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O Garoto do Colorado
Original:The Colorado Kid
Ano:2025•País:EUA
Autor:Stephen King•Editora: Suma

Stephen King já é uma figurinha carimbada aqui no Boca do Inferno. Considerado por muitos como o mestre do terror, suspense e mistério dos tempos atuais, há milhares de resenhas de suas obras e de produções baseadas em seus livros por aqui, sendo assim, até mesmo o infernauta que pouco conhece o autor sabe mais ou menos como é seu estilo narrativo através dos textos do site. Descrições detalhadas, mistérios crescentes, tensão, reviravoltas, soluções e finais muitas vezes duvidosos, mas, em geral, são histórias onde o ponto central da trama é fechado, especialmente quando se trata de seus romances mais investigativos. Esse não é o caso de O Garoto do Colorado, publicado no Brasil pela editora Suma. Se você espera uma história que acabe com um “caso solucionado e encerrado”, definitivamente não é o que vai encontrar por aqui.

Vince Teague e Dave Bowie são dois jornalistas veteranos do Weekly Islander, jornal local de uma modesta ilha do Maine. Stephanie, uma jovem de apenas 22 anos, é mentorada por eles e, após um almoço de negócios, está prestes a ter uma aula sobre mistérios estranhos e o mundo do jornalismo. Os experientes Vince e Dave já viram muita coisa nesses anos de inúmeras publicações jornalísticas, mas existe um caso que eles nunca superaram, e a história começa a se desenrolar a partir dessas lembranças. Em 1980, um corpo foi encontrado na praia da pequena ilha de Moose-Lookit por dois adolescentes que corriam pelo píer. O homem não possuía identificação alguma, estava sem casaco em uma época particularmente fria na região e, aparentemente, comia algo. Não demorou muito para que a polícia, o legista e os repórteres chegassem ao local e constatassem que a morte foi acidental, causada por um infeliz engasgo. Sem grandes mistérios aí, não é mesmo? Acidentes acontecem. Mas é claro que, em uma cidade pequena, um forasteiro ser encontrado morto é um assunto digno de muitas conjecturas. Por que sua carteira estava desaparecida? Se foi uma morte acidental, ele teria documentos nos bolsos. Por que ele estava sem casaco em um frio daqueles? A autópsia concluiu que a morte havia acontecido há muitas horas, por que alguém estaria de madrugada na praia sem casaco no frio? Quem era esse misterioso homem cujo corpo ninguém veio reconhecer? Muitas perguntas começam a surgir em um caso aparentemente simples, levando o leitor a crer que definitivamente não foi um engasgo do acaso a causa da morte.

A ilha de Moose-Lookit é cuidadosamente descrita pelo autor, de tal forma que imaginamos perfeitamente as lanchonetes locais, a vista, a balsa e até mesmo a sensação da brisa do mar no rosto. Entendemos como é a dinâmica do lugar por meio de minúcias muito bem colocadas e pelo bom humor e carisma dos bem vividos jornalistas protagonistas. Stephanie, com toda sua curiosidade jovial, faz todas as perguntas que temos durante a leitura. Quanto mais detalhes aparecerem, mais dúvidas surgem, nos deixando tão impacientes quanto a inteligente estagiária. A pausa para um refrigerante pedida por Dave Bowie faz com que tenhamos a mesma reação incrédula de Stephanie, sedenta pela continuidade da história e seu desfecho.

Subvertendo as expectativas de um livro de suspense/mistério, onde as pontas soltas se juntam, o culpado é revelado de forma mirabolante, há um motivo claro, por mais bobo que seja, King decide seguir por outro caminho. Um caminho mais realista, mais simples e, por que não, mais frustrante para muitos: nem tudo na vida tem uma explicação. Especialmente no jornalismo investigativo, no mundo real, nem tudo tem um motivo claro, um propósito, uma resolução. Quantos casos sem solução existem no mundo? Às vezes, encontram um desfecho 10, 20, 30 anos depois, mas nem sempre. Ainda não chegou a vez do mistério do Garoto do Colorado ser solucionado.

O livro, curto e direto, é uma pequena aula sobre jornalismo, fatos e invenções. O ser humano, sedento por resoluções que fazem sentido, tira suas próprias conclusões quando algo parece sem solução. O estranho era na verdade um espião. Ele estava tendo um caso e a mulher descobriu e fez com que a morte parecesse acidental. Desovaram o corpo ali. Pensamos qualquer coisa para que incertezas virem soluções. O desconhecido é assustador demais para a mente lidar com isso de forma pacífica. As invenções, que partem de um desejo de que tudo tem uma explicação – até mesmo explicações absurdas e sobrenaturais são mais bem aceitas do que a ausência delas – acabam virando verdades. Mas não são. Temos os fatos, e temos as histórias que cada um decide acreditar para ficar em paz, e é essa a grande aula que Dave e Vince dão para Stephanie – e também para nós. Inclusive, são esses três personagens carismáticos e sua cumplicidade que fazem a narrativa valer a pena. É uma conversa da qual fazemos e nos sentimos parte.

No posfácio, o autor tem plena noção de que muitos vão ficar frustrados e/ou desconcertados com O Garoto do Colorado e considerá-lo seu pior livro, enquanto outros vão achá-lo brilhante pela forma que foi apresentado. A elucidação de King acerca do livro é fundamental para entendermos sua proposta, então a recomendação é não pular o posfácio. Talvez você até odeie o livro, mas mude, mesmo que seja levemente, de opinião ao lê-lo.

Não temos nada de sobrenatural e eventos mirabolantes que vão te deixar de queixo caído, apenas fatos misteriosos sendo apresentados de forma coesa e uma aula sobre expectativas quebradas e como as coisas, muitas vezes, são. Um bom suspense é aquele que fica sem resolução, ou aquele que é perfeitamente fechado, mesmo com conclusões surpreendentes demais para serem críveis? King já nos entregou o segundo caso muitas vezes, agora foi a vez de fazer um experimento e descobrir se os seus leitores conseguem lidar com narrativas verdadeiramente sem explicação.

Diferente do que estamos acostumados por parte do autor, O Garoto do Colorado pode ser visto tanto como algo ousado e filosófico que promove certas reflexões dignas de nota, quanto como uma colossal perda de tempo. De qualquer modo, se sua curiosidade falar mais alto, são apenas 144 páginas que podem valer a pena.

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