
![]() O Presente do Demônio
Original:The Devil’s Gift
Ano:1984•País:EUA Direção:Kenneth J. Berton Roteiro:Kenneth J. Berton, José Vergelin, Hayden O'Hara Produção:Kenneth J. Berton, José Vergelin Elenco:Bob Mendelsohn, Vicki Saputo, Struan Robertson, Bruce Parry, Madelon Phillips, Stuart White, Caris Palm, , Billy Bletcher |

O único presente do demônio é a morte…
Lançado em 1984, O Presente do Demônio (The Devil’s Gift) é uma releitura não autorizada (e não reconhecida por seus realizadores) de O Macaco, conto de pouco mais de 40 páginas publicado por Stephen King na Gallery (revista americana semelhante a Playboy) em 1980 e incluído na coletânea Tripulação de Esqueletos cinco anos depois. O filme não segue a trama original, mas aproveita o mesmo ponto de partida: um macaco de brinquedo que provoca morte e destruição ao tocar seu instrumento musical.
Diferente da adaptação oficial dirigida por Osgood Perkins em 2025, que também parte apenas do conceito do macaco de brinquedo amaldiçoado para desenvolver uma nova narrativa (quase uma continuação do conto), o longa de 1984 é uma produção modesta e praticamente independente, que não pôde contar com o suporte de um grande estúdio, orçamento robusto ou nome de peso na direção. O Presente do Demônio é o primeiro trabalho de Kenneth J. Berton, que além de dirigir, assina o roteiro com outros dois desconhecidos: José Vergelin e Hayden O’Hara.
O resultado é um filme de estrutura previsível, sustentado por uma narrativa linear e excessivamente explicativa. A história se desenrola em etapas claras: a possessão do brinquedo, sua chegada à família protagonista, a revelação da ameaça, a aceitação do sobrenatural pelo pai e, por fim, a destruição do objeto possuído. Enquanto no texto de King a origem do boneco permanece misteriosa, reforçando o clima de estranhamento ao contrapor os personagens frente a uma ameaça incompreensível, o roteiro opta por expor cada detalhe, diminuindo assim a sensação de horror e de medo.

O elenco principal inclui os atores Bob Mendelsohn, Vicki Saputo e Struan Robertson, constituindo o núcleo familiar, como o pai, a mãe e o filho. São nomes desconhecidos na época e sem nenhum trabalho relevante em suas carreiras posteriores. Em relação às atuações em si, como esperado, elas são pouco convincentes e quase amadoras, condizentes com o baixo orçamento do longa-metragem. O excesso de diálogos sem emoção, explicativos e pouco naturais, frustram qualquer expectativa maior que o expectador tenha por uma experiência mais profunda.
Curiosamente, os efeitos especiais de O Presente do Demônio, que incluem raios, explosões e até mesmo um terremoto, são – sendo aqui bem generoso – aceitáveis para uma produção de baixo orçamento. O verdadeiro destaque, porém, fica por conta do brinquedo mecânico, que alguns críticos mais maldosos apontam como a “melhor atuação” do filme. Os efeitos de luz que iluminam os olhos do macaco sempre que ele se prepara para tocar seu instrumento musical criam alguns dos momentos mais sombrios e marcantes do longa. O brinquedo, inclusive, é mais fiel ao conto original de Stephen King do que sua contraparte da adaptação oficial de 2025: já que nesta versão o macaco toca címbalos (os “pratos” descritos pelo autor em seu conto), enquanto na mais recente o instrumento foi transformado em um tambor.
Além de King, outra influência presente é a do sucesso Poltergeist, O Fenômeno, lançado dois anos antes. O próprio termo que se refere aos espíritos zombeteiros é arbitrariamente inserido em um diálogo entre uma médium e o protagonista, mesmo fazendo pouco ou nenhum sentido para a trama. Porém a maior similaridade com o clássico de Tobe Hooper está no desfecho exagerado e pirotécnico, com direito a raios, terremoto e rachaduras no solo.

