
![]() | A Ilha da Morte
Original:Ta paidia tou Diavolou / Island of Death
Ano:1977•País:Grécia Direção:Nico Mastorakis Roteiro:Nico Mastorakis Produção:Nico Mastorakis Elenco:Robert Behling, Jane Lyle, Jessica Dublin, Gerard Gonalons, Jannice McConnell, Ray Richardson, Marios Tartas, Efi Bani, Clay Half, Jeremy Rousseau |
Nico Mastorakis pode não ser o melhor diretor do mundo, mas dê um crédito ao cara: ele é honesto. Ao contrário, por exemplo, de qualquer mulher fruta que posa nua e dá entrevistas falando que fez aquilo pela arte, Mastorakis não tem vergonha nenhuma de dizer que o único motivo pelo qual fez A Ilha da Morte foi grana. Não esconde também que só autorizou o lançamento do DVD de sua obra porque descobriu que versões piratas estavam dando lucro e resolveu faturar em cima disso.
Por menos nobres que tenham sido as suas intenções ao rodar o filme em questão, e por menos nobre que o tal filme seja, o resultado final de A Ilha da Morte impressiona. Para um cineasta com pouca experiência anterior (na época, Mastorakis tinha no currículo apenas a ficção científica Olhos da Morte, de 1976) ele conseguiu extrair bastante de uma premissa pateticamente simples, e ainda ousou ao apresentar diversas cenas com temas tabu.
Um dos fatos mais conhecidos a respeito deste pequena produção grega é a sua origem. Mastorakis, impressionado pela alta bilheteria de O Massacre da Serra Elétrica, lançado em 1974, resolveu seguir os passos de Tobe Hopper e lançar o seu próprio filme independente de horror, carregando bastante na violência, tanto física como sexual, na esperança de faturar uma bolada.
Ouvindo falar assim, a primeira coisa que se pensa é que A Ilha da Morte seja um filme cru, visceral e tosco, a exemplo de O Massacre… . Aí é que vem a primeira surpresa: o filme de Mastorakis é, na verdade, muito bem acabado, contando com uma locação fantástica (as filmagens foram feitas na ilha grega de Mykonos), atuações convincentes e uma fotografia elaborada, que acaba sendo o seu ponto alto.
Não que isso baste para torná-lo um clássico. A Ilha da Morte é um terror que, embora pouco convencional, não teria motivos para se tornar tão falado. O que na verdade rendeu fama a Mastorakis e à sua obra foi o fato dela ter sido um dos mais notórios vídeo nasties, aquelas produções que foram banidas na Inglaterra entre os anos 70 e 80. O problema é que, por conta desta mesma fama de ser um filme perturbador, A Ilha da Morte pode facilmente frustrar o espectador moderno, já que hoje em dia é difícil que qualquer garoto de 14 anos já não tenha assistido algo mais violento e pervertido na tela do seu computador.
O filme conta a história de Chris (Bob Behling, de Cujo) e Celia (a lindinha Jane Lyle, no segundo dos três filmes de sua carreira), que chegam à citada ilha de Mykonos para as férias. À princípio, os dois parecem normais, apenas mais um casal jovem, bonito e apaixonado querendo curtir a vida nos coloridos anos 70. Eles fazem amizade com Paul (ator não identificado), um homossexual americano que vive na ilha, e também com o pintor francês Jean Claude (outro ator não identificado), que está lá a trabalho. Porém, logo o espectador começa a perceber que o casal de pombinhos são mais perigosos do que aparentam. Isso fica óbvio em uma das cenas mais notórias da história dos vídeo nasties, quando Chris, frustrado depois que sua esposa lhe nega sexo, estupra e mata uma cabra no pátio da pousada onde estão hospedados, num momento que sugere mais do que mostra, e é extremamente desconfortável de se assistir.
