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Original:Wolfenstein II: The New Colossus
Ano:2017•País:Suécia
Desenvolvedora:MachineGames•Distribuidora: Bethesda

Dificilmente um grande fã de cultura pop não é um fã de distopias. As obras de ficção que se caracterizam como uma antiutopia – os lugares imaginários em que se vive em condições de extrema opressão, desespero ou privação – são capazes de fascinar nossas mentes. Mas uma verdade sobre distopias é que ninguém de bom senso deseja vivê-las. E desejamos menos ainda quando percebemos que mesmo a mais surreal das distopias vem com uma dose cavalar de uma possível realidade. E esse é de longe um dos maiores trunfos do jogo Wolfenstein II: The New Colossus.

Nascida nos anos 90, a franquia Wolfenstein tem um mote principal: representar um mundo com uma linha do tempo paralela onde o Nazismo triunfou na Segunda Guerra Mundial. Nos games anteriores, conhecemos William Joseph Blaskowicz, também conhecido como B.J. Blazkowicz, ou Billy, o Terrível por seus inimigos. E como Wolfenstein II é sim uma continuação direta de seu antecessor, vale um resumo rápido dos primeiros games, onde nosso herói americano, até então um soldado, desperta 14 anos após um coma, com o planeta dominado pelos nazistas e busca forças nos poucos membros da resistência para derrubar o império espalhado por todo o mundo. Ao final do jogo, Blaskowicz consegue dar um grande golpe nos nazistas, mas com um alto preço, quase que sacrificando a si mesmo no processo.

Com isso, Wolfenstein II começa exatamente onde terminou seu antecessor. Após cinco meses de tratamento médico por seus aliados, Blaskowicz vê seu submarino, o Martelo de Eva, ser invadido pela insana general alemã Engel, grande vilã deste jogo, precisando voltar à luta ainda de cadeira de rodas, com a missão de unir seu grupo e conseguir novos aliados num Estados Unidos completamente dominado pelo regime nazista.

Wolfenstein II: The New Colossus é um game de tiro em primeira pessoa (FPS), linear e sem multiplayer (algo extremamente raro e corajoso hoje em dia). E levando em consideração a bagunça que muitos FPS viraram hoje em dia, podemos dizer que este é um FPS raiz, que valoriza as origens do gênero. Blaskowicz tem um arsenal poderoso a sua disposição onde raramente faltam balas, pode arremessar granadas e usar armas pesadas deixadas pelos inimigos maiores, mas todo o charme de sua jogabilidade dinâmica e incrivelmente prazerosa vem de sua capacidade de usar duas armas ao mesmo tempo, uma em cada mão, que mesmo sacrificando um pouco da mira, dobra sua capacidade de fogo e, consequentemente, sua capacidade de levar caos aos cenários.

Além disso, Wolfenstein II preza pela dificuldade. O game é desafiador e possui diversos níveis para fazer o jogador se estimular e se frustrar junto a tantas mortes quase que inevitáveis. Mesmo com uma campanha com cerca de 15 horas, o fator replay pode ser alimentado por algumas missões secundárias e pequenas operações de matar comandantes nazistas que chegam a ser irritantes, mesmo que não sejam quase nada atrativas comparadas a sua campanha principal.

E que campanha principal!

A jornada de Blaskowicz em tentar reacender na América o desejo de lutar contra os nazistas é empolgante. Os Estados Unidos se rendeu aos alemães após uma bomba atômica ser jogada em Manhattan e rapidamente o regime se fez presente no país, incluindo seu estilo de vida e ideais. Assim, o jogo é uma versão paralela dos anos 60 totalmente dominada pela estética e filosofia do Terceiro Reich. O trabalho de designe do jogo é simplesmente lindo, misturando o visual da década em questão com toda a megalomania nazista principalmente em infraestrutura e num nível tecnológico extremamente avançado onde foi possível até mesmo construir cães de guerra robóticos gigantes e uma impressionante base militar em Vênus.

E com tudo isso, Wolfenstein II não se esconde ou se faz tímido em passar sua mensagem política. Num Estados Unidos dominado pelos nazistas, o controle do Sul do país ficou dividido numa aliança com a Ku Klux Klan (uma cena banal e ao mesmo tempo chocante mostra pessoas usando o típico traje da organização enquanto caminham tranquilamente por uma rua), o grupo de resistência em Manhattan é praticamente todo formado por negros, revoltados em como o estadunidense branco se identificou rápido com o nazismo, e a missão em Nova Orleans mostra justamente como toda a cidade virou um campo de concentração, com todo tipo de pessoa que não se encaixa com o regime sendo aprisionada e tratada de forma desumana.

Conhecer Blaskowicz a fundo também é uma das melhores coisas do jogo. Sua infância cercada de abusos de um maldito pai antissemita, e sua mãe, uma judia que só sofreu no casamento, é repleto de cenas fortes e lembranças tristes. Com sua mulher grávida de gêmeos e a morte de sua melhor amiga de forma brutal pelas mãos da própria general Engel, medos são alimentados num homem que até então parecia uma rocha, mostrando seu lado humano e frágil.

Mas tudo isso também teve um preço. Como a narrativa é profunda, vários momentos do jogo apresentam uma quebra de ritmo substancial. Para aqueles que não se importam com enredo, o próprio começo do jogo será bastante arrastado, com diversas cutscenes antes de engatar de vez.

Ainda assim, toda essa imaginação impregnada em “Como seria os Estados Unidos se a Alemanha Nazista tivesse ganhado a Segunda Guerra?” é uma construção distópica única, com todos os méritos a equipe da MachineGames pelo feito. O jogo é violento, gore, com um visual belo, mas sujo, sempre sombrio e repleto de pequenos detalhes que enriquecem o produto final, como documentos, correspondências, músicas, artes e jornais espalhados que servem como coletáveis.

Momentos do jogo são simplesmente memoráveis como o primeiro e o último encontro como a general Engel, o julgamento e a condenação de Blaskowicz (num dos acontecimentos mais bizarros do game), a festa no submarino e um encontro com o próprio Adolf Hitler que eu praticamente bati palmas para os roteiristas.

Mesmo com tantos atributos, The New Colossus nos passa a estranha sensação de ter vários começos em momentos chaves, com o próprio encerramento sendo uma grande abertura para uma continuação e um estranho sentimento de “Peraí, já acabou?”. O jogo falha por nos apresentar um objetivo claro durante a jornada de Blaskowicz, mas não nos mostrar ele concretizado.

Mas no fim das contas isso não abala tanto a impressionante experiência que é Wolfenstein II: The New Colossus. Mesmo porque, matar nazistas violentamente num jogo é algo que relaxa a gente!

Wolfenstein II: The New Colossus está disponível para PlayStation 4, Xbox One, Nintendo Switch e PC.

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