Death Stranding (2019)

Death Stranding
Original:Death Stranding
Ano:2019•País:Japão
Desenvolvedora:Kojima Productions•Distribuidora: Sony Interactive Entertainment

Este texto contém leves spoilers sobre o jogo

Quando Hideo Kojima subiu ao palco da E3, a maior feira de jogos do mundo, em 2016, os fãs de games deram um grito. A mente por trás de uma das franquias de maior sucesso dessa indústria, Metal Gear, e criador do gênero de stealth, havia apenas um ano antes lançado Metal Gear Solid V: The Phantom Pain, um jogo aclamado pela crítica, mas que revelou problemas do diretor com sua empresa parceira de longa data, a Konami, que não só encerrou seu contrato, como possuía todos os direitos da franquia e até mesmo esteve envolvida em boatos de não permitir que Kojima participasse das premiações onde o game foi indicado. Com sua produtora própria, não demorou muito para que Kojima fosse sondado, dessa vez pela Sony, que deu carta branca para que ele desenvolvesse um novo projeto até então exclusivo para PlayStation 4. Assim, no palco da E3, além de deixar milhares de jogadores felizes por mostrar que estava de volta a ativa, Hideo Kojima espantou o mundo inteiro ao nos apresentar um trailer extremamente bizarro de sua nova obra, o jogo Death Stranding.

De fato, a história dos trailers e anúncios de Death Stranding são um caso a parte que, se revisitado, pode ser considerado fácil um dos mais memoráveis projetos de marketing envolvendo um jogo. Em seu primeiro trailer, temos Norman Reedus (de The Walking Dead), numa praia, abalado por algo, segurando um bebê. Algum tempo depois, o segundo trailer mostrou ninguém mais, ninguém menos, que o futuro ganhador do Oscar, Guillermo del Toro, se escondendo em um cenário de guerra, carregando um bebê num bizarro tubo, enquanto do outro lado de um esgoto, um estiloso vilão interpretado por Mads Mikkelsen surgia conectado por cabos a outros soldados. E claro, como podemos esquecer a memorável cena do bebê dando joinha dentro do corpo de Reedus? A cada trailer, ao longo de três anos, Death Stranding parecia mais e mais bizarro. E por isso, mais e mais fascinante.

Assim, Kojima conseguiu criar uma avalanche de expectativas. Ao reunir dezenas de atores, diretores e músicos referentes na cultura pop, estava cada vez mais claro o quanto o japonês estava usando toda sua influência para criar algo único. Com mais detalhes, tínhamos então o que parecia ser um jogo de ficção científica envolvendo paranormalidade, mas com seus gameplays apresentados parecia que não estávamos lidando com um jogo de ação e sim um incomum simulador de entregas. Tudo isso só foi resolvido com o lançamento do game em 8 de novembro e uma confirmação: Death stranding é sim um jogo único, mas não para todos.

Do caos a esperança 

É do enredo de Death Stranding que vem seu maior motivo de atenção. Escrito totalmente por Kojima, nos encontramos num futuro distópico. Em algum momento da humanidade, houve o Death Stranding, um cataclisma global que matou milhares de pessoas e transformou a Terra num limbo, onde o mundo dos vivos e dos mortos se mistura de forma que o funcionamento da sociedade que sobrou teve mudanças terríveis, com a transmissão de dados em forma precária e os serviços de abastecimento deixando de existir, já que veículos, drones e até mesmo a possibilidade de voar e navegar não eram mais possíveis devido a ameaça dos BTs, seres paranormais que destroem a vida quando a tocam.

No meio desse caos estrutural, passamos a estar no controle de Sam (Norman Reedus), um entregador num mundo onde entregadores são considerados heróis, pois é a única maneira de levar suprimentos nas cidades: pessoas andando individualmente com cargas presas nas costas. Além de sofrer afefobia, o que o impossibilita de se conectar a outras pessoas, Sam é um Dooms, pessoas que nasceram após o Death Stranding e por algum motivo ganharam habilidades únicas, como a do próprio Sam de conseguir sentir a presença de BTs, ainda que não consiga vê-los.

Após uma entrega que deu muito errado e aniquilou toda uma cidade (corpos de falecidos precisam ser descartados, ou criam uma obliteração), Sam tem que ir a capital do que sobrou dos Estados Unidos. Lá, nos é revelado que ele é filho da atual presidente das Cidades Unidas da América (UCA), Bridget, uma mulher com câncer em estado terminal que em seu leito de morte dá uma última missão a Sam: reconectar o que sobrou dos Estados Unidos na chamada Rede Quiral, uma incrível forma de transmissão de dados e suprimentos que utiliza as Praias (espaços fora da realidade física) para tornar tudo rápido e extremamente eficiente.

