
por Michel Goulart da Silva
Iron Maiden, icônica banda britânica de heavy metal, tem como uma das marcas recorrentes em sua trajetória o uso de temas de horror em letras, performances e capas de álbuns, criando um universo que dialoga com o medo e o sobrenatural. O horror, representado tanto pelas letras como pela figura de Eddie the Head, monstro que aparece frequentemente nas capas dos álbuns da banda, permeia toda a obra da banda desde os anos 1980.
A música “Killers“, presente no álbum de mesmo nome lançado em 1981, é um exemplo da construção do medo nas letras da banda. A música descreve a mente perturbada de um psicopata, manifestando uma inquietante narrativa de assassinato e ódio, parecendo dialogar com os filmes slashers comuns na época. Em uma passagem se canta:
Grite por misericórdia
Ele ri quando te vê sangrando
Um assassino atrás de você
A minha sede de sangue satisfaz o meu desejo
Cuidado, que eu vou atrás de você!
Na capa do álbum, “Eddie” aparece como uma figura ameaçadora. Mascote da banda, Eddie foi uma figura inicialmente concebida como uma cabeça monstruosa usada no cenário dos primeiros shows, que depois ganhou corpo e identidade visual própria nas capas de álbuns, singles e materiais de divulgação da banda. Criado graficamente pelo ilustrador Derek Riggs no fim dos anos 1970, Eddie apareceu pela primeira vez na capa do álbum de estreia, Iron Maiden, de 1980.
A música “Hallowed Be Thy Name“, lançada em 1982, como parte do álbum “The Number of the Beast“, aborda o terror psicológico da iminência da morte. Narrando o momento em que um condenado à morte enfrenta seu destino, a letra revela a luta interna entre medo e aceitação, enquanto o protagonista reflete sobre a existência e o além, questionando se a morte será realmente o fim. Canta-se em certo momento:
Conforme os guardas me conduzem até o pátio
Alguém clama de uma cela: Deus esteja com você!
Se existe um Deus, por que ele me abandonou?
Enquanto caminho, a minha vida passa diante de mim
E embora o fim esteja próximo, eu não me arrependo
Capture a minha alma, ela está disposta a voar para longe
Na própria faixa título do álbum aparecem algumas referências comuns ao horror, entoando uma sinistra mensagem: “Tenho o poder de fazer o meu mal seguir seu curso”. Nessa música, “The Number of the Beast“, conta-se em certo momento:
A noite era escura, não adiantava fugir
Porque eu tinha que saber:
Será que alguém estava me observando?
Em meio à névoa, formas escuras se moviam e se contorciam
Será que tudo aquilo era real, ou apenas um pesadelo?
Outro destaque na relação com temas de horror é a música “Fear of the Dark“, faixa-título do álbum homônimo lançado em 1992. Esta música, como o próprio título demonstra, explora o medo do escuro, narrando a sensação de ser seguido por algo invisível durante uma caminhada noturna solitária. Canta-se em determinado momento:
Alguma vez você já esteve sozinho à noite
Pensou que tivesse ouvido passos atrás
E, quando se virou, não havia ninguém lá?
E enquanto você acelera seu passo
Você acha difícil olhar de novo
Porque você tem certeza de que há alguém lá
O medo ressoa em cada uma das frases, criando um assustador clima psicológico. Na música, inclusive, faz-se referência ao cinema de horror, quando se canta:
Assistindo a filmes de terror na noite anterior
Debatendo sobre bruxas e folclore
Os problemas desconhecidos na sua mente
Talvez sua mente esteja pregando peças
Você sente e, de repente, os olhos se fixam
Em sombras dançando por trás de você
A faixa “The Edge of Darkness“, lançada em 1995, no álbum “The X Factor“, apresenta um tema mais sombrio e realista, baseado em relatos da Guerra do Vietnã, especialmente os aspectos psicológicos enfrentado pelos soldados. São mostradas imagens vívidas do medo, da confusão e da violência extrema, revelando como o horror na obra da banda ultrapassa o sobrenatural para englobar horrores reais da condição humana em situações extremas. Conta-se no final da música:
Agora eu fico sozinho nas trevas
Com seu sangue em minhas mãos
Onde sentou o guerreiro poeta
Agora jazem fragmentos de um homem
Outro exemplo é a música “The Wicker Man“, lançada em 2000 no álbum “Brave New World“, incorpora elementos de horror folclórico e de cultos pagãos. Parece haver um diálogo com o clássico filme de horror homônimo, lançado em 1973. Na música cria-se uma narrativa tensa e misteriosa em torno de rituais antigos e sacrifícios, mantendo o tom de ameaça velada e escuridão ritualística. Canta-se em certo momento:
Você assiste ao mundo explodindo toda noite
Dançando sob o Sol, um novo nascimento na luz
Irmãos e seus pais juntam as mãos e fazem uma corrente
A sombra do Homem de Palha está se levantando novamente
Esses exemplos mostram que a banda Iron Maiden usa o horror de múltiplas formas: do terror psicológico à violência, da superstição ao medo social e existencial. Como ocorre com outros temas, como história e literatura, há um diálogo com obras cinematográficas e outras produções culturais anteriores. Suas capas de discos e performances ao vivo criam uma experiência imersiva, onde a figura recorrente de “Eddie” serve como um símbolo que encarna essas temáticas sombrias.
O horror em Iron Maiden é um elemento multifacetado que vai além do choque visual para incluir uma profundidade lírica, refletindo angústias universais e históricas. Essa conexão entre música, imagem e performance faz com que a banda seja uma importante expressão do horror na cultura popular, em especial aquela associada ao heavy metal.



