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Exit 8
Original:8-ban deguchi / Exit 8
Ano:2025•País:Japão
Direção:Genki Kawamura
Roteiro:Genki Kawamura, Kentaro Hirase, Kotake Create
Produção:Yoshihiro Furusawa, Minami Ichikawa, Taichi Itô, Genki Kawamura, Yuto Sakata, Taichi Ueda, Kenji Yamada, Akito Yamamoto
Elenco:Kazunari Ninomiya, Yamato Kôchi, Naru Asanuma, Kotone Hanase, Hirota Ôtsuka, Tara Nakashima, Reo Soda, Mikio Ueda, Hikaru Kaihotsu, Nana Komatsu

Como em um pesadelo interminável, um homem se vê aprisionado ao tentar sair dos corredores de uma estação de metrô. Ele se vê perdido em um looping em que anda em círculos sem jamais encontrar a saída. Logo ele percebe que existem supostas regras em um aviso nas paredes: se ele encontrar uma anomalia, ele deve retornar. Se não vir nenhuma, deve seguir em frente até então alcançar a “saída 8”.

Instigante terror psicológico made in japan dirigido e escrito pelo cineasta Genki Kawamura (de Monster, 2023) inspirado no premiado jogo indie multiplataforma de mesmo nome desenvolvido pela Kotake Create em 2023. Contrariando a regra ocidental de que as adaptações de games quase sempre resultam em obras cinematográficas sofríveis, Exit 8, o filme, não só explora com precisão as características visuais minimalistas e claustrofóbicas do jogo, como também os pontos fortes de sua mecânica: o suspense e a angústia provocada pela repetição e desorientação espacial. Mais do que isso, a obra amplia o enredo em pelo menos duas camadas metafóricas distintas, uma primeira mergulha no psicológico do protagonista enquanto outra  reflete sobre o comportamento humano contemporâneo e o modo de vida atual.

Numa primeira leitura, mais direta e superficial do enredo, destaca-se a construção de um horror psicológico fundamentado no desespero do personagem, que insiste – sem sucesso – em abandonar a estação de metrô. Cada tentativa de fuga o arrasta, de forma inexplicável, de volta ao ponto inicial, reforçando a sensação de encarceramento e angústia. Aos poucos, outros eventos corroboram a natureza sobrenatural da situação, e o protagonista, sufocado, vê-se obrigado a seguir as regras indicadas, como se estivesse aprisionado em um jogo cujo objetivo não é apenas escapar, mas também evitar um destino mais aterrador: a degradação da própria sanidade.

No entanto, Exit 8 revela sua verdadeira força quando consideramos as metáforas que são sugeridas pela narrativa. Nestas leituras, uma possibilidade é a realidade ficcional refletindo a configuração psicológica e existencial do protagonista. Um pouco antes de iniciar as tentativas frustradas de saída da estação, ainda dentro do vagão, ele recebe uma ligação da namorada dizendo, ou tentando dizer, que está no hospital, e que o resultado é positivo. Tudo indica que o personagem será pai. A reação, porém, é de completa suspensão: ele não sabe o que dizer, não consegue dar o próximo passo — sair da “situação atual” e assumir a paternidade.  Incapaz de decidir ou mesmo responder claramente, a ligação vai se tornando cada vez mais cortada, até que o personagem acaba preso nos corredores do metrô. Esta referência entre o cárcere psicológico da inação e dos corredores silenciosos da estação é validada quando ele encontra uma criança perdida, que na verdade, seria o seu filho no futuro. Em uma sequência emocionante, o protagonista precisa salvar a criança de um alagamento – os corredores estão se enchendo de uma água turva cheia de entulhos. Pouco tempo depois, após o salvamento, então pai e filho surgem juntos em uma praia, em uma imagem que sugere tanto a libertação quanto a possibilidade de reconciliação com um futuro que antes o aterrorizava.

Outra leitura mais simbólica transforma o corredor infinito da saída do metrô em uma representação da vida moderna, da rotina e do comportamento humano. Ou seja, a repetição, o looping eterno das centenas de milhares de pessoas que passam pelo metrô todos os dias, cumprindo sua função social, quase como se não fossem indivíduos. Num dos cartazes do metrô, está desenhada uma obra do artista holandês M.C. Escher, a Fita de Möbius II (Formigas Vermelhas). Nesta obra, as formigas trabalhadoras percorrem seu caminho em uma fita dobrada em forma de oito (como um símbolo do infinito) sem chegar a lugar nenhum, ou melhor, sempre retornando ao início, exatamente como o protagonista em seu confinamento nos corredores da estação.

No entanto, cabe uma ressalva que, para que o longa-metragem funcione é necessário respeitar esta atmosfera tensa e imersiva, ou seja, é exigido do espectador uma dedicação e atenção que já não é tão comum nesta época atual de redes sociais e vídeos de poucos segundos. O ritmo lento e a repetição de situações, que pode ser monótono para alguns, só reforça a necessidade desta participação.

O elenco principal se resume ao protagonista interpretado por Kazunari Ninomiya (de Gantz, 2010), em um uma interpretação convincente e sem exageros de um homem perdido, seja psicologicamente como fisicamente. Com participações menores e auxiliando na construção da narrativa fragmentada de Exit 8, estão os atores Yamato Kochi e Nana Komatsu. O elenco é competente, mas é importante entender que o foco do longa está muito mais na ambientação e na atmosfera, criada pelo cenário, pela fotografia e pelo som, do que exatamente pela intensidade dramática das atuações.

Exit 8 estreou no festival de Cannes em 19 de maio de 2025, na Mostra da Meia-Noite (em inglês, Midnight Screenings, mostra dedicada ao cinema de gênero, como o horror e ação). Infelizmente, muitas pessoas acabaram abandonando a sessão antes do término, talvez não percebendo que o filme não se trata apenas de uma variação de um escape room, mas de uma proposta de reflexão sobre outros temas existenciais. Quatro meses depois foi lançado no Japão onde obteve uma ótima bilheteria de estreia (672 mil ingressos e faturando em torno de US$ 6,46 milhões), ficando atrás apenas do imbatível  Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba Castelo Infinito (2025).

Enquanto esta crítica era escrita, o filme não estava disponível oficialmente em nenhum canal de streaming no Brasil, mas tinha sua estreia nacional programada nos cinemas para o final de abril.

Enfim, se o infernauta procura uma experiência mais imersiva e menos convencional em relação a narrativa cinematográfica, Exit 8 é uma boa pedida. Mas, se você é um entusiasta de vídeos frenéticos ou de curta duração, em que toda a trama é explicada repetidamente a cada 5 minutos, certamente este não é o filme pra você.

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