2.3
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Calafrios (2010)
Não vale uma gota…
Calafrios
Original:Sudor Frío
Ano:2010•País:Argentina
Direção:Adrián García Bogliano
Roteiro:Adrián García Bogliano, Ramiro García Bogliano, Hernán Moyano
Produção:Andrea Quiroz
Elenco:Facundo Espinosa, Marina Glezer, Camila Velasco, Omar Musa, Omar Gioiosa, Noelia Vergini, Diego Cremonesi

Não é de hoje que o cinema fantástico argentino tem alimentado o gênero! Desde o fraco Alguien te está mirando (1988), passando por Los inquilinos del infierno (2004) e Grité una Noche (2005), até os interessantes Aparecidos (2007), No moriré sola, Visitante de Invierno (ambos de 2008), Deus Irae (2010) e Fase 7 (2011), parece que os hermanos também entendem do assunto no quesito medo. Foi com essa pequena bagagem do nosso rival no futebol que fui conferir ao filme Calafrios, conhecido também como Sudór Frio e Cold Sweat, exibido no 6º CineFantasy e lançado em DVD no Brasil pela Focus.

A boa avaliação no IMDB e a tagline Don’t run, don’t scream, don’t even breath (não corra, não grite, nem sempre respire) foram um convite para esse trabalho do já conhecido diretor Adrián García Bogliano (Grité una noche, 36 pasos, No moriré sola). Além disso, também me senti atraído pelo trailer e, principalmente, pelo pôster da película, que traz uma mulher com os lábios roxos olhando para cima como se estivesse congelada, imóvel há muito tempo.

Todos esses elementos e qualquer boa expectativa caem por terra depois que os créditos surgem na tela ao término da exibição. O filme não pode ser definido como um trabalho ruim do diretor, mas está longe de merecer uma recomendação como bom exemplo do cinema argentino. O problema está no excesso de conteúdos, transformando várias boas ideias num apanhado de subplots e situações mal desenvolvidas. Parece que Bogliano resolveu colocar em sua produção tudo o que achava interessante no gênero, mas sem desenvolver seus intentos adequadamente ou partir para o caminho ideal.

Imaginem um Massacre da Serra Elétrica da Terceira Idade com um desafio lógico, nitroglicerina, uso inconsequente da internet, contexto político e zumbis, tudo isso ocorrendo num ambiente único, sem dar espaço para ampliar cada tema! Acrescentem uma dose de slow motion, trilha sonora intensa, atuações medianas, muitos closes e pouca ousadia…pronto, você não precisará desperdiçar uma gota para ver Calafrios! Em meio a tantos defeitos, ainda restam alguns momentos inspirados para salvar a produção de um desastre completo.

Depois de manter uma conversa num chat com um rapaz loiro, a ex-namorada de Roman (Facundo Espinosa), Jackie (Camila Velasco), foi encontrá-lo em sua morada, mesmo sem saber muito sobre ele, e sumiu do mapa! Na intenção de salvar o relacionamento, Roman pediu ajuda à amiga Ali (Marina Glezer) e juntos foram ao local indicado para tentar encontrá-la e convencê-la a desistir dessa nova situação. Algumas tentativas de entrar em contato com a desaparecida acabam incentivando Ali a entrar na casa por sua conta e risco, sendo surpreendida no corredor pelo rapaz loiro, que está vivo, mas imóvel, com braços de manequim e uma aparência cadavérica. Quando ela percebe que algo está errado, é tarde demais: leva um pescotapa e desmaia.

Calafrios (2010) (1)

Roman aguarda pela amiga durante um bom tempo até que resolve entrar no local. Uma gangue atrapalha seu objetivo, obrigando-o a entrar pelos fundos e descobrir o que está acontecendo de estranho naquela residência antiga. Investigando o ambiente estreito, mas repleto de cômodos e caminhos estranhos, Roman chega a uma sala usada como estúdio e observa tudo escondido atrás do vidro sem transparência. Dois senhores torturam psicologicamente uma jovem, insistindo para que ela descubra um misterioso código escrito na lousa. Achando se tratar uma equação, a garota tenta ganhar tempo e se livrar da situação, mesmo quando uma gota de uma solução com nitroglicerina e colocada sobre a mesa diante dela. Nada adianta, sua cabeça presa por uma corda e solta sobre a mesa e explode em contato com a substância – infelizmente, a câmera escondeu o momento Scanners, deixando apenas seu corpo e sangue espalhados.

