
![]() O Sobrevivente
Original:The Running Man
Ano:2025•País:EUA, UK Direção:Edgar Wright Roteiro:Edgar Wright, Michael Bacall Produção:Simon Kinberg, Nira Park, Edgar Wright Elenco:Glen Powell, Alyssa Benn, Sienna Benn, David Zayas, Greg Townley, Karl Glusman, Joey Ansah, James Frecheville, Alex Hoeffler, Lee Pace, Sean Hayes, Julia Cumming, Chris Rogers, Jayme Lawson, Tom Crowhurst, Reomy D Mpeho, Michael Mears, Robert Eades, Simon Haines |
A primeira adaptação do livro O Concorrente foi absolutamente rechaçada pelo autor. Stephen King lançou a obra em 1982, sob o pseudônimo de Richard Bachman, e não gostou dos excessos criativos do longa de Paul Michael Glaser e nem do protagonismo de Arnold Schwarzenegger como o Capitão Ben Richards, incriminado injustamente e sendo obrigado a participar de um reality show de sobrevivência, basicamente uma execução pública de seus condenados. É claro que muitas das mensagens do material original foram deixadas de lado, mas o filme manteve o sistema opressor, a manipulação da mídia e ainda se mostrou bem humorado e divertido, inspirando até mesmo a produção de um jogo para os PCs antigos.
Fã do livro e da primeira versão, o diretor de Noite Passada em Soho, Edgar Wright, em 2017 — curiosamente, o ano em que se passa a obra — interessou-se em dar um novo trato ao material original, tendo o aval de Schwarzenegger e a boa vontade de Stephen King. No entanto, somente em 2021, a Paramount deu sinal verde para a realização, após a aprovação do roteiro escrito por Michael Bacall, que já havia trabalhado com Wright em Scott Pilgrim Contra o Mundo. O anunciado Chris Evans passou o protagonismo para Glen Powell (Twisters), e as filmagens aconteceram entre novembro de 2024 e março do ano passado, já planejando um lançamento no inverno americano.
O Sobrevivente chegou aos cinemas brasileiros em 20 de novembro, conquistando pouco mais da metade de seu orçamento na bilheteria mundial. Apesar das críticas positivas, incluindo a do próprio King, o longa teve que disputar a atenção do público com continuações de sucesso: Truque de Mestre: O 3° Ato, Wicked: Parte II, Zootopia 2 e Five Nights at Freddy´s 2. Já até saiu de cartaz com a chegada de Avatar 3, e talvez consiga arrecadar um pouco mais com o lançamento nas plataformas de streaming. É o segundo produto sci-fi distópico de Stephen King lançado esse ano, e um dos longas mais ambiciosos inspirados em obra do Mestre do Horror Contemporâneo.
Apresenta a mesma América do Norte de A Longa Marcha: uma nação que ampliou suas diferenças sociais e se entretém em reality shows sanguinários que resgatam os combates no Coliseu ou colocam seus participantes como hamsters em roda giratórias. Nesse cenário de violência, a governança parte de uma mídia autoritária chamada de Rede que dispõe uma série de programas sensacionalistas com a marca GratuiTV. Um dos mais populares e competitivos se intitula “The Running Man“, propondo aos jogadores sobreviver no país por um mês com um salário mínimo para alcançar o inatingível prêmio de um bilhão de dólares, em notas marcadas com o rosto de Schwarzenegger, tendo que evitar encontros com os Caçadores e mantendo consciência de que os cidadãos que os denunciarem também serão recompensados com valores. E não basta partir para as montanhas ou se esconder em cavernas pois cada competidor precisa fazer diários registros em vídeos para comprovar sua sobrevida, sem que seja notado.
O sempre irritado Ben Richards (Powell) mora na região mais pobre de Co-Op City. Está desempregado por seu ativismo sindical e não tem dinheiro suficiente para comprar remédios para sua bebê doente Cathy, sendo obrigado a se oferecer para participar de algum dos programas populares, exceto o arriscado The Running Man, caso seja aprovado nos testes. Sua postura agressiva atrai o interesse do produtor executivo Dan Killian (Josh Brolin), que o vê com potencial para atrair a audiência, prometendo deixar sua esposa Sheila (Jayme Lawson) e a filha em segurança, com um adiantamento para a compra do medicamento necessário.
Ben conhece outros dois competidores, Tim Jansky (Martin Herlihy) e Jenni Laughlin (Katy O’Brian), e é lançado nas ruas, tendo uma vantagem de 12 horas antes que as caçadas comecem. Depois de conseguir uma identidade falsa com o amigo Molie (William H. Macy), ele se hospeda em um hotel em Nova York até que situações e pessoas acabam denunciando seu paradeiro, obrigando-o a “correr” para outros locais e contar com o apoio de populares e também de outros ativistas anti-Rede como Bradley Throckmorton (Daniel Ezra). Ben precisa contar com a sorte em alguns momentos, descer de corda por prédios, explodir um elevador e escapar em carros, além da indicação de Bradley para que ele procure Elton (Elton Perrakis) numa mansão em Derry, no Maine — sem palhaço dançarino à vista —, residindo com a mãe insana (Sandra Dickinson).
A primeira metade de O Sobrevivente é cheia de energia, em um ritmo de quinta marcha, com o protagonista literalmente correndo entre locais em um mundo coordenado pela audiência, com a atuação propositadamente caricata de Colman Domingo como o apresentador Bobby T alternando com cenas da novela “Americano“. A ambientação futurista, sem aqueles exageros de naves cruzando o céu, e as críticas oportunas aos EUA das crenças em fake news e manipulação da massa são aspectos positivos a serem considerados. Ben, como no livro e na primeira adaptação, é vítima dessa mídia que cria heróis e vilões, faz cancelamentos e apedrejamentos virtuais, precisando provar que sua principal intenção não é a destruição do sistema mas retornar para sua família.
Contudo, quando entra em cena a a rica motorista Amelia Williams (Emilia Jones), que obrigatoriamente passa a acompanhar o protagonista quando somente ele ainda permanece na competição, o ritmo descamba para momentos intermináveis no interior de um carro e em um avião. A crítica ao sistema deixa de ser uma metáfora para cuspir no infernauta nas falas moralistas de Ben, nos diálogos com Dan e nos confrontos com os caçadores. Wright tenta carregar alguma emoção pessimista ao mostrar um órgão que não tem como ser derrotado, mas acaba sucumbindo a facilidades de seu próprio enredo. Essa indecisão entre ação e crítica social melodramática não funciona muito bem no último ato, sugerindo praticamente uma troca de canal.
Os méritos do filme original, mesmo com suas liberdades criativas, vinham de uma arena limitada a um local abandonado de Los Angeles, além dos personagens peculiares como o assassino da motosserra Buzzsaw, o da eletricidade chamado Dynamo e até Subzero, um inspirado no hóquei. O próprio protagonista tinha a alcunha de “Açougueiro de Bakersfield“, por ter sido acusado de um massacre, o que lhe dava uma caracterização pública falsa, mas condizente com os ideais da Rede. A versão de Wright, mais próxima do material original, nunca deixa essa sensação claustrofóbica de insegurança, até porque mesmo em um sistema capitalista opressor ainda vão existir os opositores, dispostos a se tornarem aliados do fugitivo.
A nova versão de O Sobrevivente pode ter agradado King pelas poucas mudanças em relação a sua obra e ousadia. Mas ainda prefiro o charme brega oitentista do longa de 1987, como caricatura da sociedade atual, mesmo com a canastrice de Schwarzenegger: um reality show mais divertido e dinâmico do que seu upgrade.





