As Vozes (2015)

As Vozes (2015) (2)

As Vozes
Original:The Voices
Ano:2015•País:EUA, Alemanha
Direção:Marjane Satrapi
Roteiro:Michael R. Perry
Produção:Matthew Rhodes, Adi Shankar, Roy Lee, Spencer Silna
Elenco:Ryan Reynolds, Gemma Arterton, Anna Kendrick, Jacki Weaver, Ella Smith, Paul Chahidi, Stanley Townsend, Adi Shankar, Sam Spruell, Valerie Koch, Gulliver McGrath, Paul Brightwell, Alessa Kordeck, Michael Pink, Ricardia Bromley

Contém pequenos spoilers

Combinar gêneros tão antagônicos como a comédia, o horror visceral e o drama psicológico é uma tarefa um tanto difícil. Como Stephen King escreveu uma vez sobre tais gêneros na literatura, em mãos inábeis uma comédia pode tornar-se um lamento fúnebre e o terror provocar o riso involuntário. Felizmente quando a mistura é bem feita, temos geralmente uma grata surpresa. Esse é o caso de As Vozes, filme cuja trama é centrada na pequeníssima cidade de Milton, onde o operário de uma fábrica de banheiras, Jerry (Reynolds) em constante acompanhamento psiquiátrico, acaba ficando obcecado por Fiona (Arterton), uma colega de trabalho, enquanto ouve os conselhos de seu gato e cachorro de estimação, que funcionam para ele quase como figuras do anjinho (o cão) e diabinho (o felino). Os problemas de Jerry começam quando um encontro amoroso toma um rumo inesperadamente mórbido.

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Dominado por cores fortes, a começar com o pink berrante nos detalhes, uniformes e até mesmo nas empilhadeiras da fábrica onde Jerry trabalha, o desenho de produção de Udo Kramer (Caçadores de Emoção: Além do Limite) cria para o filme uma estética de mundo da maneira como o personagem enxerga, deixando claro ao espectador que a maior parte do que vemos se constitui numa fantasia criada pela mente problemática do protagonista, forçando inclusive uma aproximação psicológica com o rapaz, como também executado no remake de Maníaco (naquele tínhamos até mesmo a câmera subjetiva para ilustrar tal efeito). E a escolha do ator ajuda muito nessa identificação e empatia. Aqui Ryan Reynolds entrega uma de suas melhores performances, num papel que requer muitas nuances de interpretação. Repare, por exemplo, quando seu personagem explode no consultório de sua psiquiatra (a ótima Jacki Weaver) e logo em seguida exibe um comportamento mais calmo; já em outros momentos demonstra genuína ternura com a personagem de Anna Kendrick, ou um pesar profundo ao se lembrar de seu problemático passado; convencendo igualmente em todos esses momentos. Vale lembrar ainda que Reynolds foi o responsável pela dublagem das vozes do título. Ainda no elenco, homogeneamente interessante, temos Gemma Arterton como um genuíno interesse romântico, que apesar de nunca chegar a ser tridimensional, convence com seu charmoso sotaque britânico e carisma. Já Kendrick emprega mais uma vez sua meiguice no papel de Lisa, uma carente, porém apaixonada colega de Jerry.

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O mais surpreendente em As Vozes, no entanto, é o equilíbrio perfeito entre o cômico e o trágico com que Satrapi (do premiado Persepolis) dirige o roteiro de Perry (responsável por, veja só, Atividade Paranormal 2). Em um momento, quando Jerry ouve batidas na porta de seu escuso lar, damos gargalhadas ao ouvir seu cão Bosco correr ao local dizendo “Eu levarei a bala por você, Jerry” ou “Eu te dou cobertura“, sob protestos do gato Mr. Whiskers. Já em outro instante, quando o protagonista abre sua geladeira e percebe o que de fato se encontra lá dentro, somos imediatamente transportados para a cruel realidade junto com a personagem. Funcionando muito bem até os créditos finais (quando até mesmo Jesus Cristo é visto dançando Sing a Happy Song) e embalado por uma trilha sonora deliciosa de Olivier Bernet, o longa se configura como uma elegante comédia dramática, já que, por trás das animadas vozes que preenchem o filme, encontra-se um pesado drama sobre uma mente perturbada.

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Marcus Augusto Lamim

Marcus Augusto Lamim

Um seguidor fiel do cinema em todos seus formatos e gêneros, amante de rock e do gênero fantástico, roteirista amador e graduando em química.

9 comentários em “As Vozes (2015)

  • 27/05/2018 em 21:35
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    Esse filme cala a boca de quem acha que o Reynolds não sabe atuar.

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  • 31/07/2017 em 21:58
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    com a maravilhosa política antimanicomial no Brasil, muitos destes estão transitando tranquilamente entre nós.

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    • Silvana Perez
      01/08/2017 em 08:50
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      Ainda bem que evoluímos, né não, Ed?

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      • 27/06/2020 em 17:34
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        Silvana, isso mesmo!! Evoluímos. As pessoas precisam entender que o que está no filme está no filme e não condiz com a realidade! Pessoas com transtornos mentais, em sua maioria, não são agressivas, pelo contrário. E TB estas devidamente tratadas, passam a se integrar na sociedade, com todas as limitações, mas com possibilidades ampliadas em relação a uma pessoa enclausurada.

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        • Silvana Perez
          30/06/2020 em 15:51
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          Exatamente! Mas pra algumas pessoas a solução mais simples é se livrar dessas pessoas, desses “incômodos” em uma sociedade dita civilizada, né?

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    • 05/08/2020 em 22:40
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      Esse filme tenta criar uma empatia entre o protagonista e público e acertadamente coloca o seu mundo de dor e sofrimento de forma irônica e suave, já que realmente a realidade é insuportável. Antes de QQ coisa, devemos compreender a dimensão humana de QQ pessoa com doença mental. Lógico que não incluo psicopatas, pois não são considerados doentes.

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