No dia seguinte, Celia se encontra com Jean Claude o pintor francês que havia conhecido na noite anterior, e que está reformando uma igreja na ilha. Celia se deixa seduzir por ele, mas o pobre pintor não desconfia que Chris está escondido tirando fotos. Depois que os dois terminam de fazer sexo, Chris surge e, com a ajuda da esposa, crucifica Jean Claude no chão e o faz beber um balde de tinta, matando-o.
A partir daí, o filme segue sempre neste padrão: Chris e Celia encontram alguém que vai contra as “leis de Deus“, iniciam algum jogo sexual e logo depois eliminam a vítima com requintes de crueldade. Suas próximas vítimas são Paul e seu noivo Jonathan que são mortos na sua noite de núpcias antes de poderem consumar o ato carnal. Paul é perseguido por Chris pelas ruas da ilha até ser encurralado e esfaqueado (e, conste, não tenta em momento algum gritar por ajuda). Já Jonathan, tenta seduzir Celia, simulando sexo oral com o revólver da moça, até que ela aperta o gatilho e explode os seus miolos.
Mas talvez o momento mais famoso do filme, ao lado do estupro da cabra, é aquele em que Patricia (Jessica Dublin, de Toxic Avenger II e III), uma típica “Barbie velha“, tenta seduzir Chris. Ele, não lá muito atraído pela moça, lhe dá, literalmente, uma mijada. Só que ela, ao invés de ficar ofendida com o banho dourado, parece adorar a experiência, e pede por mais, o que deixa estarrecido até o sanguinário psicopata, que a mata furiosamente. Esta cena é um clássico do mau-gosto, e muito provavelmente foi a grande razão para o banimento do filme na terra da rainha Elizabeth.
Lá pelas tantas surge um detetive (mais um ator não identificado) que parece estar seguindo Chris e Celia já há algum tempo, o que faz crer que eles já teriam feito vítimas em outros lugares. O detetive é logo eliminado, mas depois surge um escritor (o próprio diretor Mastorakis, que assumiu o papel porque não tinha 80 dólares para pagar o ator originalmente escolhido!) que passa a investigar os crimes do casal. Surgem também dois hippies pervertidos que parecem saídos de algum filme do Rob Zombie, e que tentam estuprar Celia, mas estes personagens saem de cena logo, e a trama prefere não seguir outros rumos além de mostrar crimes cada vez mais sádicos dos dois amantes. A coisa só muda de figura nos últimos minutos, quando surge um pastor de ovelhas (Nikos Tsachiridis) que chama a atenção de Celia e leva o filme a uma conclusão inesperada.
Muito já se falou sobre a grande surpresa no final, que manteremos em segredo para quem ainda não conhece. Infelizmente, a revelação sobre Chris e Celia serem mais que um casal de namorados soa bastante desnecessária num filme que já mostrou tanta brutalidade. Tomando como ponto de partida um plot bastante simples, o script tem um bom ritmo, mas sofre de um excesso de personagens mal-explorados, que vêm e vão sem fazer muita coisa. Mas considerando que este foi um dos primeiros roteiros de Mastorakis, e considerando também que o objetivo do filme é simplesmente entreter o espectador, pode-se dizer que, no geral, ele é bem sucedido.
Apesar de todas as partes grotescas, A Ilha da Morte não deixa também de ser um filme plasticamente agradável, com um clima nostálgico setentista e algumas canções bem grudentas, compostas por Nikos Lavranos. A ilha de Mykonos é belíssima, e dá para apreciar a beleza do cenário mesmo com a perversão geral. A versão em DVD que circula no estrangeiro tem a imagem cristalina, o que destaca a fotografia de Nikos Gardelis e do próprio Mastorakis, que fizeram um trabalho fantástico considerando o orçamento que possuíam.
Descontando o efeito de choque, que já foi bastante minimizado com a mudança dos tempos, o que sobra de A Ilha da Morte é um bom filme de horror, com algumas gargalhadas despropositais, mortes criativas e um roteiro diferente do usual. Você se diverte e ainda ajuda Mastorakis a ganhar um trocado, e todos saem felizes. Não é, de forma alguma, um mau negócio.