As sequências dos remakes

A safra de filmes de terror aguardados para 2016 está bastante ampla com diversos representantes de vários subgêneros. Dos títulos aguardados, um em especial está sendo tratado de forma discreta, mas tem deixado os fãs do gênero com a pulga atrás da orelha. Trata-se de Rings, que responde como uma parte 3 para O Chamado. Vamos recapitular.

O Chamado (2002) é um remake do horror japonês Ringu, que foi lançado em 1998. O filme original conta a história de uma lenda urbana de uma fita de vídeo amaldiçoada que “mata” quem a assistiu sete dias depois. A responsável pela maldição é Sadako (Samara nos EUA), uma garota com poderes especiais que foi atirada viva dentro de um poço cerca de 30 anos antes de a história principal acontecer.

O Chamado 2 estreou em 2005 e aqui é curioso observar que trata-se de uma continuação direta do filme de 2002 e não um remake de Ringu 2, que havia sido lançado no Japão em 1999. O que quer dizer que, muito provavelmente, Rings será uma história que deve dialogar entre os títulos norte-americanos e sem buscar referência nas sequências japonesas. A título de curiosidade, Ringu produziu quatro outros continuações, além de uma sequência não reconhecida.

Rings (2015)

Enquanto Rings não ganha uma data de estreia oficial no Brasil, o Boca do Inferno listou algumas sequências de remakes e o tratamento que estas novas “partes 2” ganharam mostrando quem se deu melhor nesta subcategoria.

Quadrilha de Sádicos 2

Antes de criar Freddy Krueger, o cineasta norte-americano Wes Craven dirigiu em 1977 um dos mais importantes filmes de terror da década e que recebeu no Brasil o estranho título de Quadrilha de Sádicos (lembrando que o original no inglês seria As Colinas Têm Olhos). Aliás, é sempre bom explicar bem os títulos aqui para que o infernauta desatento não fique perdido. Pois o mesmo Wes errou feio a mão na parte 2, lançada em 1984.

Quadrilha de Sádicos 2 (1984) (5)

Quadrilha de Sádicos 2 é tão ruim, mas tão ruim, que as melhores cenas são de flashbacks do primeiro filme. Na trama (???), um grupo de motoqueiros está no deserto quando a família canibal da parte 1 aparece para matar e comer todo mundo. O roteiro fraco trazia suspense zero, personagens que beiravam ao ridículo além de crateras no roteiro como personagens que simplesmente somem da trama e ninguém sabe se morreu ou não. Anos depois, o próprio Craven declarou que fez o filme por dinheiro.

Em um caso raro no gênero, o remake de Quadrilha de Sádicos (que no Brasil teve o título de Viagem Maldita) foi lançado em 2006 e não apenas foi melhor do que o filme original, como foi muito melhor mostrando que é possível sim fazer bons remakes. Crédito do diretor Alexandre Aja, que manteve a essência do original e expandiu a trama de forma funcional para o público atual. E claro, tanto sucesso de público e crítica fez com que o remake ganhasse uma sequência com o título de O Retorno dos Malditos (2007). Infelizmente o raio não cai no mesmo lugar duas vezes e esta nova parte 2 era mais um produto genérico mostrando um grupo de soldados treinando em uma área onde os canibais mutantes logo aparecem para almoçar todo mundo. Apesar de algumas cenas bem violentas, O Retorno dos Malditos não funcionou mostrando apenas uma história conduzida por clichês, personagens estereotipados e um roteiro fraco.

O Retorno dos Malditos (2007)
O Retorno dos Malditos (2007)

Saldo: Mesmo muito ruim, a sequência de 2007 é melhor do que a de 1984.

O Chamado 2

Antes de falarmos da sequência norte-americana, vamos voltar para o Japão e explicar sobre as duas partes 2 de Ringu. Isso mesmo, Ringu possui duas partes 2. Com o sucesso de Ringu, uma sequência foi logo encomendada. Talvez algumas pessoas não saibam, mas Ringu é na verdade uma adaptação de um livro homônimo escrito por Kôji Suzuki em 1991. Pois Suzuki também escreveu sequências e uma delas foi a escolhida para ser a parte 2 no cinema.