É a partir daí que Death Stranding deixa de ser um jogo sobre caos para ser sobre criar esperança. Mas não se engane, isso é apenas a ponta de um roteiro surreal num jogo que leva pelo menos 50 horas para ser concluído e que possuí 11 horas apenas de cenas cinematográficas.

Uma ponta a outra

É a partir do momento que Death Stranding escolhe não ser um jogo de ação que vemos aqui sua verdadeira face. O game é basicamente sobre ir de um ponto ao outro, conectando cidades, centrais de distribuição e pessoas que escolheram viver sozinhas após o cataclisma, sem esperanças de um dia melhor. Guiado por sua irmã, Amelie (uma versão rejuvenescida da atriz Lindsay Wagner), estamos sempre encarando os fatos de que que Sam não é um guerreiro, ele é um entregador.

Em jogos normais de exploração e combate, ir de um ponto A a B é sempre a parte mais chata. Mesmo nos grandes RPGs, caminhar, ir a um lugar específico dificilmente tem seu impacto, mas em Death Stranding a premissa é justamente o contrário: se locomover é o verdadeiro significado desse jogo.

Sam passará por terrenos sinuosos, precisará se equilibrar constantemente, organizar a distribuição das cargas por seu corpo, não excedê-las, protegê-las, usar escadas para subir em locais íngremes, cordas para descer por penhascos, além de dezenas de outros equipamentos. Sim, se locomover é seu desafio aqui, geralmente a pé. Traçar a trajetória correta, verificar a topografia, torcer para não ser levado por uma correnteza. Kojima simplesmente transformou o caminho na alma de seu jogo.

A cada objetivo conquistado, locais conectados e pessoas conhecidas, Sam se torna maior e mais forte. Com as orientações de Amelie, Die-Hardman (John Blake), Heartman (face de Nicolas Winding Refn) e tantos outros da UCA, atravessamos o que sobrou de um completamente devastado Estados Unidos de uma ponta a outra, num cenário estonteante, belo e impossível de não admirar. Até mesmo músicas específicas começam a tocar a distâncias programadas de seu objetivo. É como se Kojima nos dissesse: “Essa caminhada vai ficar ainda melhor com essa música. Aproveite o momento”.

Obviamente, só o desafio de cumprir um percurso não é o suficiente. Sam tem que enfrentar as Mulas, ex-carregadores que enlouqueceram e vivem em acampamentos isolados roubando e estocando cargas de outros portadores, além da ameaça constante dos BTs, embora para isso ele conte com um equipamento especial e definitivamente o mais importante do jogo: um BB, o bebê dentro de um tubo, que preso ao peito de Sam o faz ver as entidades espirituais. O BB também precisará de cuidados especiais, o que fará com que Sam começe a desenvolver uma relação inesperada.

Mas de longe, o maior vilão de Sam é a chuva. Acompanhada geralmente de um arco íris invertido, a Chuva Temporal que surgiu após o Death Stranding acelera a passagem do tempo em tudo que toca. Apenas o plástico da roupa de Sam evita seus efeitos. Tudo o que você carregar, de equipamentos a cargas, será atingido e aos poucos destruído, inclusive suas estruturas de apoio construídas. A gestão de recursos é fundamental e no fim das contas toda missão é uma luta contra o tempo.

Um novo gênero

Kojima em alguns momentos afirmou que seu jogo criaria um novo gênero que apelidou de “ação e de vertente”.

E de fato há ação. Aos poucos, as caminhadas se tornam mais emocionantes, com a presença de granadas feitas do sangue, água do banho, urina e fezes de Sam (há animações das coletas disso tudo nos abrigos) para lutar contra os BTs, além de um arsenal de armas até grande para lutar contra Mulas e Terroristas, mas principalmente contra Cliff, o misterioso vilão interpretado por Mikkelsen. Mas partir para a ação tem um preço, matar outro ser humano no mundo do jogo não se resume a atirar e acabou. O corpo não pode ficar exposto, do contrário haverá um obliteração.

Curiosamente, o Dooms de Sam também o garante imortalidade. Toda vez que ele morrer, poderá voltar, mas isso pode causar uma obliteração também e uma gigantesca cratera ficará em definitivo em seu mapa.

