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por Michel Goulart da Silva

A série Runaway, produção tailandesa que estreou em 4 de novembro de 2025, representa um marco interessante e atípico dentro da produção audiovisual contemporânea da Tailândia, não apenas por sua proposta de terror, mas também por sua inserção no universo das narrativas girls love. Nos últimos anos, as séries GL tailandesas ganharam notoriedade internacional, mas, com poucas exceções, contam histórias centradas no romance entre as protagonistas. Em Runaway, ainda que o romance esteja presente, o centro da narrativa passa pela construção de uma narrativa de horror.

Misturando elementos clássicos do horror sobrenatural com uma história de vínculo emocional entre duas mulheres, Runaway traz uma narrativa que acompanha Win, uma mulher de 25 anos que se vê perseguida por um espírito vingativo e implacável, com apenas alguns dias para sobreviver à ameaça que a assombra. Sem o apoio da família e sem forças para lidar sozinha com o medo crescente, ela acaba se voltando para Boon, filha de uma médium que possui conhecimentos sobre o mundo espiritual. Boon é também a alma gêmea, tendo compartilhado a vida anterior com Win.

Na série, explora-se a figura clássica do espírito vingativo. Embora se utilizando de algumas cenas de susto, a série se mostra mais preocupada em construir uma atmosfera de suspense crescente, onde o medo se acumula mais pela expectativa e pelo desconforto do que por momentos de choque isolados. Muitas dessas cenas são de espíritos cercando ou atacando Win, criando um ambiente algumas vezes claustrofóbico para a protagonista e, óbvio, para o espectador. Em seus oito episódios, Runaway convida o público a sentir o medo de forma íntima, enquanto acompanha a protagonista lutando não apenas contra um inimigo sobrenatural, mas também contra seus próprios demônios internos.

Uma questão interessante quando se analisa Runaway dentro do contexto mais amplo do horror é a sua relação com os mitos, lendas e crenças culturais da Tailândia. Embora não explore explicitamente ícones folclóricos tailandeses ou as tradições espirituais budistas que permeiam a cultura popular, a série dialoga com a maneira como a espiritualidade e o mundo dos espíritos são percebidos e incorporados no imaginário coletivo. O fato de a série envolver uma médium e a necessidade de confrontar um espírito vingativo sugere uma conexão com a tradição cultural de reconhecer entidades espirituais como agentes com os quais se pode interagir, confrontar ou mesmo negociar.

Outro aspecto importante de Runaway passa por sua localização no universo do girls love tailandês. Nos últimos anos, séries que focam em relações românticas entre personagens femininas têm ganhado popularidade na Tailândia. Uma das primeiras a conquistar esse sucesso foi Gap: The Series (2022), que se tornou um fenômeno no YouTube e colaborou para consolidar um público internacional interessado em histórias GL produzidas na Tailândia. Essas séries tailandesas são disponibilizadas pelas próprias protutoras, de forma gratuita, normalmente dividindo os episódios em partes de cerca de quinze a vinte minutos.

Runaway se diferencia de outras séries GL por combinar esse universo com o gênero do horror, resultando em algo talvez até pioneiro. Inclusive, para quem gostaria de mais romance, a série pode decepcionar, afinal a construção da relação entre as protagonistas está totalmente submetida à construção do horror. Essa fusão de gêneros é incomum no contexto das séries tailandesas de maior destaque, talvez com exceção de Petrichor, que mostra uma história GL dentro do contexto de uma série policial em que se caça um perigoso serial killer.

Em Runaway, enquanto procuram uma solução para o carma que Win carrega, a série mostra o desenvolvimento de sentimentos amorosos. Contudo, ao mesmo tempo, esse sentimento que se desenvolve tem suas barreiras não no presente, mas no passado que Win e as pessoas mais próximas dela carregam. Muitas das cenas românticas da série são de flashback da vida anterior que Win e Boon compartilharam com o espírito que a perseguem.

Essa obra acaba por ter um duplo impacto. Por um lado, contribui para a diversificação das narrativas de horror na Tailândia, abrindo espaço para histórias que incorporam aspectos afetivos junto a elementos sobrenaturais. Por outro, sinaliza um movimento de expansão dentro do universo GL, demonstrando que romances entre personagens femininas podem coexistir com outros gêneros dramáticos sem perder a profundidade de suas conexões emocionais. Runaway, ao fundir horror e romance, propõe uma narrativa que não apenas busca assustar, mas também envolver o espectador emocionalmente, colocando seus personagens em situações extremas onde o medo e o amor se entrelaçam de maneira complexa.

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