Ali ainda está ali (hehehe), assustada com a possibilidade de se tornar a próxima vítima daqueles dois velhos birutas. Ela descobre o código, entre os discursos do senhor que critica a burrice dos jovens, a falta de estudos, entre outras bobagens, mas não é o suficiente para sair daquele inferno. Ele coloca na testa dela um pouco da solução explosiva e um pote em suas mãos e a deixa forever alone para criar um pouco de expectativa para o amigo que apenas assiste a tudo.

O celular não possui sinal (clichê óbvio), porém permite o acesso à internet. Roman deixa um recado no facebook (!!!) e pesquisa algo que possa anular o efeito da nitroglicerina, como o pó do giz da lousa, e a salva de ir para os ares. A partir daí, seguem-se um passeio lento pelos andares da casa, tentando descobrir um meio de sair do local, até que Jackie é encontrada embebida na solução explosiva, além de um grupo de mulheres-zumbis (!!!) no porão. O que tem a ver uma coisa com a outra? E como eles conseguem passear tanto pela casa sem serem notados também é outra questão.

Esse roteiro-salada ainda traz a gangue para participar da luta contra os DOIS VELHOS (um usando andador), criando muito mais situações inverossímeis. Diz-se que não pode friccionar, nem atingir a nitroglicerina, mas, no caso, Roman tem a brilhante ideia de tirar a roupa de Jackie (!!!) e cortar seu cabelo (!!!) antes dela se arrastar pela morada (!!!) em busca de alguma coisa para extrair o líquido de seu corpo.

Para criar tensão, Bogliano filma tudo lentamente, com closes nas gotas de suor, nos olhos arregalados, no corpo úmido das vítimas, sem chegar a lugar algum. Se o espectador espera ver corpos explodindo ou se deteriorando, ou talvez até a cena do cartaz, pode esperar sentado e imóvel. Alguns confrontos em slow motion, uma trilha de rock para conflitar com a encrenca, e nada mais. Muito pouco para justificar a passagem de Calafrios por tantos festivais pelo mundo como o Fantaspoa e o CineFantasy! O máximo que conseguiu foi uma indicação para melhor maquiagem na Argentina mesmo.

De positivo, pode-se apontar as sequências que envolvem o rapaz loiro – remetendo ao Encaixotando Helena – e as mulheres famintas que se escondem nos fundos! Embora sejam argumentos interessantes, aparecem muito pouco, sem o impacto que necessitavam. Nos bastidores, referências ao golpe militar da Argentina, ocorrido em 1976, depois de graves conflitos no ano anterior, e o desaparecimento de caixas de dinamite, como justificativa do material que os velhos possuíam.

Não use o fast-foward, Não Saia Correndo, Tente Não Bocejar. Talvez se essa fosse a tagline, você não precisasse questionar a propaganda enganosa. E nem teria a vontade de explodir tudo!

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1 comentário

  1. Um sarapatel de referências aos filmes preferidos do Adrían García Bogliano. O talentoso diretor argentino não se acanha em pagar os mais variados tributos, que vão desde o cultuado “Criaturas Atrás das Paredes” do “Mestre das Cine-Arapucas” WES CRAVEN, até o repudiado “Encaixotando Helena”, que exibiu a bela SHERILYN FENN mutilada e atormentada. Entretanto, não espere por aquela tortura psicológica e escatológica digna de “Um Filme Sérvio”, e haja “maquinações divinas” para te convencer que uma dupla de idosos alquebrados pode subjulgar um trio de jovens facilmente, recorrendo a doses imprudentes de ácidos e gel de nitroglicerina. E sem explodir toda aquela masmorra suburbana em um piscar de olhos! De qualquer forma, a intenção de tirar sarro do terrorismo de Estado promovido na Argentina entre 1976 e 1984 ainda soa original, e o saldo final é divertido. Em um mercado cinematográfico quase restrito aos SHOPPING CENTERS assépticos, onde abundam os melodramas-em-busca-de-um-Oscar e as “globoçalidades”, qualquer exemplar do cinema de horror latino-americano se destaca fácil.

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