo diretor, mas eu não gosto muito do seu tipo de filmes, não. Eu não faria filmes como os dele, são muito sangrentos. Gosto mais dos filmes de horror do tipo clássico, como as produções da Hammer, com Peter Cushing, Christopher Lee, aquelas produções fantásticas.

Boca do Inferno: Isso quer dizer que você odeia Cannibal Holocaust? (risos)

Cozzi: É um belo filme, mas não é dos meus preferidos. Não gosto de ver todos aqueles animais sendo sacrificados, não suporto isso.

Boca do Inferno: Na época de Cannibal Holocaust, muitos diretores italianos, tipo Umberto Lenzi e Ruggero Deodato, vieram para a América do Sul explorar os filmes sobre canibalismo. Você nunca se interessou por este filão?

Cozzi: Não gosto de canibalismo! (risos) Eu gosto é de ficção científica. Canibalismo não, eu gosto da violência que não é verdadeira.

Boca do Inferno: Prefere o cinema de Dario Argento?

Cozzi: Com certeza. Os filmes de Argento são diferentes.

Boca do Inferno: Voltando ao Alien Contamination: Você sabia que o diretor americano Quentin Tarantino gosta muito do filme e considera sua melhor obra?

Cozzi: Eu também gosto muito do Tarantino! (risos) Ele é muito bom, e fiquei contente ao saber que ele havia me citado em uma entrevista. Óbvio que fiquei contente, porque ele é um grande diretor, gosto muito do seu Pulp Fiction, é o melhor filme dele. E sobre Alien Contamination, acho que uma qualidade do filme é que ele continua moderno, me parece que ainda funciona muito bem. Há tanta gente que viu o filme na época do seu lançamento, vê agora e ainda gosta. Não é um filme muito envelhecido, e olha que já se passaram 24 anos!

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Boca do Inferno: Depois de Alien Contamination, você ficou um tempo sem filmar até que surgiu a oportunidade de fazer Hércules para a Cannon Pictures. Como foi a produção? Diz a lenda que eles haviam contratado Bruno Mattei para dirigir, mas ao perceberem o “trabalho” do diretor, contrataram você para realizar o filme…

Cozzi: Antes de tudo, deixe eu explicar uma coisa: quando Starcrash foi lançado nos cinemas italianos, em 1979, o filme teve uma enorme bilheteria, mas nenhum produtor ou distribuidor levou isso em consideração. Eles simplesmente diziam: “É um filme americano…“. E quando eu me encontrava com eles e dizia que era um filme feito totalmente na Itália, apenas com dinheiro vindo dos Estados Unidos, eles nem se importavam. Os produtores diziam: “Quem se importa? Nós não podemos entrar no mercado americano…“.

Então, aqui em Roma o excelente desempenho financeiro de Starcrash não me ajudou em nada. E quando eu finalmente acabei as filmagens de Alien Contamination, ficou ainda pior, porque o filme recebeu ótimas críticas aqui na Itália, mas foi lançado por uma companhia fracassada, falida. Ele estreou nos cinemas em agosto de 1980, quando todas as cidades estavam desertas por causa do calor e ninguém ia aos cinemas porque nenhum cinema, nem mesmo os melhores, tinha ar condicionado, como hoje. Por todos esses motivos, Alien Contamination teve uma bilheteria fraca. E eu, como diretor, aqui na Itália não tinha ajuda financeira nenhuma. Foi por isso que, depois de Contamination, eu tive que procurar uma nova forma de me sustentar financeiramente. Foi por causa disso que, em 1981, eu virei um proprietário de cinemas.

E tem aquela história sobre Starcrash, que eu já comentei antes: em maio de 1979, eu estava em Cannes, me encontrei com o proprietário da Cannon, Menahen Golan, e ele propôs um ótimo contrato, onde eu ganharia 60 mil dólares para fazer uma seqüência das aventuras de Stella Star, um Starcrash 2. Quando a sequência não pôde ser feita, porque o produtor de Starcrash, Wachsberger, me pediu muito dinheiro para vender sua fatia de 50% sobre os direitos da personagem Stella Star, Golan resolveu transferir meu contrato para dirigir um outro roteiro original meu, o Star Riders. Nós até nos encontramos algumas vezes em 1979 e 1980 tentando fazer este filme, mas o orçamento era muito alto, como eu disse antes. Então eu fiz Alien Contamination e Golan viu e gostou, até comprou-o para distribuição nos Estados Unidos.