Mas nenhum desses conceitos é mais interessante que a diferente forma de conexão online presente no jogo. Com um bom algoritmo para não garantir que fique fácil demais, em Death Stranding é possível compartilhar praticamente tudo. De cargas, a veículos e estruturas que vão desde uma ponte a uma rodovia pavimentada, os jogadores podem se colaborar. Ninguém irá interagir diretamente, mas se eu escolher deixar a escada que usei numa encosta no lugar, ela terá a chance de aparecer no game de outra pessoa. Ele vai saber que fui eu e poderá deixar likes junto ao uso. Os likes não interferem em nada no jogo. Mas dá sim uma sensação prazerosa saber que você conseguiu ajudar uma outra pessoa a cumprir seus objetivos.

Pirado sim, mas redondinho

Dividido em capítulos, Death Stranding pode ser definido em uma grande introdução que consome suas primeiras horas, um gigantesco meio que pode levar centenas de horas se o jogador estiver mesmo disposto a entregar todas as cargas possíveis e vaguear por todo o mapa em busca de curiosidades, e um arco final que merece uma atenção a parte.

O mapa de Death Stranding é extremamente aberto e você praticamente pode explorar o que quiser, mas um novo nível de desafio aparece quando os picos gelados são apresentados em missões oficiais próximo dos últimos capítulos. As tempestades de neve funcionam como uma Chuva Temporal ainda mais potente e o realismo do jogo deixa tudo mais difícil.

De fato, para quem se interessa pela ideia básica de Death Stranding de caminhada e contemplação ao realizar suas entregas, chegar ao topo de sua montanha mais alta, rodeado de neve, para poder sentar e descansar um pouco, segurando seu BB no colo e ouvindo uma música da excelente trilha sonora entre composições próprias e dezenas de cedidas, este pode se tornar um momento simples, mas extremamente marcante nesta geração de jogos.

Death Stranding deixa para entregar o grosso de seu enredo exatamente em suas últimas horas. A maior parte das cutscenes e explicações vem de maneira seguida nos momentos finais. É uma piração envolvendo desde elementos científicos comprovados a uma liberdade de Kojima em construir um enredo original e muito diferente de tudo praticamente visto nos jogos desta geração. E o mais interessante é que diferente da longa epopéia de Metal Gear que cada novo jogo deixava tudo mais confuso, Death Stranding é uma história fechada, com um final que dificilmente desagradará alguém.

Kojima ter escrito todo o enredo também tem seus altos e baixos. Embora a ideia original em si seja bastante atrativa por si só, a falta de roteiristas profissionais envolvidos no projeto pesou. A história demora a ser envolvente e mesmo com todas propostas novas, diálogos e opções de tramas em sua boa parte são tomadas de clichês e frases de efeito.

O aproveitamento do elenco também tem seus problemas. Com a dificuldade de reunir tantas celebridades envolvidas no projeto, há notáveis buracos de diálogos. O próprio Norman Reedus é por muito tempo um personagem silencioso e suas interações com outros acabam se resumindo a monólogos assistidos. Algumas atuações estão sofríveis, provavelmente devido às diferenças de mídia. Dos atores de cinema e TV, Mads é o que mais se destaca, além de Margaret Qualley como a engenheira Mama. Infelizmente, o mesmo não pode ser dito de Léa Seydoux como Fragile e a própria atuação de Lindsay Wagner, ambas bastante engessadas. Se alguém deve realmente ser elogiado é Troy Baker. O veterano dublador de jogos entrega aqui uma atuação fantástica junto ao seu afetado terrorista, uma força opositora avassaladora que quer um mundo arruinado e não reconectado.

Num mercado de jogos superproduções que se escoram numa zona de conforto gigantesco entre tiro, ação ou espadas, a verdade é que Death Stranding é uma agradável surpresa por ousar e arriscar num terreno de novidades impossíveis de agradar a todos. Kojima nos dá um mundo onde pensar e no que pensar, que não é nem de longe perfeito ou realmente revolucionário, mas simplesmente excelente de apreciar.

Death Stranding está disponível para PlayStation 4.

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Samuel Bryan

Samuel Bryan

Jornalista, acreano, tão fã de filmes, games, livros e HQs de terror, que se não fosse ateu, teria sérios problemas com o ocultismo. Contato: games@bocadoinferno.com.br

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