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Jim Jones: Massacre em Jonestown
Original:The Road to Jonestown
Ano:2017 / 2022•País:EUA
Autor:Jeff Guinn•Editora: Darkside Books

“O cerco se fechou. Os soldados aguardavam os inevitáveis tiros que marcariam o início do confronto com os rebeldes armados de Jonestown. Mas não houve nenhum barulho. Os militares começaram a tropeçar em alguma coisa, talvez toras de madeira colocadas pelos adversários para barrar o caminho. Quando olharam para baixo e afastaram a névoa rente ao chão, alguns gritaram, outros correram urrando para a floresta. Os oficiais se aproximaram, viram o que havia no chão e também sentiram vontade de gritar. Embora trêmulos de pavor, mantiveram a compostura e fizeram o possível para reagrupar a tropa. O pavilhão era visível um pouco adiante, e eles queriam chegar lá, mas o caminho estava bloqueado em todas as direções. Quando o nevoeiro levantou e a visibilidade melhorou, acionaram o rádio e informaram a Georgetown que uma coisa terrível havia acontecido em Jonestown — pior que uma revolta armada ou o ataque em Port Kaituma. Era difícil encontrar palavras. O que encontraram em Jonestown naquela manhã era indescritível, quase inimaginável.

Havia corpos por todos os lados, mais do que podiam contar, pilhas e mais pilhas de cadáveres.”

É com essas linhas aterrorizantes que Jeff Guinn encerra o prólogo do livro Jim Jones: Massacre em Jonestown (The Road to Jonestown), lançado no Brasil pela DarkSide Books em 2022. O lançamento original ocorreu, no entanto, em 2017, quarenta anos após o suicídio coletivo em Jonestown, que vitimou mais de 900 seguidores do Templo do Povo em 18 de novembro de 1978.

A história de Jim Jones parece ser pouco lembrada nos dias de hoje, especialmente pelas gerações mais jovens. Iniciando sua “vida pública” como pastor mirim devotado ao socialismo e com o sonho utópico de um mundo livre de desigualdades, sua carreira ascendeu de forma espetaculosa na proporção de seus seguidores, que eram atraídos, se não pelas promessas de mudanças e serviços sociais prestados pelo Templo do Povo — ministério de Jones —, pelo menos pelas curas milagrosas forjadas pelo pastor.

Em Massacre em Jonestown, Jeff Guinn detalha todos os pormenores da jornada de Jones, desde a infância em Indiana até seus últimos momentos na Guiana, assim como sua evolução: de jovem idealista com orientações amplamente progressistas a sociopata megalomaníaco e responsável pela morte induzida de quase mil pessoas devotas ao Templo.

Com entrevistas de sobreviventes, amigos e familiares de membros da comunidade, advogados, políticos e outros ligados ao caso, Guinn reconstrói todos os ambientes por onde Jones “capinou” seu sucesso e sua derrocada, além de nos orientar pelos aspectos mais sombrios de sua personalidade à medida que ela se desenvolvia junto com o Templo.

O ápice — o massacre final — é o grande destaque, e é literalmente impossível parar de ler o último terço do livro, dedicado inteiramente à estada do Templo do Povo na Guiana, agora sob o apelido carinhoso de Jonestown. Os acontecimentos que antecedem o suicídio coletivo, narrados em ritmo frenético tendo como fontes depoimentos de sobreviventes e gravações em áudio dos momentos finais, são aterradores, e não deixa de impressionar a perspectiva fria de grande parte dos devotos que encaravam o suicídio (e o assassinato das crianças, que, no caso, foram envenenadas com seringas pelos pais, sob o comando de Jones) de forma crua e política — tudo pela causa.

A causa, no entanto, sempre foi Jim Jones. Sua megalomania e paranoia sempre o colocavam no centro dos acontecimentos, enquanto ninguém sequer lembrava da existência de uma igreja comandada por ele; imaginava que seu esconderijo no meio da selva amazônica estava sendo cercado por agentes da CIA que visavam desbaratar seus planos de comunhão socialista genuína. Difícil dizer se esses delírios eram honestos ou meios de manipular seus seguidores, mas, a despeito disso e observando Jones como quem observa uma caricatura dele mesmo, é possível dar boas gargalhadas se abstrairmos o resultado desastroso da narrativa.

Jim Jones Profile: Massacre em Jonestown, de Jeff Guinn, é leitura obrigatória para quem deseja compreender as camadas de manipulação, fanatismo e tragédia humana que moldaram um dos capítulos mais sombrios do século XX. Com uma narrativa envolvente e rigor jornalístico, o livro não só resgata a memória de Jonestown da selva do esquecimento, mas também serve como alerta eterno sobre os perigos do culto à personalidade e do controle absoluto disfarçado de utopia. Em tempos de polarizações e líderes messiânicos, sua relevância só aumenta, transformando o horror de 48 anos atrás em lição indispensável para as gerações atuais.

 

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