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por Michel Goulart da Silva

Na trilogia “Millennium”, do escritor sueco Stieg Larsson, o leitor pode acompanhar a trajetória da jovem Lisbeth Salander. Tratada como criminosa desde criança devido à tentativa de assassinato do próprio pai, sua história é desenvolvida ao longo da trilogia (ou das cinco obras, se for considerada as duas continuações publicadas após a morte de Larsson), inserida em um contexto de corrupção e violência expressos na sociedade.

No primeiro livro, Os Homens que Não Amavam as Mulheres, acompanhamos Mikael Blomkvist, um jornalista recém-condenado por difamação, que é contratado por Henrik Vanger, um poderoso industrial, para desvendar o desaparecimento misterioso da neta Harriet, ocorrido décadas antes. Essa proposta esconde a intenção real de Henrik de descobrir a verdade dentro de sua própria família, um clã marcado por segredos obscuros e uma atmosfera de tensão e perigo.

Blomkvist, com a ajuda de uma hacker, Lisbeth Salander, jovem brilhante e considerada problemática, que vive sob a tutela do Estado devido a um passado traumático, adentra esse universo de mistérios que se revelam muito mais sombrios do que um simples desaparecimento. Lisbeth, apesar de sua inteligência e habilidade tecnológica, enfrenta humilhações e abusos, inclusive estupro, perpetuados por seus supostos protetores. O livro não apenas mostra a investigação do misterioso desaparecimento, mas também denuncia a desigualdade, o abuso de poder e o legado silenciado dos abusos na família e na história sueca.

No segundo volume, A Menina que Brincava com Fogo, o foco se expande para o passado turbulento de Lisbeth, revelando suas complexidades e as razões que moldaram sua personalidade. Lisbeth é acusada de três assassinatos, o que desencadeia uma caçada nacional, colocando-a como fugitiva. Enquanto isso, Blomkvist luta para provar sua inocência e desvendar a conspiração que a envolve.

O livro aprofunda o contexto social e político, mostrando como Lisbeth é perseguida não apenas por crimes supostamente cometidos, mas também por ter se tornado uma ameaça para figuras poderosas envolvidas em práticas corruptas e criminosas. Neste segundo volume, o passado familiar abusivo de Lisbeth, especialmente em relação ao pai ligado a ideologias nazistas, é detalhado, expondo um sistema que a manteve sob tutela e constante opressão, validada por uma falsa avaliação psiquiátrica.

O terceiro e último volume, A Rainha do Castelo de Ar, traz o desfecho da série. Lisbeth está hospitalizada, se recuperando de uma tentativa de assassinato, prestes a enfrentar um julgamento pelos crimes dos quais foi acusada. O livro mostra não apenas as batalhas individuais de Lisbeth e Blomkvist, mas como suas vidas se entrelaçam em uma luta contra as forças conspiratórias que protegem os verdadeiros criminosos.

O julgamento é um ponto alto da narrativa, destacando a exposição da trama de corrupção, abuso e conspiração estatal. O desfecho revela a habilidade de Larsson em amarrar os diversos aspectos da trilogia, com uma narrativa cheia de suspense e crítica social. A trajetória de Lisbeth Salander, embalada pela colaboração com Blomkvist, mostra a trilogia como um marco literário que, além do entretenimento, provoca um olhar crítico sobre temas difíceis e atuais, inclusive as reminiscências do fascismo na sociedade contemporânea.

Em meio a investigações que cruzam níveis institucionais e pessoais, o leitor é conduzido por uma narrativa que é muitas vezes dolorosa, mas necessária, propondo uma reflexão profunda sobre o papel do jornalismo, da justiça e da resistência. Essa combinação de forte crítica política com uma trama frenética e personagens memoráveis torna a trilogia uma das obras mais impactantes na literatura de suspense policial e denúncia social.

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