Novamente, nós nos encontramos várias vezes e ele ainda queria que eu dirigisse um filme para a Cannon, considerando que eu ainda tinha um contrato pendente com a produtora. Então ele me pagou para escrever um roteiro sobre o romance de Colin Wilson intitulado Space Vampires (Vampiros Espaciais), um filme que seria feito vários anos depois na Inglaterra, com direção de Tobe Hooper (Nota: chamado Life Force/Força Sinistra), e com um roteiro totalmente diferente daquele que eu escrevi, embora os dois roteiros fossem parecidos. E quando Golan viu meu roteiro sobre Space Vampires pronto, ele decidiu não ir adiante com o projeto (Nota: o filme só foi feito em 1985, com produção da Cannon, direção de Hooper e roteiro reescrito por Dan O´Bannon).

Em 1982, enquanto eu esperava por algum projeto para o cinema, eu aluguei um cinema em Roma chamado Clodio e comecei minha carreira de proprietário de cinema. Eu controlava todo o negócio e até decidia os filmes que seriam exibidos. Eu gostava daquilo e os negócios iam bem. Obviamente, eu exibia vários filmes de ficção científica, sempre com um grande público. Então decidi criar e organizar um festival no meu cinema. Assim inventei o chamado “FantaFestival“, um encontro anual onde exibíamos filmes de horror, fantasia e ficção científica, novos e antigos. Ele continua existindo até hoje, embora eu não esteja mais envolvido. Mas quando realizei a primeira edição, me diverti muito, exibindo pelo menos sete filmes por dia, começando cedo à tarde. Consegui convencer até o ator Vincent Price a apresentar as atrações do festival. Ele me contou histórias fantásticas sobre seus filmes, passamos ótimos dias juntos.

Quando o festival encerrou e Vincent Price foi embora, eu ouvi falar que Golan estava iniciando um unidade da Cannon para produção de filmes na Itália. Na verdade, Golan tinha feito um acordo com outro empresário israelense, chamado Alexander Hacohen, para produzirem filmes bem baratos aqui na Itália. Hacohen imediatamente começou com um filme erótico, porque adorava ver-se cercado de jovens atrizes iniciantes, ele era um gordo de meia-idade. E enquanto Hacohen começava esse filme, Golan voltava para a América e assinava contrato com Lou Ferrigno (Nota: que na época interpretava o Incrível Hulk no popular seriado de TV). O ator aceitou trabalhar para a Cannon apenas se o estúdio fizesse um filme com um novo tipo de herói mitológico, porque Ferrigno era um grande fã de Steve Reeves, o primeiro intérprete de Hércules no cinema.

Cozzi (3)

Então Golan decidiu filmar uma nova versão de Hércules ao mesmo tempo com um outro filme de capa-e-espada, para que pudesse economizar dinheiro usando os mesmos cenários nas duas produções. Hacohen foi avisado para começar a produção destes dois filmes de capa-e-espada, e ele tinha alguns grandes amigos na indústria cinematográfica italiana. Então ele contratou todos eles para participar destes dois projetos, e assinou contrato com outro amigo dele, o conhecido editor/diretor de filmes classe Z Bruno Mattei, para dirigir os dois filmes com Ferrigno.

Mattei e seu colaborador Claudio Fragasso também foram contratados por Hacohen para escrever os dois roteiros. Então escreveram o Hércules e também The Seven Magnificent Gladiators, e resolveram filmar este antes do outro. Como The Seven Magnificent Gladiators era um filme B, uma espécie de “irmão pobre” do outro filme (Hércules), Golan nem se preocupou em ler o roteiro e o filme foi produzido de qualquer jeito, ele apenas deu sinal verde para Hacohen fazer da forma que achasse melhor. Ferrigno chegou à Itália e começou a filmar, enquanto um tradutor trabalhava na transcrição do roteiro de Hércules, escrito por Mattei e Fragasso, do italiano para o inglês.

A essa altura, já estávamos em abril ou maio de 1982. Depois das tradicionais negociações de filmes durante o Festival de Cannes, antes de voltar a Nova York, Golan voou para Roma para encontrar Ferrigno e Hacohen, para ver como estavam as coisas e para ler a versão em inglês do novo roteiro de Hércules. Ele chegou num sábado de manhã e pretendia ir embora no dia seguinte, cedo pela manhã. Enquanto estava por aqui, ele lembrou de nossos encontros e me telefonou, pedindo para que eu o encontrasse em seu hotel, para conversamos sobre o projeto de Space Vampires e meu contrato de 60 mil dólares com a Cannon, que ainda estava pendente. Cheguei lá e encontrei Golan e Hacohen, que estavam juntos, e depois de uma curta conversa eu saí sem nada decidido: me parecia que naquele momento não havia nenhum projeto para que eu assumisse. E assim foi. Voltei ao meu cinema e ao meu trabalho rotineiro de proprietário de cinema. Eu estava em casa, na tarde daquele mesmo dia, quando o telefone tocou. Atendi. Era Golan. Ele pediu se eu poderia encontrá-lo imediatamente, se podia voltar depressa ao seu hotel.

