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por Clodoaldo Alves Ferreira 

Pedro vivia em Nova Veneza, no interior de Goiás. Trabalhava o quanto podia, mas um dia a porta da empresa onde exercia suas funções se fechou de vez – ele ficou desempregado. Com o aluguel batendo na porta e a geladeira cada vez mais vazia, a cabeça dele não parava de girar em busca de uma saída.

Foi então que teve uma ideia bem ousada, ou melhor, bem “malandra“. Lembrou que as pessoas do interior são geralmente mais supersticiosas, e na época vinha se falando muito em um “lobisomem” que rondava a região nas noites de Lua Cheia. Aí ele pensou:

Por que não usar isso a meu favor?

Com o pouco dinheiro que sobrou da sua última grana, foi até Goiânia – a capital – e comprou uma fantasia de lobisomem bem detalhada: pelo comprido, mãos com garras e uma cabeça com dentes afiados que deixava qualquer um arrepiado.

Na primeira noite de Lua Cheia, colocou a fantasia e foi até as casas mais afastadas da cidade. Fingia rir como um animal, batia levemente nas janelas e se esgueirava pelos quintais, deixando todos em pânico. Mas Pedro tinha um limite: não queria machucar ninguém, só assustar o suficiente para que as pessoas corressem para dentro de casa e deixassem alguma coisa ao alcance – um pouco de comida, uma bebida, às vezes até uma pequena quantia de dinheiro que estava guardada em um canto.

Além disso, ele aproveitava para passar pelos “pit dogs” noturnos e pelas lanchonetes mais movimentadas, usando a fantasia para se misturar ao clima da noite ou até mesmo para conseguir um prato de comida de quem tinha dó ou estava com medo de enfrentar o “ser“.
Sempre com o cuidado de ficar atento – não queria levar uma facada, uma pedrada ou um tiro de quem pensasse que estava lidando com um monstro de verdade…

…..

Um dia, na Lua Cheia, ele foi até a casa de uma família que ouvira dizer que tinha comida guardada no quintal. Mas quando apareceu, não viu ninguém fugir – apenas um garoto de uns 10 anos, Lucas, parado ali, olhando para ele sem tremer. O menino acabara de perder o pai em um acidente de trabalho e não tinha mais nada a perder.

Você é o lobisomem que todo mundo fala?“, perguntou ele, com a voz trêmula mas firme.

Meu pai deixou uma bicicleta quebrada… você poderia me ajudar a arrumar? Eu não tenho ninguém mais.

Pedro ficou paralisado. Sob a fantasia, suas mãos tremiam. Ele tirou a cabeça do lobisomem e disse:

Não sou um monstro, filho… eu só estou com muita dificuldade.

Contou tudo para Lucas, que ao invés de ficar com raiva, abraçou-o e disse:

Eu entendo, tio Pedro. Eu também sei o que é não ter nada.

Naquela noite, Pedro ajudou o garoto a arrumar a bicicleta e resolveu que era hora de parar com aquela malandragem. Mas o vizinho do lado, que vira tudo pela janela, já estava ligando para todos na cidade, dizendo que descobriu quem era o “lobisomem“.

As notícias se espalharam como fogo em palha seca. Um grupo liderado por , um homem que já tinha brigado com Pedro anos atrás por causa de um trabalho que ambos queriam, resolveu se organizar para “caçá-lo“. Eles andavam pelas ruas com paus, facas e até uma
espingarda de pressão, dizendo que iam acabar com o “monstro” que aterrorizava a cidade.

Pedro tentou se esconder, mas não tinha para onde ir. Com medo de ser agredido ou pior, resolveu contar a verdade para a prefeita, dona Cida – uma mulher que tinha crescido pobre e sabia do que se tratava a luta pela sobrevivência. Ela ouviu tudo, olhou para ele com pena
e raiva ao mesmo tempo:

Você errou muito, Pedro. Mas eu sei que a fome faz a gente fazer coisas que não deveria.

Ela convenceu os moradores a perdoá-lo, garantiu um emprego honesto para ele na mercearia da cidade e ajudou a pagar o que ele tinha pego de todos. Mesmo voltando a trabalhar, acordando cedo para organizar as prateleiras e ajudar os clientes, Pedro não conseguia esquecer o peso do que fizera. À noite, sentado na mesa da sala, fumava seu charuto e tomava uma cerveja gelada, olhando para a máscara do
lobisomem que ali jazia, cobrindo-se de poeira.

A cada vez que olhava para ela, sentia uma força estranha puxando-o. Parecia que a máscara o hipnotizava, chamando-o de volta para as ruas da noite. Um dia, cansado de lutar contra aquela vontade, ele pegou a fantasia, vestiu-a por completo – dessa vez, sem pensar no perigo, sem se preocupar com as pessoas.