Vale pontuar ainda que O Presente do Demônio foi concebido diretamente para o mercado de VHS, em plena ascensão na década de 1980, quando o consumo doméstico de filmes se tornava um fenômeno cultural. Nesse cenário, obras obscuras e oportunistas encontravam seu espaço nas prateleiras das videolocadoras, muitas vezes garantindo retorno financeiro mesmo com qualidade duvidosa. O sucesso não dependia exatamente de grandes nomes no elenco ou de uma narrativa consistente, mas sim da curiosidade de um público consumidor que carecia de informação em um período pré-internet. Títulos chamativos, sinopses intrigantes e capas impactantes eram suficientes para transformar produções B em verdadeiros atrativos comerciais. Esse modelo ajudou a consolidar uma estética própria das videolocadoras, marcada por trabalhos baratos que, apesar de artisticamente questionáveis, se tornariam parte da memória afetiva de toda uma geração.
Por exemplo, caro infernauta, você deixaria de alugar um filme com a capa mostrada acima?
Distribuído em VHS no Brasil pela extinta Look Vídeo ainda nos anos 1980, não há registros de que O Presente do Demônio tenha sido exibido na TV aberta, embora seja mais provável que tenha sido (visto o sucesso que o gênero horror fazia entre os jovens e adolescentes). Atualmente, o longa não está disponível de forma oficial em nenhum canal de streaming e só é possível encontrá-lo em DVDs e Blu-rays importados vendidos em sites especializados na internet. Contudo, caso o leitor curioso não se incomode com a qualidade de som e imagem, ele é facilmente encontrado, completo e com legendas em português, no YouTube.

Curiosamente, em 1996, The Devil’s Gift foi reeditado pelo mesmo Kenneth J. Berton — em seu segundo e último trabalho como cineasta — em um novo corte reduzido a cerca de 20 minutos. O agora curta-metragem foi inserido como segmento da antologia Merlin’s Shop of Mystical Wonders. Na produção, um avô, vivido por Ernest Borgnine, narra histórias sobre objetos mágicos vendidos em uma loja cujo proprietário é o próprio mago Merlin. A obra ganhou alguma notoriedade ao ser exibido no programa Mystery Science Theater 3000 em 1999.
Entretanto, será que O Presente do Demônio é mesmo uma adaptação não autorizada? Tudo indica que sim, ainda mais relembrando que qualquer produto ligado ao nome Stephen King fazia muito sucesso na época. Obviamente o maior indicativo é o plot principal do boneco amaldiçoado (ou possuído, se você preferir). Apesar dos nomes dos personagens serem diferentes e o início e desfecho do enredo também, duas mortes não-humanas remetem ao conto: a do cachorro, e principalmente a cena em que o macaco toca de leve seus pratos e uma mosca morre, acontecimento que é narrado de maneira idêntica no livro.
Enfim, se você viveu o auge das videolocadoras, for um fã mais hardcore do gênero horror e considerar todo o contexto da produção, principalmente entender que O Presente do Demônio é uma obra de baixíssimo orçamento quase esquecida, é possível que você até se divirta com a experiência, ao mesmo tempo nostálgica e digamos sádica, de ver um filme ruim, mas com duas ou três sequências interessantes (como o triste fim do cachorro, o afogamento da criança e o ataque no chuveiro sofrido pelo pai). Além é claro, do sinistro macaquinho.
E se você, leitor, tiver que escolher entre esta adaptação não oficial, O Presente do Demônio, e O Macaco lançado em 2025 – prefira o conto (que é muito superior às duas produções cinematográficas), ou pelo menos o leia antes. Depois veja ambos os filmes, e tire suas próprias conclusões.


O conto “O Macaco” é muito bom, mesmo. O filme do Osgood Perkins, não sei, ainda não vi.