Obviamente, eu fui direto para lá, embora sem entender o que estava acontecendo. De todo jeito, eu esperava que talvez Golan tivesse resolvido, repentinamente, iniciar as filmagens de Space Vampires, ou então me falar sobre o orçamento do velho Star Riders. Mas ele não tinha me chamado por nenhum destes motivos. Não. Eu cheguei em seu quarto de hotel e ele me explicou que durante toda aquela manhã ele esteve lendo a versão em inglês do roteiro de Hércules, de Mattei e Fragasso… E estava furioso! Ele me disse que aquilo era a maior bosta que ele já tinha lido na vida, que era uma imitação idiota e classe Z de algum estúpido filme de capa-e-espada dos anos 50. Disse que quando lesse aquele roteiro, Ferrigno certamente iria se recusar a fazer o filme, que havia um monte de cenas de sexo, um monte de mulheres peladas, uma delas até iria fazer um boquete em Hércules debaixo d’água!

E enquanto me dizia tudo aquilo, Golan ficava olhando para Hacohen e gritava coisas do tipo: “Como você pôde fazer isso comigo? Você não sabia que eu queria uma superprodução ao estilo Superman? Nós não estamos mais nos anos 50!“. Hacohen tentava se defender, dizendo que o roteiro poderia ser mudado, que as garotas peladas e a cena do boquete podiam ser cortadas, mas Golan mandou-o calar a boca dizendo que aquele roteiro não podia ser usado nem como papel higiênico! E disse que não queria ter mais nenhuma relação com as pessoas que escreveram aquele roteiro. Então ele voltou a falar comigo e disse: “Luigi, agora nós temos um grande problema: Ferrigno já está aqui na Itália, filmando seu primeiro filme. Mas em três semanas as filmagens terão encerrado e, segundo nosso contrato, ele deveria começar imediatamente o outro filme, o Hércules. Então nós precisamos, de qualquer jeito, começar a filmar o Hércules em quatro semanas! Se não o fizermos, de acordo com o contrato, simplesmente teremos que pagar ao Ferrigno de qualquer jeito. Isso significa que se a gente atrasar as filmagens de Hércules em uma ou duas semanas, teremos que pagar uma grande soma de dinheiro para o Ferrigno. Nós não podemos de forma alguma atrasar o início das filmagens! Entretanto, não temos roteiro, apenas essa bosta, da qual nada podemos usar ou salvar. É por isso que eu estou lhe oferecendo uma grande oportunidade agora, meu querido Luigi… Eu sei que você é um roteirista bom e rápido. Então me mostre que você pode escrever um novo, moderno e espetacular roteiro de Hércules em três semanas. E se você conseguir fazer isso, eu prometo que não apenas vou lhe pagar pelo roteiro, como vou lhe deixar dirigir o filme também!“.

Ao ouvir isso, Hacohen protestou, dizendo que já havia assinado um contrato com Mattei e que eu não poderia, de forma alguma, dirigir o filme. Mas Golan mandou que ele se calasse imediatamente, gritando algo do tipo: “Você vai pagar a Mattei pelo seu contrato, não eu. Você contratou esse cara para mim e agora você vai pagar pelo seu erro. E está decidido: se o Luigi conseguir escrever um novo roteiro em três semanas, ele vai dirigir o filme também, sim!“. Hacohen então ficou em silêncio, porque Golan estava realmente muito furioso. O dono da Cannon se acalmou um pouco e começou a falar comigo o que ele queria quanto ao roteiro: ele imaginava Hércules como um tipo de super-herói, um tipo de Superman à moda antiga, e me disse ainda que se eu quisesse colocar um monte de efeitos especiais no filme, eles seriam bem-vindos. E então falou: “Isso é tudo, Luigi. Essa é a sua grande oportunidade de começar a trabalhar imediatamente para nós. Você acha que pode fazer isso?“. Obviamente, eu disse que sim, embora ainda estivesse meio confuso, porque nunca tinha trabalhado nem estudado nada sobre a lenda de Hércules. De qualquer jeito, eu disse: “Sim, eu vou tentar fazer“, e Golan respondeu: “Ótimo. Vá para casa e trabalhe em algumas ideias. Eu preciso apenas de uma ou duas páginas com sua idéia para o roteiro, para levar para a América. Você consegue me escrever um resumo e me trazer aqui amanhã de manhã? Se você conseguir, nós assinamos um contrato imediatamente“. Mais uma vez, eu disse que sim e corri de volta para casa tentando visualizar uma ideia que rendesse duas páginas, como eu havia prometido para Golan.

