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por Mariane Conte

A procissão de encapuzados passou devagar, seres etéreos trazendo velas em candeeiros.

Névoa. Névoa esbranquiçada, densa, fria ao encontro das faces. Melinda respirava a névoa do cemitério enquanto descia pelo terreno de túmulos atarracados, muitos deles vandalizados pelos ladrões de cobre. Roubavam as cruzes, as fotografias em molduras que valiam alguns trocados — se vendidas para o cara certo.

Parando um instante diante de uma dessas sepulturas, Melinda secou o nariz na manga do casaco. Nenhuma foto, nenhuma placa de identificação, somente as marcas deixadas pelo roubo. Campeando ao redor, a moça de cabelos vermelhos procurou recordar o local exato em que a irmã estava enterrada. Já fazia alguns meses desde a última vez, era impressionante como todos estavam morrendo tão depressa. Por cima das altas lápides, para além dos vasos bojudos e flores de plástico, percorreu o terreno longamente, apertando a vista, puxando o caminho na recordação, decifrando qual das estreitas ruelas em cimento batido a levariam até Sarah.

Antes, uma dessas árvores melancólicas ajudavam-na a se localizar, uma dessas árvores esguias que não envelhecem, apenas se tornam poeirentas com os anos. Para receber mais um falecido em mármore, no entanto, haviam-na decepado, dando lugar a
uma nova sepultura tamanho família.

— Não é possível — murmurou Melinda com os seus botões, encolhendo-se toda por conta de uma rajada de vento frio.

O céu estava cor de chumbo, pássaros negros sobrevoavam o cemitério crocitando, pousando imponentes sobre anjos de pedra.

Seguindo pelo vão entre as sepulturas, Melinda pôs-se a caminhar a esmo, baixando a cabeça quando dava com os tornozelos em alguma cruz esquecida; o que restava de tijolos azuis demarcando o tamanho de um caixão de bebê. Sentia um aperto no peito, uma sensação de desamparo. Pedia desculpas e seguia com mais atenção.

Quando criança, ela mesma costumava correr por entre as sepulturas, parando para soletrar os seus nomes.

— Não, não faça isso. — A mãe a repreendia, chamando-a para junto de si. — Não é bom ler os nomes deles em voz alta.

— Por quê?

— Porque assim os chamará. Se fizer isso, eles acabarão indo para casa com a gente.

— Mas estão mortos!

— Isso não torna tudo ainda pior? Agora, venha cá e tenha mais respeito.

Com suor brotando na testa e o sentimento de fracasso a chamá-la de inútil, Melinda parou, virando-se para olhar para trás. O portão e o muro quilométrico eram como uma miragem no horizonte. Não só havia se esquecido de onde a irmã estava enterrada como estivera andando em círculos.

Mordiscou os lábios para não praguejar e secou o nariz na manga do casaco. Foi andando até a capela para não perder as esperanças. Por fora, parecia mais uma casinha de bonecas. A porta estava fechada; deu a volta, encontrando o Cruzeiro aos fundos, com centenas de velas apagadas e queimadas pela metade, garrafas de bebida e frutas para o orixá, imagens dos católicos em agradecimento pelo pedido atendido.

Melinda se ajoelhou diante do velário, sem saber o que fazer. Não era católica, não cultivava nenhum tipo de fé. Chegava mesmo a duvidar de Deus, mas não fazia questão de que todos o soubessem. Sentiu-se estranhamente distante, sujando os dedos de fuligem preta ao levantar Santo Expedito. Sentiu-se diferente, atordoada pelo aroma de incenso dos japoneses.

Sentiu que estava esperando. Pelo que?

De repente, ouviu vozes abafadas às suas costas. Eram duas beatas que chegavam, julgando pelo modo como resmungavam orações enquanto andavam, gordas de tanta roupa. As conhecia. De onde?

Melinda ficou de pé, limpando os dedos na calça.

— Boa tarde. — Cumprimentou as duas recém-chegadas, que nada responderam.

Deu um passo para o lado, para desocupar o espaço ao velário, e observou como as duas se ajoelharam, fazendo o Sinal da Cruz.

— Quer que eu acenda? — Perguntou uma das mulheres, tirando um maço de dentro da bolsa. — Minha avó sempre dizia que vela para as almas se acende aos pés do Cruzeiro, e que o espírito vem receber pessoalmente, mesmo se morreu longe da gente.

A companheira concordou, soprando as mãos numa tentativa de manter-se aquecida.

Quando ela falou, Melinda notou que seus dentes cavalares estavam sujos de batom.

— Não consigo acreditar — disse a mulher, suspirando. — Estou tão surpresa! Não posso entender…

— É, a morte não tem hora marcada — retrucou a outra, acendendo o pavio da vela e colocando a mão em concha para proteger a chama. — Fico pensando em Beth, perder as duas filhas. As duas morando na capital, longe, e então receber uma notícia dessas. O corpo só chega amanhã de manhã.

A mulher que tinha os dentes sujos de batom pestanejou, olhando para a face enrubescida da colega:

— Quando mesmo foi o acidente?

— Hoje. Foi hoje, durante a madrugada. Pelo que me contaram, ligaram para a Beth, já pela manhãzinha, e um sujeito muito mal-educado disse “a senhora é a mãe da Melinda Franco?”, e ela disse que sim. Aí, o homem disse: “oh, que bom, porque ela está morta!

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