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Incidente em Antares
Original:Incidente em Antares
Ano:2025•País:Brasil
Páginas:184• Autor:Érico Veríssimo, Rafael Scavone, Mariane Gusmão, Olavo Costa•Editora: Companhia das Letras/Quadrinhos na Cia.

Usando do fantástico como forma de crítica social, Erico Verissimo publicou em 1971 seu último romance e importantíssima obra da literatura brasileira, Incidente em Antares. Unindo realismo histórico, sátira política e o absurdo, o livro é uma grande crítica à ditadura e à desigualdade no Brasil. O elemento fantástico potencializa a denúncia, escancarando a hipocrisia da sociedade e a censura. Mais de 50 anos após sua publicação, o selo de quadrinhos da Companhia das Letras, Quadrinhos na Cia., nos traz a versão ilustrada desse poderoso clássico.

Antares, interior do Rio Grande do Sul. Era mais uma sexta comum na cidadezinha, ou assim pensavam seus habitantes. Em uma sexta-feira 13, os trabalhadores entram em greve geral em nome de condições melhores e salários mais dignos. Os ricos e poderosos não levam a sério e se recusam a ceder, mas as coisas começam rapidamente a piorar, especialmente quando os coveiros também decidem participar da greve. E, sabemos, a morte não tira férias. Naquele dia, sete pessoas de diferentes classes sociais vieram à óbito em Antares, e para sete almas foram negadas o descanso eterno por causa da greve. Impossibilitados de enterrarem propriamente os corpos, decidem deixá-los em seus caixões a céu aberto até a situação ser resolvida. Insepultos, os mortos se levantam indignados, em busca do seu direito de descansarem em paz, e passam a vagar pela cidade e denunciar toda a podridão escondida de Antares.

A obra original possui uma extensa primeira parte, onde fala sobre as famílias poderosas da cidade, as disputas políticas e a consolidação das elites; já a HQ foca especialmente na segunda parte da narrativa, que é o incidente em si, onde o fantástico entra em cena. Temos uma breve introdução do motivo da greve, da assembleia e do desenrolar de acontecimentos até chegarmos no ponto central, e essa forma mais condensada de contar a história em nada compromete a obra. O tom satírico e crítico continua ali, ferrenho e certeiro, com a linguagem visual expondo detalhes sem precisar necessariamente de um texto corrido.

Desde o início fica claro que Antares é governada por algumas famílias influentes, que manipulam o resto da cidade a seu bel-prazer com ameaças, torturas, desaparecimentos misteriosos e suborno. Todos ficam em silêncio por medo, fazendo com que os poderosos tenham controle total. A desigualdade fica ainda mais evidente quando os mortos se levantam e são apresentados. Enquanto a elite se esforça e se comove para tentar sepultar uma conhecida e rica senhora da alta sociedade que faleceu, um dos defuntos foi torturado até à morte e ninguém sabe. Uma prostituta que servia aos grandes no auge de sua aparência em vida é tida como indigente em morte, um advogado corrupto é lembrado como respeitável pelos habitantes. A hipocrisia está em cada traço desenhado tal qual esteve em cada linha escrita do romance de Verissimo. Quando os mortos andam em plena luz do dia, o medo que se instala não é por estarem ali, e sim pelo que eles têm a dizer. Em morte, não há nada mais a esconder, e tentam impedir que eles sejam ouvidos. Caso a população ouça as verdades que eles guardam e deveriam ter ido para o túmulo, os influentes podem perder o controle frente à uma multidão enraivecida e enganada. As aparências e reputações que foram construídas ao longo de anos pode desmoronar em instantes, e de nada adianta ameaçar quem já não pode mais morrer e temer pela sua vida.

O tom do quadrinho é, assim como na obra de Verissimo, satírico, mas não deixa de ser trágico. O absurdo da hipocrisia alheia tem seu lado cômico, ao mesmo tempo que tem seu lado triste, e ambos acontecem justamente por reconhecermos isso, vivenciarmos isso diariamente. O romance é uma clara crítica à época da ditadura, mas não deixa de ser uma narrativa extremamente atual. Quando ligamos a televisão, vemos políticos e figurões falando em valores e morais, e esses mesmos políticos estão envolvidos em escândalos e esquemas escabrosos. Mesmo assim, muitos fecham os olhos e preferem acreditar que aquilo não é verdade, muitos não denunciam por medo do que pode acontecer, muitos se envolvem em esquemas corruptos porque “é assim que as coisas são”. O medo paralisa, mas, em Antares, os mortos tentam fazer alguma justiça.

O elemento sobrenatural é um forte aliado da crítica e do horror sociais. Por exemplo, os cadáveres em putrefação, em plena exposição, podem ser vistos como a materialização do apodrecimento da sociedade como um todo. Tantos horrores foram – e são – cometidos em vida, que tudo vem à tona quando tudo acaba, ou deveria acabar. Os “zumbis” de Antares não estão ali para matar, e sim para expor. Ainda assim, a cidade tenta fingir que nada acontece, continua manipulando, censurando, negando. O fantástico pode ser o gatilho, mas o terror de verdade é político, é a sociedade.

O roteiro de Rafael Scavone é muito eficaz em passar a essência da obra original nessa versão adaptada para os quadrinhos, com traços marcantes de Olavo Costa e colorização por Mariane Gusmão, a arte dá vida (e morte) ao desespero e revolta que acontece na cidade.

Incidente em Antares se mostra uma obra atemporal, e o quadrinho torna esse clássico mais acessível, explorando visualmente o grotesco, o absurdo e a sátira social de forma mais expressiva. Em 1971 Erico Verissimo mostrou que, em uma sociedade onde a verdade é censurada, apenas os mortos são livres para falar. Uma obra com uma mensagem tão importante deve ser sempre divulgada, e nunca esquecida, para que eventos catastróficos não se repitam em um futuro mais próximo do que imaginamos.

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