Rasen (1998)
Rasen (1998)

Conhecida como Rasen (ou Espiral), o novo filme deixa o lado sobrenatural de lado e faz com que a maldição de Sadako seja na verdade um vírus que causa alucinação nas pessoas. O filme foi um fracasso e os produtores decidiram esquecer Rasen e fazer uma nova parte 2, sem nenhuma ligação com os livros de Suzuki e que colocassem o interesse novamente na fantasma Sadako. Surgiu então Ringu 2. Ou seja, Rasen se tornou uma sequência não reconhecida e negada por Ringu 2, que começa no exato momento onde o primeiro termina. Apesar de não ter repetido o sucesso de Ringu, a nova parte 2 agradou.

Ringu 2 (1999)
Ringu 2 (1999)

Com duas fontes de inspiração previamente testadas, os produtores norte-americanos decidiram contar uma terceira história e para garantir que o resultado seria bom, importaram do Japão o diretor Hideo Nakata, responsável por Ringu 1 e Ringu 2. Infelizmente o roteiro confuso prejudicou O Chamado 2 que trouxe de volta os sobreviventes da parte 1 em uma história que até prometia pelo trailer, mas ficou devendo no resultado final.

Em O Chamado 2, enquanto Samara tenta possuir o garoto Aidan (David Dorfman), a mocinha Rachel (Naomi Watts novamente) corre contra o tempo para compreender a origem de Samara. As investigações a levam até a mãe biológica de Samara, interpretada por Sissy Spacek (a eterna Carrie – A Estranha). A melhor lembrança de O Chamado 2, e piada entre os fãs, foi que sendo filha de Carrie, era obvio que Samara não seria lá muito normal.

O Chamado 2 (2005)
O Chamado 2 (2005)

Saldo: O Chamado 2 possui bons momentos, é sempre um prazer ver Naomi Watts em cena, mas Ringu 2 leva a melhor.

O Grito 2

O Grito foi lançado em 2004 como uma refilmagem norte-americana do japonês Ju On. A trama original traz um roteiro não-linear para contar a história de uma maldição que surge no lugar no qual uma pessoa morreu de forma violenta. O remake trouxe basicamente a mesma história, mas de forma mais simplificada e linear.

Ju On 2 seguiu a linha não-linear e para O Grito 2, a aposta foi manter essa proposta. O resultado foi uma boa sequência, que apesar de aproveitar alguns pontos do Ju On 1 e 2, funciona de forma independente. Tudo crédito do diretor Takashi Shimizu, que comandou os dois filmes japoneses e os dois norte-americanos. Mostrando total conhecimento de suas obras, Shimizu trouxe em O Grito 2 a combinação perfeita da não-linearidade das obras japonesas mas de uma forma totalmente consumível para um público norte-americano e internacional.

O Grito 2 (2006)
O Grito 2 (2006)

Saldo: Ju On 2 é muito bom, mas o trabalho de O Grito 2 consegue agradar a todos.

A Mosca 2

O ano era 1986 quando David Cronenberg dirigiu o remake de A Mosca da Cabeça Branca (1958), estrelada pelo mestre Vincent Price. A refilmagem, no Brasil com o título de A Mosca, não apenas é considerada melhor do que o original como um dos melhores filmes de terror da história servindo como divisor de água para as produções do gênero que viriam depois. Destaque para o elenco, o roteiro e a excelente maquiagem que acompanha a grotesca transformação de um cientista em um inseto capaz de deixar muita gente com o estômago embrulhado ainda hoje. O que pouca gente sabe é que a trama original ganhou uma sequência chamada Return of the Fly, que no Brasil ficou conhecida como O Monstro de Mil Olhos.

A Mosca da Cabeça Branca (1958)
A Mosca da Cabeça Branca (1958)

A produção da década de 1980 também ganhou uma continuação, mas sem o comando de Cronenberg, A Mosca 2 perdeu em qualidade e profundidade restando apenas uma história amparada por algumas cenas grotescas acompanhando as desventuras do filho do cientista do primeiro filme. Uma curiosidade é que A Mosca 2 foi dirigida por Chris Walas, o artista responsável pelo desenho da criatura no filme de 1986.

O Monstro de Mil Olhos (1959)
O Monstro de Mil Olhos (1959)

Saldo: O Monstro de Mil Olhos, simplesmente porque é sempre um prazer ver Vincent Price em cena.

