Don’t Tell a Soul (2020)

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Don´t Tell a Soul
Original:Don´t Tell a Soul
Ano:2020•País:EUA
Direção:Alex McAulay
Roteiro:Alex McAulay
Produção:Chris Mangano, Merry-Kay Poe
Elenco:Fionn Whitehead, Jack Dylan Grazer, Mena Suvari, Rainn Wilson, McKenna Christine Poe, Kate Duncan, Shannon Cogan, Abigail Esmena

Aquele garoto hipocondríaco de It – A Coisa é uma das estrelas do thriller de possibilidades Don´t Tell a Soul, de Alex McAulay. Jack Dylan Grazer atua como o boa-praça Joey, que sofre nas mãos de seu abusivo irmão Matt (Fionn Whitehead, de Dunkirk, 2017). Mas não se trata apenas de um irmão autoritário e mandante, e, sim, de um exemplar sádico, agressivo e egocêntrico, que possui uma baixa índole, flertando com um Macaulay Culkin em O Anjo Malvado, ao explorar a fraqueza e ingenuidade do mais novo. Logo na cena inicial, ele o convence – para fins de compra de medicamentos para a mãe enferma (Mena Suvari, que se tornou conhecida com Beleza Americana e depois ingressou na franquia American Pie) – a invadir a casa de uma senhora idosa para roubar seu dinheiro, aproveitando que a residência está passando por um processo de dedetização.

Na volta para casa, são surpreendidos por um segurança, que corre atrás dos dois até acidentalmente cair em um poço. Preocupado com o homem acidentado, Joey quer retornar ao local para ajudá-lo, mas é constantemente pressionado pelo irmão com aquelas frases de consciência: “São vinte anos de cadeia.“, “Você quer que a mamãe fique sem cuidados médicos?“. Porém, o mais novo insiste em regressar ao poço e inicia um diálogo com o ferido sr. Hamby (Rainn Wilson). Enquanto este tenta convencê-lo a buscar ajuda, Joey sente a pressão de Matt para que simplesmente deixe que alguém escute seus gritos – sempre acompanhado de insultos e empurrões. Assim tem início esse jogo psicológico em um triângulo de curiosas alternâncias. No entanto, o enredo de McAulay ainda não apresentou todas as armas.

Se nos primeiros dois atos, a impressão deixada é bastante transparente, com uma construção narrativa já formada pelo infernauta – quase disposto a um cochilo -, a partir de então a trama sofre uma mutação impressionante. Boa parte do que se imaginava busca uma reconstrução, e você até acredita que o destino está favorecendo a narrativa, mas, é nessa nova condição que Joey apresenta uma profundidade maior que a do poço. Sua até então bondade absoluta aparenta arranhaduras, e a perspectiva de um acordo hitchcockiano. Quando parece novamente que o último ato está definido, o roteiro traz um novo plot twist, bastante inverossímil, com direito a redenção e ações improváveis, e perde a oportunidade de encerrar a proposta de maneira amplamente satisfatória.

Até funciona como thriller, capaz de impedir breves cochilos e consultas ao celular, porém essa mudanças parecem artificiais demais, como se buscasse um alento pela vitória da humanidade. A obra esbarrou em um produto ousado, que poderia levar o espectador a uma onda de pessimismo, de descontrole psicológico, comum entre os melhores trabalhos do gênero. A sensação de impotência e abandono é substituída pelo “encerramento Sessão da Tarde“, desalinhando o que se vira na primeira metade. Se Alex McAulay tivesse ignorado o padrão mel com açúcar de obras hollywoodianas, colocaria o seu Don´t Tell a Soul entre os principais destaques de 2020.

Ao final, brilham as boas atuações, principalmente de Mena Suvari, os bons aspectos técnicos como direção, edição e trilha, mas que não são suficientes para ofuscar a narrativa que ficou no quase.

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

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