O problema é que eu não era um expert em Hércules, então eu fui atrás de todos os meus livros e encontrei uma edição americana sobre mitologia grega, que havia sido escrita por Isaac Asimov. Olhei o livro e encontrei um curto capítulo dedicado a Hércules. Eu li e achei muito interessante, e você sabe, Asimov é um verdadeiro contador de histórias. Ele contava diversos detalhes sobre a lenda de Hércules, e tinha muita, muita, muita ação. Foi então que eu decidi que uma base perfeita para meu resumo de duas páginas era um filme com efeitos de Ray Harryhausen que eu gostei muito, Clash of the Titans (Nota: Fúria de Titãs, dirigido em 1981 por Desmond Davis, com incríveis efeitos em stop-motion de Ray Harryhausen). Transformei o resumo feito por Asimov em ficção científica e isso foi a minha ideia para o filme Hércules.

No dia seguinte, era uma segunda-feira de manhã, Golan estava se preparando para deixar roma cedo. Então nós nos encontramos às sete e meia, antes de ele ir ao aeroporto. Golan estava no hotel, fazendo seu café-da-manhã, e mostrei minha ideia “Asimoviana” para o roteiro. Como estava comendo, ele pediu para que eu lesse em voz alta enquanto ele acabava seu café. Apesar de eu ser um cara meio envergonhado, fui obrigado a ler meu texto em voz alta enquanto Golan comia. Assim que acabei, olhei direto para ele, esperando por sua opinião e temendo que ele não tivesse gostado da minha ideia. Mas Golan abriu um grande sorriso e falou alto: “Grande! Eu realmente gostei disso! É parecido com o Superman de Christopher Reeve! Exatamente o que eu queria! Muito bom, Luigi, você fez realmente um bom trabalho. Esta é a ideia que eu queria ouvir!“.
Então ele pegou seu talão de cheques e assinou um cheque de 3.500 dólares em meu nome, e no verso ele escreveu: “Este é o pagamento para escrever o roteiro e dirigir o filme Hércules para a Cannon“. Ele me deu o cheque e aquele era o meu contrato, uma frase escrita no verso de um cheque, e foi assim que comecei o projeto. Muito estranho, não?

Ah, obviamente, a partir deste momento, tive vários problemas com Hacohen. Na verdade, ele e sua equipe me odiavam como se eu fosse um intruso no reino deles. E todos os dias eles tentavam me sabotar. Golan percebeu isso e decidiu que Hacohen não poderia ser meu produtor, então chamou John Thompson, que tinha trabalhado para a Cannon na Espanha, trouxe-o para Roma e contratou-o para trabalhar comigo como produtor. E foi assim que começamos as filmagens, porque Golan gostou do meu roteiro e deu luz verde para o início do projeto. Ferrigno também adorou o roteiro e até aceitou um pequeno atraso no início das filmagens sem cobrar nenhum dinheiro extra por isso, dando-me tempo para preparar meu filme. Isso porque obviamente o roteiro que eu tinha escrito era um pouco complexo e precisava de cenários. Então, entre junho e julho de 1982, nós começamos a filmar. E foi essa a longa e complicada história sobre como me envolvi no projeto.

Eu queria que Caroline Munro estivesse no elenco, ela ficaria fantástica como a feiticeira Circe (Nota: acabou sendo interpretada por Mirella D’Angelo). Mas quando falei sobre isso com Golan, ele me disse para esquecer, porque o marido de Caroline, Judd Hamilton, aquele que eu coloquei dentro da roupa de robô em Starcrash, lembra?, estava criando muitos problemas para eles e Golan não queria ele por perto, e se Caroline participasse do filme, teria que trazer junto seu marido. Eu nem pude insistir, e assim, depois de Alien Contamination, a pobre Caroline ficou de fora do meu Hércules também… E eu ainda sinto por isso hoje, eu acho que ela ficaria maravilhosa em Hércules, tenho certeza disso.

Depois eu fiquei sabendo que além do problema legal com a personagem Stella Star, Golan não queria contratar Caroline porque quando ele quis contratá-la para um outro filme, chamado Wicked Lady, seu marido, agindo como se fosse seu agente, criou vários problemas, então Golan preferiu contratar uma outra atriz. E a Cannon ainda estava ressentida por causa dessa confusão, e por isso não queriam Caroline em Hércules. (Nota: o sucesso do Hércules de Cozzi/Cannon, lançado em 1983, originou uma continuação em 1985, chamada Le Avventure di Ercole 2, novamente com roteiro e direção de Cozzi e estrelada por Lou Ferrigno, com produção da Cannon Pictures)

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Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga "Entrei em Pânico...", entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

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