Saiu pelas ruas de Nova Veneza como nunca tinha feito antes: uivava alto, como um verdadeiro animal, subia em árvores e pulava de muro em muro. Quando encontrava alguém na rua, não só assustava – mordia os braços e as pernas das pessoas com os dentes de borracha da fantasia, deixava marcas de garras nas roupas e nas paredes das casas. O pânico tomou conta da cidade de novo, mas agora Pedro não conseguia parar – a fantasia parecia ter se tornado parte dele, e a dor de sua situação passada estava saindo de forma selvagem e descontrolada…

…..

A máscara já não era mais apenas um disfarce – ela o dominou por completo. Pedro que havia conseguido perdão, que trabalhava honestamente, sumiu por dentro. Agora, sob a pele peluda e os dentes afiados, ele praticava crimes hediondos pelas ruas de Nova Veneza
e arredores: destruía propriedades, atacava quem encontrava pelo caminho, deixando por onde passava apenas rastros de tripas e sangue, entre uivos guturais que faziam o coração das pessoas gelar.

A população viveu em pânico total – as casas fechavam bem antes do anoitecer, as ruas ficavam desertas, e ninguém se atrevia a sair mesmo para buscar ajuda. A polícia montou uma operação especial para encontrá-lo, e além deles, grupos de caçadores voluntários percorriam as matas e estradas, determinados a acabar com o “monstro” que assolava a região.

Depois de dias de busca, seguiram os uivos até uma caverna no alto de uma colina, onde viajavam faíscas de uma fogueira acesa no interior. Dentro, ele estava ali – curvado sobre restos de sua última vítima, a fantasia manchada de sangue. No momento em que ouviu os passos se aproximando, algo acordou nele: com toda a força que lhe restava, agarrou a máscara e a arrancou do rosto, gritando de dor como se estivesse se despindo de sua própria pele.

Dentro da caverna, a fogueira crava faíscas no teto rochoso. Com cada músculo do rosto e do pescoço a arder de esforço, Pedro arranca a máscara de uma vez só – a pele do seu rosto está vermelha, raspada, molhada de suor e sangue. Ele cai de joelhos no chão úmido,
segurando o objeto peludo na frente do rosto, sentindo-o quente como se estivesse viva.

Pedro – (voz rouca, trêmula, olhando fixo para os olhos vazios da máscara) Sai de mim… Porra, sai! Você não me pertence! Você não é nada de verdade, é só uma fantasia barata que eu comprei numa lojinha em Goiânia! Eu sou eu! Eu sou Pedro!

A sombra da máscara parece se mover, mesmo sem vento na caverna. Uma voz grossa, como pedra roçando em pedra, sai dela – não dos lábios de borracha, mas como se viesse do próprio material.

MáscaraNão sou uma fantasia, filho. Eu sou mais antiga que essa terra, mais antiga que a humanidade toda. Eu sou o mal que vive dentro de cada um de vocês – a fome que faz você roubar, o medo que faz você assustar, a raiva que faz você destruir. Eu não entrei em
você – eu sempre estive aqui. Você só precisou de uma razão para me deixar sair.

Pedro – (agitando a máscara, com lágrimas rolando pelo rosto machucado) Mentira! Eu não sou assim! Eu só queria sobreviver! Eu já estava melhor, eu tinha um trabalho, eu tinha perdão! Você é quem está fazendo tudo isso, não eu!

MáscaraVocê acha que eu fiz você morder aquelas pessoas? Que eu fiz você deixar sangue e tripas pelas ruas? Eu só dei voz ao que você sempre quis fazer – quando a vida te bateu, você quis bater de volta. Eu sou a parte de você que não quer se controlar, que não
quer ser bom, que não quer seguir as regras dos outros. Eu sou você.

Pedro – (passando as mãos pelo próprio rosto, como se estivesse tentando tirar algo que não sai) Não… não… eu estou ficando doido. Isso não está acontecendo. É só um sonho, é só a cerveja, é só a culpa que tá me enlouquecendo…

Máscara – (a voz fica mais suave, mais sibilante) Não é loucura, meu filho. É liberdade. Você se sentiu vivo quando estava pelas ruas, não é verdade? Sentiu poder, sentiu que não precisava mais mendigar nada de ninguém. Eu só te mostrei o caminho…

Pedro – (gritando, apertando a máscara contra o peito) PARAAAA! Eu não quero mais! Eu não sou seu! Eu sou eu! EU SOU PEDRO!

Naquele instante, os caçadores entraram na caverna e abriram fogo. Os tiros acertaram seu corpo, e ele caiu de bruços diretamente na fogueira, que se alçou em chamas altas, consumindo-o aos poucos.

Quando tudo acabou, um dos caçadores se aproximou do local onde a máscara jazia, intacta entre as cinzas. Sem pensar duas vezes, pegou-a e a levou para casa, guardando-a em um canto escuro do sótão…

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