Halloween 2  

Essa sim é uma questão polêmica. A própria ideia de regravar Halloween (1978), um dos maiores clássicos do gênero, já se mostrou um grande equivoco principalmente quando comparamos o brilhantismo de John Carpenter, responsável pelo título original, e a mediocridade de Rob Zombie, que decidiu fazer em 2007 a sua própria versão do assassino Michael Myers que decide matar a irmã Laurie Strode na noite de Halloween. Sem entender nada da essência da personagem ou da própria história, Zombie decidiu apostar em personagens mais do que estereotipados e encher de violência gráfica para agradar ao público. Não funcionou.

Halloween 2 (2009)
Halloween 2 (2009)

E se o Halloween 2 de 1981 servia como uma ótima sequencia, o Halloween 2 de Zombie conseguiu a proeza de ser pior do que a parte 1. E olha que fazer algo pior do que o Halloween de 2007 não era tarefa fácil… Mas neste aspecto, Zombie sempre consegue se superar.

Saldo: Até Halloween 6 e Halloween 8, que são os piores da franquia original, são melhores do que os Halloweens de Rob Zombie

(Visited 231 times, 1 visits today)
Filipe Falcão

Filipe Falcão

Jornalista formado e Doutor em Comunicação. Fã de filmes de terror, pesquisa academicamente o gênero desde 2006. Autor dos livros Fronteiras do Medo e A Aceleração do Medo e co-autor do livro Medo de Palhaço.

6 comentários em “As sequências dos remakes

  • 02/03/2016 em 22:26
    Permalink

    Cara, sério, talvez o único fucking humano que gostou de Halloween do tio Zombie. Sinceramente, apesar de todas as abobrinhas que falam a respeito eu o considero uma fodalhaço de filme, afinal, em terras nas quais Carrie (2013), Texas Chainsaw Massacre 3D e Evil Dead (2013) são lixos execráveis Rob Zombie demonstrou que queria algo um tanto quanto novo mas que se utilizasse do mesmo. Quero dizer isso em relação ás cenas nas quais o Michael persegue a Laurie e a própria trilha sonora. Aliás, prefiro o final do Zombie ao do John Carpenter [não sei se é o lado fã zombie falando]. Quanto a Halloiween II (2009), mesmo na versão UNCUT (30 minutos a mais que a ida ao cinema), me deixou a ver navios, ainda que as cenas de violência extrema foram altamente rebuscadas e bem-feitas; contudo, realmente, o rockeiro viajou legal em se apegar à psicologia de Laurie x Michael Myers construindo um filme tenso, violento, sexualmente explícito e com um final meio-boca, mesmo que eu não tenha desaprovado 100%.
    P.S.: 1 – Além disso a Sheri fucking linda Zombie está ótimas em ambos os filmes;

    2 – Erro rudemente ao falar que o quinto e sexto filmes da saga original foram melhores que esse. Só faltou dizer que o H20 é legal e melhor que o remake.

    Resposta
    • 06/06/2016 em 14:03
      Permalink

      Vim aqui só pra dizer que H20, é melhor que o remake rsrsrs
      Assisto filmes de horror há 30 anos, Zombie não fez um filme péssimo, o filme é razoável. Mas poderia ser mais expressivo, se não distorcesse completamente a idéia da franquia toda, assim como Jason X fez com Sexta feira 13, ou a sequencia da franquia inglesa 28 Days Later. Acabou, como obra de horror, sendo mais do mesmo e com roteiro frustrante, e como remake, sendo um desrespeito a uma série tão longa.

      Resposta
  • 22/02/2016 em 18:01
    Permalink

    Excelente artigo para ler. Não esperava que a mosca estivesse aí, mas ela está e sempre memorável.

    Resposta
  • 22/02/2016 em 18:00
    Permalink

    “Saldo: Até Halloween 6 e Halloween 8, que são os piores da franquia original, são melhores do que os Halloweens de Rob Zombie”

    CARA, TE AMOO
    ME REPRESENTOU EM POUCAS PALAVRAS

    Resposta
  • 21/02/2016 em 13:21
    Permalink

    Bem bacana a matéria. Pensei que Scream 2 estaria na lista…

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *