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Siberia
Original:Siberia
Ano:2013•País:EUA
Direção:Slava N. Jakovleff, Herbert James Winterstern, Matthew Arnold
Roteiro:Matthew Arnold, Andy Cochran, Shaun Hudson, Brian Rost, Odin Shafer, Travis Rooks, Dorian Hess
Produção:James Gibb, Phyllis Laing
Elenco:Joyce Giraud, Johnny Wactor, Esther Anderson, Miljan Milosevic, Daniel Sutton, Neeko Skervin, Irene Yee, Sam Dobbins, Anne-Marie Mueschke, Sabina Akhmedova, Jonathon Buckley, Natalie Scheetz, Justin Gordon, Victoria Emilie Hill, Alexandra Levy

Nas duas últimas décadas, poucos subgêneros foram tão debatidos no horror quanto o found footage e o mockumentary. Embora A Bruxa de Blair (1999) não tenha sido o primeiro exemplo da técnica, foi o filme que catapultou o formato para o mainstream, transformando câmeras tremidas e supostos registros “reais” em sinônimo de autenticidade e terror cru. O sucesso estrondoso abriu caminho para uma enxurrada de produções que exploraram esse estilo: de Atividade Paranormal (2007), que redefiniu o horror doméstico com seu minimalismo, até títulos como REC (2007), Cloverfield (2008) e Chronicle (2012), que aplicaram a linguagem a contextos variados, do apocalipse zumbi ao espetáculo de monstros e superpoderes. Paralelamente, o mockumentary cresceu como um formato híbrido, usando a estética documental para produzir horrores perturbadores, como os excelentes Lake Mungo (2008) ou Noroi: The Curse (2005). Nesse cenário, Siberia (2013) se insere como uma variação televisiva corajosa, unindo a lógica do reality show à tensão do falso registro documental, e tentando se firmar num espaço em que o espectador é chamado a acreditar e desconfiar ao mesmo tempo.

Siberia é uma daquelas séries que parecem ter nascido alguns anos adiantadas em relação ao seu tempo. Exibida pela NBC, com apenas uma temporada de 11 episódios, a produção ousou ao propor um híbrido improvável: um reality show fictício, gravado como se fosse  mockumentary e found footage, mas com DNA de drama de sobrevivência e pitadas de horror sobrenatural. A premissa era simples e genial: dezesseis participantes são largados numa região remota da Sibéria, competindo por dinheiro. O problema é que, à medida que o jogo avança, fica claro que não há câmeras suficientes (ou talvez câmeras demais?) para dar conta do que está acontecendo, e que as ameaças no ambiente vão muito além da convivência forçada entre desconhecidos.

O que prende de imediato em Siberia é justamente essa quebra de expectativa. Os primeiros episódios simulam com habilidade o clima de um survivor mais sombrio, com arquétipos típicos de reality show (o estrategista, o outsider, a “barraqueira”), mas o jogo ganha camadas quando eventos inexplicáveis começam a corroer a lógica televisiva. A floresta se torna personagem, e a paranoia coletiva cresce até tomar conta da narrativa. É nesse espaço que a série brilha: na tensão crescente, no uso de cliffhangers e na sensação de que qualquer episódio pode virar de cabeça para baixo.

Entre os acertos de Siberia, um dos mais notáveis é o desenvolvimento consistente da maioria dos personagens. Apesar de partirem de arquétipos clássicos de reality shows, ao longo dos episódios eles ganham nuances e motivações que tornam suas reações diante do perigo mais críveis e envolventes. Esse cuidado na construção de personagens amplifica a sensação de imersão: o espectador não apenas observa o que acontece, mas passa a se importar com cada decisão, cada erro, cada estratégia que pode decidir quem sobrevive ou desaparece.

Outro ponto alto é a premissa em si: a deliciosa inquietação de imaginar “e se um reality show REALMENTE desse errado?”. A série explora essa hipótese de forma concreta, mostrando o quanto o isolamento, a tensão e os elementos misteriosos podem corroer alianças e revelar o lado mais sombrio dos participantes. Além disso, alguns episódios atingem um clima de paranoia coletiva muito eficaz: a incerteza sobre quem está em perigo, o que é real e o que é manipulação cria momentos de tensão quase palpáveis, lembrando ao público que a ameaça pode vir tanto do ambiente hostil quanto das próprias relações humanas. Essa combinação de personagens bem trabalhados e tensão psicológica dá à série uma força inesperada, mesmo diante de limitações orçamentárias e narrativas.

