A origem do goregrind: Repulsion ou Carcass?

O período que envolve a formação da banda Repulsion até o lançamento do seu primeiro e único disco Horrifield é crucial para o surgimento do goregrind. Scott Carlson, Aaron Freeman, Dave Grave e Matt Olivo, os quatro cavaleiros da horripilância sonora, iniciaram suas atividades musicais em 1984 (a banda tinha outro nome) e lançaram o álbum somente cinco anos depois, e essa foi uma época de grandes transformações no cenário heavy metal, no qual vários subgêneros tiveram origem, inclusive o goregrind.

O goregrind é um braço da música extrema (arrancado a dentadas) formado por duas características principais: a temática gore nas letras e o andamento ultra rápido na bateria, chamado blast ou grind. Logo, a junção desses dois elementos é o que define o estilo. E sobre o surgimento desse gênero único, a maioria dos artigos cita os ingleses do Carcass como os pioneiros na arte de fazer grind com letras nojentas, mas a trajetória do Repulsion também preenche todos os quesitos para o título de grande pai da música extrema horripilante.

O Carcass lançou sua primeira demo Flesh Ripping Sonic Torment em setembro de 1987, e esse é um grande clássico que envolve a temática gore e velocidade grind. Ou seja, pode (e deve!) ser tratada como uma obra de goregrind. Mas e o Repulsion? Será que a velocidade do blast de Dave Grave não pode ser considerado grind? Será que a temática da faixa Horrifield, gravada pela primeira vez em 1985, dois anos antes da demo Flesh Ripping Sonic Torment, não envolve gore suficiente para que o Repulsion seja considerado o criador do estilo?

Antes do Repulsion, os quatro cavaleiros da putrefação sonora eram conhecidos como Genocide e permaneceram assim por dois anos. Com o antigo nome eles gravaram as demos Toxic Metal (1984), Violent Death (1985) e The Stench of Burning Death (1986). Ainda em 1986, já com o nome Repulsion, eles lançaram a demo Slaughter of the Innocent, com as mesmas músicas que fariam parte do álbum Horrifield três anos depois. O caminho trilhado pelo Repulsion deixa claro a evolução do crust/HC, passando pelo incremento na velocidade dos blasts, até a inclusão da temática horripilante que culminou na criação do goregrind.

Podemos dizer que o disco Reek of Putrefaction, primeiro álbum do Carcass, foi o primeiro disco de goregrind da história, e foi lançado em meados de 1988, um ano antes do Horrifield, primeiro e único disco do Repulsion. Mas só isso não não é suficiente para fazer do Carcass o grande pioneiro do gênero. Muitos litros de sangue foram derramados e muitos mortos vivos saíram da catacumba alguns anos antes do lançamento do Reek of Putrefaction. Os acontecimentos que antecedem o lançamento desses dois discos são cruciais para o entendimento da origem do goregrind.

Traçando uma breve linha do tempo envolvendo as duas entidades que deram início ao estilo, enquanto Scott Carlson, vocalista do Repulsion, gritava Your guts are devoured / Your bones are stripped of flesh / Your mangled fucking carcass / Lies in pools of blood em algum porão dos Estados Unidos em 1986, os ingleses Bill Steer e Jeff Walker, futuros fundadores do até então inexistente Carcass, faziam música de protesto com as bandas punk Disattack e Electro Hippies, respectivamente, e lançariam a primeira demo do grande Carcass somente no próximo ano. Ou seja, um ano depois do Repulsion compor e gravar a faixa Horrifield (1985) pela primeira vez, os punks de Liverpool estavam longe de incluir a temática gore nas suas letras.

Sobre reconhecer o Disattack como o começo do Carcass, a própria banda já esclareceu que esse período não faz parte da trajetória deles. Em uma postagem na página oficial no Facebook, eles foram taxativos ao comentar sobre o assunto: “we never formed in 1985 under the name DISATTACK how many times must people be told!”. Saber a trajetória dos músicos antes da formação da banda pode ser interessante em uma biografia, a título de curiosidade, mas basta escutar as demos do Disattack e do Carcass para saber que a segunda não foi uma evolução da primeira.

Portanto, se a faixa Horrifield, uma das obras mais importantes para a criação do goregrind, foi gravada pela primeira vez dois anos antes do Carcass lançar sua primeira demo em 1987, é certo que o primeiro registro de goregrind da história se deu em 1985, nos Estados Unidos, com Scott Carlson no baixo e vocal, Aaron Freeman e Matt Olivo nas guitarras, e Dave Grave na bateria, o quarteto monstruoso que deu origem ao impiedoso, pioneiro e ultra clássico Repulsion, primórdio absoluto da putrefação sonora.

Se Carcass é a raiz do goregrind, Repulsion é a semente.

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Juliano Jacob

Marketeiro digital, mineiro da gema e viciado em xadrez. Fã de filmes e livros aterrorizantes, guitarrista/baterista amador, escreve sobre música macabra no Boca do Inferno.

5 comentários em “A origem do goregrind: Repulsion ou Carcass?

  • 02/11/2020 em 14:44
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    Um texto bem interessante, gostei do que li, e eu conheci o Carcass em 90 onde comprei o disco Reek of Putrefaction, e ai fui pegando a discografia toda ainda na era dos vinis, hoje tenho tudo, mas somente em cd, já o Repulsion eu conheci anos depois em 96, também tenho em cd hoje. Nos anos 80 começou a surgir muitos estilos derivados do Heavy Metal: Death, Thrash,o próprio gore grind, enfim hoje são muitos estilos, mas todos filhos do bom e velho Heavy Metal. Gosto desse disco do Repulsion, mas gosto mais do Carcass tem uma discografia muito foda e que me agrada muito mais, agora quem começou primeiro ou não, não importa tanto, para mim pelo menos, hoje temos bandas muito boas no estilo gore grind, tanto nacionais quanto de fora.

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  • 21/09/2020 em 04:28
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    Cara nem me lembrava mais dessa banda repulsion, perdida no tempo da minha mente kkkk muito top, essas bandas qu bem extremas que saíram do death metal hj tem suas filhas bem mais extremas que são essas bandas com artes horríveis nas capas acho que é o mesmo estilo goregrind ou grindcore tantos faz os caras cantam feito porcos kkk, o extremo do extremo.

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  • 14/08/2020 em 17:45
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    Matéria elucidativa! Também tinha essa dúvida.

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  • 14/08/2020 em 17:28
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    Muito foda! Essa discussão é interessante e rende um livro! Parabéns Juliano!

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