![]() Socorro!
Original:Send Help
Ano:2026•País:EUA Direção:Sam Raimi Roteiro:Damian Shannon, Mark Swift Produção:Sam Raimi, Zainab Azizi Elenco:Rachel McAdams, Dylan O'Brien, Edyll Ismail, Xavier Samuel, Dennis Haysbert, Chris Pang |
por Gaspar Menezes
Existe um tipo de terror que não precisa de criaturas, maldições ou forças sobrenaturais. Ele nasce do desgaste, da repetição, do isolamento e da lenta corrosão da moral humana. Socorro! pertence exatamente a essa categoria. Sam Raimi entende que o verdadeiro horror não está no que aparece, mas no que permanece.
A história parte de um acidente aéreo e reduz o mundo a uma ilha. Dois sobreviventes. Poucos recursos. Nenhuma garantia real de resgate. O que poderia ser apenas mais um filme de sobrevivência se transforma, nas mãos de Raimi, em um estudo cruel sobre convivência forçada e deterioração psicológica. Aqui, o medo não vem de fora. Ele cresce entre as pessoas.
A ilha nunca é retratada como um espaço de aventura. Apesar da vastidão natural, a sensação é de confinamento. A câmera se aproxima demais dos rostos, insiste em planos fechados e registra cada sinal de desgaste físico e emocional. O suor, os ferimentos, a fome e a exaustão não funcionam como pano de fundo. Eles conduzem a narrativa.
Rachel McAdams entrega uma atuação surpreendentemente crua. Sua personagem começa racional, prática e funcional, quase otimista demais para aquele cenário. Aos poucos, Raimi desmonta essa postura com precisão. O colapso não vem em explosões dramáticas, mas em pequenos gestos, no olhar perdido, na forma como o corpo passa a ocupar o espaço. Não há heroísmo. Apenas sobrevivência e o preço cobrado por ela.
Dylan O’Brien surge como um elemento de instabilidade desde o início. Seu personagem nunca é totalmente confiável, e essa ambiguidade sustenta boa parte da tensão do filme. O espectador compartilha da mesma dúvida constante. Ele é um aliado ou uma ameaça? Cada diálogo carrega um desconforto latente, e a convivência se transforma em um campo minado emocional.
A direção de Raimi é segura e consciente. A câmera se movimenta quando precisa, mas também sabe permanecer estática, observando o tempo agir como torturador. O uso do som é fundamental. O vento, o mar e os ruídos naturais da ilha tornam-se opressores. O silêncio não traz alívio. Ele anuncia o próximo desgaste.
O humor aparece de forma pontual e amarga. Não é o Raimi escrachado de Evil Dead II, mas um sarcasmo desconfortável que surge nos piores momentos possíveis. O riso, quando acontece, vem carregado de culpa. O filme faz questão de deixar claro que rir ali parece errado.
O último ato abandona qualquer promessa de conforto. Não há redenção fácil, nem lições edificantes. As escolhas feitas cobram seu preço, e o roteiro não tenta suavizar as consequências. Sobreviver não significa vencer. Significa continuar existindo com aquilo que foi perdido no caminho.
Os problemas do filme estão mais ligados ao ritmo irregular do segundo ato, que se estende além do necessário, e a decisões narrativas que podem frustrar quem espera um terror mais direto ou explícito. Ainda assim, são escolhas coerentes com a proposta. Socorro! não quer agradar. Quer incomodar.
No fim, Raimi entrega um terror seco, humano e desconfortável. Um filme que entende que o inferno não precisa de monstros visíveis. Basta colocar dois seres humanos frente a frente, sem saída, sem comida e sem garantias de salvação.
E isso, no fim das contas, é o que mais assusta.