Ainda assim, Siberia tropeça em pontos difíceis de ignorar. O ritmo irregular faz alguns capítulos soarem como pura enrolação, enquanto outros concentram toda a eletricidade narrativa. Os personagens, embora inicialmente promissores, nem sempre escapam do estereótipo, e a limitação orçamentária pesa em momentos que exigiam mais ousadia visual. O maior problema, no entanto, foi externo: cancelada abruptamente, a série nunca teve chance de concluir suas ideias, e os mistérios, cuidadosamente plantados, ficaram sem resposta. Para muitos, essa falta de payoff matou a experiência; para outros, transformou Siberia numa espécie de relíquia cult, lembrada justamente por seu caráter experimental e inconcluso.

Outro aspecto frágil de Siberia está justamente na forma como o uso da estética documental exige uma suspensão de descrença que beira o insustentável. Entre todas as produções que já exploraram o found footage e o mockumentary, esta talvez seja a que mais força a mão ao tentar nos convencer de que câmeras permaneceriam ligadas, registrando cada momento, sem qualquer preocupação com carregadores, baterias ou cartões de memória; detalhe que, como fotógrafo e videomaker, me faz sentir particularmente “atacado” diante da inverossimilhança técnica. Mais grave ainda é o papel dos cinegrafistas dentro da narrativa: por mais que o programa tente justificar a presença constante de múltiplos ângulos, é difícil aceitar que, diante de ameaças concretas à sobrevivência, uma equipe tão numerosa de operadores de câmera jamais interfira, limitando-se a registrar passivamente eventos que também colocam suas próprias vidas em risco.

Além das inconsistências narrativas ligadas à presença de câmeras, há também um problema de coerência estética que enfraquece a proposta de Siberia. Nos primeiros episódios, a série simula com precisão os enquadramentos e a linguagem visual típicos dos realities de sobrevivência dos anos 2000, o que funciona muito bem para estabelecer verossimilhança e reforçar o pacto com o espectador. O problema surge a partir da metade da temporada, quando a fotografia muda bruscamente de tom: os ângulos passam a ser mais elaborados, os cortes mais estilizados e as tremulações mais “cinematográficas”. Ainda que esses recursos resultem em imagens belas por si mesmas, eles atuam contra a lógica inicial, lembrando constantemente ao público que não há câmera “documentando” de fato, mas sim uma produção dramatizada. O efeito é paradoxal: para compensar a fragilidade da estética documental, a série acaba se traindo, oscilando entre a ilusão de reality e uma mise-en-scène assumidamente ficcional. Há até momentos em que personagens precisam interagir com os supostos cinegrafistas, mas não por necessidade narrativa, e sim como lembrete artificial de que eles estão ali, sustentando um jogo de autenticidade já abalado.

Alerta de spoilers

O charme envenenado de Siberia está justamente em como ela vai, pouco a pouco, abandonando a fachada de reality show e descendo a escada rumo ao inexplicável. O desaparecimento de participantes sem explicação, marcas misteriosas na floresta, ruídos e vultos noturnos, isso tudo sugere que o jogo nunca foi apenas um jogo. A trama dá a entender que forças externas estão manipulando ou vigiando os competidores, ora flertando com um horror quase folclórico, ora insinuando experimentos científicos clandestinos.

Um dos pontos mais discutidos pelos fãs foi a figura quase mítica dos “nativos” e os indícios de que a floresta abrigava segredos de civilizações antigas. Ao mesmo tempo, havia o fio narrativo de conspiração governamental e testes secretos, que transformava os participantes em cobaias involuntárias. Essa sobreposição de camadas entre o sobrenatural e a teoria da conspiração criava um clima de paranoia crescente, em que os personagens já não sabiam se temiam mais o ambiente, os próprios colegas de confinamento ou uma força maior que os controlava de fora.

Infelizmente, o cancelamento abrupto impediu que qualquer uma dessas linhas fosse devidamente concluída. Ficaram apenas pistas espalhadas e cliffhangers sem resolução, como o destino de alguns participantes e a revelação final de que talvez o programa tivesse sido uma farsa orquestrada desde o início. O resultado é uma série que prometia muito e entregou só até a metade: fascinante pela ousadia, mas frustrante por deixar sua mitologia em suspenso.

Fim dos spoilers

No fim das contas, Siberia é uma experiência televisiva rara: imperfeita, sim, mas corajosa o bastante para tentar algo que poucos ousaram na TV aberta. Sua mistura de reality adulterado, drama de sobrevivência e suspense sobrenatural não rendeu o clássico que poderia ter sido, mas deixou registrada uma pergunta fascinante: e se um reality show realmente saísse do controle? A resposta nunca veio por completa e, nesse vazio, a série ecoa o destino de Lost, outra ilha de narrativas que naufragou em sua própria ambição. Talvez ambas tenham se perdido justamente por sonharem alto demais, mas é nesse excesso, nessa recusa em serem apenas entretenimento descartável, que reside sua força. E talvez seja por isso que, como ruínas cobertas de neve, Siberia continua a assombrar a memória de quem um dia se deixou arrastar para dentro dela.

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