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Exorcismo no Vaticano
Original:The Vatican Exorcisms
Ano:2013•País:Itália
Direção:Joe Marino
Roteiro:Salvatore Scarico, Mauro Paolucci
Produção:Salvatore Scarico
Elenco:Piero Maggiò, Joe Marino, Anella Vastola

Nem todas as filmagens devem ser encontradas e conferidas. Sabe aqueles vídeos que você um dia gravou numa festa com amigos e familiares, dançando Macarena e vomitando no chão, depois de algumas cervejas, numa das piores vergonhas de sua vida? Essa é a sensação de assistir ao found footage Exorcismo no Vaticano (The Vatican Exorcisms, 2013), uma produção tão ruim que só depois de vê-la que entendi porque deixei passar na época de seu lançamento. Quando se pensa nos formatos “registros encontrados” e “mockumentary” (falsos documentários), já se sabe que as gravações serão feitas pelos atores, o que muitas vezes justifica a câmera tremida, os cortes bruscos e até a qualidade “amadora“. No caso deste filme de Joe Marino, único como diretor — por que isso não me surpreende? —, trata-se de um trabalho vagabundo, nível escolar de ensino médio (ora, A Bruxa de Blair foi feito por estudantes de cinema!), extremamente chato e mal realizado.

Imagino um orçamento de cafezinho na padaria, com pão na chapa. Não há informações sobre os valores investidos — se é que houve investimento, além de um quarto de hotel e viagens de ônibus —, mas sua condição amadora seria capaz de dar calafrios a qualquer especialista em documentários. Basicamente, Joe achou que teria um filme simplesmente por conhecer uma idosa com cara catatônica e pediram para ela no momento certo mastigar um saquinho para estourar o falso sangue artificial que irá escorrer pela boca (sim, a câmera permite flagrar a ação), e contrataram um contorcionista para a longa cena do último exorcismo, daqueles que às vezes podem ser vistos no metrô, semáforos ou em circos e na CCXP promovendo filmes ou lembrando clássico O Exorcista (The Exorcist, 1973).

O enredo ruim foi escrito por Salvatore Scarico e Mauro Paolucci. Nele o diretor diz que pretende viajar para a Itália, com passagem pelo Vaticano, para investigar a presença do Diabo lá. Na verdade, é tentar desmoralizar a Igreja Católica, dizendo que existe uma espécie de corrupção satânica e rituais macabros no local. Para tal, entrevistam alguns padres para confirmar ações obscuras e uma moça, que sugere uma visita ao cemitério à noite. É ali que acontece o único momento aceitável do filme, com os documentaristas registrando um ritual de sacrifício e depois sendo perseguidos pelos membros do culto. Apesar de testemunharem o feito macabro, nada disso importa, pois a investigação será abandonada sem mesmo concluir qualquer coisa. A proposta é realmente mostrar Joe e sua equipe acompanhando um padre canastrão, “alguém acostumado a lidar com demônios“, em quatro exorcismos sonolentos e mal sucedidos.

Entre esses registros, há o irritante diário de gravação de Joe, quando ele resolve comentar algumas bobagens no quarto do hotel. Menciona o famoso Gabriele Amorth, exibe trechos do exorcismo do Anneliese Michel, e ouve barulhos estranhos no corredor. Não dá muito pra distinguir o que seriam os “sons estranhos” de uma trilha sonora horrenda que acompanha todas as cenas do filme em uma altura insuportável. Numa das cenas mais idiotas do filme — a pior ainda é o longo exorcismo do contorcionista —, ele avista no fim do corredor um garoto observando-o e vai ao encontro dele lentamente, perguntando quem seria, o que quer dele, somente para descobrir que é uma criança normal que se afastou da mãe. E o que mais irrita nesses diários é ninguém ter dito para Joe que ele deveria registrar o que está vendo e não as expressões de seu rosto, algo que ele faz umas três vezes.

Junta-se tudo à menção de uma casa que Joe adquiriu e uma garotinha — tentaram distorcer o rosto para preservar a criança, mas para azar dela é facilmente identificável — que fez um desenho sobre. A casa, vista por dentro, se é que é a mesma, está em ruínas. Poderiam ter explorado alguma aparição sinistra ou reservar alguns arrepios para uma visita ao local, na tentativa de encontrar respostas para o desaparecimento de Joe, mas não. Somente encerra o sofrimento do infernauta com uma resposta escrita na parede. Aliás, o filme é cheio de letreiros, alguns com erros gramaticais, para identificar até quando já é evidente que Joe está no quarto do hotel ou passando horas observando uma senhora inexpressiva. Em um deles, antes do exorcismo da criança, é dito que a câmera flagrou um evento paranormal e até agora estou tentando descobrir o que foi captado.

Se Exorcismo no Vaticano consegue provar alguma coisa, com certeza é o quanto found footage exige mais do que câmeras ligadas o tempo todo. É preciso desenvolver um bom enredo, explorar situações assustadoras mesmo sem a necessidade do explícito. Há vários caminhos para uma boa realização, mas Joe Marino escolheu o pior deles, comprovando que, se o Diabo existe, está longe de ter relação com esse filme.

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