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por Sílvia Faria

Foi em 1982 que Poltergeist chegou às telas. Eu tinha apenas oito anos, e, naquela época, o gênero de filmes de terror ainda não fazia parte dos meus interesses — um fascínio que só viria alguns anos depois. A coragem, confesso nem tanto. Ainda assim, movida por uma curiosidade difícil de explicar, acabei assistindo a Poltergeist ainda em sua década de estreia. E, de algum modo silencioso e persistente, aquela experiência encontrou um lugar em mim — e nunca mais me deixou.

Para quem não conhece, o filme acompanha uma família americana comum que começa a perceber pequenas rupturas na normalidade do cotidiano. Objetos que se movem sozinhos, interferências inexplicáveis, uma sensação crescente de que há algo errado — até que o inexplicável ganha forma no desaparecimento da pequena Carol Anne, no papel Heather O’Rourke, levada por entidades malignas através da televisão.

É curioso pensar nesse tipo de história nos anos 80, quando o desconhecido ainda preservava seu mistério — não havia sequer internet, nenhum caminho imediato para traduzir o inexplicável. Sem respostas prontas, sem a possibilidade de recorrer a explicações rápidas, restava apenas sentir — e imaginar. E talvez seja justamente isso que torna Poltergeist tão eficaz: ele se constrói no espaço entre o que vemos e o que não conseguimos compreender.

Há uma materialidade no filme que ainda impressiona. Os efeitos práticos dão peso às cenas, tornam o impossível quase tangível. Objetos deslizam, espaços se distorcem, o cotidiano se rompe de maneira sutil e depois violenta. Algumas imagens permanecem como fragmentos de memória: o armário entreaberto, a luz da televisão na escuridão, o boneco de palhaço à espreita. Elementos simples, mas carregados de inquietação.

Com direção de Tobe Hooper (O Massacre da Serra Elétrica, 1974) e produção de Steven Spielberg (Tubarão, 1975), o filme transita entre o horror mais cru e uma sensibilidade quase íntima, familiar. E é justamente nesse contraste que ele encontra sua força — porque o medo, aqui, invade aquilo que deveria ser seguro, o lar.

(CONTÉM SPOILERS)

A cena da piscina, com Diane Freeling — interpretada por JoBeth Williams — permanece como uma das mais perturbadoras do filme. Há um desconforto que vai além da imagem, especialmente quando se descobre que os esqueletos utilizados eram de verdade. A escolha, motivada por questões financeiras — já que, na época, era mais barato utilizar ossadas reais do que produzir réplicas convincentes — acabou também contribuindo para um realismo inquietante, que atravessa a cena com uma intensidade difícil de ignorar.

Assistir a essa obra mais de quarenta anos após a sua estreia, não apaga o impacto, apenas o transforma. O medo já não é instintivo, mas contemplativo. Passamos a notar o ritmo, as pausas, o modo como cada detalhe constrói a tensão. E isso só prolonga o impacto, dando ao filme outra dimensão — quase como se observássemos um quadro se movendo.

Com o tempo, Poltergeist também passou a existir para além da tela, envolto em histórias, rumores e tragédias que ajudaram a construir a ideia de uma “maldição” em torno da franquia. Um tipo de narrativa paralela que, gostemos ou não, acaba se misturando à memória do filme.

Ao revisitar esse universo, voltei também às continuações. Talvez mais por apego do que por expectativa. E nelas, algo se perde. Falta a delicadeza no desequilíbrio, a medida exata entre o estranho e o familiar. Nem mesmo a presença de Heather O’Rourke consegue resgatar aquilo que fazia o primeiro tão singular.

Ainda assim, há algo de inevitável nesse retorno: o calor no coração, a nostalgia de histórias que nos acompanham, mesmo quando já sabemos exatamente onde vão nos levar, como se cada revisita fosse uma corrida de volta para a luz.

Porque quem é fã de verdade segue assistindo, uma, duas, dez… todas as continuações, sem jamais desistir ou desacreditar.

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